https://www.youtube.com/@mepbrasilnet
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Flávio C. Bello - Formado em História na UFRGS, professor aposentado do ensino básico,
espírita vinculado ao CCEPA e a casa espírita "A Nossa Casa" em Porto
Alegre. Estudante da temática espírita com ênfase nas Leis Morais.
“É precipitado e quase absurdo acreditar que o progresso deva
necessariamente ocorrer.” (Nietzsche)
Kardec estava inserido na mentalidade da “modernidade
triunfante” do século XIX que via a rápida industrialização, urbanização e modernização tecnológica, apenas como evidências inequívocas de progresso da humanidade. Nesse contexto, nosso fundador pensava
o progresso imerso na mentalidade positivista presente no espirit du temps do
século XIX.
A certeza do progresso inexorável, automático, é característica do positivismo e da maioria dos pensadores iluministas, que transformaram a ideia de progresso em um dogma.
No anticlerical Iluminismo francês, a concepção de Providência assumiu um sentido mais deísta. Para os iluministas, não se necessita mais da intervenção direta e constante de um Deus transcendente, pois a ideia de progresso como uma lei natural imanente, que através da razão, conduziria a humanidade rumo à perfeição, seria uma “versão secularizada” da crença cristã na divina providência.
EDITAL
DE ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA E CONVOCAÇÃO DE ELEIÇÕES 2025 DA
ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE DELEGADOS E AMIGOS DA CEPA – CEPABRASIL
Rua Castro Alves nº 54, Embaré, Santos, São Paulo
CNPJ
07.155.135/0001-75
Pelo presente Edital,
nos termos do artigo 16, item 2, do Estatuto, convoco os associados para a
Assembleia Geral Ordinária e de eleições 2025, estas referentes ao biênio
2026-2027, da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, CEPABrasil,
a realizar-se no dia 18(dezoito) de outubro de 2025, às 16h30min, em primeira
convocação, e em segunda e última convocação às 17h, com no mínimo cinco
associados em pleno gozo dos seus direitos sociais (Art.10, parág.2º), com a seguinte ordem do dia: a) Apreciar o relatório
de atividades da Associação; b) Aprovar o balanço financeiro da administração,
após o parecer do Conselho Fiscal; c) Eleição para os cargos de Presidente,
Vice-Presidente, Secretário, Tesoureiro, e quatro associados para compor o
Conselho Fiscal, sendo o quarto suplente. A eleição dar-se-á por maioria
simples, através de sufrágio universal direto. Sendo a eleição por chapa, não
será permitido o voto nominal para cada cargo. A assembleia será realizada
exclusivamente em modalidade virtual, através do aplicativo Zoom. O acesso ao
ambiente virtual será pelo link:
https://us02web.zoom.us/j/88670232885?pwd=5CujULDjm1iUwqANHT1YB1kjn5kFBk.1
ID da reunião: 886 7023
2885
Senha: ASSEM
Cada associado terá
direito a um só voto, sendo vedado o voto por procuração. Somente poderão votar
e ser votados os associados que preencherem os requisitos previstos no artigo
5º, item 4 e parágrafo único do artigo 6º do Estatuto, cabendo à Secretaria
confirmar e informar à Assembleia Geral sobre a regularidade estatutária dos
associados. As deliberações serão aprovadas pelo voto concorde da maioria dos
presentes. A posse dos eleitos ocorrerá no dia 1º (primeiro) de janeiro de 2026,
conforme estabelece o artigo 13 do Estatuto. O pedido de registro de chapas
será assinado por um dos seus integrantes, que passará a ser o representante da
chapa. Será indicado somente um nome para cada cargo, a saber: Presidente,
Vice-presidente, Secretário, Tesoureiro, e quatro nomes que irão compor o
Conselho Fiscal. O pedido de registro deve ser encaminhado à Diretoria
Administrativa até o dia 10 de outubro de 2025, ao seguinte endereço: Rua Castro
Alves nº 54, CEP:11.040-190, Embaré, Santos, São Paulo, podendo ainda ser
enviado por meio eletrônico, via Internet, para o e-mail: cepabrasil@gmail.com
. A comunicação do deferimento ou impugnação do registro de chapas será pela
mesma via que for recebida.
