UM
CAMINHO PARA O ESPIRITISMO LAICO
Salomão Jacob Benchaya –bacharel em Economia
ex- Presidente do Centro Cultural de Porto Alegre (CCEPA), da Federação
Espírita do Rio Grande do Sul, Diretor da CEPA Associação Espírita
Internacional, um dos criadores do ESDES, colaborador do Jornal CCEPA –
Opinião, um dos criadores do MEP- Movimento Espírita Progressista e Presidente
eleito da CEPABrasil para o Biênio 2026/27.
O expressivo crescimento da vertente
livre-pensadora, progressista e progressiva, humanista, adogmática e plural
que, ultimamente, se observa no movimento espírita, tem me levado a refletir
sobre a sustentabilidade desse segmento que, claramente, não tem acolhimento
nas instituições e centros espíritas tradicionais, majoritariamente pertencentes
à corrente religiosa e conservadora que
se consolidou no Brasil.
Em recentes comentários postados no
grupo de whatsApp da CEPABrasil, essa situação foi mencionada, resultando num
consenso de que a liberdade de pensamento, a leitura crítica das obras espíritas,
a rejeição a posturas dogmáticas, o questionamento da produção mediúnica, o
combate à idolatria, ao evangelismo exacerbado etc., só podem vicejar em grupos
ou instituições de pequeno porte que sejam orientados por pessoas desvinculadas
de posturas dogmáticas e exclusivas.
Casas espíritas constituídas sob o
signo do religiosismo e do evangelismo dificilmente conseguem se redirecionar
para um modelo mais coerente com a racionalidade kardeciana.
Raras instituições espíritas
genuinamente laicas existem no planeta. São poucos os espíritas que não sentem
falta de ter uma religião, embora isso não signifique qualquer superioridade
moral de quem quer que seja.
É oportuno, aqui, repetir que o laicismo não é contra a
Religião. O laicismo é neutro, ou seja, não interfere nem se envolve com a
questão religiosa, tendo, sim, absoluto respeito a todas as crenças e aos seus
profitentes.
Então, por que motivo está crescendo a vertente laica,
progressista, livre-pensadora do espiritismo?
O crescimento do campo espírita progressista
Antes de responder, é bom dizer que a proposta de laicidade
no espiritismo não é nenhuma invenção da CEPA. Esta, por sinal, cada vez mais,
comporta-se como um movimento de ideias e não mais como instituição federativa.
Kardec não projetou um espiritismo religioso – embora haja
contribuído para isso, de certa forma, talvez até como uma brilhante
estratégia. No Brasil, já em seus primórdios, grupos de “místicos” (Bezerra de
Menezes como líder) e de “científicos” (Afonso Angeli Torteroli à frente)
disputavam a liderança do movimento espírita nascente. Durante a ditadura
militar, o Movimento Universitário Espírita, acentuadamente político, também se
opôs ao religiosismo e, na década de 70 do século passado, Jaci Regis e o seu
“Grupo de Santos” e o grupo que, então dirigia a federação gaúcha, deflagraram
nova reação à sectarização, à igregificação e ao evangelismo reinantes. Em
todos esses momentos, a reação conservadora foi vitoriosa.
Não me parece sensata nenhuma disputa por hegemonia, claramente
contraproducente. A sociedade é plural, diversificada, e com o espiritismo não
poderia ser de outro modo.
Tornou-se evidente que não existe um só espiritismo. Hoje há
muitos. E que todos se ancoram em Kardec, mesmo que usando métodos
diferenciados.
É sob essa perspectiva de pluralismo e de diálogo que,
notadamente durante e após o recente governo de extrema direita, começaram a
surgir novos grupamentos e coletivos espíritas congregando livres pensadores e
progressistas, muitos ex-integrantes de instituições espíritas declaradamente
apoiadoras do sistema vigente.
A eclosão da pandemia da Covid 19 e as novas tecnologias
digitais obrigaram as pessoas a se comunicar virtualmente e através das redes
sociais. Espontaneamente, uma teia de relacionamentos e de intercâmbio se
estruturou possibilitando a troca de ideias, o surgimento de novos pensadores e
líderes distanciados do igrejismo e promovendo um apreciável esforço de resgate
do pensamento kardeciano para compatibilizá-lo com o conhecimento contemporâneo.
O conhecimento da obra de Kardec como base
Não posso deixar de admitir que, nas últimas quatro décadas,
houve um fator que exerceu e vem exercendo um papel determinante na mudança de
perfil do espiritismo. Trata-se do incremento que, desde o final da década de
70 do Século XX, se observa quanto ao melhor conhecimento da obra de Kardec,
resultante da campanha lançada pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul
visando o estudo metódico, sistematizado ou sistemático do espiritismo. Essa
campanha, conhecida pela sigla ESDE, infelizmente um tanto desacreditada e
criticada pela forma apostilada como passou a ser apresentada, objetivava
exatamente estimular o estudo e o conhecimento das obras do fundador do
espiritismo. É bem provável que muitos estudiosos nas casas espíritas que
adotaram o ESDE, ao (re)lerem os textos fundadores, tenham percebido a sua
discrepância em relação ao modelo evangélico implantado no Brasil. O modelo
brasileiro não era coerente com a proposta original.
Então, não é difícil deduzir a influência que o conhecimento
aprofundado do pensamento kardeciano exerce sobre o surgimento e sobre a
expansão, na comunidade espírita, de um segmento de livres pensadores,
progressistas, progressivistas, humanistas, adogmáticos, aí incluídos os laicos.
