O maior dos elementares direitos:
O Direito à Vida, por Débora Nogueira
março 7, 2026 Administrador site ECK
Debora Nogueira, Atriz formada pela escola de
Arte DramáticaDebora Nogueira, Atriz formada pela escola de
Arte Dramática da USP, graduada em Publicidade e Propaganda, dramaturga,
produtora Produtora, Oficineira, Dubladora, diretora e preparadora de atores,
participação na série ensaio sobre a beleza do Grupo Caos, Diversos trabalhos
para publicidade, cinema, TV, diretora do grupo de teatro Irmão X, Membro da
Conselho de Gestão do ECK (Espiritismo Com Kardec).
Neste “Dia Internacional da Mulher” cabe-nos refletir acerca da
realidade que vivemos, num mundo masculino e que ainda reserva o papel
secundário para as mulheres. O feminismo não é uma luta contra os homens! Mas,
sim, por efetiva igualdade, a igualdade de gênero, a igualdade de direitos e,
dentre eles, o maior: o direito à vida!
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Nascemos com a marca da vida: geramos, amamentamos, carregamos
(a)(as) vida(s). Física e psiquicamente (espiritualmente), as mulheres carregam
muita coisa durante a vida: filhos, sacolas, culpa, casa, silêncio, homens, não
ter filhos, pudor, medo.
Aprendemos a nos comportar, a sentar de pernas fechadas, a não
chamar a atenção… Aprendemos a sermos recatadas: — Precisa ter jeito de menina
e comportamento de menina! — sempre disseram…
E, quando a puberdade chega, com os hormônios a todo
vapor, o medo cresce junto: o corpo muda e não sabemos o que fazer com
tanta coisa acontecendo. Vem a menstruação: — Ahhhh! Cuidado! Agora você pode
engravidar! — era a advertência.
E o medo segue crescendo. Muitas mulheres começam a frequentar
as comunidades religiosas porque ali se sentem seguras… Mas, aí,
justamente aqueles que deveriam acolher a menina, são os que dela abusam.
Também em casa, aqueles em que se deveria confiar, sentindo-se
amada e protegida, também são os que abusam. Ignora-se os pedidos de socorro, a
orientação sexual, o carinho e o apoio.
A outrora menina recatada, agora usa maquiagem, roupas sensuais
e vira a “tentação” masculina. Somos, então, sempre culpadas, pela roupa, pelo
corpo, pelo comportamento.
A hoje mulher, então, se une a alguém e a partir disso deve usar
de todos os artifícios para permanecer “atraente”, dentro dos padrões
enlouquecidos de beleza da sociedade.
Mulher, portanto, tem que ser sensacional: possuir um corpo
escultural, uma pele incrível e, ainda, lavar, passar cozinhar, faxinar… Tudo
com “nota mil” e permanecer sexy, muito sexy.
Quem resolveu que seria assim?
Mulheres pensam, estudam, se formam, cuidam de filhos (em casos,
também, em que o pai sumiu). Ou, outros, que pagam uma pensão mínima e
aparecerem duas vezes ao mês para visitar a prole. E, mesmo assim, acham que
fazem o suficiente…
Precisamos dizer: a Mulher tem liberdade de escolha (olha o
livre arbítrio aí!, tão falado no meio espírita). Mas, veja só que interessante!
Sim, é fato (espiritual) que escolhemos as nossas provas (vide “O livro dos
Espíritos”, item 258 [1]).
Mas, com serenidade e logicidade, vamos refletir: — Será que uma mulher
escolheu ser vitimada por seu próprio companheiro? Que Justiça Divina é essa? —
pensamos, nós…
Mas é isso o que, muitas vezes, ouvimos no “meio” espírita… E
isto nos dá tristeza tão profunda… Como sempre, as mulheres são culpadas, será
que uma atitude dessas não implica quem feriu, matou, arrastou, bateu,
estuprou, esfaqueou… Pois, a
vergonha, a culpa, ficam com a vítima!
Muitas vezes, vemos muitas espíritas (ou que se dizem espíritas)
usarem este argumento da escolha da prova. E, em consequência, é necessário se
resignar, aguentar, pensar nos filhos, no que os outros vão dizer e muito mais…
Mas você pode pensar: —
Ahhh mas isso é antigo, não é mais assim! E eu me pergunto porque ainda tantas
mulheres são vitimadas hoje, agora, a cada minuto… Em 2025, de janeiro a
dezembro, 1.470 mulheres foram mortas no Brasil, conforme dados oficiais
(Ministério da Justiça e Segurança Pública [2]. Em Botucatu, no Estado de São Paulo,
o maior da federação brasileira, recentemente uma mulher, entre tantas,
infelizmente, foi morta mesmo tendo antes registrado dez boletins de ocorrência
e três medidas protetivas [3].
Uma falha grave do governo estadual e da própria justiça.
É preciso fazer cumprir o que se registra no papel! Em São
Paulo, os pedidos de medida protetiva saltaram de 10.804 (2015) para
118.258 [4].
Não podemos adotar o discurso de que não adianta procurar os direitos cabíveis,
mas lutar para que eles se cumpram.