Santos(SP),15
de setembro de 2025.
Ricardo de Morais Nunes - Presidente
Sobre o conceito
de ‘verdade’
Ao analisar
Kardec, em sua performance existencial, como organizador e referência
histórico -conceitual do Espiritismo, é inescapável discutir os conceitos
filosóficos de verdade.
A expressão
'verdade', cujo bojo traz discussões semânticas, epistemológicas e filosóficas
complexas, também tangencia inevitavelmente para o campo das ciências e das
religiões.
O que é a 'verdade' para a Filosofia, para a Ciência e para a Religião? Cada qual desses campos de saberes apresentará concepções que se opõem e que podem, muito raramente, se convergirem num modelo conceitual. Nesse sentido, Allan Kardec e os Espíritos colaboradores, acreditavam nesse escopo, na tentativa de condensar em um corpo doutrinário uma síntese possível como ciência experimental, como filosofia espiritualista e como uma religiosidade decorrente das duas anteriores.
Kardec, raça e ciência, por Matheus Laureano
Matheus Laureano é Mestre em Psicologia Social, escritor, Presidente da ASSEPE (www.assepe.org.br).Delegado da CEPA em João Pessoa-PB e membro da CEPABrasil, <mattheuslaureano@gmail.com>
O Espiritismo é uma doutrina em
progresso. O Espiritismo também é uma doutrina pedagógica. É preciso considerar
essas duas afirmações para um melhor entendimento do Espiritismo, pois se
tivermos uma acepção de que o Espiritismo é algo pronto e acabado, não tem o
que discutir, melhorar e nem mesmo modificar quaisquer das ideias e teorias espíritas.
É uma doutrina pedagógica porque busca, principalmente, a melhoria da sociedade
e dos indivíduos por meio da educação, do diálogo e da busca pela verdade.
Assim como os grandes gênios da humanidade, Kardec foi um homem de contradições. Primeiramente há que considerar a Doutrina Espírita uma obra muito mais dele que dos Espíritos desencarnados. Foi ele quem tomou todas as ações de pesquisar, que mensagens deveriam conter nas obras, quais foram os Espíritos escolhidos, quais eram os(as) médiuns de confiança e, mais que tudo, desenvolveu a teoria espírita baseada em seu arcabouço teórico e histórico. A genialidade de Kardec, entre outras coisas, se demonstra na capacidade que ele teve de se deparar com o fenômeno espírita, oferecer uma compreensão de toda a sua magnitude e buscar por toda a sua vida dar corpo pedagógico, tornando-o simples para a humanidade.
Kardec, Racismo e Iconoclastia
Por Néventon Vargas: Engenheiro
Civil, Licenciado em Física, militar inativo, membro da ASSEPE -
Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa -PB e Assessor de
Comunicação da CEPA Brasil.
A morte de George Floyd[1] nos EUA, em 25 de maio de 2020, desencadeou uma série de protestos pelo mundo, tendo, inclusive, como alvo inúmeros heróis históricos, cujas estátuas estão espalhadas pelos mais variados espaços em diversos países. Um dos alvos, Winston Churchill (1874-1965), por muitos considerado o principal herói da 2ª Guerra Mundial, cito aqui pela emblemática manifestação do atual premier britânico Boris Johnson:
“Sim, às vezes ele expressava opiniões que eram e são inaceitáveis para nós hoje, mas ele era um herói e merece esse memorial. Nós não podemos tentar editar ou censurar nosso passado. Não podemos fingir que temos uma história diferente”
Diante desse cenário de
barbárie, apelamos à Organização das Nações Unidas (ONU) e a todos os países
democráticos e comprometidos com os direitos humanos para que se unam com
urgência no esforço de cessar tais crimes de guerra. Que o governo de
extrema-direita de Israel seja responsabilizado internacionalmente, e que o
mundo se erga contra todas as formas de massacre, terrorismo e desumanização.
Reafirmamos, como
herdeiros do legado de Allan Kardec, a defesa da paz, do diálogo entre os
povos, do fim imediato dos ataques e da entrada de ajuda humanitária em Gaza.
Isso é caridade em sentido macrossocial.
Por uma Palestina livre
onde todos possam viver com dignidade e justiça!
