Os Quatro Atores da Convivência Grupal
(virtual ou presencial)
Vivemos,
definitivamente, tempos difíceis.
Insatisfações,
protestos, desabafos, intransigências, personalismos, deseducação e ausência de
mínimos padrões de ética e elegância nos relacionamentos interpessoais.
Se, no
campo presencial, as pessoas têm embates que vão às vias de fato e importam em
agressões verbais, psicológicas e até físicas, as redes sociais também
alimentam uma epidemia de ódio generalizado.
Tanto que
uma simples manifestação de opinião, que caracteriza o percurso da Humanidade
até chegar a este terceiro milênio de nossa era e identifica não só os
progressos culturais, tecnológicos e das ciências em geral, como é a marca do
desenvolvimento intelectual e espiritual dos homens que se encontram encarnados
– assim como a comunidade dos desencarnados que nos rodeia e que participa da
vida neste orbe, por meio das relações que travam com os humanos – é motivo
para apedrejamentos, linchamentos e atos de visível barbárie.
Ainda
que, vez por outra, se vislumbrasse a paixão na defesa de dados pontos de
vista, nos diálogos em ambientes sociais característicos como escolas,
universidades, centros de cultura e associações – incluindo-se, aí, as chamadas
agremiações religiosas ou filosóficas – o que poderia desembocar em
posicionamentos mais ácidos ou ríspidos de parte a parte, o que se vê, hoje,
muito mais virtualmente, é verdade, do que presencialmente, mas sem afastar a
problemática nos “ambientes reais”, é a animosidade explícita e a incapacidade
de aprender com o outro, suas vivências, experiências, exemplos e, é claro, a
manifestação (expressa) do seu pensamento.
Não que
este que vos escreve esteja em posição equidistante das “partes” envolvidas nos
diálogos, debates e embates.
Longe disso.
Também
nos encontramos inseridos em mídias sociais, em redes e sistemas virtuais, além
das situações da vida convivial fora do espaço cibernético.
Não somos
nenhum sociólogo ou cientista social, nem jornalista observador de eventos ou
fatos, para tecer diagnoses e conclusões, ou construir teses.
No dia a
dia, igualmente nos vemos diante da expressão do pensamento (próprio ou
alheio), e da ambiência do contraditório, quando o outro também, pelo mesmo
princípio de liberdade de expressão, manifesta seus sentimentos e ideologias.
E, assim,
podemos ser bombeiros ou incendiários, afetos ou desafetos, equilibrados ou
violentos, compreensivos ou despóticos, em diversas situações do cotidiano da
virtualidade, ou, como também ocorre, dos cenários dos ambientes existenciais,
sem recursos da tecnologia.
Como é que você, usualmente, se comporta?
Na defensiva ou na ofensiva?
Expressa-se pelo prazer da dialógica, da maiêutica e
da simbiose proativa e produtiva?
Ou prefere a simples contestação e a demonstração de
(discutível) sabedoria sobre este ou aquele tema?
Adota o
posicionamento conciliatório, para desfrutar da oportunidade de inter-relação,
onde outros prismas diferentes do seu serão conjugados, ou prefere a
intransigente declaração do ponto final de uma discussão, usando das armas e
ferramentas que sejam de sua especialidade: a verve fácil, a ironia
pronunciada, o sarcasmo que impõe o vexatório, a dúvida de
argumentos-satélites, ou, até, o descredenciamento ou desqualificação seja do
interlocutor seja das ideias ou argumentos por ele apresentados?
É instante de reflexão, de introspecção e de
autoconhecimento, convenhamos.
Oportunidade
de rever trajetos, comportamentos, atitudes e crenças (por que não?), ainda que
estas nada tenham a ver com dogmas religiosos.
Agostinho de Hipona, reconhecido um dos maiores pensadores da Idade Antiga, na Grécia Socrática, expoente filosófico, além das lições que deixou enquanto personagem
vivo, pôde se manifestar na obra primeva de Allan Kardec, recomendando a (profunda) reflexão,
ao final de cada dia, no travesseiro da própria consciência, para projetar o(s)
dia(s) vindouro(s), seja pelo investimento pessoal e dedicação ao cultivo de
virtudes (existentes ou novas, hauridas pela experiência do somatório dos
dias), assim como na superação de vícios (não os que hodiernamente são
“combatidos”, porquanto ligados à saúde e à expressão física exterior, também
deletérios, em grande parte, mas aos íntimos, os de postura comportamental e de
aplicabilidade aos relacionamentos humanos).
Há pessoas que são belicosas por natureza.
Adoram
provocar e ficam à espreita da polêmica para extravasar certos sentimentos
ainda inferiores.
Tais
acabam sendo “perigosas” para a convivência coletiva, porquanto provocam a
animosidade ou a cultuam, mesmo já asserenados os ânimos da discussão vencida
(mas sem vencedores, porquanto o aprendizado deva ser compartilhado por todos
os partícipes).
Em
relação a essas, o recomendável é ter serenidade para explicitar as ocorrências
e balizar-lhes as atitudes, para que, no adágio popular, não se perca o cesto
de laranjas pela ascendência de um exemplar que amplifique problemas
(insolúveis).
