Herivelto Carvalho*CEPA 80 ANOS DE HISTÓRIA
Herivelto Carvalho*CEPA 80 ANOS DE HISTÓRIA
DA RELIGIÃO AO LIVRE
PENSAMENTO
A contribuição da CEPA
para o atual estágio do espiritismo no Brasil
A Pré-História da CEPA no Brasil
Na
oportunidade em que a CEPA – Associação Espírita Internacional (ex-
Confederação Espírita Pan-Americana) completa oitenta anos de fundação (Buenos
Aires, outubro de 1946), é oportuno salientar alguns aspectos ligados à sua
presença no Brasil.
Embora,
ainda nos primórdios de sua existência, tenha realizado seu 2º Congresso
Espírita Pan-Americano, na então capital brasileira, Rio de Janeiro (outubro de
1949), tendo, inclusive, ali, sido eleito um brasileiro para sua presidência,
Pedro Delfino Ferreira, a presença da CEPA, aqui, nas décadas seguintes,
encontrou sérias dificuldades de expansão.
O
perfil marcadamente religioso de que se havia impregnado o espiritismo no
Brasil, a partir, notadamente, da visão roustainguista oficialmente adotada
pela Federação Espírita Brasileira, distanciava o movimento espírita do país da
orientação kardecista, que, desde seu nascimento, caracterizara a CEPA.
Acresça-se
à condição acima, a influente atuação do médium Francisco Cândido Xavier e sua
caudalosa obra mediúnica, sustentada por autores espirituais de forte
impregnação cristã/católica. Plasmou-se, assim, aqui, a “religião espírita”, de
natureza eminentemente evangélica e escassamente afeita a aspectos científicos
e filosóficos, propostos na obra do fundador do espiritismo, Allan Kardec.
Por
essas razões, o esforço de Deolindo Amorim e de seus companheiros da então Liga
Espírita do Brasil, promotores do segundo Congresso da CEPA, sediado no Brasil,
naquele 1949, foi lentamente se dissipando, a ponto de tornar praticamente
desconhecida, em terras brasileiras, uma instituição que fora fundada com o
objetivo de congregar todo o movimento espírita das Américas.
Mais
que isso, e também por forte influência de espíritos que se identificavam como
autores espirituais das obras de Chico Xavier, a Federação Espírita Brasileira
se auto investira da condição de condutora do movimento espírita mundial,
escudada em “manifestações proféticas”, presentes no livro “Brasil, Coração do
Mundo e Pátria do Evangelho” (FEB 1938), de autoria espiritual atribuída ao
escritor brasileiro Humberto de Campos (1886/1934). O chamado, então, movimento de “unificação”,
imposto à rede de instituições brasileiras, não recomendava qualquer vínculo
com outro organismo que não a FEB e, tampouco, outra visão doutrinária que
fugisse ao chamado “triângulo emanuelino”. Este classificava o espiritismo como
“ciência, filosofia e religião”, dando primordial importância ao último aspecto
e minimizando os demais.
O retorno da CEPA ao Brasil
Nos
anos 90 do século passado, ocorre o retorno da CEPA e de sua proposta
doutrinária ao Brasil. Trata-se de um cuidadoso e corajoso trabalho feito por
iniciativa do então presidente da instituição, o venezuelano Jon Aizpúrua.
No
ano de 1994, Aizpúrua, tendo iniciado seu segundo mandato na presidência da
CEPA, e conhecedor profundo que sempre se mostrara da história e do perfil do
espiritismo brasileiro, inicia uma série de contatos com pessoas e instituições
espíritas que, àquela altura, contestavam a postura da FEB e seu religiosismo,
e assumiam uma postura laica e livre-pensadora, fortemente fundada na obra de
Allan Kardec.
Atendendo
a convite formulado por Aizpúrua, instituições espíritas sediadas nos Estados
de São Paulo e Rio Grande do Sul, passaram a aderir formalmente à CEPA,
iniciando a formação de uma rede de pessoas e instituições que, num primeiro
momento, direcionaram sua ação no sentido de divulgar o espiritismo no Brasil
não mais como uma “religião”, mas como um movimento espiritualista de caráter
laico e livre-pensador, tendo por base as obras do fundador do espiritismo, o
francês Allan Kardec.
O
esforço de Aizpúrua que, na época, fez várias visitas ao Brasil, pronunciando
conferências, contactando com centros e grupos espíritas abertos às propostas
da CEPA e concedendo entrevistas a jornais, emissoras de rádio e TV, motivou a
formação de uma delegação de cerca de 60 pessoas a Buenos Aires, em outubro de
1996, para participarem do 17º Congresso Pan-Americano de Espiritismo.
O
Congresso seguinte, no ano de 2.000, teria por sede, novamente, o Brasil, em
Porto Alegre, onde o autor deste artigo foi eleito presidente da CEPA, cargo
que ocupou por dois mandatos, (2000/2004 e 2004/2008). Consolidava-se, ali, a
presença institucional da CEPA no Brasil.
Mais
tarde, e também por dois mandatos (2012/2016), a também brasileira, Jacira
Jacinto da Silva (São Paulo) presidiria a CEPA, em cuja gestão, em Congresso
realizado na Argentina, a instituição tomou a atual designação: CEPA –
Associação Espírita Internacional.