Publicado em 28 de julho
de 2025
Assinam esta
Nota:
1. Associação Brasileira de Delegados e
Amigos da CEPA (CEPABrasil) – Santos/SP
2. Associação Brasileira Espírita de
Direitos Humanos e Cultura de Paz (ABREPAZ) – Goiânia/GO
3. Associação de Estudos e Pesquisas
Espíritas de João Pessoa (ASSEPE)
4. Associação Espírita de Pesquisas em
Ciências Humanas e Sociais (AEPHUS) – Goiânia/GO
5. Canal Cavanhaque de Kardec – Rio de
Janeiro/RJ
6. Canal You Tube Armas de Minerva – Rio
de Janeiro/RJ
7. Canal YouTube Suzana Leão – Novo
Hamburgo/RS
8. Centro Cultural Espírita de Porto
Alegre (CCEPA)
9. Centro de Pesquisa e Documentação
Espírita (CPDOC) – Santos/SP
10. Centro Espírita Herculano Pires (CEHP)
– Rio de Janeiro/RJ
11. Coletivo Ágora Espírita – Recife/PE
12. Coletivo de Estudos Espiritismo e
Justiça Social (CEJUS)
13. Coletivo Espírita Maria Felipa –
Salvador/BA
14. Coletivo Girassóis - Espíritas pelo Bem
Comum – Fortaleza/CE
15. Cultura Espírita Livre-Pensar (CELP) –
Curitiba/PR
16. Espíritas à Esquerda (EàE) –
Salvador/BA
17. Fraternidade Espírita – Goiânia/GO
18. Fronteiras do Pensamento Espírita –
Goiânia/GO
19. Grupo Espírita Livre Pensar (GELP) –
Santos/SP
20. Movimento Mundial de Mulheres Espíritas
(MOVMMESP)
21. Movimento pela Ética Animal Espírita
(MOVE) – Rio de Janeiro/RJ
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HUMANOS, SOMENTE
HUMANOS
Postamos este artigo como homenagem póstuma ao querido Maurice Herbert Jones, pensador espírita desencarnado em 20/06/2021, aos 92 anos. Com nossa gratidão pelo legado ao espiritismo livre-pensador, humanista, plural e progressista.
O enorme contingente de criaturas que, em todo o mundo, se dedica com
amor a atividades de promoção do ser humano nos convida a fazer uma reflexão
sobre nosso papel e, sobretudo, sobre a inspiração e os motivos que nos levam a
trabalhar e a sofrer por ideais de natureza filosófica, política ou religiosa
buscando, consciente ou inconscientemente, aperfeiçoar o que nos parece
imperfeito, participando assim da construção de um mundo que possa ser mais
amado. Por que fazemos o que fazemos? Por que ao invés de somente viver e
sobreviver, aceitando obedientemente o cenário e o texto que nos é oferecido,
resolvemos desobedecer e sonhar e plantar jardins, construir tambores, flautas
e harpas, escrever poemas, construir casas, teatros, universidades, cidades?
Isto faz de nós, realmente, criaturas singulares no concerto da natureza
que conhecemos. Diferentemente dos animais, perfeitamente ajustados ao mundo
físico, os homens parecem ser, constitucionalmente, desadaptados ao mundo tal
como ele lhes é dado.
O psicanalista e escritor Rubem Alves, que nos inspira nesta reflexão,
diz que uma das respostas a este tipo de indagação é que o homem, antes de ser
racional, é um ser de desejo. Desejo é sintoma de privação, de ausência e pertence
aos seres que se sentem insatisfeitos com o que o espaço e o tempo presente
lhes oferecem. Eles sabem que o mundo é uma construção e, portanto,
perfectível. Sofremos de uma “nostalgia do futuro”, uma espécie de saudade de
um tempo que há de vir que começa no momento mágico, naquele ponto de mutação
em que, com o despertar da razão, foi firmado o contrato de parceria com a
Inteligência Suprema que inaugurou a história humana.