Em
paralelo, há os que não se distanciam dos embates, por natureza íntima e
repetida, os que gostam das situações de oposição de ideias, em elegia à busca
da verdade (ainda que essa seja, como em todas as coisas da caminhada, efêmera
e fugidia, posto que possa ser, já à frente, superada ou suplantada, perdendo a
relevância e o caráter de definitividade), e que, de outra sorte, procuram o
ambiente dialogal para exercitar o seu poder individual de convencimento do(s)
outro(s).
Há,
ainda, os que são pacificadores, que têm poesia na fala e música no trato com
os demais, e estes não precisam estar sempre em visível manifestação, já que é
comum que eles atuem, também, nos “bastidores”, procurando particularmente
conversar, de forma amistosa, e pedir que sejam observadas regras e que seja
possível observar outros pontos de vista, diferentes do seu.
Ademais,
existem os expectadores, que raramente (ou nunca) se pronunciam, e que parecem
– ainda que a definição não se aplique a todos – estar aguardando o “circo
pegar fogo” para observar, de longe, mas atentamente, as agruras e os percalços
do ambiente, podendo, inclusive, comentar em particular com outros, do sistema
ou não, acerca do que julgam em relação a atitudes alheias.
Em qual
dos grupos você, costumeiramente, está inserido? Em que posição você atua? Que
conforto ou satisfação experimenta sendo expoente de um desses subsistemas?
Dependendo da temática e da existência ou não de conflitos, você percebe sua
migração de um para outro grupo? Como é a constância das situações em que você
está inserido e se é possível verificar mutações qualitativas e aprendizados em
suas atitudes e participações?
Tudo isto
merece alguns minutos de sua concentração – ou minha – e esta deve ser buscada
e repetida inúmeras vezes.
Há os que
preferem, ao primeiro sinal de fumaça, abandonarem a convivência, a rede, a
instituição, o trabalho, a associação, em face da manutenção do seu conforto.
Há os que diminuem a constância, para não serem “contaminados” com algumas
posturas mais incisivas e, por vezes, violentas. E há os que entendem possível
contribuir para a melhora das ambiências, aproveitando situações para trazer
exemplos reais, suscitar orientações e conselhos úteis, ou promover a concórdia
e o ajuste entre os que estiveram em ocorrências mais agudas de
desentendimento.
Lembrando
o Sublime Carpinteiro que exortou acerca da utilidade do sal nos alimentos e
preconizou a impertinência da água parada e doentia, assim como da temperatura
morna, quando deveria ser quente ou fria, conforme a pertinência de seu
proveito, é necessário que sejamos artífices, personagens e atores dos
contextos onde somos. E não coadjuvantes mudos e amorfos ou partes do cenário.
As
convivências (presenciais e virtuais) precisam de pessoas que se disponham a
construir, propondo alternativas, discutindo teses e antíteses em busca de
sínteses proveitosas, ainda que estas possam dar lugar, adiante, à confrontação
pacífica entre novas teses e antíteses, em claro processo de renovação das
ideias.
Será que você pode ser considerado, então, um construtor?
Ou sua opção é, apenas, pela destruição, sem o compromisso de
reconstrução, subsequente?
O momento
transformador de nossa existência pressupõe compromisso, vontade e atitude. E
eu tenho certeza que você pode atuar, ao invés de ser um mero expectador ou
alguém que simplesmente resolveu desistir. Não é?
*Jornalista, Advogado e Administrador, formado pela Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Administração Pública e Auditoria
(UDESC). Mestre em Ciência Jurídica (Univali). Cursou Doutorado em Direito, na
Argentina (Universidad Católica de Santa Fé). Atualmente é Doutorando em
Administração (UFSC). Auditor Fiscal de Controle Externo, do Tribunal de Contas
de Santa Catarina, desde 1989. Professor de primeiro e segundo graus, até 2000
e Professor Universitário de Graduação e Pós-Graduação, desde 2001. Jornalista.
Advogado e Consultor de Políticas Públicas. Perito Ambiental. Acadêmico da
Oficial Academia Tijuquense de Letras. Espírita desde 1981, médium auditivo e
de psicografia. É Coordenador-Geral do Grupo "Espiritismo COM
Kardec". Presidente da Associação dos Divulgadores Espíritas de Santa
Catarina (ADE-SC). Foi membro da Associação Brasileira de Jornalistas e
Escritores Espíritas (Abrajee). Ex-Gestor da Associação Brasileira de
Divulgadores do Espiritismo (Abrade). Delegado da CEPA Associação Espírita
Internacional. Editor-Chefe da Revista Espírita Eletrônica Harmonia. Escritor,
possui sete livros publicados e centenas de artigos em periódicos e sites espíritas
e jurídicos, além de artigos em revistas acadêmicas e profissionais. Livros:
“Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME); “Comentários ao Estatuto do Idoso” (Ed.
LTr); “Crônicas de Advogados” (Ed. OAB/SC); “Alteridade: a diferença que soma”
(Ed. Inede/Abrade); “Anuário da Oficial Academia Tijuquense de Letras” (Ed.
OATL); “O Tripé Redentor” (EdECK); "Temos Sede" (Ed. Comenius).
* Artigo do site: - https://www.comkardec.net.br/convivencia/ (
outubro/2019)


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