Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires.
Antonio Damasio: a consciência
como produto do
corpo — ciência, limites e
diálogo com o Espiritismo
Na entrevista concedida ao El País por ocasião do lançamento de Inteligência Natural e a
Lógica da Consciência, o neurocientista português Antonio
Damasio reafirma e aprofunda sua tese central: a consciência não nasce de
uma mente abstrata separada do corpo, mas de um processo biológico
integrado em que cérebro, sistema nervoso e corpo inteiro atuam como um
circuito contínuo.
Ao longo de três décadas, desde O Erro de Descartes (1994),
Damasio vem atacando o dualismo cartesiano — a separação entre mente e corpo —
propondo um monismo biológico: a mente é atividade do organismo
vivo; a consciência emerge da autorregulação corporal e das sensações internas
(homeostáticas).
Seu novo passo teórico reposiciona a origem da consciência,
deslocando o foco do córtex cerebral para estruturas mais
primitivas do sistema nervoso, em especial o tronco encefálico,
onde se processam os sinais de interocepção — percepções internas do estado do
corpo — que dão origem aos sentimentos básicos: dor, prazer, fome,
sede, conforto, mal-estar.
Damasio propõe uma inversão do senso comum: “Não sentimos porque
somos conscientes; somos conscientes porque sentimos.”
Ou seja, os sentimentos precedem a consciência, constituindo
sua matéria-prima fundamental. A consciência seria um sistema de “sentinelas”
biológicas que monitoram continuamente o estado da vida corporal, permitindo ao
organismo reconhecer-se como uma unidade individual em ação no mundo.
Consciência: não como abstração, mas como biologia vivente
Segundo o neurocientista, não existe consciência sem sistema nervoso. Por isso:
·
Plantas e bactérias não são conscientes, ainda que
vivas e complexas;
·
Animais com sistemas nervosos são conscientes, embora em
graus distintos de elaboração;
·
A consciência humana decorre não apenas da
complexidade neuronal, mas também de nossa vida social, baseada em
empatia, detectação da vulnerabilidade alheia e relações simbólicas.
Essa concepção reforça o deslocamento contemporâneo
da neurociência: da ideia de uma consciência puramente cortical — centrada na
racionalidade abstrata — para uma consciência afetiva, orgânica e
encarnada.
Inteligência Artigficial: potência instrumental, não consciência humana
Um ponto forte da entrevista é a reflexão de Damasio sobre a possibilidade de consciência artificial. Ele abandona sua posição anterior — totalmente cética — para assumir uma visão mais cautelosa: poderia surgir algum tipo de consciência artificial, mas não comparável à humana.
O motivo do limite é fundamental: sistemas
artificiais não estão vivos, não possuem corpo vulnerável, nem inserção social
orgânica. Sentir implica carne, dor, prazer e risco existencial — experiências
inexistentes em máquinas.
Assim, embora a IA possa resolver problemas
complexos superiores aos humanos (ex.: AlphaFold), isso não implica subjetividade,
mas apenas potência computacional. Para Damasio, a inteligência
artificial nasce da inteligência natural: os próprios neurônios
mielinizados — responsáveis pelo processamento “digital” humano — inspiraram os
sistemas computacionais.
A consciência genuína permaneceria atrelada a organismos
biológicos vulneráveis, integrados numa teia emocional e social.
Tratamento de estados alterados de consciência
Os avanços de Damasio têm reflexos clínicos: ao reconhecer o papel central do tronco encefálico e da interocepção na consciência, abre-se uma nova via para compreender e tratar casos de:
·
Coma
- Estados
vegetativos
·
Distúrbios graves da percepção corporal
Em vez de focar exclusivamente no córtex — tradicional alvo da
neurologia cognitiva —, a pesquisa volta-se para sistemas mais primários,
responsáveis pela manutenção da sensação de existência.
A síntese atual da posição de Damasio
Podemos resumir sua tese contemporânea em quatro eixos fundamentais:
1. Consciência
nasce dos sentimentos corporais, não da abstração racional.
- O
cérebro consciente é um órgão de regulação vital, não
um epifenômeno metafísico.
- Sem
corpo vivo não há consciência, o que afasta uma eventual equivalência
homem-máquina.