Esta é a glória e, ao mesmo tempo, a maldição da condição humana. Na busca
deste mundo mais perfeito que os homens desejam, imaginam e, a pouco e pouco,
constroem, empenhamos as mais nobres das nossas qualificações morais e
intelectuais, mas como contrapartida, temos que enfrentar a maldição da neurose
e o terror da angústia, inexistentes no paraíso da natureza infra-humana. A
harmonia original, pré-individualista, é substituída pelo conflito e pela luta,
recursos pedagógicos utilizados para desenvolver nossa capacidade de pensar e
de amar. A Inteligência Suprema, de certa forma presente no recôndito das
estruturas mais sutis da nossa individualidade, não bloqueia e sim estimula,
permanentemente, a parceria humana, mesmo quando incipiente e desastrada.
Somos o que somos porque para isto fomos inteligentemente programados.
Viver, viver mais, viver melhor é a legenda que sintetiza todas as motivações
humanas.
Fazemos o que fazemos porque somos humanos, somente humanos.
"A cultura do espírito aumenta os sentimentos de dignidade e de independência." (Herbert Spencer)
A
luta pela dignidade humana nasce da indignação. A capacidade de indignar-se
diante da injustiça, da desigualdade, das violações à liberdade, da corrupção,
é o combustível que move o indivíduo e as coletividades à efetiva ação por uma
sociedade melhor.
É preciso ter isso presente ao se
analisar os movimentos sociais que, neste momento, marcam as relações entre
segmentos da sociedade e o poder. Eles são indício do amadurecimento dessa
capacidade de indignação que explode, reivindicando mudanças. Quem é capaz de
se indignar mostra crescimento de conscientização de seu próprio potencial transformador
e se sente estimulado à concreta ação transformadora.
Mas afoitos, nem sempre e nem todos os
jovens levam em conta um aspecto: a democracia, suada conquista que mal começa
a se consolidar entre nós, também nasceu e se institucionalizou a partir da
indignação e da ação destemida de gerações precedentes. Etapa recente de nossa
história institucional, a democracia não será capaz de sobreviver sem a ordem
que lhe é elemento indispensável.
Ao mesmo tempo em que assiste a uma
saudável onda de manifestações em prol de inadiáveis melhorias no campo da
educação, da saúde, da moralidade pública, a Nação também tem se deparado com
lamentáveis cenas de invasão, depredações e vandalismo ao patrimônio público e
privado. E esse não é um bom sinal. Retrata a presença entre nós de espíritos
que se demoram em estágios de barbárie incompatível com os avanços éticos e
sociais já conquistados. Sobra-lhes indignação, mas lhes falta civilidade.
Educá-los é tarefa do Estado, da sociedade organizada e de cada um de nós mediante
o exemplo e ações positivas em favor do bem.
Impulsionar nossas
momentâneas e circunstanciais
indignações à busca da dignificação
integral do espírito
humano é tarefa que nos
impõe a vida.
A par da inserção social, no setor que
melhor corresponda à capacidade individual de cada um, a nós, espíritas, cabe
contribuir, fundamentalmente, com o que de melhor e mais genuíno tem o espiritismo:
a sua filosofia, sua proposta de compreensão de homem e de mundo. A filosofia
espírita é profundamente libertadora. Desperta no indivíduo a consciência de
que ele é o primeiro agente da conquista de sua felicidade. E que esta é
construção gradual que se estende vidas a fora, nas necessárias etapas do
espírito rumo à plenitude. Essa visão gera sentimentos de solidariedade e de
corresponsabilidade no progresso do mundo, de seus povos e instituições.
Impulsionar, pois, nossas momentâneas
e circunstanciais indignações à busca da dignificação integral do espírito
humano é a tarefa que nos impõe a vida. Mas, isso exige de cada um, ordem,
disciplina, obediência às leis, pois que, sem elas, ao invés de nos tornarmos
agentes do progresso, estaremos dando margem ao retrocesso que atenta contra as
leis da natureza.
CONTABILIDADE ESPIRITUAL
Qual o objetivo da reencarnação?
Aparentemente, esta é uma pergunta básica no âmbito da
doutrina espírita. Afinal, a reencarnação, considerada um dos pilares que
sustentam o edifício teórico do espiritismo, é ideia muito debatida em
palestras dos mais diversos gêneros, em todos os centros espíritas.
Ocorre que, infelizmente, há um erro de interpretação na
razão de ser da reencarnação. O movimento espírita encara-a como sendo uma
oportunidade dada por Deus para que os espíritos " resgatem os débitos do
passado ", ficando, assim, quites com a lei divina, e prontos para
recomeçar sua escalada evolutiva.