Desenha-se um novo perfil do espiritismo
no Brasil
As
breves anotações acima, sem nenhuma pretensão de abranger toda a história da
CEPA, no Brasil, servem apenas para situar o leitor numa sequência histórica
que plasma o despertar de um novo perfil não exatamente institucional, mas
eminentemente social e filosófico, da proposta espírita, no seio da sociedade
brasileira.
Abandonando
a ideia que inspirara sua fundação, ainda na primeira metade do Século 20, e
que era de congregar todo o movimento espírita pan-americano, a CEPA assumia
outro perfil: o de uma entidade capaz de representar uma significativa ala do
espiritismo mundial, dissociado de uma visão religiosa, fideísta, para tratá-lo
e difundi-lo como um movimento de ideias espiritualistas de caráter livre-pensador,
sempre atualizável e de consequências filosóficas e sociais progressistas. Os
adjetivos “laica”, “kardecista”, “progressista” e “livre-pensadora”, mais do
que nunca, passaram a caracterizar a identidade da CEPA, nos países onde tem
representatividade e, de maneira muito particular, no Brasil.
Visto
tradicionalmente como uma “religião cristã” e atestado pelo censo populacional,
sucessivamente, como a terceira “religião” no cenário brasileiro, depois do
catolicismo e do evangelismo, o espiritismo, hoje, começa a ser notado como um
movimento de ideias ao qual aderem estudiosos e cultores da sociologia, da
filosofia, da psicologia, das ciências humanas em geral, das artes e da
política.
Tendo por
princípio a ideia central da imortalidade do espírito e da comunicabilidade
entre “vivos” e “mortos”, da qual dimanam consequências éticas e morais, o
espiritismo, pouco a pouco, se firma, no Brasil, como uma verdadeira “escola de
pensamento”.
Esse
movimento, que não se restringe apenas à CEPA, aqui representada por uma
associação civil, reunindo pessoas e entidades, a Associação Brasileira de
Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil -, mostra-se, hoje, pujante. Está
fortemente presente nas redes sociais, nas diversas associações, editoras,
movimentos universitários, entidades promotoras de fóruns de debate, congressos
etc, totalmente distanciados do chamado “movimento unificacionista”, comandado
pela Federação Espírita Brasileira. Une-os justamente a ideia central do
livre-pensamento, inspirado nos princípios cardeais do espiritismo, quais
sejam, a ideia da imortalidade do espírito, o intercâmbio do mundo material e
espiritual, a reencarnação e os valores éticos decorrentes desses pressupostos.
Não se
restringido, entretanto, à CEPA, esse movimento plural, de feições nem sempre
idênticas, não teria, contudo, alcançado a importância que começa a assumir, no
Brasil, não fosse, lá atrás, a proposta e a ação enérgicas da CEPA no sentido
de abstrair da identidade do espiritismo a condição de “religião”, para difundi-lo
como um movimento de ideias laicas, progressistas e libertadoras.
Ser ou não ser
o espiritismo uma religião, discussão surgida no próprio seio do movimento
espírita, e que encontrou na CEPA uma enérgica posição, no sentido da afirmação
de sua laicidade, foi, podemos afirmar, hoje, o marco a partir do qual desenvolveu-se,
no Brasil, um ambiente capaz de qualificar a proposta espírita, dar-lhe,
realmente, foros de cientificidade e de movimento intelectual e social de
relevo.
Sem o impulso
da CEPA, nas décadas finais dos anos 80, até hoje, o espiritismo não teria
chegado ao estágio de respeitabilidade que logrou alcançar, na área de cultura,
contribuindo, com seu pensamento, e a partir de seus fundamentos, com os
setores comprometidos com o progresso social, ético e político do país.
O futuro da
proposta espírita, no Brasil, a partir da efervescência de suas ideias, hoje
observável, passa, dessa forma, necessariamente, pela histórica presença da
CEPA, a partir do final do Século 20 e primeiras décadas do Século 21.
O espiritismo,
no Brasil, pouco a pouco, deixa de ser visto apenas como mais uma religião,
para ser considerado como um movimento de ideias compatível com o ideal de quem
vê no ser humano um espírito imortal vocacionado ao contínuo progresso, em
busca da plena felicidade. Condição essa, capaz de tornar o mundo e a
humanidade melhores.
Foi o registro
que gostaríamos de deixar consignado, quando a CEPA – Associação Espírita
Internacional completa seus 80 anos de existência.
Valeu e valerá
a pena!
(*) Procurador de Justiça
aposentado do Rio Grande do Sul, Advogado, Jornalista, integrou os quadros
diretivos da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, onde ocupou o cargo de
diretor do Departamento de Comunicação Social, tendo dirigido a revista “A
Reencarnação” daquela federativa. Desde 1983, é membro do Centro Cultural
Espírita de Porto Alegre do qual foi Presidente. Fundou e dirigiu por 30 anos o
Jornal CCEPA OPINIÃO. Ex- Presidente da CEPA Internacional (2000/2008). Autor
de vários livros espíritas.
