05 novembro 2026

CONVIVÊNCIA POR MARCELO HENRIQUE

 

                                                                              

 

                                                                                                                                         

 


Os Quatro Atores da Convivência Grupal (virtual ou presencial)

Vivemos, definitivamente, tempos difíceis.

Insatisfações, protestos, desabafos, intransigências, personalismos, deseducação e ausência de mínimos padrões de ética e elegância nos relacionamentos interpessoais.

Se, no campo presencial, as pessoas têm embates que vão às vias de fato e importam em agressões verbais, psicológicas e até físicas, as redes sociais também alimentam uma epidemia de ódio generalizado.

Tanto que uma simples manifestação de opinião, que caracteriza o percurso da Humanidade até chegar a este terceiro milênio de nossa era e identifica não só os progressos culturais, tecnológicos e das ciências em geral, como é a marca do desenvolvimento intelectual e espiritual dos homens que se encontram encarnados – assim como a comunidade dos desencarnados que nos rodeia e que participa da vida neste orbe, por meio das relações que travam com os humanos – é motivo para apedrejamentos, linchamentos e atos de visível barbárie.

Ainda que, vez por outra, se vislumbrasse a paixão na defesa de dados pontos de vista, nos diálogos em ambientes sociais característicos como escolas, universidades, centros de cultura e associações – incluindo-se, aí, as chamadas agremiações religiosas ou filosóficas – o que poderia desembocar em posicionamentos mais ácidos ou ríspidos de parte a parte, o que se vê, hoje, muito mais virtualmente, é verdade, do que presencialmente, mas sem afastar a problemática nos “ambientes reais”, é a animosidade explícita e a incapacidade de aprender com o outro, suas vivências, experiências, exemplos e, é claro, a manifestação (expressa) do seu pensamento.

Não que este que vos escreve esteja em posição equidistante das “partes” envolvidas nos diálogos, debates e embates.

Longe disso.

Também nos encontramos inseridos em mídias sociais, em redes e sistemas virtuais, além das situações da vida convivial fora do espaço cibernético.

Não somos nenhum sociólogo ou cientista social, nem jornalista observador de eventos ou fatos, para tecer diagnoses e conclusões, ou construir teses.

No dia a dia, igualmente nos vemos diante da expressão do pensamento (próprio ou alheio), e da ambiência do contraditório, quando o outro também, pelo mesmo princípio de liberdade de expressão, manifesta seus sentimentos e ideologias.

E, assim, podemos ser bombeiros ou incendiários, afetos ou desafetos, equilibrados ou violentos, compreensivos ou despóticos, em diversas situações do cotidiano da virtualidade, ou, como também ocorre, dos cenários dos ambientes existenciais, sem recursos da tecnologia.

Como é que você, usualmente, se comporta?

Na defensiva ou na ofensiva?

Expressa-se pelo prazer da dialógica, da maiêutica e da simbiose proativa e produtiva?

Ou prefere a simples contestação e a demonstração de (discutível) sabedoria sobre este ou aquele tema?

Adota o posicionamento conciliatório, para desfrutar da oportunidade de inter-relação, onde outros prismas diferentes do seu serão conjugados, ou prefere a intransigente declaração do ponto final de uma discussão, usando das armas e ferramentas que sejam de sua especialidade: a verve fácil, a ironia pronunciada, o sarcasmo que impõe o vexatório, a dúvida de argumentos-satélites, ou, até, o descredenciamento ou desqualificação seja do interlocutor seja das ideias ou argumentos por ele apresentados?

É instante de reflexão, de introspecção e de autoconhecimento, convenhamos.

Oportunidade de rever trajetos, comportamentos, atitudes e crenças (por que não?), ainda que estas nada tenham a ver com dogmas religiosos.

Agostinho de Hipona, reconhecido um dos maiores pensadores da Idade Antiga, na Grécia Socrática, expoente filosófico, além das lições que deixou enquanto personagem vivo, pôde se manifestar na obra primeva de Allan Kardec, recomendando a (profunda) reflexão, ao final de cada dia, no travesseiro da própria consciência, para projetar o(s) dia(s) vindouro(s), seja pelo investimento pessoal e dedicação ao cultivo de virtudes (existentes ou novas, hauridas pela experiência do somatório dos dias), assim como na superação de vícios (não os que hodiernamente são “combatidos”, porquanto ligados à saúde e à expressão física exterior, também deletérios, em grande parte, mas aos íntimos, os de postura comportamental e de aplicabilidade aos relacionamentos humanos).

Há pessoas que são belicosas por natureza.

Adoram provocar e ficam à espreita da polêmica para extravasar certos sentimentos ainda inferiores.

Tais acabam sendo “perigosas” para a convivência coletiva, porquanto provocam a animosidade ou a cultuam, mesmo já asserenados os ânimos da discussão vencida (mas sem vencedores, porquanto o aprendizado deva ser compartilhado por todos os partícipes).

Em relação a essas, o recomendável é ter serenidade para explicitar as ocorrências e balizar-lhes as atitudes, para que, no adágio popular, não se perca o cesto de laranjas pela ascendência de um exemplar que amplifique problemas (insolúveis).

Em paralelo, há os que não se distanciam dos embates, por natureza íntima e repetida, os que gostam das situações de oposição de ideias, em elegia à busca da verdade (ainda que essa seja, como em todas as coisas da caminhada, efêmera e fugidia, posto que possa ser, já à frente, superada ou suplantada, perdendo a relevância e o caráter de definitividade), e que, de outra sorte, procuram o ambiente dialogal para exercitar o seu poder individual de convencimento do(s) outro(s).

Há, ainda, os que são pacificadores, que têm poesia na fala e música no trato com os demais, e estes não precisam estar sempre em visível manifestação, já que é comum que eles atuem, também, nos “bastidores”, procurando particularmente conversar, de forma amistosa, e pedir que sejam observadas regras e que seja possível observar outros pontos de vista, diferentes do seu.

Ademais, existem os expectadores, que raramente (ou nunca) se pronunciam, e que parecem – ainda que a definição não se aplique a todos – estar aguardando o “circo pegar fogo” para observar, de longe, mas atentamente, as agruras e os percalços do ambiente, podendo, inclusive, comentar em particular com outros, do sistema ou não, acerca do que julgam em relação a atitudes alheias.

Em qual dos grupos você, costumeiramente, está inserido? Em que posição você atua? Que conforto ou satisfação experimenta sendo expoente de um desses subsistemas? Dependendo da temática e da existência ou não de conflitos, você percebe sua migração de um para outro grupo? Como é a constância das situações em que você está inserido e se é possível verificar mutações qualitativas e aprendizados em suas atitudes e participações?

Tudo isto merece alguns minutos de sua concentração – ou minha – e esta deve ser buscada e repetida inúmeras vezes.

Há os que preferem, ao primeiro sinal de fumaça, abandonarem a convivência, a rede, a instituição, o trabalho, a associação, em face da manutenção do seu conforto. Há os que diminuem a constância, para não serem “contaminados” com algumas posturas mais incisivas e, por vezes, violentas. E há os que entendem possível contribuir para a melhora das ambiências, aproveitando situações para trazer exemplos reais, suscitar orientações e conselhos úteis, ou promover a concórdia e o ajuste entre os que estiveram em ocorrências mais agudas de desentendimento.

