05 fevereiro 2026

CONSCIÊNCIA & INCONSCIÊNCIA, por Wilson Garcia

 


Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires

Antonio Damasio: a consciência como produto do

corpo — ciência, limites e diálogo com o Espiritismo

Na entrevista concedida ao El País por ocasião do lançamento de Inteligência Natural e a Lógica da Consciência, o neurocientista português Antonio Damasio reafirma e aprofunda sua tese central: a consciência não nasce de uma mente abstrata separada do corpo, mas de um processo biológico integrado em que cérebro, sistema nervoso e corpo inteiro atuam como um circuito contínuo.

Ao longo de três décadas, desde O Erro de Descartes (1994), Damasio vem atacando o dualismo cartesiano — a separação entre mente e corpo — propondo um monismo biológico: a mente é atividade do organismo vivo; a consciência emerge da autorregulação corporal e das sensações internas (homeostáticas).

Seu novo passo teórico reposiciona a origem da consciência, deslocando o foco do córtex cerebral para estruturas mais primitivas do sistema nervoso, em especial o tronco encefálico, onde se processam os sinais de interocepção — percepções internas do estado do corpo — que dão origem aos sentimentos básicos: dor, prazer, fome, sede, conforto, mal-estar.

Damasio propõe uma inversão do senso comum: “Não sentimos porque somos conscientes; somos conscientes porque sentimos.”

Ou seja, os sentimentos precedem a consciência, constituindo sua matéria-prima fundamental. A consciência seria um sistema de “sentinelas” biológicas que monitoram continuamente o estado da vida corporal, permitindo ao organismo reconhecer-se como uma unidade individual em ação no mundo.

Consciência: não como abstração, mas como biologia vivente

Segundo o neurocientista, não existe consciência sem sistema nervoso. Por isso:

·                Plantas e bactérias não são conscientes, ainda que vivas e complexas;

·                Animais com sistemas nervosos são conscientes, embora em graus distintos de elaboração;

·                A consciência humana decorre não apenas da complexidade neuronal, mas também de nossa vida social, baseada em empatia, detectação da vulnerabilidade alheia e relações simbólicas.

Essa concepção reforça o deslocamento contemporâneo da neurociência: da ideia de uma consciência puramente cortical — centrada na racionalidade abstrata — para uma consciência afetiva, orgânica e encarnada.

Inteligência Artigficial: potência instrumental, não consciência humana

Um ponto forte da entrevista é a reflexão de Damasio sobre a possibilidade de consciência artificial. Ele abandona sua posição anterior — totalmente cética — para assumir uma visão mais cautelosa: poderia surgir algum tipo de consciência artificial, mas não comparável à humana.

O motivo do limite é fundamental: sistemas artificiais não estão vivos, não possuem corpo vulnerável, nem inserção social orgânica. Sentir implica carne, dor, prazer e risco existencial — experiências inexistentes em máquinas.

Assim, embora a IA possa resolver problemas complexos superiores aos humanos (ex.: AlphaFold), isso não implica subjetividade, mas apenas potência computacional. Para Damasio, a inteligência artificial nasce da inteligência natural: os próprios neurônios mielinizados — responsáveis pelo processamento “digital” humano — inspiraram os sistemas computacionais.

A consciência genuína permaneceria atrelada a organismos biológicos vulneráveis, integrados numa teia emocional e social.

Tratamento de estados alterados de consciência

Os avanços de Damasio têm reflexos clínicos: ao reconhecer o papel central do tronco encefálico e da interocepção na consciência, abre-se uma nova via para compreender e tratar casos de:

·       Coma

  • Estados vegetativos

·       Distúrbios graves da percepção corporal

Em vez de focar exclusivamente no córtex — tradicional alvo da neurologia cognitiva —, a pesquisa volta-se para sistemas mais primários, responsáveis pela manutenção da sensação de existência.

A síntese atual da posição de Damasio

Podemos resumir sua tese contemporânea em quatro eixos fundamentais:

1.     Consciência nasce dos sentimentos corporais, não da abstração racional.

  1. O cérebro consciente é um órgão de regulação vital, não um epifenômeno metafísico.
  2. Sem corpo vivo não há consciência, o que afasta uma eventual equivalência homem-máquina.
  3. A vida social e a empatia ampliam a consciência humana, distinguindo-nos qualitativamente dos sistemas artificiais.
Confronto crítico com o Espiritismo

Quando colocadas em diálogo com o 
Espiritismo, as ideias de Damasio revelam tanto convergências parciais quanto tensões profundas.

Convergências

Centralidade do sentimento

O Espiritismo afirma que a consciência moral nasce da sensibilidade espiritual. Kardec escreve: “O sentimento precede a razão.” (O Livro dos Espíritos, q. 117). Isso converge com a ideia de Damasio de que sentir é anterior ao pensar.