Uma questão que me intriga e que se repete em minha mente constantemente é a decisão de Allan Kardec, nosso insigne mestre de Lion, ter identificado no Espiritismo a promessa feita por Jesus há dois mil anos.
Consultando o Houaiss verifiquei que o sentido da palavra “consolador”, abstendo-se, evidentemente, das conotações figuradas e religiosas, cabe perfeitamente para o Espiritismo.
Não pretendo, entretanto, fazer aqui uma defesa da
adjetivação, pois isso já está feito com brilhantismo n’O Evangelho Segundo o
Espiritismo e nas outras obras escritas por Kardec. Tal qualificação já está
devidamente caracterizado em toda quarta parte d’O Livro dos Espíritos,
intitulada “Das esperanças e Consolações”.
Mas, “consolador” é apenas um adjetivo que pode ser precedido de muitos substantivos. O problema começa a aparecer quando a palavra é usada como substantivo, seja para designar o Espiritismo, seja para identificar qualquer outra filosofia, ideia, pessoa, religião, etc. Qualquer uso nesse sentido o tornará absoluto, o que é incompatível com o mínimo de modéstia e humildade. Eu diria ainda mais: que é extremamente pretensioso.
Uma postura dessa natureza não se encaixa na Filosofia Espírita, que é, acima de tudo, libertadora e nunca deveria nos aprisionar a dogmas e a expressões cristalizadas que comprometem o seu caráter eminentemente progressista.
Até agora, só me referi à palavra “consolador”. Agrava-se o problema quando se adjetiva o substantivo com a palavra “prometido”. Esta forma está expressa n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 6 e a sua defesa foi feita nos itens 3 e 4 pelo próprio Kardec. Tal identificação coloca o Espiritismo como o herdeiro direto de Jesus, à revelia das religiões cristãs, criando um antagonismo totalmente desnecessário.
Respeito profundamente Allan Kardec, mas me recuso a designar o Espiritismo como “O Consolador Prometido”. Não estou afirmando que ele está errado. Estou dizendo que posso até aceitar que a Doutrina Filosófica e Moral, chamada Espiritismo, seja realmente aquilo que Jesus pensava quando, segundo a citação no Evangelho (João 14:15 a 17 e 26), disse que o Pai enviaria outro Consolador. O que não aceito é repetir e propagar isso, a exemplo das religiões salvacionistas que pregam serem a única verdade e o único caminho para a salvação.
Não precisamos despender muito tempo em pesquisas para encontrarmos inúmeros exemplos na história e até na atualidade de posturas extremamente perniciosas para a evolução da humanidade, em que nações, grupos ou indivíduos se acham detentores do poder e da verdade, únicos “escolhidos de Deus” para elevar o homem à santidade. A consequência disso tem sido o estímulo ao segregacionismo e ao preconceito que levam, invariavelmente, às guerras coletivas e individuais.
É hora de o homem abrir a sua mente para as diversidades e aprender com elas. É hora de o Espiritismo rever conceitos e posturas que estejam criando obstáculos às relações humanas. Afinal, se ele não é uma seita, se os seus princípios são universais, se a sua busca constante é pela verdade, ele não é exclusividade dos espíritas. Ele é do homem para o homem, dos espíritos para os espíritos, independentemente de qualquer rótulo, tempo e/ou espaço.
[Artigo retirado do site : https://www.assepe.org.br/site/ publicado em 30/11/2017.]
* Néventon Vargas é graduado em Engenharia Civil
pela UFSM e Licenciado em Física pela UECE, militar aposentado, membro fundador
da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa, associado
à CEPA – Associação Espírita Internacional e à CEPABrasil – Associação
Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA.
O CANCELAMENTO E O MOVIMENTO ESPÍRITA – por Saulo de Meira Albach
Na sociedade contemporânea, marcada pelo uso das redes sociais, uma prática tem sido destacada diante da polarização e da radicalização do debate, especialmente na esfera da política: o cancelamento.
“Funciona assim: um usuário de mídias sociais, como Twitter e Facebook, presencia um ato que considera errado, registra em vídeo ou foto e posta em sua conta, com o cuidado de marcar a empresa empregadora do denunciado e autoridades públicas ou outros influenciadores digitais que possam amplificar o alcance da mensagem. É comum que, em questão de horas, o post tenha sido replicado milhares de vezes.” (1)
Como toda prática política o cancelamento, mal utilizado, pode gerar injustiças e excessos. Afinal de contas, uma tendência decorrente da polarização extrema na qual vivemos hoje é por fim ao debate, ao diálogo.
O psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker pontua que há um uso um tanto quanto exagerado do cancelamento, mas isso não significa que ele deva ser invalidado. “Há que se distinguir o cancelamento, ato político e estrategicamente bem-posto, do cancelamento autocrático, que produz a sensação de moralismo. Toda vez que cancelo simplesmente porque ‘eu não faria assim’, pressupondo que o outro deva agir exatamente como eu ajo, eu estou indo contra a inclusão, a universalização do diálogo. E, ainda mais grave, ao me retirar do debate, o cancelado pode se beneficiar e criar um ambiente ainda mais tóxico, machista, violento e, portanto, aumentar a coerência identitária do seu grupo, o que seria péssimo.” (2)
Interessante observar que tal procedimento assemelha-se a uma prática que ocorre no movimento espírita brasileiro há muito tempo. Uma espécie de cancelamento.