Os livros espíritas, especialmente os de autores
desencarnados, são pródigos em estórias que exemplificam esta visão: desde
cruéis senhores de engenho que, tendo maltratado seus escravos, renascem em
absoluta pobreza, sofrendo o escárnio da sociedade até assassinos que devem
morrer cruelmente, não faltam casos a exaltar a infalibilidade do velho ditado:
aqui se faz, aqui se paga.
Àqueles que buscam um motivo teórico para estes casos é
fornecida a explicação da lei de causa e efeito (ou, como é muito comum
dizer-se, a lei do karma): uma vez violada a lei de Deus, o efeito é imediato,
voltando ao infrator sobre a forma de sofrimento inevitável.
Deve-se ter em mente, contudo, que nada há, na base da
filosofia espírita, que justifique a ideia de reencarnação como punição ou
mesmo como resgate de faltas do passado. Kardec é claro ao postulá-la como
prova, isto é, como oportunidade de o espírito refazer, em outra ocasião, a
tarefa que não pode ou não soube realizar a seu tempo.
Mesmo se não se levar em consideração o argumento de
autoridade, isto é, deixando de lado o que diz Kardec, a própria razão deveria
levar a esta conclusão. A reencarnação como punição nada mais é que uma
reedição da pena de Talião, o famoso olho por olho, dente por dente. No fundo,
é apenas uma vingança, cujas reações, apesar de diferentes, são igualmente
funestas. Na melhor das hipóteses, o espírito reencarnante resigna-se a um
destino doloroso, do qual ele não pode fugir, não atuando proativamente em
benefício de uma efetiva regeneração íntima. Na pior das hipóteses, a reação é
de revolta, atrasando ainda mais o processo evolutivo.
O sofrimento não pode, de maneira alguma, estar previsto na
lei natural, como punição inexorável àqueles que a violam. Sofrimento é uma
reação pessoal a fatos da vida, estes sim relacionados diretamente às ações de
cada espírito, encarnado ou não. Aqueles que conseguem ter uma atitude positiva
perante a vida, pouco sofrem; já os que veem no próprio fato de viver um fardo
insuportável (oh! vida, oh! azar...) sofrerão sempre, por menores que sejam as
vicissitudes por que passam.
Reencarnação é prova, tal como provas há em qualquer escola
aqui na Terra. É uma oportunidade fantástica de aprendizado, possibilitando a
cada espírito demonstrar, para si mesmo, que pode continuar sua escala
evolutiva em outros níveis.
O espiritismo é, por si só, uma filosofia altamente
consoladora. Não deve incorporar o sofrimento existente em outras doutrinas,
muletas que, a pretexto de ajudar, obstruem o caminho evolutivo do ser. A
evolução deve ser feliz e prazerosa, mesmo quando difícil. E isto, quem faz
somos nós mesmos
Marcio Sales Saraiva - Escrevinhador, sociólogo e coordenador do Centro Espírita Herculano Pires (RJ). É doutor em Psicossociologia (Eicos/UFRJ).
Os seres humanos abandonaram seu “estado de natureza”, com suas organizações sociais primevas, para construir sociedades enormes e complexas, chamadas de “civilizações”.
Para o espiritismo (KARDEC, 2006, questão 776), não podemos confundir esse “estado de natureza” com a chamada lei natural, pois esta é, na verdade, lei de Deus, regendo o funcionamento cósmico. Em “O livro dos espíritos” encontramos dez aspectos dessa lei natural de regulação da vida, e um deles é a chamada lei de progresso.
O progresso humano faz parte dessa lei natural ou lei de Deus. Isso quer dizer que o ser humano não regride — nem espiritualmente, nem socialmente — ao seu estado de natureza ou “primitivo”. Em outras palavras, o progresso evolutivo espiralar é uma força endógena e espontânea (KARDEC, 2006, questões 778–779) que conduz a humanidade planetária. E, embora alguns seres humanos reacionários tentem impedir esse progresso, causando-lhe embaraços e retenções, ele ainda assim se afirmará gradualmente (KARDEC, 2006, questão 781), porque essa é a lei divina, essa é a vontade da vida que pulsa no mundo. De fato, não haverá paz global “sem trazer de volta do exílio ideias como a do bem-público, da boa sociedade, da igualdade, da justiça e assim por diante — ideias que não fazem sentido senão cuidadas e cultivadas na companhia de outros” (BAUMAN, 2000, p. 16). O progresso, hoje, envolve tais questões democráticas.
