O mundo entrou na era da
falência hídrica global
O abastecimento de água no mundo
entrou em uma era de falência, após décadas de uso intensivo e excessivo,
poluição, degradação do solo, desmatamento e agravamento pelas temperaturas
climáticas. Esse é o cenário preocupante apresentado no relatório Falência
hídrica global: vivendo além dos nossos recursos hidrológicos na era pós-crise ,
lançado em 20 de janeiro de 2026, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e
Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH, 2026).
O demonstrativo foi divulgado
antes de uma reunião de alto nível em Dacar, no Senegal, ocorrida nos dias 26 e
27 de janeiro. O encontro teve como foco a preparação da Conferência da ONU
sobre a Água de 2026, que será realizada nos Emirados Árabes Unidos, na
primeira semana de dezembro.
A falência hídrica é o resultado
da extração excessiva e persistente de águas superficiais e subterrâneas em
volume superior aos fluxos renováveis e aos níveis seguros de depleção. Usando
analogias financeiras, o relatório afirma que muitas sociedades não apenas
gastaram em excesso sua “renda” anual de água renovável, proveniente de rios,
lagos, solos e neve derretida, como também esgotaram suas “reservas” de longo
prazo, existentes em aquíferos, geleiras, zonas úmidas e outros reservatórios
naturais.
Os dados, as evidências
científicas e as estatísticas recentes apresentadas no relatório são
contundentes ao tratar da “falência hídrica”, causada principalmente pelas
ações e decisões de uma parcela da humanidade. Seus efeitos atingem de forma
mais grave as populações vulneráveis, assim como inúmeros outros seres não
humanos. Seguem alguns exemplos (UNU-INWEH, 2026):
- 75% da população mundial residem em
países classificados com insegurança hídrica ou insegurança hídrica
crítica. Cerca de 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável, e
3,5 bilhões não contam com tratamento de esgoto. Aproximadamente 4 bilhões
de pessoas sofrem com grave escassez de água por pelo menos um mês ao ano;
- mais da metade dos grandes lagos do mundo
perdeu volume desde o início da década de 1990, afetando cerca de 25% da
humanidade, que depende diretamente desses reservatórios;
- as águas subterrâneas fornecem atualmente
cerca de 50% do consumo doméstico global de água e mais de 40% da água
utilizada na irrigação. Isso vincula diretamente a segurança da água
potável e a produção de alimentos aos aquíferos, que estão se esgotando
rapidamente. Aproximadamente 70% dos principais aquíferos do planeta
apresentam tendências de declínio a longo prazo;
- a extração excessiva de água subterrânea
já contribuiu para uma significativa subsidência do solo – movimento
relativamente lento de afundamento – em mais de 6 milhões de quilômetros
quadrados, o que corresponde a quase 5% da área terrestre global. Estão
incluídos mais de 200 mil quilômetros quadrados de zonas urbanas
densamente povoadas, onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas;
- o mundo já perdeu, em diversas regiões,
mais de 30% de sua massa glaciar desde 1970, comprometendo a segurança
hídrica de longo prazo de centenas de milhões de pessoas que dependem de
rios alimentados por geleiras e pelo derretimento da neve para
abastecimento, irrigação e geração de energia hidrelétrica;
- aproximadamente 70% da água doce retirada
globalmente é utilizada na agricultura. Cerca de 3 bilhões de pessoas e
mais da metade da produção mundial de alimentos estão localizadas em áreas
onde o armazenamento total de água – incluindo água superficial, umidade do
solo, neve, gelo e água subterrânea – já está diminuindo ou se mostra
instável;
- em muitas bacias hidrográficas, a
poluição proveniente de águas residuais não tratadas ou tratadas de forma
inadequada, do escoamento agrícola, de efluentes industriais e de mineração,
além da salinização, faz com que uma parcela crescente da água não seja
mais segura ou economicamente viável para o consumo humano, a produção de
alimentos ou a manutenção da vitalidade dos ecossistemas;
- nas últimas cinco décadas, o mundo perdeu aproximadamente 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais – área quase equivalente à da União Europeia –, incluindo cerca de 177 milhões de hectares de pântanos e brejos interiores.
“A humanidade não está vivendo uma crise hídrica passageira, mas uma
falência estrutural provocada por décadas de abuso dos recursos naturais.”