Alguns adeptos - por assumirem alguma postura ou linha de pensamento contrária àquela do grupo dominante - tem sua memória apagada pela história oficial das instituições espíritas.
Um caso antigo é o do Professor Angeli Torteroli, ativista espírita de destaque no Rio de Janeiro que fez oposição à linha denominada mística na disputa de poder que marcou o movimento espírita do final do século XIX e início do XX, reduzida historicamente a “místicos x científicos”.
O historiador Mauro Quintella e o escritor Eugênio Lara resgataram a memória do professor Torteroli. (3)
O “apagamento” neste caso chegou ao ponto de suprimir qualquer referência ao trabalho do “encrenqueiro” e, quando não havia como deixar de citá-lo o faziam de forma cifrada: o professor T.
Outro “cancelado” é o jornalista, psicólogo e escritor espírita Jaci Régis (1932 – 2010). Catarinense, radicado em Santos (SP), escreveu inúmeras obras espíritas, dirigiu e editou o jornal Espiritismo e Unificação por 23 anos, criou e dirigiu o jornal “Abertura” que circula até hoje, foi diretor da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda por 32 anos e fundador do ICKS – Instituto de Cultura Kardecista de Santos, um dos fundadores da União Municipal Espírita de Santos (UMES), em 1951, dentro outras atividades no meio espírita.
Ao assumir a linha do espiritismo laico e disputar eleição para a presidência da USE, Jaci que trabalhou por décadas no movimento dito “de unificação”, foi retirado da história oficial.
Exemplo recente deste apagamento está na edição de 179 – setembro/outubro do jornal DIRIGENTE ESPÍRITA, órgão de divulgação da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Em artigo sobre a imprensa espírita, a articulista cita espíritas que se destacaram na divulgação do Espiritismo através da imprensa: Olímpio Teles, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, Pedro Camargo (Vinícius), Batuíra, Herculano Pires, Deolindo Amorim, Jorge Rizzini, Anália Franco, Eduardo Carvalho Monteiro, Edgard Armond e tantos outros.
Estaria meu saudoso amigo Jaci incluído nos “tantos outros”?
Enfim, há muitos outros episódios envolvendo Jaci Régis e há muitos outros casos espalhados pelo nosso país (Krishnamurti de Carvalho Dias, Waldo Vieira, Gasparetto, etc.). Isso revela a dificuldade do movimento espírita em aceitar o debate, a crítica, o questionamento, especialmente quando se trata da questão religiosa.
A carência de preservação da história dentro do movimento espírita pode ser vista como uma das causas desses apagamentos. Mas, também se identifica uma estratégia – e aqui o fato é mais lamentável - visando impedir que se conheça o pensamento daqueles que em algum momento ousaram romper com o pensamento hegemônico ou dominante, ainda que tenham feito parte da instituição.
A professora Maria Letícia Mazucchi Ferreira leciona em artigo publicado na Revista Aurora (Revista de Arte, Mídia e Política), n. 10 (2011):
Johannn Michel em seu texto “Podemos falar de uma política do esquecimento”(2010) estabelece uma tipologia do esquecimento indo daquele abordado como omissão, que decorre de descartes funcionais tanto no indivíduo quanto na sociedade; a negação, que ao contrário do descarte involuntário é uma patologia da memória ligada à traumas que não foram superados mas que não podem ficar na esfera do consciente; a manipulação do esquecimento, fortemente marcada pela ação de atores públicos encarregados de transmitir a memória oficial. Ainda que compreendidos em separado, esses são como tipos ideais e podem atuar concomitantemente, pois estão condicionados aos contextos nos quais são gerados.(4)
A manipulação do esquecimento é prática incompatível com a filosofia espírita posto que falseia a verdade. Seria melhor citar o agente que fez história e criticá-lo ou declinar os motivos pelos quais se contesta o seu pensamento do que excluí-lo, apagá-lo, cancelá-lo. Mas quase como regra geral, em matéria de atuação interna o movimento espírita tem preferido o caminho autoritário ao alteritário; o excludente ao includente.
Assim se fomenta a divisão e não vejo no horizonte estreito da minha visão, possibilidade de reversão deste quadro a curto ou médio prazo.
Desculpe-nos, Kardec!
1-In BBC News: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53537542, acesso em 05.09.2020.
2- In Carta Capital: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cancelamento-nas-redes-sociais-vai-da-represalia-ao-linchamento/ acesso em 05.09.2020.
3- In Biografia de Afonso Angeli Torteroli, acessada no site www.autoresespiritasclassicos.com e História Ilustrada do Espiritismo no Brasil, acesso em www.cpdocespirita.com.br .
4- Políticas da Memória e Políticas do Esquecimento. In: D:/Meus%20Arquivos/Downloads/4500-11653-1-PB.pdf
terça-feira, 2 de março de 2021
Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.2021
Fundamentos da Ética Espírita – Reinaldo Di Lucia
1. INTRODUÇÃO
Toda consideração sobre a filosofia espírita leva, naturalmente, a indagações sobre o homem. Não só sobre sua origem e fim, mas também sobre suas relações com os demais entes do Universo, e, principalmente, com os outros seres humanos.