A civilização que temos — seja no capitalismo ou nos diversos modelos do antigo socialismo real — representa ainda um “progresso incompleto” (KARDEC, 2006, questão 790), pois falta maturidade aos seres humanos. Nós ainda não estamos “preparados” nem “dispostos” (KARDEC, 2006, questão 792) a viver numa sociedade igualitária, caridosa, ambientalmente sustentável e de bem-comum. Por outro lado, muitos acusam, ansiosamente, a lentidão desse progresso “natural” (os espíritos chamam-no de “regular e lento” – ver questão 783), mas eles sinalizam que esse processo poderá sofrer intervenções da lei de Deus para que ocorra uma “aceleração” revolucionária. Em outras palavras, certos abalos físicos ou morais poderão fazer a humanidade avançar mais celeremente rumo ao progresso social, econômico, cultural, político e espiritual. Por vezes, é preciso que o mal “chegue ao excesso” (KARDEC, 2006, questão 784) para que a sociedade perceba, com clareza, a necessidade “do bem e das reformas”, que poderão ser pacíficas ou não (vide lei de destruição).
De acordo com a concepção kardequiana, nossa civilização chegará ao ápice, à plenitude, quando estiver desenvolvida moralmente, vivendo cotidianamente a partir de uma ética das virtudes. Neste momento histórico em que ainda estamos mergulhados, aqueles que se julgam “civilizados” são, na verdade, apenas pessoas “esclarecidas” cognitivamente, mas carentes do componente ético-moral, embotadas no campo das virtudes e distantes do senso de irmandade e de comunhão necessários para um progresso pleno e autêntico da sociedade e de suas instituições (KARDEC, 2006, questão 793).
É importante frisar que Kardec, bom descendente da modernidade racionalista e do Iluminismo, compreende que o chamado progresso ético-moral será consequência do progresso intelectual/cognitivo. A razão — e não a irracionalidade das paixões destrambelhadas! — é o abre-alas para o avanço no campo das virtudes. Essa posição de Kardec não o torna ingênuo, pois ele tem clareza de que nem sempre o progresso intelectual e tecnocientífico traz o progresso ético-moral (KARDEC, 2006, questão 785). O século XX foi testemunha disso, e o XXI está nos mostrando, mais uma vez.
Os dois fenômenos (ou os dois progressos, cognitivo e ético) estão relacionados, é claro!, mas não de forma automática e mecânica. Podemos ter grande avanço educacional, científico e tecnológico, ainda ausente de uma sólida base ético-moral, pois a inteligência é uma força amoral, podendo servir ao bem ou à destruição.
Somente o tempo traz equilíbrio entre razão e ética, cognição e afetos, desenvolvimento intelectual-tecnocientífico e desenvolvimento ético-moral (KARDEC, 2006, questão 785). A ampliação da prática das virtudes é processual, assim como é processual a destruição de todas as manifestações de orgulho e egoísmo — que tomam forma em instituições socioeconômicas e políticas injustas — que impedem o surgimento de uma nova sociedade baseada no amor-caridade, no bem-viver e nos interesses da comunidade.
Contrariando o senso comum do conservadorismo que deseja eternizar leis e normas sociais, aprendemos com o espiritismo que as leis humanas — e seus aparatos jurídico-políticos — são variáveis e progressivas (KARDEC, 2006, questão 795), mudando ao longo do tempo. Somente a lei natural e divina é imutável, estável e perene, pois as demais leis sofrem processos contínuos de aperfeiçoamento — e assim deve ser. Esse aperfeiçoamento jurídico-político acontece, na visão kardequiana, pela “força das coisas” ou pela “influência das pessoas de bem” (KARDEC, 2006, questão 797), isto é, por razões endógenas e por ativismo social.