Lembrando o Sublime Carpinteiro que exortou acerca da utilidade do sal nos alimentos e preconizou a impertinência da água parada e doentia, assim como da temperatura morna, quando deveria ser quente ou fria, conforme a pertinência de seu proveito, é necessário que sejamos artífices, personagens e atores dos contextos onde somos. E não coadjuvantes mudos e amorfos ou partes do cenário.

As convivências (presenciais e virtuais) precisam de pessoas que se disponham a construir, propondo alternativas, discutindo teses e antíteses em busca de sínteses proveitosas, ainda que estas possam dar lugar, adiante, à confrontação pacífica entre novas teses e antíteses, em claro processo de renovação das ideias.

Será que você pode ser considerado, então, um construtor?

Ou sua opção é, apenas, pela destruição, sem o compromisso de reconstrução, subsequente?

O momento transformador de nossa existência pressupõe compromisso, vontade e atitude. E eu tenho certeza que você pode atuar, ao invés de ser um mero expectador ou alguém que simplesmente resolveu desistir. Não é?

 

*Jornalista, Advogado e Administrador, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Administração Pública e Auditoria (UDESC). Mestre em Ciência Jurídica (Univali). Cursou Doutorado em Direito, na Argentina (Universidad Católica de Santa Fé). Atualmente é Doutorando em Administração (UFSC). Auditor Fiscal de Controle Externo, do Tribunal de Contas de Santa Catarina, desde 1989. Professor de primeiro e segundo graus, até 2000 e Professor Universitário de Graduação e Pós-Graduação, desde 2001. Jornalista. Advogado e Consultor de Políticas Públicas. Perito Ambiental. Acadêmico da Oficial Academia Tijuquense de Letras. Espírita desde 1981, médium auditivo e de psicografia. É Coordenador-Geral do Grupo "Espiritismo COM Kardec". Presidente da Associação dos Divulgadores Espíritas de Santa Catarina (ADE-SC). Foi membro da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee). Ex-Gestor da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (Abrade). Delegado da CEPA Associação Espírita Internacional. Editor-Chefe da Revista Espírita Eletrônica Harmonia. Escritor, possui sete livros publicados e centenas de artigos em periódicos e sites espíritas e jurídicos, além de artigos em revistas acadêmicas e profissionais. Livros: “Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME); “Comentários ao Estatuto do Idoso” (Ed. LTr); “Crônicas de Advogados” (Ed. OAB/SC); “Alteridade: a diferença que soma” (Ed. Inede/Abrade); “Anuário da Oficial Academia Tijuquense de Letras” (Ed. OATL); “O Tripé Redentor” (EdECK); "Temos Sede" (Ed. Comenius).

* Artigo do site: -  https://www.comkardec.net.br/convivencia/ ( outubro/2019)

20 outubro 2026

DAS MESAS GIRANTES À FILOSOFIA ESPÍRITA - por Ricardo de Morais Nunes

 

DAS MESAS GIRANTES À FILOSOFIA ESPÍRITA - por Ricardo de Morais Nunes

                                                         

Ricardo de Morais Nunes (*)

DAS MESAS GIRANTES À FILOSOFIA ESPÍRITA

É curioso pensarmos nos dias de hoje que houve em plena Europa do tempo de Kardec, meados do século XIX, o fenômeno das mesas girantes. Quando relatamos às pessoas do século XXI que a chamada “dança das mesas” era uma verdadeira moda nos salões parisienses, muitos duvidam. E com razão, pois é muito difícil acreditar na possibilidade de brincadeiras de salão em torno de mesas que desafiam as leis da gravidade.

No entanto, as mesas giravam, o que pode ser constatado por vários jornais da época que registraram a ocorrência do curioso fenômeno. É a partir das mesas girantes que Allan Kardec se põe a pesquisar a causa de tais fenômenos insólitos, os quais iniciaram mais intensamente já em 1848 com o caso das irmãs Fox nos Estados Unidos. Arthur Conan Doyle descreve este momento histórico na Europa e nos Estados Unidos como uma verdadeira “invasão organizada” por parte dos espíritos que buscavam chamar a atenção para o outro lado da vida.

 Diferentemente do espiritualismo dogmático das religiões, que se baseavam na fé na revelação religiosa e no livro sagrado, e mesmo das correntes filosóficas espiritualistas, fundamentadas apenas na reflexão racional, o Espiritismo nasce apoiado em fatos, em fenômenos passíveis de serem observados. Allan Kardec assim se refere ao fenômeno das mesas girantes na introdução ao estudo da Doutrina Espírita em O Livro dos Espíritos:

 “O primeiro fato observado foi o movimento de objetos: designaram-no vulgarmente com o nome de mesas girantes ou dança das mesas. Esse fenômeno, que parece ter sido observado primeiramente na América, ou, melhor, que se teria repetido nesse país, porque a História prova que ele remonta à mais alta Antiguidade, produziu-se acompanhado de circunstâncias estranhas como ruídos insólitos e golpes desferidos sem uma causa ostensiva, conhecida. Dali, propagou-se rapidamente pela Europa e por outras partes do mundo: a princípio provocou muita incredulidade, mas a multiplicidade das experiências em breve não permitiu que se duvidasse da sua realidade”

Estes movimentos não eram meramente mecânicos ou fortuitos. Descobriu-se que os movimentos dos objetos manifestavam inteligência. É o próprio Allan Kardec que ainda nos fala:

“As primeiras manifestações inteligentes verificaram-se por meio de mesas que se moviam e davam determinados golpes, batendo um pé, e assim respondiam, segundo o que se havia convencionado, por “sim” ou por “não” à questão proposta. Até aqui, nada de seguramente convincente para os céticos, porque podia crer-se num efeito do acaso. Em seguida, obtiveram-se respostas mais desenvolvidas por meios das letras do alfabeto; dando ao móvel um número de ordem de cada letra, chegava-se a se   formar palavras e frases que respondiam às questões propostas. A justeza das respostas e sua correspondência com a pergunta provocaram a admiração. O ser misterioso que assim respondia, interpelado sobre a sua natureza, declarou que era um Espírito ou Gênio, deu o seu nome e forneceu diversas informações a seu respeito. Esta é uma circunstância muito importante a notar. Ninguém havia então pensado nos Espíritos como um meio de explicar o fenômeno; foi o próprio fenômeno que revelou a palavra. Fazem-se hipóteses frequentemente nas ciências exatas para se conseguir uma base ao raciocínio; mas neste caso não foi o que se deu.”

E aqui tem início a descoberta revolucionária dos espíritos e do mundo dos espíritos que nos cerca, que podem comunicar-se com o mundo terrestre através de médiuns, pessoas aptas, por sua organização psicofísica, a favorecer este intercambio. Da mesma forma que o telescópio possibilitou a investigação dos astros, e o microscópio a pesquisa dos microrganismos, a mediunidade foi o instrumento de pesquisa da realidade extrafísica que antes era apenas objeto de fé, reflexão filosófica ou intuição.

Das mesas que giravam saiu toda uma filosofia, uma cosmovisão de mundo, a partir do diálogo racional entre Kardec e os Espíritos. A pesquisa desta base fenomênica estava em conformidade com a época de Kardec de feitio positivista.  O “espírito do tempo” valorizava a pesquisa dos fatos e estava farto de teorias metafísicas indemonstráveis. O Espiritismo pretendia demonstrar concretamente suas teses, fundamentando-se não apenas na razão, mas também na observação.