O homem é um ser social. Seu percurso terreno é essencialmente realizado em meio a uma sociedade, da qual ele faz parte e à qual terá que prestar contas, sobretudo por seu comportamento.
O ser humano vive em sociedade, convive com os outros seres humanos e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: Como devo agir perante os outros? Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética.
Assim, não é à-toa que toda filosofia ou escola filosófica, em algum instante, necessite tratar sobre questões éticas. Seja sob este nome, seja falando em considerações morais, ou mesmo evitando estes termos – embora tratando de relações humanas. Na filosofia espírita não seria diferente.
Kardec, ao tratar deste tema, falou em Leis Morais. Sob essa denominação colocou as regras que tratam dos Espíritos e das relações entre eles. E colocou-as como parte da Lei Natural, aquela que rege toda a criação, na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, e o fez à moda científica, positivista, por analogia com as leis físicas que comandam a matéria.
Nesta análise Kardec tratou de questões fundamentais que, de algum modo, estão presentes em todas as filosofias: os conceitos de bem e mal, as origens da ação moral, os temas que, em sua opinião, eram os mais importantes. Por exemplos: progresso, sociedade, justiça. E, sem impor aos homens um comportamento padrão, propôs elementos para que ele pudesse pautar seus atos de acordo com os princípios espíritas.
Kardec, fiel à sua formação pedagógica, estruturou a terceira parte de “O Livro dos Espíritos” descrevendo, uma por uma, as dez leis morais. E também escreveu que esta era uma forma meramente didática de exposição, comentando explicitamente que estas leis não pretendiam ser exaustivas. Entretanto, o movimento espírita brasileiro normalmente as tomam como a última palavra sobre moral espírita, esquecendo que, por trás delas, há conceitos fundamentais de ética espírita que lhes deram origem.
O propósito deste trabalho é retomar estes conceitos fundamentais, derivando-os diretamente da teoria espírita e explicitando-os. A importância dessa retomada é restabelecer as bases da ética espírita, de um modo que possam servir como parâmetro à estruturação de um comportamento pautado nos princípios do Espiritismo, aplicável a todas as situações humanas, mas sem a imposição de um comportamento padrão que ignore as individualidades dos espíritos.
Para isso, o texto parte de uma pequena história da Ética e da Moral e discute, filosófica e etimologicamente, os conceitos a elas ligados. Em seguida, discute uma parte básica da ética: a teoria dos valores, propondo um conjunto dos essenciais para a doutrina. Finalmente, apresenta os fundamentos da Ética Espírita.
2. DISCUSSÕES SOBRE MORAL E ÉTICA
Mas o que é Ética? E Moral? É possível diferenciá-las? E como definir termos tão essenciais, mas tão complexos como Bem e Mal?
Iniciemos tratando da Moral. Segundo a definição do dicionário:
“Moral é aquilo que denota bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade ou por determinado grupo social; conjunto das regras, preceitos etc. característicos de determinado grupo social que os estabelece e defende”
A definição acima enfatiza o caráter relativo da moral: são costumes, condutas, regras e preceitos que são característicos de uma dada sociedade ou grupo social. E, como tais, variam enormemente, não só entre sociedades, mas, dentro de uma mesma sociedade, entre os diversos grupos, de diferentes tamanhos, que a compõem.
Há uma hierarquia nesta variação. Por exemplo, uma sociedade pode ser rígida quanto à questão da propriedade, mas liberal em termos sexuais. Também, pode haver famílias mais severas quanto à moral sexual, sem que deixem de fazer parte daquela mesma sociedade.
Esta relatividade moral ocorre não só no espaço, mas também no tempo. A moral de um dado grupo social varia com o decorrer dos anos, e costumes e regras que eram inaceitáveis passam a ser aceitos. Como uma mulher de biquíni tipo fio-dental seria julgada na sociedade brasileira do início do século 20?
Assim, a moral possui uma qualidade social, isto é, manifesta-se na sociedade, cumprindo uma determinada função, que é a regulamentação das relações entre os indivíduos e entre estes e a comunidade, visando a manutenção e a garantia de uma determinada ordem social.
Já a Ética:
“(...) é a parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social; em doutrinas racionalistas e metafísicas, estudo das finalidades últimas, ideais e, em alguns casos, transcendentes, que orientam a ação humana para o máximo de harmonia, universalidade, excelência ou perfectibilidade, o que implica a superação de paixões e desejos irrefletidos.”
Assim, a ética, diferentemente dos problemas práticos-morais, caracteriza-se pela sua generalidade. Ela define, de modo teórico, em que consiste o bem, o fim último visado pelo comportamento moral. Ao deparar-se com uma experiência histórico-social no terreno da moral — uma série de práticas morais em vigor numa dada sociedade —, a ética procura determinar a essência desta, sua origem, as fontes de avaliação, a natureza e função dos juízos morais. Pode-se dizer que:
“A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano.”
