20 março 2026

O maior dos elementares direitos: O Direito à Vida, por Débora Nogueira

 

O maior dos elementares direitos: 

O Direito à Vida, por Débora Nogueira

março 7, 2026 Administrador site ECK

Debora Nogueira, Atriz formada pela escola de Arte DramáticaDebora Nogueira, Atriz formada pela escola de Arte Dramática da USP, graduada em Publicidade e Propaganda, dramaturga, produtora Produtora, Oficineira, Dubladora, diretora e preparadora de atores, participação na série ensaio sobre a beleza do Grupo Caos, Diversos trabalhos para publicidade, cinema, TV, diretora do grupo de teatro Irmão X, Membro da Conselho de Gestão do ECK (Espiritismo Com Kardec).

Neste “Dia Internacional da Mulher” cabe-nos refletir acerca da realidade que vivemos, num mundo masculino e que ainda reserva o papel secundário para as mulheres. O feminismo não é uma luta contra os homens! Mas, sim, por efetiva igualdade, a igualdade de gênero, a igualdade de direitos e, dentre eles, o maior: o direito à vida!

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Nascemos com a marca da vida: geramos, amamentamos, carregamos (a)(as) vida(s). Física e psiquicamente (espiritualmente), as mulheres carregam muita coisa durante a vida: filhos, sacolas, culpa, casa, silêncio, homens, não ter filhos, pudor, medo.

Aprendemos a nos comportar, a sentar de pernas fechadas, a não chamar a atenção… Aprendemos a sermos recatadas: — Precisa ter jeito de menina e comportamento de menina! — sempre disseram…

E, quando a puberdade chega, com os hormônios a todo vapor, o medo cresce junto: o corpo muda e não sabemos o que fazer com tanta coisa acontecendo. Vem a menstruação: — Ahhhh! Cuidado! Agora você pode engravidar! — era a advertência.

E o medo segue crescendo. Muitas mulheres começam a frequentar as comunidades religiosas porque ali se sentem seguras… Mas, aí, justamente aqueles que deveriam acolher a menina, são os que dela abusam.

Também em casa, aqueles em que se deveria confiar, sentindo-se amada e protegida, também são os que abusam. Ignora-se os pedidos de socorro, a orientação sexual, o carinho e o apoio.

A outrora menina recatada, agora usa maquiagem, roupas sensuais e vira a “tentação” masculina. Somos, então, sempre culpadas, pela roupa, pelo corpo, pelo comportamento.

A hoje mulher, então, se une a alguém e a partir disso deve usar de todos os artifícios para permanecer “atraente”, dentro dos padrões enlouquecidos de beleza da sociedade.

Mulher, portanto, tem que ser sensacional: possuir um corpo escultural, uma pele incrível e, ainda, lavar, passar cozinhar, faxinar… Tudo com “nota mil” e permanecer sexy, muito sexy.

Quem resolveu que seria assim?

Mulheres pensam, estudam, se formam, cuidam de filhos (em casos, também, em que o pai sumiu). Ou, outros, que pagam uma pensão mínima e aparecerem duas vezes ao mês para visitar a prole. E, mesmo assim, acham que fazem o suficiente…

Precisamos dizer: a Mulher tem liberdade de escolha (olha o livre arbítrio aí!, tão falado no meio espírita). Mas, veja só que interessante! Sim, é fato (espiritual) que escolhemos as nossas provas (vide “O livro dos Espíritos”, item 258 [1]). Mas, com serenidade e logicidade, vamos refletir: — Será que uma mulher escolheu ser vitimada por seu próprio companheiro? Que Justiça Divina é essa? — pensamos, nós…

Mas é isso o que, muitas vezes, ouvimos no “meio” espírita… E isto nos dá tristeza tão profunda… Como sempre, as mulheres são culpadas, será que uma atitude dessas não implica quem feriu, matou, arrastou, bateu, estuprou, esfaqueou… Pois, a vergonha, a culpa, ficam com a vítima!

Muitas vezes, vemos muitas espíritas (ou que se dizem espíritas) usarem este argumento da escolha da prova. E, em consequência, é necessário se resignar, aguentar, pensar nos filhos, no que os outros vão dizer e muito mais…

Mas você pode pensar: — Ahhh mas isso é antigo, não é mais assim! E eu me pergunto porque ainda tantas mulheres são vitimadas hoje, agora, a cada minuto… Em 2025, de janeiro a dezembro, 1.470 mulheres foram mortas no Brasil, conforme dados oficiais (Ministério da Justiça e Segurança Pública [2]. Em Botucatu, no Estado de São Paulo, o maior da federação brasileira, recentemente uma mulher, entre tantas, infelizmente, foi morta mesmo tendo antes registrado dez boletins de ocorrência e três medidas protetivas [3]. Uma falha grave do governo estadual e da própria justiça.

É preciso fazer cumprir o que se registra no papel! Em São Paulo, os pedidos de medida protetiva saltaram de 10.804 (2015) para 118.258 [4].  Não podemos adotar o discurso de que não adianta procurar os direitos cabíveis, mas lutar para que eles se cumpram.