A estratégia dos pequenos grupos
Mas, como eu disse antes, esses espíritas não encontram
acolhimento em casas conservadoras. As poucas exceções encontram-se em algumas
instituições ligadas à CEPA, constituída há quase 80 anos.
É fácil constatar que os diversos grupamentos ou coletivos
já em funcionamento são, em sua maioria, grupos pequenos, informais, não
possuem sede física, atuam através dos meios digitais, envolvendo colaboradores
dos mais distantes lugares, geralmente com formação universitária e que se
dedicam ao esforço de contextualizar a obra de Allan Kardec trazendo seu
conteúdo para os dias atuais, apto a dialogar com a Ciência e a Filosofia.
É para esse segmento, ainda incipiente, mas promissor, que
estou propondo uma estratégia de ação inspirada em um antigo Projeto que
apresentei no 3º Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, organizado pelo
saudoso Jaci Regis, ocorrido em setembro de 1993, em Santos-SP.
Na verdade, esta proposta nem chega a ser uma novidade pois
já existia no movimento espírita mas que aponta para a possibilidade de
incremento do estudo do espiritismo despregado do dogmatismo e da ortodoxia que
imobilizam e asfixiam o pensamento espírita, em flagrante desacordo com a
recomendação de Kardec.
O trabalho apresentado em 1993 desenvolvia a ideia de
“Espiritismo em Grupos Informais” (Projeto EGI) e cujos objetivos eram: “a) estimular a criação de Grupos Informais de
Estudos Espíritas (GIEEs); b) promover o intercâmbio do pensamento espírita com
o conhecimento acadêmico; c) estimular a formação de núcleos espíritas
universitários para investigação e pesquisa; d) assessorar
as universidades na promoção de eventos ligados ao estudo da natureza do Homem;
e) oferecer subsídios para o
conhecimento do Espiritismo a grupos de estudos espiritualistas, paranormais,
de pesquisas psíquicas e/ou alternativos, já existentes.”
Os Grupos Informais (ou
Autônomos) de Estudos Espíritas, na verdade, já existem. O Projeto EGI não tem
nada de inovador, mas certamente pode ser um poderoso auxiliar na expansão do
pensamento espírita progressista, crítico, adogmático, assectário, decolonial,
inclusivo, plural, humanista, alteritário e livre-pensador.
São grupos familiares, de pesquisadores, de
profissionais ou, simplesmente, de estudiosos, funcionando em residências,
empresas, escolas, universidades, clubes e, mesmo, em instituições espíritas,
que dialogam com outras áreas do conhecimento e com outros segmentos sociais,
mantendo o espiritismo permanentemente atualizado e presente na sociedade.
Os coletivos, que já se
contam às dezenas, estão produzindo verdadeira revolução no movimento espírita.
Nunca, tantos livros espíritas foram e continuam sendo lançados por escritoras
e escritores espíritas com valiosas contribuições para a atualização teórica e
prática do espiritismo.
Entretanto, o público
que acompanha e interage com todo esse volume de produção intelectual ainda é
reduzido.
Se o ESDE pode se
constituir em vigoroso estímulo ao estudo da obra de Kardec, desde que não
engessada no dogmatismo e na sacralização, grupos independentes,
problematizadores, críticos e que dialogam com o conhecimento científico e
filosófico dos nossos dias, podem revitalizar o movimento espírita, garantindo
a sua sobrevivência e a admissão da teoria espírita ao debate acadêmico.
A articulação necessária
Existem instituições
bem organizadas, de perfil laico, coletivos, ligas, institutos ou grupamentos
progressistas em condições de se constituírem em núcleos promotores e
apoiadores de grupos informais ou autônomos de estudos espíritas.
Exemplos desse tipo de
iniciativa, são os cursos presenciais ou virtuais, em andamento ou já
realizados pela CEPA, pelo IFEHP, pela AEPHUS, pela ABPE, pelo IEEF, pelo CELP,
pelo Ágora, entre outros, voltados para a cultura espírita, em franco diálogo
com todos os campos do conhecimento.
A ideia é que se
multipliquem os pequenos grupos espíritas, como propunha Kardec, presenciais ou
virtuais, com total liberdade para estudar, pesquisar, participar de eventos,
intercambiar experiências, produzir conhecimento, enfim, o que, certamente, terá
um efeito oxigenador sobre o movimento espírita.
Talvez o campo
progressista esteja necessitando de um mínimo de articulação, já que não
pretende nem convém se institucionalizar, preservando sua autonomia, mas
cuidando de disseminar suas propostas, particularmente entre aqueles já
cansados da igrejificação sofrida pelo espiritismo, como também entre os que
acreditam num espiritismo que não só console pela beleza e racionalidade dos
seus postulados, mas que seja um movimento engajado na efetiva superação dos
problemas humanos, tanto na esfera individual quanto na social.
A discussão dessas questões
está entre os objetivos do VI Encontro Nacional da Associação Brasileira de
Delegados e Amigos da CEPA (CEPABrasil), a realizar-se de 14 a 17 de novembro
de 2024, na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA).
Vale a pena, portanto,
que os espíritas vinculados à CEPA, seus Amigos, bem como os Coletivos,
Institutos, Ligas e pensadores independentes se proponham a visitar Porto
Alegre apresentando trabalhos, que não serão censurados, relacionados com a
temática “O Espiritismo em
suas dimensões científica, filosófica, ética e social: desafios e perspectivas”.
(Artigo publicado no jornal CCEPA
Opinião, edições jan/fev, março e abril de 2024)