A ética e a moral relacionam-se, então, como uma ciência específica e seu objeto. É uma parte da investigação filosófica, não necessariamente especulativa. São importantes as contribuições do pensamento filosófico, desde a Antigüidade grega até os nossos dias. Todavia, um estudo histórico está fora dos limites deste trabalho.
3. VALORES ESPÍRITAS
Não há como falar em ética sem levar em consideração as bases sobre as quais seus princípios estão sustentados. Estas bases são chamadas valores.
Tidos como uma qualificação de objetos ou de seres, os valores não são propriedades dos objetos em si, mas propriedade adquirida graças à sua relação com o homem como ser social. Portanto, não há valores em si, mas somente em relação com um sujeito.
Além disso, os valores existem a partir de uma visão de mundo própria de cada sujeito. Nesta visão, incluem-se não somente os pontos de vista estritamente particulares, mas também visões sociais, religiosas, científicas, históricas etc.
Assim sendo, os espíritas estruturam seus valores com base em sua personalidade e crenças particulares, e, igualmente, naqueles que permeiam a filosofia espírita. Numa primeira avaliação, poderíamos dizer que estes valores estão relatados em algumas das Leis Morais:
Liberdade — O Espiritismo não prescinde de uma total liberdade de pensamento e ação, o chamado livre-arbítrio. Os espíritas sabem que o possuem, mas também que isto traz a total responsabilidade sobre seus próprios atos.
Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?
Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.”
Justiça — Apesar da ampla liberdade de pensamento e ação, o Espiritismo possui um acentuado viés de justiça, definido como “respeitar os direitos dos demais” . Em última instância, esta definição leva, de alguma forma, à limitação das possibilidades de liberdade de ação do espírita. Uma outra argumentação, porém, é que a justiça faz parte da responsabilidade inerente à própria liberdade.
A partir destas bases axiológicas (isto é, de valores), e fazendo uma análise dos capítulos constantes na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, podemos começar a entender as bases fundamentais da ética espírita, seus fundamentos.
4. FUNDAMENTOS DA ÉTICA ESPÍRITA
Kardec não mencionou ética em sua obra. Mesmo quando se referia à investigação dos princípios que regem as ações humanas sempre citou moral:
“A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus.”
E, como definição de bem:
“O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.”
Assim, a moral relacionava-se com a Lei de Deus. Ora, Kardec entendia o Universo como uma entidade criada por Deus e composta dualmente de Espírito e Matéria. E, da mesma forma como havia Leis Físicas que regiam a matéria, ele postulou a existência de Leis Morais que regeriam o Espírito. O conjunto de ambas essas Leis formava a Lei Divina, ou Lei Natural:
Deus
Espírito
Matéria
Leis Morais
Leis Físicas
Lei Divina ou Natural
E, para explicar quais seriam essas Leis Morais, Kardec didaticamente dividiu-as em dez, cada uma compondo um capítulo da parte terceira do Livro dos Espíritos: Adoração; Trabalho; Reprodução; Conservação; Destruição; Sociedade; Progresso; Igualdade; Liberdade; Justiça, Amor e Caridade.
Entretanto, esta divisão não é mais que uma exposição simplificada, com a finalidade de exemplificar, mais que explicar, os princípios morais do Espiritismo. Mas isto deve ser aprofundado para um entendimento maior das bases que levaram a eles. E é aqui que começa a tomar forma a Ética Espírita.
Uma análise ética do conjunto teórico das Leis Morais leva à estruturação dos fundamentos da Ética Espírita, a saber: a crítica espírita do juízo, o equilíbrio, a alteridade e a felicidade.
Por crítica do juízo entende-se o modo pelo qual se podem avaliar os atos humanos em função dos conceitos éticos, sendo absolutamente necessário uma vez que a moral só se completa na ação humana frente aos problemas da existência. Principalmente daqueles originados das relações entre os espíritos, encarnados ou não.
O Espiritismo estabelece um duplo critério para esta análise. O primeiro é o da intenção, expresso nas perguntas: Qual o objetivo do ato? A que ele visa? Qual seu fim último? Em suma, que intenção teve o agente com aquela ação?
Mas, como bem afirma a sabedoria popular, não bastam boas intenções para que um ato seja considerado moralmente adequado. Isto porque, apesar de bem intencionada, uma ação pode promover um resultado diverso daquele que pretendia. A doutrina espírita propõe então um segundo critério: o da utilidade. Ou seja: Qual o resultado do ato? A quem ele ajuda ou prejudica?
A combinação desses dois critérios forma a crítica espírita do juízo, e está integralmente presente, ainda que não com este nome, nos dois primeiros capítulos das Leis Morais:
“Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?”
- “Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”
E também:
“Têm, perante Deus, algum mérito os que se consagram à vida contemplativa, uma vez que nenhum mal fazem e só em Deus pensam?”
“- Não, porquanto, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que o homem pense Nele, mas não quer que só Nele pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir na Terra. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à Humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.”
Um segundo fundamento é o equilíbrio, entendido classicamente, como a eqüidistância dos extremos. O excesso, seja pela ausência ou pela abundância, em qualquer aspecto da vida moral, leva necessariamente ao desvio ético:
“A lei natural traça para o homem o limite das suas necessidades. Se ele ultrapassa esse limite, é punido pelo sofrimento. Se atendesse sempre à voz que lhe diz - basta, evitaria a maior parte dos males, cuja culpa lança à Natureza.”