Caráter progressivo da consciência

Para o Espiritismo, a consciência evolui em graus; a inteligência e a percepção moral ampliam-se lentamente através das experiências encarnatórias. Em Damasio, vemos eco dessa visão gradualista ao reconhecer:

o   Consciência em graus nos animais;

 

o   Desenvolvimento dependente da complexidade dos sistemas biológicos e sociais.

Integração mente–corpo

Kardec rejeita o dualismo simplista que opõe matéria e espírito como substâncias antagônicas. O Espírito age por meio do corpo, através do perispírito, intermediário da percepção. Damasio, ainda que materialista, também rejeita o dualismo cartesiano, defendendo a unidade funcional entre mente e organismo.

Tensões e divergência fundamentais

Origem última da consciência

  • Damasio: consciência é produto exclusivo do sistema nervoso biológico.
  • Espiritismo: consciência é atributo essencial do Espírito, pré-existente ao corpo e sobrevivente à morte física.

Para Kardec, “A consciência é a voz da alma.” (Obras Póstumas). No espiritismo, o cérebro não produz a consciência, mas a manifesta e a filtra na experiência encarnada.

Vida sem corpo

Damasio afirma que sem sistema nervoso não pode existir consciência. Já o Espiritismo sustenta exatamente o contrário:

  • A consciência subsiste após a morte;
  • Estados de lucidez pós-morte são observáveis em comunicações mediúnicas e fortes relatos de experiências de quase-morte (EQMs), amplamente estudadas na atualidade por pesquisadores como Pim van Lommel, Bruce Greyson e Sam Parnia.

Segundo a doutrina espírita, o Espírito conserva suas faculdades intelectuais e morais após a separação do corpo.

IA e consciência

Aqui ocorre um curioso ponto de aproximação inesperada:

  • Para Damasio: IA não pode ter consciência humana plena.
  • Para o Espiritismo: só o Espírito, princípio inteligente do universo, pode ser sujeito consciente.

A máquina não encarna Espírito; logo, pode simular respostas, mas não viver experiência consciente real.

Síntese crítica

Damasio representa uma das mais sofisticadas tentativas contemporâneas de explicar cientificamente a consciência sem recorrer ao dualismo clássico, deslocando o foco da racionalidade pura para o sentir orgânico. Contudo, sua explicação permanece restrita ao plano neurobiológico, incapaz de responder às perguntas últimas:

  • Por que existe a experiência subjetiva?
  • O que faz do “sentir” uma vivência íntima, não redutível a reações químicas?
  • Por que existem relatos consistentes de consciência além do corpo físico?

Nesse ponto, a ciência de Damasio descreve o “como” do sentir consciente, mas permanece silenciosa quanto ao “quem” da consciência, dimensão na qual o Espiritismo propõe uma ampliação ontológica: o Espírito como sujeito da experiência. Assim, ciência e Espiritismo não se anulam — operam em campos diferentes:

  • A neurociência explica o mecanismo.
  • O Espiritismo interroga o sentido e a continuidade da consciência.

O diálogo entre ambos permanece aberto — como o próprio Damasio reconhece ao admitir que não é mais possível falar da consciência com a segurança conceitual de poucas décadas atrás. E talvez seja justamente aí que ciência e espiritualidade se encontrem:
na consciência não como dogma fechado, mas como o maior mistério em permanente aprofundamento humano.

Sua formulação está precisa e muito bem colocada — e pode ser ainda mais clarificada conceitualmente com um pequeno ajuste de linguagem para mostrar que a “dualidade” não é exatamente simétrica, mas ontologicamente diferente em cada campo. Identificando corretamente o ponto central:

  • Para Damasio e a neurociência contemporânea:
    A consciência emerge do corpo. Ela só existe com o corpo e resulta da atividade integrada do sistema nervoso e das sensações corporais (interocepção, homeostase, emoção). Não precede o organismo biológico nem sobrevive fora dele. Trata-se de uma consciência emergente e dependente — produto e função do organismo.
  • Para o Espiritismo:
    A consciência não emerge do corpo, mas se manifesta através dele.
    Ela:
    • precede o corpo (o Espírito existe antes da encarnação),
    • coexiste com o corpo durante a vida física (mediada pelo cérebro e pelo perispírito),
    • sobrevive à morte do corpo (mantendo memória, identidade e lucidez).

Ambas as visões reconhecem uma relação permanente entre consciência e corpo durante a encarnação — este é o ponto de convergência enfatizado corretamente. O que diverge não é a relação funcional, mas a origem e a ontologia da consciência.

Onde está o verdadeiro contraste

A distinção essencial pode ser expressa assim:

Visão neurocientífica (Damasio)

O corpo gera a consciência.
Sem corpo → sem consciência.

Visão espírita

O Espírito usa o corpo para expressar a consciência.
Sem corpo → consciência continua existindo.