- A vida social e a empatia ampliam a consciência humana, distinguindo-nos qualitativamente dos sistemas artificiais.
Quando colocadas em diálogo com o Espiritismo, as ideias de Damasio revelam tanto convergências parciais quanto tensões profundas.
Convergências
Centralidade do sentimento
O Espiritismo afirma que a consciência moral nasce da sensibilidade
espiritual. Kardec escreve: “O sentimento precede a razão.” (O Livro
dos Espíritos, q. 117). Isso converge com a ideia de Damasio de
que sentir é anterior ao pensar.
Caráter progressivo da consciência
Para o Espiritismo, a consciência evolui em graus; a
inteligência e a percepção moral ampliam-se lentamente através das experiências
encarnatórias. Em Damasio, vemos eco dessa visão gradualista ao
reconhecer:
o
Consciência em graus nos animais;
o
Desenvolvimento dependente da complexidade dos
sistemas biológicos e sociais.
Integração mente–corpo
Kardec rejeita o dualismo
simplista que opõe matéria e espírito como substâncias antagônicas. O Espírito
age por meio do corpo, através do perispírito, intermediário da
percepção. Damasio, ainda que materialista, também rejeita o dualismo
cartesiano, defendendo a unidade funcional entre mente e organismo.
Tensões e divergência fundamentais
Origem última da consciência
- Damasio: consciência
é produto exclusivo do sistema nervoso biológico.
- Espiritismo: consciência
é atributo essencial do Espírito, pré-existente ao corpo e
sobrevivente à morte física.
Para Kardec, “A consciência é a voz da alma.” (Obras Póstumas). No
espiritismo, o cérebro não produz a consciência, mas a
manifesta e a filtra na experiência encarnada.
Vida sem corpo
Damasio afirma que sem sistema nervoso não pode existir
consciência. Já o Espiritismo sustenta exatamente o contrário:
- A
consciência subsiste após a morte;
- Estados
de lucidez pós-morte são observáveis em comunicações mediúnicas e fortes
relatos de experiências de quase-morte (EQMs), amplamente
estudadas na atualidade por pesquisadores como Pim van Lommel, Bruce
Greyson e Sam Parnia.
Segundo a doutrina espírita, o Espírito conserva suas faculdades
intelectuais e morais após a separação do corpo.
IA e consciência
Aqui ocorre um curioso ponto de aproximação inesperada:
- Para
Damasio: IA não pode ter consciência humana plena.
- Para o
Espiritismo: só o Espírito, princípio inteligente do universo,
pode ser sujeito consciente.
A máquina não encarna Espírito; logo, pode simular respostas, mas não
viver experiência consciente real.
Síntese crítica
Damasio representa uma das mais sofisticadas tentativas
contemporâneas de explicar cientificamente a consciência sem recorrer ao
dualismo clássico, deslocando o foco da racionalidade pura para o sentir
orgânico. Contudo, sua explicação permanece restrita ao plano
neurobiológico, incapaz de responder às perguntas últimas:
- Por
que existe a experiência subjetiva?
- O que
faz do “sentir” uma vivência íntima, não redutível a reações químicas?
- Por
que existem relatos consistentes de consciência além do corpo físico?
Nesse ponto, a ciência de Damasio descreve o “como” do sentir
consciente, mas permanece silenciosa quanto ao “quem” da
consciência, dimensão na qual o Espiritismo propõe uma ampliação
ontológica: o Espírito como sujeito da experiência. Assim,
ciência e Espiritismo não se anulam — operam em campos diferentes:
- A
neurociência explica o mecanismo.
- O
Espiritismo interroga o sentido e a continuidade da consciência.
O diálogo entre ambos permanece aberto — como o próprio Damasio
reconhece ao admitir que não é mais possível falar da consciência com a
segurança conceitual de poucas décadas atrás. E talvez seja justamente aí
que ciência e espiritualidade se encontrem:
na consciência não como dogma fechado, mas como o maior mistério em
permanente aprofundamento humano.