A ideia de que é preciso fugir dos extremos não é nova na filosofia. Aristóteles já a propunha, em seu “Ética a Nicômaco”, quando dizia que a tendência dos seres humanos é gradualmente atingir o equilíbrio após ser levado para distante dele, tal como uma vara de bambu, depois de vergada ao máximo e solta, oscila ao redor do ponto médio até nele permanecer.
Outro pensador a exaltar o equilíbrio foi Buda, que tinha o “caminho do meio” como uma de suas verdades nobres. Esta figura explica bastante bem o princípio da eqüidistância dos extremos.
E o melhor meio para cumprir este fundamento é agir sobriamente, com bom senso. E, principalmente, com muita reflexão, pensando e planejando bastante antes da ação. Como dizia Platão na República, “A vida irrefletida não vale a pena ser vivida”.
O terceiro elemento básico da ética espírita é o princípio da alteridade. Podemos conceituá-la, de modo simples, como a compreensão do direito dos demais homens à existência e a um modo de ser próprio. Significa, em última instância, a aceitação plena do outro.
Há uma diferença fundamental entre este conceito e o de tolerância, tantas vezes falado e exaltado nos meios espírita e cristão. Tolerar significa suportar as diferenças, ainda que delas discordando completamente. Entretanto, o posicionamento mental da tolerância não leva ao respeito à divergência e, assim, pode terminar com a explosão da negação e mesmo do ódio.
Quando se consegue substituir verdadeiramente a tolerância pela alteridade, respeitando e entendendo o direito do outro pensar e agir de modo diverso do nosso, as relações facilitam-se enormemente. Este é a verdadeira caridade, aquilo que os antigos gregos chamavam de ágape, o amor pelo outro.
Finalmente, o último fundamento da ética espírita é a felicidade. Ou seja, o entendimento de que o aprendizado só se dá na medida em que ele é acompanhado pela alegria. E que o conjunto de felicidade e de aprendizado é o único que leva à evolução.
Isso contrasta significativamente com a idéia vigente no movimento espírita de que só se evolui com sofrimento. E isto porque, normalmente, confunde-se isto com dor – conceitos que são bem diferentes.
A dor é inerente à existência – é inevitável. Seja ela física, como conseqüência dos problemas do corpo (doenças, envelhecimento etc.), seja moral, resultado dos erros que são cometidos ao longo da existência como espírito.
Já sofrimento é a falta da elaboração proveitosa da dor, que é o uso dos fatos dolorosos como elementos de aprendizado, a fim de entender as causas das falhas e evitar sua repetição. Quando as pessoas não fazem isso, sofrem, e as conseqüências são a culpa, a imobilidade e o desperdício das oportunidades.
Uma ética de felicidade, como a espírita, propõe que os fatos da vida devem ser elaborados internamente, visando introjetar e crescer. Ao aprender a fazer isso, o homem adquire a competência fundamental para a evolução: ser feliz. É por isso que a ética espírita é a ética da felicidade.
5. CONCLUSÃO
A definição dos fundamentos da ética espírita, da forma como foi feita acima, é obtida diretamente dos elementos kardequianos. Para ser feita, entretanto, é necessário encarar o Espiritismo como uma filosofia que, tendo por base a imortalidade do ser pensante e a evolução infinita, privilegia o crescimento individual a partir da convivência entre os espíritos. É preciso também aceitar que a finalidade última da encarnação é o aprendizado, e não o resgate de dívidas de vidas anteriores.
Esse entendimento da doutrina espírita enfatiza a busca da felicidade como método ético para a existência dos espíritos. Mas é preciso frisar que a felicidade, no sentido que está sendo utilizada, é completamente diferente do hedonismo, ou seja, da busca do prazer a qualquer custo.
Isto porque tal felicidade reforça ainda mais um conceito básico da filosofia espírita, o do livre-arbítrio. Somos livres para ajuizar sobre os atos da forma como queremos, para nos afastarmos dos excessos, para encararmos o próximo com alteridade, para elaborarmos produtivamente a dor. Ou não.
E esta possibilidade de escolha aumenta a nossa responsabilidade pessoal como espíritos que têm o controle da própria capacidade evolutiva. A partir do momento em que somos capazes de entender os fundamentos éticos do Espiritismo, só depende de nós mesmos que consigamos aplicá-los em nosso cotidiano. E assim não só trabalharmos para nossa própria evolução, mas também servirmos como exemplo para a evolução dos nossos semelhantes.
BIBLIOGRAFIA
KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”, FEB.
VÁZQUEZ, Allan. Sanchez. “Ética”, Civilização Brasileira.
COMPARATO, Fábio Konder. “Ética – Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno”, Companhia das Letras.
HOUAISS, Antonio. “Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa”.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. “Parâmetros Curriculares Nacionais: Apresentação dos Temas Transversais e Ética”.
*Artigo extraído do site PENSE, mantido pelo jornalista Eugênio Lara, já desxencarnado, e que hoje esta desativado.