Todos esses dados são
extremamente graves e preocupantes, considerando que a água é um elemento
fundamental para a vida no planeta Terra. Foi da água que a vida surgiu. Cerca
de 70% do corpo de um adulto humano é constituído por esse elemento. A
quantidade e a qualidade da água consumida diariamente são fatores decisivos
para a saúde humana. Enquanto estivermos encarnados, precisamos consumir água,
seja de forma direta ou indireta, por meio dos processos envolvidos na produção
de recursos essenciais à vida, como alimentação, moradia, vestuário, locomoção,
saúde e saneamento.
Na obra Nosso Lar, o
mentor espiritual Lísias, ao comentar a importância que os encarnados atribuem
ao tema da água, chama-nos a atenção ao afirmar que “o homem é desatento, há
muitos séculos; o mar equilibra-lhe a moradia planetária, o elemento aquoso
fornece-lhe o corpo físico, a chuva dá-lhe o pão, o rio organiza-lhe a cidade,
a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço; entretanto, ele
sempre se julga o absoluto dominador do mundo” (Luiz, 2019, cap. 10). Essa
reflexão evidencia a abrangência do uso da água em áreas essenciais da
existência humana, às quais, há muito tempo, não temos dedicado a atenção
necessária.
Falando a jornalistas em Nova
York, Kaveh Madani, diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da
Universidade das Nações Unidas, afirmou que, se a humanidade continuar tratando
essa falência como uma crise temporária, apostando apenas em soluções de curto
prazo, “o dano ecológico tende a se aprofundar, alimentando conflitos sociais”.
Ele enfatizou que a falência hídrica é uma questão séria de justiça e segurança
globais (ONU, 2026).
“A água, direito humano fundamental, vem sendo apropriada por poucos,
enquanto bilhões enfrentam escassez, adoecimento e conflitos.”
A água é um direito humano
fundamental. Na questão n. 880 de O livro dos Espíritos, a
espiritualidade superior esclarece que “o primeiro de todos os direitos
naturais do homem é o de viver. E por isso que ninguém tem o direito de atentar
contra a vida do semelhante ou de fazer qualquer coisa que possa comprometer a
sua existência corpórea”. Entretanto, a falência hídrica, que compromete a
saúde e o bem-estar de bilhões de pessoas, é impulsionada pela ambição de uma
pequena elite, que se apropria e abusa dos recursos hídricos em detrimento da
coletividade. Esse comportamento tem levado ao aumento de conflitos em diversas
regiões do planeta.
“A escassez de água está se tornando
um fator de fragilidade, deslocamento e conflito”, afirma o subsecretário-geral
da ONU, Tshilidzi Marwala, reitor da Universidade das Nações Unidas (Relatório
[…], 2026). Os conflitos relacionados à água aumentaram de 20, em 2010, para
mais de 400 em 2024. O relatório destaca, por fim, que os governos devem
concentrar esforços na “gestão da falência”, prevenindo danos irreversíveis,
transformando setores de alto consumo hídrico – como a agricultura e a
indústria – e priorizando transições justas para as comunidades vulneráveis. A
água é uma questão que transcende fronteiras nacionais.
O Objetivo de Desenvolvimento
Sustentável 6 (ODS 6) – Água Potável e Saneamento – é amplamente reconhecido
como um facilitador fundamental para o cumprimento de todos os demais 16
objetivos da Agenda 2030. Ele constitui a base para a saúde, a economia e os
ecossistemas funcionais, sendo impossível alcançar o desenvolvimento
sustentável sem garantir água e saneamento para todos.
Precisamos reconhecer, com
urgência, a importância da água para a vida dos seres humanos e não humanos no
planeta Terra. Devemos apoiar ou participar de organizações que atuam nessa
área, bem como eleger representantes comprometidos com a gestão responsável da
água nos âmbitos municipal, estadual e federal, para a criação de leis que a
preservem e a protejam em favor do bem comum. Assim, contribuiremos para a
construção das bases do mundo de regeneração.
Cuidar da água é cuidar da vida.
Como você está cuidando dela?
Água é sinônimo de vida!
“Cuidar da água deixou de ser uma escolha ambiental e passou a ser uma
exigência ética, social e espiritual.”
Referências
KARDEC, Allan. O livro
dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF:
FEB, 2019. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/WEB-Livro-dos-Esp%C3%ADritos-Guillon-1.pdf. Acesso em: 30 jun. 2026.LUIZ, André (Espírito). Nosso
Lar. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB,
2019. (Coleção A Vida no Mundo Espiritual, 1)
Publicado no Jornal Folha
Espírita, edição de fevereiro/2026.