Na sequência de O Livro dos Espíritos, Kardec publica o Livro dos Médiuns, no qual aborda uma vasta gama de fenômenos físicos e inteligentes ampliando assim a base empírica do Espiritismo. O Espiritismo teve grande êxito em chamar a atenção para estes fenômenos em sua época. A explicação espírita foi aceita por muitas personalidades eminentes daquele período. Na esteira das pesquisas espíritas surgiram a metapsíquica de Charles Richet, e a parapsicologia de Joseph Banks Rhine, entre outras tentativas de abordar os chamados “fenômenos espíritas”.

Mesmo que a tese espírita da imortalidade da alma e sua possibilidade de comunicação com este mundo terrestre através de médiuns não fosse verdadeira, Allan Kardec já teria contribuído com o mundo da pesquisa cientifica ao chamar a atenção para fenômenos da natureza antes atribuídos ao mágico, ao sobrenatural, à superstição ou a fraude. Por ser pioneiro na pesquisa deste tipo de fenômenos, Allan Kardec merece um lugar de destaque entre os grandes desbravadores do conhecimento.

Muitos perguntam por que as mesas não giram mais como giravam nos salões parisienses. Talvez a resposta seja que não é mais necessário este tipo de provocação intencional e coletiva por parte dos espíritos. A hipótese da comunicação dos espíritos através de médiuns já foi assimilada mesmo por aqueles que divergem da explicação espírita. A comunicação dos “mortos”, no mínimo, já integra o nosso horizonte cultural, fazendo parte da crença e da descrença de muitos, sendo que o Espiritismo descortinou, inclusive, um novo campo de possibilidades para a pesquisa cientifica e para a reflexão filosófica.

Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos (22 de dezembro de 2020).

(*) Ricardo de Morais Nunes, Servidor público. Bacharel em Direito e licenciado em Filosofia. Foi dirigente do Centro Espírita Maria Emília da Motta Ferreira, na cidade do Guarujá (SP). É co - fundador do Grupo Espírita Léon Denis, também em Guarujá e delegado da CEPA. Coordenou a Comissão de Estudos e Temário do XXI Congresso Espírita Pan-Americano. Foi Presidente da CEPABrasil, Expositor espírita. Articulista do jornal de cultura espírita Abertura, foi Presidente do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc). Atualmente participa do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos- como diretor de Estudos. 



18 outubro 2026

ELEIÇÕES 2026 – 2º TURNO


                                       Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA

                                                          CNPJ – 07155135/0001-75

                                                        ELEIÇÕES 2026 – 2º TURNO

Passado o primeiro turno das eleições de 2026, oportunidade em que os brasileiros dispuseram para sua escolha um amplo leque de candidatos e partidos pleiteando cargos aos parlamentos e ao poder executivo, em nível estadual e federal, em relação à disputa presidencial, o Brasil chegou em uma encruzilhada histórica, em que existem dois projetos de sociedade muito distintos.

De um lado, um projeto de sociedade que representa os melhores valores civilizacionais, da democracia, da justiça social, dos direitos humanos, da soberania do Brasil entre as nações do mundo, da preservação ecológica, do respeito à laicidade do Estado e à pluralidade religiosa, do respeito às minorias, do respeito à orientação sexual, e à cidadania do negro através das políticas compensatórias de cotas, e, fundamentalmente, dos direitos de acesso dos mais vulneráveis às políticas públicas que conduzem e promovem a vida.

Do outro lado, um candidato que representa exatamente o oposto dos valores mencionados. Diante de tal configuração política não é possível a cidadãos e instituições conscientes dos valores éticos-civilizacionais acima mencionados qualquer omissão ou tergiversação ante o segundo turno das eleições brasileiras.

Dessa forma, indicamos o voto ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que reflete, mesmo com as imperfeições humanas e com as dificuldades práticas do exercício do poder político, os melhores valores políticos para o presente e para o futuro da sociedade brasileira. Em nossa opinião, se eleito o outro candidato, o Brasil entrará em uma era de franco retrocesso em relação aos valores humanistas, políticos e sociais mencionados.

É necessário, nessa quadra histórica, lembrar os valores éticos e sociais que encontramos no corpo filosófico do espiritismo de Allan Kardec, que podem ser resumidos na seguinte frase: "Em uma sociedade organizada segundo as leis do Cristo ninguém deve morrer de fome".

Entendemos que caso seja eleito o candidato opositor a Lula, tal escolha prejudicará os brasileiros da contemporaneidade e o futuro de nossos filhos e netos.

Não podemos esquecer, jamais, que a democracia brasileira esteve sob risco em 08 de janeiro de 2023, em razão dos atos dos correligionários do opositor de Lula.

No segundo turno das eleições, dia 25 de outubro de 2026, a CEPABrasil-Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, sugere a todos espíritas e não espíritas o voto em Lula.

Mais uma vez a história brasileira exige de espíritas, religiosos, ateus e cidadãos brasileiros em geral responsabilidade eleitoral.

Lula 13 é a indicação de voto da CEPABrasil!

15 outubro 2026

CEPA 80 Anos de História - Herivelto Carvalho



                                           

                   

                                                                  Herivelto Carvalho*

                                                                   CEPA 80 ANOS DE HISTÓRIA

Com o enfraquecimento do Espiritismo na Europa e o desaparecimento dos principais periódicos espíritas de língua espanhola, pois antes a Espanha fornecia normalmente revistas, livros e material doutrinário para as instituições e comunidades espíritas da América Latina, um grupo de líderes espíritas argentinos, preocupados com a organização do movimento espírita no Continente Americano, propôs, em 1939, durante o III Congresso Interno da Confederação Espírita Argentina, a criação de uma instituição representativa dos espíritas desse continente, inicialmente denominada de Liga Espiritista Pan-americana.

A deliberação começa a se concretizar, quando em 1940, os argentinos Hugo Nale, Humberto Mariotti e Naum Kreiman passaram a liderar um projeto, com aval da diretoria da Confederação Espírita Argentina. O projeto previa que a fundação da nova entidade representativa seria discutida e executada durante o I Congresso Espírita Pan-americano, que seria realizado em 1943. Essa proposta sugeriu a adoção do nome Federação Espírita das Américas e da sigla FEDA para a nova instituição.

No entanto, devido aos problemas ocasionados pelo decorrer dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, a realização do I Congresso Espírita Pan-americano foi sendo continuamente adiada.  Somente em 1946, após o fim da guerra, foi possível realizar o tão esperado congresso, durante os dias 5 a 13 de outubro, em Buenos Aires, na Argentina, ocasião  que contou com a participação de delegados de diversos países latino-americanos.

Nesse congresso, finalmente, o sonho dos espíritas americanos é concretizado com a fundação da primeira entidade espírita de caráter internacional das Américas, que diferentemente das propostas anteriores, recebeu nome de Confederação Espírita Pan-americana, sendo adotada a sigla CEPA. O Congresso tomou ainda a decisão de adotar a cepa da videira como símbolo da CEPA, a mesma utilizada por Kardec para identificar o espiritismo. Ainda nesse Congresso foi eleito o primeiro presidente da CEPA, o engenheiro argentino José Salvador Fernández.

Adotando em seu estatuto um programa de integração do Espiritismo Latino-americano, dentro de um programa mínimo de objetivos comuns, a CEPA iniciou sua marcha rumo ao progresso das ideias espíritas, através da realização de congressos e conferências periódicas em diversos países do continente. Desde sua fundação, a CEPA promoveu a realização de 22 congressos e 15 conferências regionais. 