Sua formulação está precisa e muito bem colocada — e
pode ser ainda mais clarificada conceitualmente com um pequeno
ajuste de linguagem para mostrar que a “dualidade” não é exatamente simétrica,
mas ontologicamente diferente em cada campo. Identificando
corretamente o ponto central:
- Para
Damasio e a neurociência contemporânea:
A consciência emerge do corpo. Ela só existe com o corpo e resulta da atividade integrada do sistema nervoso e das sensações corporais (interocepção, homeostase, emoção). Não precede o organismo biológico nem sobrevive fora dele. Trata-se de uma consciência emergente e dependente — produto e função do organismo. - Para o
Espiritismo:
A consciência não emerge do corpo, mas se manifesta através dele.
Ela: - precede
o corpo (o Espírito existe
antes da encarnação),
- coexiste
com o corpo durante a vida
física (mediada pelo cérebro e pelo perispírito),
- sobrevive
à morte do corpo (mantendo memória,
identidade e lucidez).
Ambas as visões reconhecem uma relação permanente entre
consciência e corpo durante a encarnação — este é o ponto de
convergência enfatizado corretamente. O que diverge não é a relação funcional,
mas a origem e a ontologia da consciência.
Onde está o verdadeiro contraste
A distinção essencial pode ser expressa assim:
Visão neurocientífica (Damasio)
O corpo gera a consciência.
Sem corpo → sem consciência.
Visão espírita
O Espírito usa o corpo para expressar a consciência.
Sem corpo → consciência continua existindo.
Ou seja:
- Na
ciência → o corpo é causa da
consciência.
- No
Espiritismo → o corpo é instrumento da
consciência.
Esse é o eixo da diferença profunda.
O ponto muitas vezes mal compreendido
É importante ressaltar algo: O Espiritismo não nega a dependência funcional entre consciência e corpo enquanto estamos encarnados. Kardec jamais ensinou que o Espírito se expressa independentemente do cérebro durante a vida física. Pelo contrário:
- O
cérebro é o órgão da manifestação do pensamento;
- Alterações
cerebrais afetam a expressão da consciência;
- Estados
patológicos limitam ou distorcem a percepção do Espírito encarnado.
Em O Livro dos Espíritos encontramos claramente: “É o
cérebro que preside às manifestações do pensamento.” (q. 146) Portanto:
- Ciência
e Espiritismo concordam que:
- Sem o
cérebro íntegro não há expressão normal da consciência na vida física.
- O
sofrimento corporal (como observa Damasio) interfere no sentir, no querer
e no perceber.
A divergência não está em como a consciência se expressa na
carne, mas em o que ela é em sua essência profunda.
Duas interpretações do mesmo fenômeno
Ambas as abordagens observam o mesmo fato: a consciência encarnada nasce, cresce e se desenvolve em correlação íntima com o corpo. A diferença surge quando tentam responder à pergunta metafísica: de onde vem essa consciência?
Uma nuance importante
Existe uma zona de diálogo: Damasio demonstra que a consciência humana concreta — tal como a experienciamos — depende da integração cérebro–corpo. O Espiritismo concordaria: a consciência encarnada depende do cérebro. O Espiritismo, porém, acrescenta: essa não é a consciência total do Espírito, mas apenas sua forma condicionada à encarnação.
Assim, o mesmo fenômeno recebe duas leituras complementares:
- Para o
cientista: “a consciência nasce do corpo.”
- Para o
espírita: “a consciência se individualiza e se manifesta plenamente no
corpo.”
Nesse ponto, a divergência deixa de ser apenas científica e passa a
ser ontológica:
- Materialismo
emergentista → o espírito não existe;
a consciência é efeito da matéria organizada.
- Espiritismo →
a consciência existe por si como princípio inteligente, usando
a matéria como meio de expressão.
- A
ciência moderna descreve com precisão crescente os mecanismos de
emergência da consciência corporal.
- O
Espiritismo propõe que esses mecanismos são o meio de expressão de
algo que não nasce na matéria.
Por isso, o diálogo real não é entre “ciência versus espiritualidade“,
mas entre:
- uma
ciência que descreve “como” a consciência funciona,
- e uma
filosofia espiritual que pergunta “quem” é o sujeito consciente e “de
onde” ele vem.
O que se aponta com rara clareza
é exatamente isso: a diferença não está no funcionamento; está na
origem e no destino da consciência. E aí se encontra o verdadeiro eixo
de reflexão contemporânea sobre o tema.