Significa dizer que a humanidade vai progredindo juridicamente e politicamente, aos trancos e barrancos, mas vai. O espiritismo é, nesse sentido, otimista e fonte de esperança. Exemplos não nos faltam: o direito trabalhista e previdenciário, a ampliação do sufrágio, a redução das penas de morte, a afirmação dos direitos humanos, o reconhecimento dos direitos LGBTQIA+, a ampliação da proteção a refugiados, o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas em Estados plurinacionais, as leis antirracistas etc.
Todos esses avanços civilizatórios dependem também de fortes investimentos públicos em educação. É na formação dos seres humanos que reside a fonte fundamental do processo de reformas (libertação e emancipação) que nos impulsiona ao verdadeiro progresso societário e espiritual (KARDEC, 2006, questão 796).
Para o espiritismo, a razão joga papel central, pois, sem progresso intelectual — educacional, científico, tecnológico e cultural —, o ser humano não saberia fazer escolhas, discernir o bem do mal e, portanto, não poderia ser responsabilizado por seus atos devido à sua ignorância. Assim, o espiritismo deve ser um aliado visceral das lutas pela educação, a exemplo de Darcy Ribeiro e Paulo Freire em nosso país.
Por que a educação é fundamental para o progresso?
A educação é fundamental porque o progresso da humanidade tem por base o progresso de seus indivíduos (KARDEC, 2006, questão 789). Observe bem: não se trata de dizer que o progresso, lei natural da vida, dependa exclusivamente dos indivíduos — pois, para Allan Kardec, o progresso segue seu curso estrutural, ainda que muitos indivíduos fiquem para trás. Por outro lado, ele ganhará maior força e velocidade quando, ao longo de várias encarnações, os indivíduos se tornarem pessoas melhores, mais caridosas e compassivas, mais preocupadas com o bem-comum e o bem-viver.
Essa visão kardequiana é coerente com a tese do sociólogo Norbert Elias sobre a sociedade dos indivíduos: para ele, não há uma oposição entre indivíduo e sociedade, mas uma interdependência contínua e dinâmica. Os processos de civilização ocorrem justamente na medida em que os indivíduos se transformam em suas maneiras de sentir, pensar e agir — e essa transformação repercute diretamente nas estruturas sociais. Por isso, quanto mais avançados são os indivíduos (do ponto de vista das virtudes), mais justa e fraterna será a sociedade que formam.
Quando esses indivíduos se tornarem maioria na sociedade, ela sofrerá profundas mudanças socioeconômicas, políticas e culturais, acelerando seu ritmo de progresso. Kardequianamente falando, a mudança social está profundamente conectada à transformação individual — pois, como dizem hindus e budistas, o mundo é uma teia.
E qual é a missão do espiritismo nesse contexto?
O espiritismo tem por missão contribuir com o progresso da civilização humana e do bem-viver, contrapondo-se à barbárie e à degradação ambiental, ética e psíquica. Nesse sentido, “nada é mais importante do que recuperar a paixão das ideias” (BADIOU, 2012, p. 59), tal como a da lei de progresso em Kardec.
É destruindo o materialismo grosseiro — e suas consequências (egoísmo, consumismo, avareza, culto ao dinheiro, negação da vida espiritual e do ócio criativo) — e ampliando os laços de irmandade e solidariedade (KARDEC, 2006, questão 799) que o espiritismo poderá ser mais uma alavanca progressista no mundo, ajudando a anular os “sintomas de uma corrosiva desesperança existencial” (BAUMAN, 2000, p. 25) que tende a implodir os laços sociais.
Não cabe aqui ansiedade, precipitação ou tentativa voluntarista de acelerar o tempo histórico. Sabemos que “o mundo contemporâneo é um recipiente cheio até a borda de medo e frustração” (BAUMAN, 2000, p. 62) e que nossa sociedade líquida está permeada por solidão, impotência, conformismo e incerteza (BAUMAN, 2000, pp. 11–13). Por outro lado, se quisermos resgatar a força do pensamento kardequiano, cabe a nós — espíritas — trabalhar, com esperança, resiliência e boa-vontade, pela hegemonia das forças progressistas, conscientes de que essa transformação “só poderá operar-se com o tempo, gradualmente” (KARDEC, 2006, questão 800). A natureza não dá saltos e “cada coisa tem o seu tempo” (KARDEC, 2006, questão 801) para frutificar.