Em 2016, setenta anos após sua fundação, durante a realização do XX Congresso Espírita Pan-americano, em Rosário, Argentina, atendendo aos insistentes clamores, principalmente da comunidade espírita da Europa, identificada com o caráter laico e livre-pensador da Doutrina Espírita, a CEPA modificou seus estatutos, transformando-se na CEPA-Associação Espírita Internacional, sendo mantida a sigla original.


APONTAMENTOS HISTÓRICOS DO MOVIMENTO DA CEPA

Herivelto Carvalho

O Período Pan-americano

§  1934

Sediado em Barcelona, o Congresso Internacional Espírita reuniu importantes nomes da América Latina, como os argentinos Manuel Porteiro e Humberto Mariotti, além do cubano Don Salvador Molina. O evento funcionou como um grande catalisador para a integração entre as instituições americanas e deu o pontapé inicial para a realização de encontros regionais.

§  1936

A eclosão da Guerra Civil Espanhola enfraqueceu severamente o movimento espírita no país europeu. Até aquele momento, a Espanha era uma das principais fornecedoras de livros, jornais e conteúdos doutrinários para os grupos espíritas da América Latina.

§  1939

A Confederação Espírita Argentina aprova uma resolução em que defendia patrocinar a criação de uma entidade representativa dos espíritas americanos, preliminarmente denominada de Liga Espiritista Pan-americana.

§  1940

A ocupação nazista em Paris, ocorrida em 14 de junho, culminou no encerramento da Federação Espírita Internacional (FEI), sediada na Maison des Spirites. Como a FEI era o único órgão global que conectava as entidades do continente americano, seu fechamento impulsionou ainda mais o desejo dos espíritas da região de fundarem uma rede de união própria.

A Confederação Espírita Argentina passa a patrocinar um projeto de criação da nova entidade representativa dos espíritas americanos, adotando agora o nome de Federação Espírita da Américas (FEDA).

Nesse contexto, o líder espírita cubano Manuel Garcia Consuegra comunicou ao presidente da FEB, Guillon Ribeiro, que um encontro em Havana havia manifestado o interesse de realizar em Cuba o “Congresso Latino-americano de Espiritistas”, focado na aproximação dos espíritas das Américas.

§  1941

Durante o IV Congresso Espírita Argentino, a Confederação Espírita local estruturou uma comissão responsável por organizar o I Congresso Espírita Pan-americano, projeto que visava dar origem à Federação Espírita das Américas (FEDA).

1946

Em 5 de outubro, durante o primeiro Congresso Espírita Pan-Americano, realizado na cidade de Buenos Aires, Argentina, fui fundada a entidade congregadora dos espíritas pan-americanos com o nome de Confederação Espírita Pan-americana (CEPA). 

§  1948

José Salvador Fernández funda a Sociedad Argentina de Parapsicologia cujos boletins científicos são publicados na revista espírita Constância.

 

§  1949

Em parceria com a Liga Espírita do Brasil, a CEPA promove o II Congresso Espírita Pan-americano. Este evento permitiu uma maior aproximação dos espíritas brasileiros da CEPA e do pensamento espírita livre-pensador.

§  1950

Acolhendo a orientação dada pelo Conselho Federativo Nacional (CFN), a Federação Espírita Brasileira (FEB) formalizou a sua adesão à CEPA.

§  1953

Durante a realização do III Congresso Espírita Pan-americano em Havana, Cuba, a CEPA reafirmou sua postura laica, declarando que o Espiritismo possui natureza estritamente científico-filosófica, desprovida de caráter religioso. Essa definição resultou no afastamento da delegação brasileira em relação à instituição. 

§  1957

José Salvador Fernández funda o Colegio Argentino de Estudios Psiquicos.

§  1958

David Grossvater e outros estudiosos espíritas venezuelanos fundam, em 20 de maio, na cidade de Maracaibo, o Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines, que posteriormente passa a se chamar Movimiento de Cultura Espírita CIMA.

1972

Ao assumir a presidência da Federação Espírita Internacional, Luis di Cristóforo Postiglioni promoveu uma maior aproximação entre o movimento espírita latino-americano e os grupos espíritas da Europa e de tradição anglo-saxã.

§  1980

Josep Casanovas Llardent e um grupo de espanhóis funda o Centro Barcelonês de Cultura Espírita (CBCE). Cinco anos depois, o CBCE recebe a visita do escritor e conferencista Jon Aizpúrua e do então presidente da CEPA, Hermas Culzoni. A partir daí ampliam suas relações com os espíritas livre-pensadores da América. 


§  1986

Entre os dias 20 e 24 de outubro, a cidade de Foz do Iguaçu (PR) recebeu a X Conferência Regional Espírita da CEPA, evento que marcou a retomada das ações da instituição no Brasil. O encontro contou com nomes de destaque, incluindo o então presidente da FEB, Dr. Francisco Thiesen, além de Divaldo Pereira Franco, José Raul Teixeira, Juvanir Borges de Souza e Altivo Ferreira.

§  1988

Um grupo de jovens pesquisadores funda, em Santos, SP, o Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc Espírita).

§  1989

Jaci Régis cria o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), cuja primeira edição aconteceu em Santos, SP.

§  1993

Jon Aizpúrua, como presidente da CEPA, realiza uma visita ao III SPBE, que acontecia em Santos. Neste evento estreita relações com a diretoria do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre CCEPA, que também participava do evento.

§  1995

O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) efetuou sua filiação oficial à CEPA.

§  1996

Uma expressiva comitiva de representantes brasileiros marcou presença no XVII Congresso Espírita Pan-americano, realizado em Buenos Aires, na Argentina, fortalecendo e expandindo a participação do país dentro da organização.

§  2000

Acontece em Porto Alegre, RS, com o apoio logístico do CCEPA o XVIII Congresso Espírita Pan-americano, que marcou o retorno da CEPA ao Brasil e firmou a postura da instituição na vanguarda da atualização do Espiritismo.

§  2003

Delegados brasileiros da CEPA fundam a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da Confederação Espírita Pan-americana, inicialmente denominada de CEPAmigos e que depois passa a se chamar CEPABrasil.

§  2007

Fundada em Sevilha, Espanha, a Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo (AIPE)

A Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa (ASSEPE) idealiza o Fórum do Livre Pensar Espírita, projeto que posteriormente foi adotado pela CEPABrasil e passou a ser realizado em série, em diferentes cidades brasileiras.

§  2016

Setenta anos após sua fundação, durante a realização do XX Congresso Espírita Pan-americano, em Rosário, Argentina, atendendo aos insistentes clamores, principalmente da comunidade espírita da Europa, a CEPA modificou seus estatutos, transformando-se na CEPA-Associação Espírita Internacional, sendo mantida a sigla original.

 


DA ESPANHA ÀS AMÉRICAS: A TRAJETÓRIA DA TRADIÇÃO ESPÍRITA LIVRE-PENSADORA

 Herivelto Carvalho

Por volta de 1870, Don Justo de Espada, um espanhol oriundo de Málaga, veio tentar a sorte na Argentina, trabalhando em empreendimentos comerciais, na capital Buenos Aires. Trouxe consigo uma carta de recomendação que comprovava sua vasta experiência no ramo, porém, sua maior contribuição ao país que o acolhera, não foi no campo profissional, mas sim no das ideias espiritualistas, pois foi o primeiro divulgador de um movimento que, no dizer de Cosme Mariño, preocupava os intelectuais mais avançados do Velho Mundo: o Espiritismo. Outro espanhol, Angel Aguarod, antigo integrante do Centro Barcelonés de Estudios Psicológicos, se tornou no início do séc. XX, um dos principais divulgadores do Espiritismo na América do Sul. Em Cuba, imigrantes catalães deram início aos primeiros agrupamentos espíritas do país.