Esta é, pois, uma luta diária. E de todos! Vale lembrar a
advertência contida em “O livro dos Espíritos”, item 919, que, como meio
prático mais eficaz de aperfeiçoamento e de resistência ao mal, foi apontado o
conhecimento de si mesmo, como o bom e velho Sócrates já havia predito,
inspirado na inscrição expressa no Templo de Apolo (Oráculo de Delfos).
Entretanto, este “conhecimento de si mesmo” acabou virou apenas e quase sempre
uma citação, longe de ser buscado e vivenciado. Triste constatação, em um mundo
ainda profundamente masculino.
Aliás essa “fábula” da mulher vir da costela do homem, já restou
cansativa, própria de quem conserva, como fora um enlatado enterrado, valores
morais velhos e empoeirados. As mais das vezes, como nesses crimes hediondos de
feminicídio, se culpa a mulher por ela ser mulher. Transfere-se a
responsabilidade do algoz para a vítima, e o primeiro, muitas vezes, sai ileso.
Uns após outros repetem o mesmo comportamento violento, apoiados por seus
pares. Segue, a mulher sendo propriedade, objeto, meio de reprodução, de prazer
e, por isso, declaram eles, que ela deva se colocar no seu lugar. É como aquele
rapaz que, ao ser preso, declara ao sair algemado, da viatura policial, que fez
o que fez por ter sido traído… Imagine se toda mulher traída resolvesse dar o
troco?!
Vivemos um esquema social onde, ainda, a mulher é vista como
algo secundário, um personagem coadjuvante. Digo ainda, porque isto já foi até
pior. Todavia, é preciso reacender o debate consciente para superar o
pensamento concretizado que atravessa os séculos, num misto de falso moralismo
agregado às prescrições das religiões. Estas últimas, em seus discursos de
púlpitos e tribunas costumam resgatar falas do Antigo Testamento, interpretadas
quase sempre ao pé da letra. São as costumeiras desculpas e justificativas para
a continuidade da violência contra a mulher.
Lutar, pois, lado a
lado, mulheres e homens é o necessário caminho; juntos, buscando entender a
fundo as questões, solucionar problemas sem subterfúgios e, sobretudo, sem
distorcer os ensinamentos dos grandes Mestres da Humanidade (entre eles, Jesus,
tão falado, cheio de seguidores, que não conseguem sequer copiá-lo). A luta
pela igualdade é constante, entre tantas outras. Como cantou Rita Lee, “prá
variar, estamos em guerra”, e quem morre nesta guerra são as mulheres e as
meninas pois podem procriar, apagar o futuro de um povo, quando não mortas são
violadas para serem esmagadas pela vergonha ou gerarem os filhos dos
inimigos. Muitos que se dizem cristãos, caridosos, misericordiosos apoiam
a guerra. Mais fácil ter inimigo do que fazer um trabalho de mudança de
atitude, mudança de pensamento, entendimento, e que essas mudanças abrem
caminhos para uma vida melhor em sociedade, melhor para o bem comum.
Neste “Dia Internacional da Mulher” cabe-nos refletir acerca da
realidade que vivemos, num mundo masculino e que ainda reserva o papel
secundário para as mulheres: os salários são menores; mulher falta mais no
trabalho por causa dos filhos; que são propriedade, quando o companheiro acha
que pode nos controlar, nos diminuir e abusar física e psicologicamente.
O que vemos nos noticiários é realmente assustador e o que se
propaga nas redes sociais é, no mínimo, de fazer embrulhar o estômago. São os
propagadores do ódio às mulheres, que se alastra feito uma erva daninha nos
canteiros e plantações, fazendo crescer, em tenra idade, nas crianças e nos
adolescentes essa ideia, como uma cartilha de ódio.
Onde deixamos o nosso senso de humanidade? Onde ficou a tão
falada caridade? Onde está o amor? Onde estão os ensinamentos de Jesus?
O feminismo não é uma luta contra os homens! Mas, sim, por
efetiva igualdade, a igualdade de gênero, a igualdade de direitos e, dentre
eles, o maior: o direito à vida!
Nota:
[1] Kardec pergunta se o Espírito, quando errante, antes de
iniciar uma nova existência corpórea (encarnação), tem a previsão do que lhe
irá suceder, na vida física. As Inteligências Invisíveis lhe respondem: “Ele
mesmo escolhe o gênero de provas que deseja sofrer; nisto consiste o seu
livre-arbítrio”.
[2] A reportagem é da Agência Senado. Vide referência, abaixo.
[3] Júlia Gabriela Bravin Trovão e seu companheiro Diego
Felipe Corrêa da Silva foram assassinados pelo ex-companheiro, Diego Sansalone
(Piassi e Silva, 2026).
[4] Os dados são do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP)
conforme matéria jornalística (Lara, 2026).
Fontes:
Agência Senado (2026). Recorde de feminicídios é tema de debate
em comissão mista na quarta. “Senado Notícias”. 27. Fev. 2026. Disponível em:
<LINK>. Acesso em 6. Mar.
2026.
Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano
Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.
Lara, W. (2026). Maioria das vítimas de feminicídio desta semana
em SP tinha medidas protetivas; pedidos cresceram quase 1.000%. “G1”. São
Paulo. 26. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar.
2026.
Piassi, P.; Silva, L. R. (2026). Vítima de feminicídio registrou 10 boletins de ocorrência e teve dois pedidos de medida protetiva negados antes de ser assassinada pelo ex. “G1”. Bauru e Marília. 26. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026