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CEPABrasil - IX Fórum do Livre-Pensar Espírita
De 10 a 12 de outubro de 2026, Porto Alegre será palco do IX Fórum do Livre-Pensar Espírita, promovido pela CEPABrasil em parceria com o CCEPA, reunindo espíritas livres-pensadores para refletir sobre o tema:
“Espiritismo e Cidadania: desafios e possibilidades ante um mundo conturbado”
Serão três dias de conferências, painéis, minicursos, arte, lançamento de livros e momentos de confraternização, celebrando os 90 anos do CCEPA e os 80 anos da CEPA.
Um encontro para pensar o espiritismo de forma humanista, plural, progressista e comprometida com a cidadania.
📍 Sede do CCEPA, Porto Alegre/RS
📅 10, 11 e 12 de outubro de 2026
🔖Valor da Inscrição: R$ 50,00
Participe e compartilhe essa ideia!
Inscrição pelo Link:
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A perplexidade diante dos fatos – Jaci Régis
janeiro 27, 2021 Administrador site ECK
Tempo de leitura: 3 minutos
Jaci Regis
O materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer. Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.
O panorama social do mundo neste século vinte e um é extremamente confuso, dinâmico, rico e pobre, violento e promissor. Entretanto, é impossível ficar passivo diante da sucessão dos fatos. Fatos que se modificam constantemente, que mudam cenários de um dia para a outro. Isso tem provocado profunda preocupação nos religiosos em geral.
Um espírita escreveu que não fosse a reencarnação, deixaria praticamente de acreditar em Deus, tal a impressão de abandono e impassividade da divindade diante dos fatos.
Para ele, encontrar a culpa nas pessoas, relativamente ao passado, alivia a impassividade divina. O exame é falho porque a reencarnação não é um instrumento de punição moral, nem o Universo se assenta na perspectiva do pecado e do castigo.
Vemos o papa católico, vestido à moda da Idade Média falando a multidões e à mídia, com idéia da Idade Média, sem que suas palavras causem efeito.
Da mesma forma os evangélicos, principalmente os pentecostais, arregimentam multidões, em shows de fé e arrecadação, mobilizando recursos da mídia eletrônica, sem que se veja qualquer atitude positiva na mudança das coisas, na modificação do ambiente.
Na verdade, quem tumultua e muda é o materialismo que é genericamente apontado como o culpado de tudo. É preciso, porém, definir esse materialismo. Não se trata de um esquema filosófico, nem uma opção consistente. Esse materialismo representa a insatisfação generalizada, s subversão comportamental relativamente aos parâmetros que se instituíram na sociedade cristã. Talvez seja mais apropriado chama-lo de comportamento oportunista. Como ocorre com certas doenças que afloram devido à queda das defesas do organismo.
Essa insatisfação reflete a falta de perspectiva real, imortal da sociedade nominalmente espiritualista, mas que se envolve deliberadamente no sexualismo, no consumismo e na falta de perspectiva.
Esse materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer. Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.
É mesma coisa que pais que dão péssimos exemplos e quando os filhos se transviam alegam que a culpa é deles, das más companhias, do consumismo, enfim, nada com eles mesmos.
Como compreender a sucessão dos fatos que derrubam antigas ordenações morais: – Por que o materialismo é tão sedutor? – Por que a porta da perdição é larga?
Na atual crise econômica o que menos se fala é em ética. Mas fundamentalmente ela decorre da ganância, da esperteza, da delinquência de colarinho branco que corrompe as estruturas sociais. Todavia poucas vozes se levantam para apontar essa falha básica, que não apenas do capitalismo, mas de todos os regimes e ideologias.
Tenta-se remendar com trilhões de dólares. A questão ética fica de lado até na crista da crise, quando nos Estados Unidos, foram pagos bônus milionários a executivos, mesmo tendo o dinheiro origem pública.
Seria demais apontar o fracasso das religiões como causa básica do avanço do materialismo? O que pede a sociedade moderna?
A sociedade moderna olha para o que diz a ciência. A ciência se define como materialista, no sentido de restringir seu campo de atuação, no caso do ser humano, ao corpo. Aqui, no corpo, estaria a base de tudo. A neurologia pretende responder a todas as perguntas sobre o comportamento através de complicadas explicações das funções cerebrais descartando qualquer natureza espiritual do ser humano.
Então, as religiões – católica, evangélica ou espírita – fazem de conta que nada mudou, que seus fundamentos continuam intactos, que o comportamento humano derivados das necessidades, desejo, desvios, seja do que for, está errado e que o único caminho é retornar aos roteiros por elas estabelecidos.
Todas essas religiões são cristãs. Isto é, estão baseadas no modelo criado pela Igreja nos primórdios da era cristã e que, estão comprovadamente falhos, incapazes de entender a natureza do ser humano e de dar uma diretriz objetiva para sua vida. Vivem de rituais, de discursos repetitivos.
A verdade é que as religiões em toda a história são movimentos organizados para exercer o poder. Promovem a fé, mas não a espiritualidade. Desprovidas do poder real patinam em doutrinações que não questionam a natureza das emoções, medos e insatisfações do ser humano.