Estes exemplos ilustram como a vinda de imigrantes espanhóis foi fundamental para o desenvolvimento do Espiritismo em vários países da América Latina. Além de atuarem como propagandistas da nova doutrina, trouxeram consigo algumas características que eram peculiares do movimento espírita espanhol, dentre elas, uma forte tendência de associação doutrinária com os ideais de livre-pensamento, secularismo e atuação social.

Esse movimento desenvolveu grande unidade e atuação na sociedade espanhola, cuja proposta filosófica se apresentava como a superação das religiões positivas. Esta forma moderna de espiritualismo rechaçava os elementos de dogmatismo existente nas religiões do passado e pretendia desenvolver uma nova espiritualidade racional, capaz de se relacionar com a filosofia e a ciência. Pelas particularidades que o mesmo desenvolveu, formou uma escola de pensamento que tem como atributo principal a interpretação do Espiritismo como um sistema de ideias aberto, progressivo, não-dogmático e relacionado com o livre-pensamento, constituindo, portanto, no sentido filosófico, uma tradição.

Podemos afirmar que o surgimento da tradição espírita livre-pensadora ocorreu, no final do séc. XIX, quando as obras de Allan Kardec se popularizaram na Espanha. Seus expoentes iniciais foram Alverico Perón, Fernandez Colavida, Torres-Solanot e Amália Domingo Soler. Esta tradição adquire características próprias não porque fez um rompimento com o pensamento kardecista, mas sim pelo método de desenvolvimento adotado e pelo modo de atuação no seu contexto social, que se distinguiu do modo como os espíritas franceses praticavam e divulgavam o Espiritismo.

Profundamente organizado e ativo, o movimento espírita espanhol se internacionalizou, influenciando a formação de movimentos espíritas nos países americanos. A Espanha, portanto, se tornou para estes, a principal fornecedora de conteúdo doutrinário, através de periódicos e livros que atravessavam o Atlântico, tornando alguns autores espanhóis muito populares no Novo Mundo. Essa situação fez com que, no final do séc. XIX, a figura da espanhola Amália Domingo Soler se tornasse uma das maiores divulgadoras internacionais do Espiritismo, tendo seus escritos reproduzidos em publicações por toda a América Latina.

Outro exemplo de intercâmbio cultural entre os movimentos espíritas dos dois continentes pode ser notado, durante a realização do Primeiro Congresso Internacional Espírita, em Barcelona, no ano de1888, em que as duas maiores delegações, com exceção da própria Espanha, eram as de Cuba e México, bem como, um dos secretários do evento foi o destacado líder espírita cubano Eulogio Prieto.

Apesar de as ideias de laicidade, livre-pensamento e constante atualização serem praticadas por espíritas latino-americanos e espanhóis, desde as últimas décadas do séc. XIX, com o passar dos anos, no âmbito do movimento espírita pan-americano, o conhecimento acerca desse fato, ficou perdido, a ponto de muitos integrantes desse movimento acreditarem que tais ideais se consolidaram após a fundação da Confederação Espírita Pan-americana em 1946.

Após o resgate e disponibilização virtual de obras clássicas de autores que atuaram como protagonistas no desenvolvimento do Espiritismo pan-americano, realizada com muito zelo pela equipe do projeto PENSE, foi possível uma leitura mais atenta deste material, o que permitiu identificar um grande número de citações e referências a autores espanhóis que se consagraram nas primeiras décadas do movimento espírita daquele país, cujo trabalho apresentava uma ascendência sobre o pensamento dos espíritas latino-americanos. Naum Kreiman, por exemplo, ao falar sobre seu conceito de ciência espírita, cita, diversas vezes, o pensamento de Manuel Sanz Benito, espanhol que, em 1890, publicou importante obra sobre a epistemologia espírita.

Uma análise atenta desse fato confirma que o Espiritismo divulgado e vivido pela CEPA é o desenvolvimento das ideias da tradição espírita livre-pensadora, elaborado durante um intercâmbio cultural, onde o conhecimento espírita produzido nos dois continentes possuía mútua influência. Trata-se de uma escola de pensamento espírita perpetuada e ampliada por pensadores latino-americanos como Mariño, Porteiro, Mariotti, Fernández, Kreiman, Grossvater, Postiglioni, Aizpúrua, dentre outros.

Esse intercâmbio foi crescente e progressivo até os anos 1930, quando a Guerra Civil Espanhola e a perseguição imposta pela ditadura do General Franco destruiu o forte movimento espírita espanhol. A partir desse momento, os espíritas americanos perceberam que estava sob sua responsabilidade, a tarefa de manter vivo o projeto de desenvolvimento do Espiritismo, e que para efetivar esta atividade, seria preciso instituir um movimento integrador para o continente. O resultado dessa percepção culminou com a iniciativa de criação da CEPA.

Os ideais de defesa do caráter progressivo, laico e livre-pensador do Espiritismo bem como o desenvolvimento da Filosofia Espírita e sua atuação em diversos setores da sociedade como a política, a educação, a justiça, etc, tão defendidos na atualidade pelos espíritas cepeanos, podem ser facilmente encontrados na aurora da tradição espírita livre-pensadora.  Em 1890, Sanz Benito, alegava que “nunca o Espiritismo poderá constituir escola, doutrina ou sistema, com afirmações definitivas, pois que sempre deixará amplo campo às investigações e sempre irá ampliando seu curso científico”, dando destaque ao seu caráter progressivo. O próprio Congresso de 1888 se pautou pela manutenção deste mesmo caráter ao buscar efetivar o projeto de Kardec sobre os "congressos orgânicos", que seriam responsáveis pela revisão geral e a adesão de novos princípios. O mesmo evento salientou a característica de laicidade, ao afirmar, no texto de sua declaração final, que era preciso um “esforço constante para difundir o laicismo por todas as esferas da vida”. Alguns anos antes, Colavida, em carta a Albert de Rochas, afirmava essa mesma característica ao declarar que “O espiritismo não é nem cristão, nem muçulmano, nem judeu, etc.”.

Ao longo de sua existência, a tradição espírita livre-pensadora, através das obras de autores clássicos e modernos, contribuiu para o desenvolvimento dos fundamentos e da natureza do Espiritismo. A CEPA ampliou sua participação, nos últimos anos, no Brasil, na Espanha e na França, além de continuar atuante em todo o Continente Americano, e, como uma legítima herdeira dessa tradição, tem a tarefa de manter vivos seus ideais, especialmente, o tão importante caráter progressivo do Espiritismo, considerado por Kardec como a condição essencial para a sua perpetuidade e sobrevivência.

* Herivelto Carvalho é servidor público municipal, membro do CPDoc e delegado da CEPA em Ibatiba ES.

05 outubro 2026

DA RELIGIÃO AO LIVRE PENSAMENTO A contribuição da CEPA para o atual estágio do espiritismo no Brasil por Milton Medran Moreira

 

DA RELIGIÃO AO LIVRE PENSAMENTO

A contribuição da CEPA para o atual estágio do espiritismo no Brasil

                                                                       Milton Medran Moreira(*)

               A Pré-História da CEPA no Brasil

               Na oportunidade em que a CEPA – Associação Espírita Internacional (ex- Confederação Espírita Pan-Americana) completa oitenta anos de fundação (Buenos Aires, outubro de 1946), é oportuno salientar alguns aspectos ligados à sua presença no Brasil.