Esta é, pois, uma luta diária. E de todos! Vale lembrar a advertência contida em “O livro dos Espíritos”, item 919, que, como meio prático mais eficaz de aperfeiçoamento e de resistência ao mal, foi apontado o conhecimento de si mesmo, como o bom e velho Sócrates já havia predito, inspirado na inscrição expressa no Templo de Apolo (Oráculo de Delfos). Entretanto, este “conhecimento de si mesmo” acabou virou apenas e quase sempre uma citação, longe de ser buscado e vivenciado. Triste constatação, em um mundo ainda profundamente masculino.

Aliás essa “fábula” da mulher vir da costela do homem, já restou cansativa, própria de quem conserva, como fora um enlatado enterrado, valores morais velhos e empoeirados. As mais das vezes, como nesses crimes hediondos de feminicídio, se culpa a mulher por ela ser mulher. Transfere-se a responsabilidade do algoz para a vítima, e o primeiro, muitas vezes, sai ileso. Uns após outros repetem o mesmo comportamento violento, apoiados por seus pares. Segue, a mulher sendo propriedade, objeto, meio de reprodução, de prazer e, por isso, declaram eles, que ela deva se colocar no seu lugar. É como aquele rapaz que, ao ser preso, declara ao sair algemado, da viatura policial, que fez o que fez por ter sido traído… Imagine se toda mulher traída resolvesse dar o troco?!

Vivemos um esquema social onde, ainda, a mulher é vista como algo secundário, um personagem coadjuvante. Digo ainda, porque isto já foi até pior. Todavia, é preciso reacender o debate consciente para superar o pensamento concretizado que atravessa os séculos, num misto de falso moralismo agregado às prescrições das religiões. Estas últimas, em seus discursos de púlpitos e tribunas costumam resgatar falas do Antigo Testamento, interpretadas quase sempre ao pé da letra. São as costumeiras desculpas e justificativas para a continuidade da violência contra a mulher.

Lutar, pois, lado a lado, mulheres e homens é o necessário caminho; juntos, buscando entender a fundo as questões, solucionar problemas sem subterfúgios e, sobretudo, sem distorcer os ensinamentos dos grandes Mestres da Humanidade (entre eles, Jesus, tão falado, cheio de seguidores, que não conseguem sequer copiá-lo). A luta pela igualdade é constante, entre tantas outras. Como cantou Rita Lee, “prá variar, estamos em guerra”, e quem morre nesta guerra são as mulheres e as meninas pois podem procriar, apagar o futuro de um povo, quando não mortas são violadas para serem esmagadas pela vergonha ou gerarem os filhos dos inimigos.  Muitos que se dizem cristãos, caridosos, misericordiosos apoiam a guerra. Mais fácil ter inimigo do que fazer um trabalho de mudança de atitude, mudança de pensamento, entendimento, e que essas mudanças abrem caminhos para uma vida melhor em sociedade, melhor para o bem comum.

Neste “Dia Internacional da Mulher” cabe-nos refletir acerca da realidade que vivemos, num mundo masculino e que ainda reserva o papel secundário para as mulheres: os salários são menores; mulher falta mais no trabalho por causa dos filhos; que são propriedade, quando o companheiro acha que pode nos controlar, nos diminuir e abusar física e psicologicamente.

O que vemos nos noticiários é realmente assustador e o que se propaga nas redes sociais é, no mínimo, de fazer embrulhar o estômago. São os propagadores do ódio às mulheres, que se alastra feito uma erva daninha nos canteiros e plantações, fazendo crescer, em tenra idade, nas crianças e nos adolescentes essa ideia, como uma cartilha de ódio.

Onde deixamos o nosso senso de humanidade? Onde ficou a tão falada caridade? Onde está o amor? Onde estão os ensinamentos de Jesus?

O feminismo não é uma luta contra os homens! Mas, sim, por efetiva igualdade, a igualdade de gênero, a igualdade de direitos e, dentre eles, o maior: o direito à vida!

Nota:

[1] Kardec pergunta se o Espírito, quando errante, antes de iniciar uma nova existência corpórea (encarnação), tem a previsão do que lhe irá suceder, na vida física. As Inteligências Invisíveis lhe respondem: “Ele mesmo escolhe o gênero de provas que deseja sofrer; nisto consiste o seu livre-arbítrio”.

[2] A reportagem é da Agência Senado. Vide referência, abaixo.

[3] Júlia Gabriela Bravin Trovão e seu companheiro Diego Felipe Corrêa da Silva foram assassinados pelo ex-companheiro, Diego Sansalone (Piassi e Silva, 2026).

[4] Os dados são do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) conforme matéria jornalística (Lara, 2026).

Fontes:

Agência Senado (2026). Recorde de feminicídios é tema de debate em comissão mista na quarta. “Senado Notícias”. 27. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Lara, W. (2026). Maioria das vítimas de feminicídio desta semana em SP tinha medidas protetivas; pedidos cresceram quase 1.000%. “G1”. São Paulo. 26. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026.

Piassi, P.; Silva, L. R. (2026). Vítima de feminicídio registrou 10 boletins de ocorrência e teve dois pedidos de medida protetiva negados antes de ser assassinada pelo ex. “G1”. Bauru e Marília. 26. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026