Enquanto isso, a luta segue, pois as forças irracionais, conservadoras e reacionárias da globalização hegemônica — defensoras da primazia do mercado, da liberalização do comércio, da privatização, da desregulamentação financeira, da precarização do trabalho e da destruição das redes de proteção social e ambiental — buscam colocar entraves ao processo de emancipação humana. Sabemos que “o inimigo mais temível da política de emancipação” é a “interioridade do niilismo e a crueldade sem limites que pode acompanhar seu vazio” (BADIOU, 2012, p. 22).
Por isso, precisamos esperançar, como disse Paulo Freire, e nos unir ao processo de globalização contra-hegemônica, constituído “a partir de baixo” (SANTOS, 2013, p. 30), articulando questões pessoais, locais e globais contra a opressão, o colonialismo, a desigualdade (social, racial e sexual), a destruição dos empobrecidos, a catástrofe ecológica, a expulsão de camponeses e indígenas de seus territórios ancestrais, o endividamento de famílias e pequenos empresários, e a criminalização do protesto social.
O espiritismo poderá contribuir muito, nesse sentido progressista, se retomar suas bases kardequianas e fazer uma hermenêutica para o século XXI, afastando-se de alianças com teologias políticas conservadoras. É na articulação entre a salvífica caridade, o cuidado dos outros e a “luta política contra as causas do sofrimento” (SANTOS, 2013, p. 121) que o espiritismo poderá ser um espaço relevante para o progresso humano.
Bibliografia
BADIOU, A. (2012). A hipótese comunista. São Paulo: Boitempo.
BAUMAN, Z. (2000). Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar.
KARDEC, A. (2006). O livro dos espíritos (Tradução de Evandro Noleto
Bezerra). Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
SANTOS, B. de S. (2013). Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos.
São Paulo: Cortez.
Uma das sugestões oferecidas às Diretorias da CEPABrasil e
do CCEPA foi de que, tanto a Federação Espírita Brasileira (FEB) como a
Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS) fossem convidadas a se fazerem
representar no evento, sendo que apenas esta última respondeu e se fez presente
no Encontro através de seus vice-presidentes Vinícius Lousada e Iraci de
Oliveira.
Além da Oficina, dos conferencistas e painelistas, foram
apresentados quinze (15) trabalhos por seus autores Adair Ribeiro Jr., Ademar
Arthur Chioro dos Reis, Alexandre Cardia Machado, Ana Cláudia Laurindo de
Oliveira, Jacira Jacinto da Silva, Mauro de Mesquita Spinola, Jerri Roberto
Almeida, Beto Souza, Klycia Fontenele Oliveira, Leandro Carvalho Dias, Luiz
Signates Freitas, Mariana Canellas Benchaya, Mônica Fonseca Mendes, Sérgio
Maurício S. Pinto, Ricardo Andrade Terini e Ricardo Morais Nunes. A moderação
foi exercida por Valéria Mokwa, Cláudia Regis, Dirce Leite, Delphine Gamarra,
Adriana Kessler e Delma Crotti. Todos os trabalhos estão publicados em E-book,
organizado por Magda Zago, já disponibilizado aos participantes e nas redes
sociais, inclusive de autores que estavam inscritos – Rafael Ludolf e Wilson
Garcia - mas não puderam comparecer.
Todas as apresentações – não transmitidas online - foram
gravadas em vídeos pela empresa de Lucas Overgoor, com excelente qualidade
profissional e estão disponíveis no canal YouTube da CEPABrasil, www.youtube.com/cepabrasil e do
CCEPA, https://www.youtube.com/@ccepars.
No sábado à tarde, houve um momento de intercâmbio mediúnico em que foram recebidas quatro mensagens de apoio e estímulo.
O encerramento ocorreu no domingo, dia 4 de maio de 2025, pela manhã, com a conferência do Prof. Moacir Araújo Lima, seguindo-se uma vivência de confraternização e arte, coordenada por Sandra Regis, coroando o pleno sucesso o evento e deixando nos participantes a sensação de plenitude e muita emoção pelos momentos de convívio, aprendizado, troca de experiências e profícuos debates sobre o tema proposto.