               Embora, ainda nos primórdios de sua existência, tenha realizado seu 2º Congresso Espírita Pan-Americano, na então capital brasileira, Rio de Janeiro (outubro de 1949), tendo, inclusive, ali, sido eleito um brasileiro para sua presidência, Pedro Delfino Ferreira, a presença da CEPA, aqui, nas décadas seguintes, encontrou sérias dificuldades de expansão.

               O perfil marcadamente religioso de que se havia impregnado o espiritismo no Brasil, a partir, notadamente, da visão roustainguista oficialmente adotada pela Federação Espírita Brasileira, distanciava o movimento espírita do país da orientação kardecista, que, desde seu nascimento, caracterizara a CEPA.

               Acresça-se à condição acima, a influente atuação do médium Francisco Cândido Xavier e sua caudalosa obra mediúnica, sustentada por autores espirituais de forte impregnação cristã/católica. Plasmou-se, assim, aqui, a “religião espírita”, de natureza eminentemente evangélica e escassamente afeita a aspectos científicos e filosóficos, propostos na obra do fundador do espiritismo, Allan Kardec.

               Por essas razões, o esforço de Deolindo Amorim e de seus companheiros da então Liga Espírita do Brasil, promotores do segundo Congresso da CEPA, sediado no Brasil, naquele 1949, foi lentamente se dissipando, a ponto de tornar praticamente desconhecida, em terras brasileiras, uma instituição que fora fundada com o objetivo de congregar todo o movimento espírita das Américas.

               Mais que isso, e também por forte influência de espíritos que se identificavam como autores espirituais das obras de Chico Xavier, a Federação Espírita Brasileira se auto investira da condição de condutora do movimento espírita mundial, escudada em “manifestações proféticas”, presentes no livro “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho” (FEB 1938), de autoria espiritual atribuída ao escritor brasileiro Humberto de Campos (1886/1934).  O chamado, então, movimento de “unificação”, imposto à rede de instituições brasileiras, não recomendava qualquer vínculo com outro organismo que não a FEB e, tampouco, outra visão doutrinária que fugisse ao chamado “triângulo emanuelino”. Este classificava o espiritismo como “ciência, filosofia e religião”, dando primordial importância ao último aspecto e minimizando os demais.

               O retorno da CEPA ao Brasil

               Nos anos 90 do século passado, ocorre o retorno da CEPA e de sua proposta doutrinária ao Brasil. Trata-se de um cuidadoso e corajoso trabalho feito por iniciativa do então presidente da instituição, o venezuelano Jon Aizpúrua.

               No ano de 1994, Aizpúrua, tendo iniciado seu segundo mandato na presidência da CEPA, e conhecedor profundo que sempre se mostrara da história e do perfil do espiritismo brasileiro, inicia uma série de contatos com pessoas e instituições espíritas que, àquela altura, contestavam a postura da FEB e seu religiosismo, e assumiam uma postura laica e livre-pensadora, fortemente fundada na obra de Allan Kardec.

               Atendendo a convite formulado por Aizpúrua, instituições espíritas sediadas nos Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, passaram a aderir formalmente à CEPA, iniciando a formação de uma rede de pessoas e instituições que, num primeiro momento, direcionaram sua ação no sentido de divulgar o espiritismo no Brasil não mais como uma “religião”, mas como um movimento espiritualista de caráter laico e livre-pensador, tendo por base as obras do fundador do espiritismo, o francês Allan Kardec.

               O esforço de Aizpúrua que, na época, fez várias visitas ao Brasil, pronunciando conferências, contactando com centros e grupos espíritas abertos às propostas da CEPA e concedendo entrevistas a jornais, emissoras de rádio e TV, motivou a formação de uma delegação de cerca de 60 pessoas a Buenos Aires, em outubro de 1996, para participarem do 17º Congresso Pan-Americano de Espiritismo.

               O Congresso seguinte, no ano de 2.000, teria por sede, novamente, o Brasil, em Porto Alegre, onde o autor deste artigo foi eleito presidente da CEPA, cargo que ocupou por dois mandatos, (2000/2004 e 2004/2008). Consolidava-se, ali, a presença institucional da CEPA no Brasil.

               Mais tarde, e também por dois mandatos (2012/2016), a também brasileira, Jacira Jacinto da Silva (São Paulo) presidiria a CEPA, em cuja gestão, em Congresso realizado na Argentina, a instituição tomou a atual designação: CEPA – Associação Espírita Internacional.

               Desenha-se um novo perfil do espiritismo no Brasil

               As breves anotações acima, sem nenhuma pretensão de abranger toda a história da CEPA, no Brasil, servem apenas para situar o leitor numa sequência histórica que plasma o despertar de um novo perfil não exatamente institucional, mas eminentemente social e filosófico, da proposta espírita, no seio da sociedade brasileira.

               Abandonando a ideia que inspirara sua fundação, ainda na primeira metade do Século 20, e que era de congregar todo o movimento espírita pan-americano, a CEPA assumia outro perfil: o de uma entidade capaz de representar uma significativa ala do espiritismo mundial, dissociado de uma visão religiosa, fideísta, para tratá-lo e difundi-lo como um movimento de ideias espiritualistas de caráter livre-pensador, sempre atualizável e de consequências filosóficas e sociais progressistas. Os adjetivos “laica”, “kardecista”, “progressista” e “livre-pensadora”, mais do que nunca, passaram a caracterizar a identidade da CEPA, nos países onde tem representatividade e, de maneira muito particular, no Brasil.

               Visto tradicionalmente como uma “religião cristã” e atestado pelo censo populacional, sucessivamente, como a terceira “religião” no cenário brasileiro, depois do catolicismo e do evangelismo, o espiritismo, hoje, começa a ser notado como um movimento de ideias ao qual aderem estudiosos e cultores da sociologia, da filosofia, da psicologia, das ciências humanas em geral, das artes e da política.

Tendo por princípio a ideia central da imortalidade do espírito e da comunicabilidade entre “vivos” e “mortos”, da qual dimanam consequências éticas e morais, o espiritismo, pouco a pouco, se firma, no Brasil, como uma verdadeira “escola de pensamento”.

Esse movimento, que não se restringe apenas à CEPA, aqui representada por uma associação civil, reunindo pessoas e entidades, a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil -, mostra-se, hoje, pujante. Está fortemente presente nas redes sociais, nas diversas associações, editoras, movimentos universitários, entidades promotoras de fóruns de debate, congressos etc, totalmente distanciados do chamado “movimento unificacionista”, comandado pela Federação Espírita Brasileira. Une-os justamente a ideia central do livre-pensamento, inspirado nos princípios cardeais do espiritismo, quais sejam, a ideia da imortalidade do espírito, o intercâmbio do mundo material e espiritual, a reencarnação e os valores éticos decorrentes desses pressupostos.

Não se restringido, entretanto, à CEPA, esse movimento plural, de feições nem sempre idênticas, não teria, contudo, alcançado a importância que começa a assumir, no Brasil, não fosse, lá atrás, a proposta e a ação enérgicas da CEPA no sentido de abstrair da identidade do espiritismo a condição de “religião”, para difundi-lo como um movimento de ideias laicas, progressistas e libertadoras.

Ser ou não ser o espiritismo uma religião, discussão surgida no próprio seio do movimento espírita, e que encontrou na CEPA uma enérgica posição, no sentido da afirmação de sua laicidade, foi, podemos afirmar, hoje, o marco a partir do qual desenvolveu-se, no Brasil, um ambiente capaz de qualificar a proposta espírita, dar-lhe, realmente, foros de cientificidade e de movimento intelectual e social de relevo.

Sem o impulso da CEPA, nas décadas finais dos anos 80, até hoje, o espiritismo não teria chegado ao estágio de respeitabilidade que logrou alcançar, na área de cultura, contribuindo, com seu pensamento, e a partir de seus fundamentos, com os setores comprometidos com o progresso social, ético e político do país.

O futuro da proposta espírita, no Brasil, a partir da efervescência de suas ideias, hoje observável, passa, dessa forma, necessariamente, pela histórica presença da CEPA, a partir do final do Século 20 e primeiras décadas do Século 21.

O espiritismo, no Brasil, pouco a pouco, deixa de ser visto apenas como mais uma religião, para ser considerado como um movimento de ideias compatível com o ideal de quem vê no ser humano um espírito imortal vocacionado ao contínuo progresso, em busca da plena felicidade. Condição essa, capaz de tornar o mundo e a humanidade melhores.

Foi o registro que gostaríamos de deixar consignado, quando a CEPA – Associação Espírita Internacional completa seus 80 anos de existência.

Valeu e valerá a pena!

 

 

 

(*) Procurador de Justiça aposentado do Rio Grande do Sul, Advogado, Jornalista, integrou os quadros diretivos da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, onde ocupou o cargo de diretor do Departamento de Comunicação Social, tendo dirigido a revista “A Reencarnação” daquela federativa. Desde 1983, é membro do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre do qual foi Presidente. Fundou e dirigiu por 30 anos o Jornal CCEPA OPINIÃO. Ex- Presidente da CEPA Internacional (2000/2008). Autor de vários livros espíritas.            

              

 

20 setembro 2026

Um texto sem nome - Ciro Pirondi


 CIRO PIRONDI, Arquiteto e Urbanista, reconhecido pela sua atuação crítica e humanista na Arquitetura, com foco na responsabilidade e sustentabilidade, é cofundador da \escola da cidade, instituição de ensino superior em São Paulo que adita uma abordagem inspirada nos princípios educacionais de Paulo Freire.

Quando compreendemos a complexidade – simples do Espiritismo, e a dimensão real da itinerância das existências, sentimos que o mundo nos basta. E o presente, a eternidade que nos satisfaz.

Não corremos atrás de um Deus, mesmo que ele exista. Não sofremos pela salvação, mesmo porque, ela não é necessária.

Como sopra o espírito dos evangelhos, não nos inquietamos com o dia seguinte, pois o amanhã se inquietará consigo mesmo. Basta a cada dia seu próprio penar.

No cotidiano percebemos a razão de André Sponville ser a generosidade uma força e vitória, porque ficamos mais leves, simples e gentis. Menos tolerantes com as injustiças, principalmente as coletivas e sociais, como a de Paraisópolis.

Libertando-nos dos anseios de eternidade e nos satisfazendo com o presente, nos tornamos mais humanos, mais fortes e doces. Talvez mais eternos.

Não se trata de dar lição a ninguém, mas ajudar a cada um a ser seu próprio mestre e seu único juiz.
Aceitar a distância entre o que sabemos e não sabemos, e termos a sabedoria de nossa ignorância é a condição básica para aprendizagem. Os que sabem já não necessitam aprender e os que dizem nada saber negam suas memórias, suas vidas.

Este breve texto sem nome, fala um pouco dessas minhas inquietudes. Animei-me a escrevê-lo quando li sobre os Cadernos de Cultura que Jaci e eu inventamos. Talvez pense em editar um outro, sem título ou tema, apenas convidando amigos a escreverem sobre suas reflexões.

Afinal aqui estamos neste belo mundo, em um país temporariamente na escuridão, onde nenhuma pessoa com bom senso pode se sentir confortável. Talvez só nos reste resistir, intuir algo novo, acreditarmos na beleza, na leveza e nos poetas, “antenas da raça”.

Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos/ 20 de fevereiro de 2020
Acesse: CEPA Internacional



05 setembro 2026

Consolador, Sim - Prometido, Talvez - Néventon Vargas


Néventon Vargas*

Uma questão que me intriga e que se repete em minha mente constantemente é a decisão de Allan Kardec, nosso insigne mestre de Lion, ter identificado no Espiritismo a promessa feita por Jesus há dois mil anos.

Consultando o Houaiss verifiquei que o sentido da palavra “consolador”, abstendo-se, evidentemente, das conotações figuradas e religiosas, cabe perfeitamente para o Espiritismo.

Não pretendo, entretanto, fazer aqui uma defesa da adjetivação, pois isso já está feito com brilhantismo n’O Evangelho Segundo o Espiritismo e nas outras obras escritas por Kardec. Tal qualificação já está devidamente caracterizado em toda quarta parte d’O Livro dos Espíritos, intitulada “Das esperanças e Consolações”.

Mas, “consolador” é apenas um adjetivo que pode ser precedido de muitos substantivos. O problema começa a aparecer quando a palavra é usada como substantivo, seja para designar o Espiritismo, seja para identificar qualquer outra filosofia, ideia, pessoa, religião, etc. Qualquer uso nesse sentido o tornará absoluto, o que é incompatível com o mínimo de modéstia e humildade. Eu diria ainda mais: que é extremamente pretensioso.

Uma postura dessa natureza não se encaixa na Filosofia Espírita, que é, acima de tudo, libertadora e nunca deveria nos aprisionar a dogmas e a expressões cristalizadas que comprometem o seu caráter eminentemente progressista.

Até agora, só me referi à palavra “consolador”. Agrava-se o problema quando se adjetiva o substantivo com a palavra “prometido”. Esta forma está expressa n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 6 e a sua defesa foi feita nos itens 3 e 4 pelo próprio Kardec. Tal identificação coloca o Espiritismo como o herdeiro direto de Jesus, à revelia das religiões cristãs, criando um antagonismo totalmente desnecessário.

Respeito profundamente Allan Kardec, mas me recuso a designar o Espiritismo como “O Consolador Prometido”. Não estou afirmando que ele está errado. Estou dizendo que posso até aceitar que a Doutrina Filosófica e Moral, chamada Espiritismo, seja realmente aquilo que Jesus pensava quando, segundo a citação no Evangelho (João 14:15 a 17 e 26), disse que o Pai enviaria outro Consolador. O que não aceito é repetir e propagar isso, a exemplo das religiões salvacionistas que pregam serem a única verdade e o único caminho para a salvação.

Não precisamos despender muito tempo em pesquisas para encontrarmos inúmeros exemplos na história e até na atualidade de posturas extremamente perniciosas para a evolução da humanidade, em que nações, grupos ou indivíduos se acham detentores do poder e da verdade, únicos “escolhidos de Deus” para elevar o homem à santidade. A consequência disso tem sido o estímulo ao segregacionismo e ao preconceito que levam, invariavelmente, às guerras coletivas e individuais.

É hora de o homem abrir a sua mente para as diversidades e aprender com elas. É hora de o Espiritismo rever conceitos e posturas que estejam criando obstáculos às relações humanas. Afinal, se ele não é uma seita, se os seus princípios são universais, se a sua busca constante é pela verdade, ele não é exclusividade dos espíritas. Ele é do homem para o homem, dos espíritos para os espíritos, independentemente de qualquer rótulo, tempo e/ou espaço.

[Artigo retirado do site :  https://www.assepe.org.br/site/ publicado em 30/11/2017.]

* Néventon Vargas é graduado em Engenharia Civil pela UFSM e Licenciado em Física pela UECE, militar aposentado, membro fundador da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa, associado à CEPA – Associação Espírita Internacional e à CEPABrasil – Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA.

 



20 agosto 2026

O CANCELAMENTO E O MOVIMENTO ESPÍRITA – por Saulo de Meira Albach

 O CANCELAMENTO E O MOVIMENTO ESPÍRITA – por Saulo de Meira Albach

 


 


Presidente do CPDOC, Integrante do grupo musical “Alma Sonora, de Curitiba-PR. 

Na sociedade contemporânea, marcada pelo uso das redes sociais, uma prática tem sido destacada diante da polarização e da radicalização do debate, especialmente na esfera da política: o cancelamento.

 “Funciona assim: um usuário de mídias sociais, como Twitter e Facebook, presencia um ato que considera errado, registra em vídeo ou foto e posta em sua conta, com o cuidado de marcar a empresa empregadora do denunciado e autoridades públicas ou outros influenciadores digitais que possam amplificar o alcance da mensagem. É comum que, em questão de horas, o post tenha sido replicado milhares de vezes.” (1)

 Como toda prática política o cancelamento, mal utilizado, pode gerar injustiças e excessos. Afinal de contas, uma tendência decorrente da polarização extrema na qual vivemos hoje é por fim ao debate, ao diálogo.

 O psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker pontua que há um uso um tanto quanto exagerado do cancelamento, mas isso não significa que ele deva ser invalidado. “Há que se distinguir o cancelamento, ato político e estrategicamente bem-posto, do cancelamento autocrático, que produz a sensação de moralismo. Toda vez que cancelo simplesmente porque ‘eu não faria assim’, pressupondo que o outro deva agir exatamente como eu ajo, eu estou indo contra a inclusão, a universalização do diálogo. E, ainda mais grave, ao me retirar do debate, o cancelado pode se beneficiar e criar um ambiente ainda mais tóxico, machista, violento e, portanto, aumentar a coerência identitária do seu grupo, o que seria péssimo.” (2)

 Interessante observar que tal procedimento assemelha-se a uma prática que ocorre no movimento espírita brasileiro há muito tempo. Uma espécie de cancelamento.

 Alguns adeptos - por assumirem alguma postura ou linha de pensamento contrária àquela do grupo dominante - tem sua memória apagada pela história oficial das instituições espíritas.

 Um caso antigo é o do Professor Angeli Torteroli, ativista espírita de destaque no Rio de Janeiro que fez oposição à linha denominada mística na disputa de poder que marcou o movimento espírita do final do século XIX e início do XX, reduzida historicamente a “místicos x científicos”.

  

O historiador Mauro Quintella e o escritor Eugênio Lara resgataram a memória do professor Torteroli. (3)

 O “apagamento” neste caso chegou ao ponto de suprimir qualquer referência ao trabalho do “encrenqueiro” e, quando não havia como deixar de citá-lo o faziam de forma cifrada: o professor T.

 Outro “cancelado” é o jornalista, psicólogo e escritor espírita Jaci Régis (1932 – 2010). Catarinense, radicado em Santos (SP), escreveu inúmeras obras espíritas, dirigiu e editou o jornal Espiritismo e Unificação por 23 anos, criou e dirigiu o jornal “Abertura” que circula até hoje, foi diretor da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda por 32 anos e fundador do ICKS – Instituto de Cultura Kardecista de Santos, um dos fundadores da União Municipal Espírita de Santos (UMES), em 1951, dentro outras atividades no meio espírita. 

 Ao assumir a linha do espiritismo laico e disputar eleição para a presidência da USE, Jaci que trabalhou por décadas no movimento dito “de unificação”, foi retirado da história oficial.

 Exemplo recente deste apagamento está na edição de 179 – setembro/outubro do jornal DIRIGENTE ESPÍRITA, órgão de divulgação da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Em artigo sobre a imprensa espírita, a articulista cita espíritas que se destacaram na divulgação do Espiritismo através da imprensa: Olímpio Teles, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, Pedro Camargo (Vinícius), Batuíra, Herculano Pires, Deolindo Amorim, Jorge Rizzini, Anália Franco, Eduardo Carvalho Monteiro, Edgard Armond e tantos outros.

 Estaria meu saudoso amigo Jaci incluído nos “tantos outros”?

 Enfim, há muitos outros episódios envolvendo Jaci Régis e há muitos outros casos espalhados pelo nosso país (Krishnamurti de Carvalho Dias, Waldo Vieira, Gasparetto, etc.). Isso revela a dificuldade do movimento espírita em aceitar o debate, a crítica, o questionamento, especialmente quando se trata da questão religiosa.

 A carência de preservação da história dentro do movimento espírita pode ser vista como uma das causas desses apagamentos. Mas, também se identifica uma estratégia – e aqui o fato é mais lamentável - visando impedir que se conheça o pensamento daqueles que em algum momento ousaram romper com o pensamento hegemônico ou dominante, ainda que tenham feito parte da instituição.

 A professora Maria Letícia Mazucchi Ferreira leciona em artigo publicado na Revista Aurora (Revista de Arte, Mídia e Política), n. 10 (2011):

Johannn Michel em seu texto “Podemos falar de uma política do esquecimento”(2010) estabelece uma tipologia do esquecimento indo daquele abordado como omissão, que decorre de descartes funcionais tanto no indivíduo quanto na sociedade; a negação, que ao contrário do descarte involuntário é uma patologia da memória ligada à traumas que não foram superados mas que não podem ficar na esfera do consciente; a manipulação do esquecimento, fortemente marcada pela ação de atores públicos encarregados de transmitir a memória oficial. Ainda que compreendidos em separado, esses são como tipos ideais e podem atuar concomitantemente, pois estão condicionados aos contextos nos quais são gerados.(4)

A manipulação do esquecimento é prática incompatível com a filosofia espírita posto que falseia a verdade.  Seria melhor citar o agente que fez história e criticá-lo ou declinar os motivos pelos quais se contesta o seu pensamento do que excluí-lo, apagá-lo, cancelá-lo. Mas quase como regra geral, em matéria de atuação interna o movimento espírita tem preferido o caminho autoritário ao alteritário; o excludente ao includente.

Assim se fomenta a divisão e não vejo no horizonte estreito da minha visão, possibilidade de reversão deste quadro a curto ou médio prazo. 

 

Desculpe-nos, Kardec!

 

1-In BBC News: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53537542, acesso em 05.09.2020.

2- In Carta Capital: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cancelamento-nas-redes-sociais-vai-da-represalia-ao-linchamento/ acesso em 05.09.2020.

3- In Biografia de Afonso Angeli Torteroli, acessada no site www.autoresespiritasclassicos.com e História Ilustrada do Espiritismo no Brasil, acesso em www.cpdocespirita.com.br .

4- Políticas da Memória e Políticas do Esquecimento. In: D:/Meus%20Arquivos/Downloads/4500-11653-1-PB.pdf

terça-feira, 2 de março de 2021

 Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.2021