Ou seja:

  • Na ciência → o corpo é causa da consciência.
  • No Espiritismo → o corpo é instrumento da consciência.

Esse é o eixo da diferença profunda.

O ponto muitas vezes mal compreendido

É importante ressaltar algo: O Espiritismo não nega a dependência funcional entre consciência e corpo enquanto estamos encarnados. Kardec jamais ensinou que o Espírito se expressa independentemente do cérebro durante a vida física. Pelo contrário:

  • O cérebro é o órgão da manifestação do pensamento;
  • Alterações cerebrais afetam a expressão da consciência;
  • Estados patológicos limitam ou distorcem a percepção do Espírito encarnado.

Em O Livro dos Espíritos encontramos claramente: “É o cérebro que preside às manifestações do pensamento.” (q. 146) Portanto:

  • Ciência e Espiritismo concordam que:
    • Sem o cérebro íntegro não há expressão normal da consciência na vida física.
    • O sofrimento corporal (como observa Damasio) interfere no sentir, no querer e no perceber.

A divergência não está em como a consciência se expressa na carne, mas em o que ela é em sua essência profunda.

Duas interpretações do mesmo fenômeno

Ambas as abordagens observam o mesmo fato: a consciência encarnada nasce, cresce e se desenvolve em correlação íntima com o corpo. A diferença surge quando tentam responder à pergunta metafísica: de onde vem essa consciência?

Uma nuance importante

Existe uma zona de diálogo: Damasio demonstra que a consciência humana concreta — tal como a experienciamos — depende da integração cérebro–corpo. O Espiritismo concordaria: a consciência encarnada depende do cérebro. O Espiritismo, porém, acrescenta: essa não é a consciência total do Espírito, mas apenas sua forma condicionada à encarnação.

Assim, o mesmo fenômeno recebe duas leituras complementares:

  • Para o cientista: “a consciência nasce do corpo.”
  • Para o espírita: “a consciência se individualiza e se manifesta plenamente no corpo.”

Nesse ponto, a divergência deixa de ser apenas científica e passa a ser ontológica:

  • Materialismo emergentista → o espírito não existe; a consciência é efeito da matéria organizada.
  • Espiritismo → a consciência existe por si como princípio inteligente, usando a matéria como meio de expressão.
Formulação sintética da dualidade

Podemos formular de modo ainda mais claro assim: Damasio vê a consciência como um produto do corpo que nunca existiu fora dele. O Espiritismo vê o corpo como o instrumento de uma consciência que sempre existiu além dele.

Conslusão crítica

Não há contradição quanto ao fato observado — ambos reconhecem a profunda integração corpo-consciência na vida encarnada. A divergência está inteira no plano do fundamento último:
  • A ciência moderna descreve com precisão crescente os mecanismos de emergência da consciência corporal.
  • O Espiritismo propõe que esses mecanismos são o meio de expressão de algo que não nasce na matéria.

Por isso, o diálogo real não é entre “ciência versus espiritualidade“, mas entre:

  • uma ciência que descreve “como” a consciência funciona,
  • e uma filosofia espiritual que pergunta “quem” é o sujeito consciente e “de onde” ele vem.

O que se aponta com rara clareza é exatamente isso: a diferença não está no funcionamento; está na origem e no destino da consciência. E aí se encontra o verdadeiro eixo de reflexão contemporânea sobre o tema.

20 janeiro 2026

POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS! - Jacira Jacinto da Silva


POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS! 

 Jacira Jacinto da Silva – advogada empresarial, especialista em segurança de dados, aposentada como juíza de direito; membro da CEPA, da CEPABrasil, do CPDoc e da Fundação Porta Aberta, da qual é também instituidora e diretora. Autora do livro Criminalidade, educar ou punir e coautora do livro Espiritismo, ética e moral, ambos pela editora CPDoc.Autora “Por que são mais numerosas, na sociedade, as classes sofredoras do que as felizes?

– Nenhuma é perfeitamente feliz e o que julgais ser a felicidade muitas vezes oculta pungentes aflições. 

O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são mais numerosas, por ser a Terra lugar de expiação. Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre”                                                                          (O Livro dos Espíritos, q. 931).

Uma rápida pesquisa sobre a biografia das maiores celebridades da história, de qualquer área: ciência, arte, esporte, religião, política, ou outra, revelará que o(a) investigado(a) não pode ser considerado unanimidade, não estava “acima do bem e do mal”, tinha, ou tem, seus defeitos, e não raro apresentava, ou apresenta, alguma característica um tanto estranha aos padrões usuais.

05 janeiro 2026

Movimento Espírita em Transformação-Saulo de Meira Albach

 



MOVIMENTO ESPÍRITA EM TRANSFORMAÇÃO

Saulo de Meira Albach

Delegado da CEPA em Curitiba (PR);

Presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita);

Membro do Cultura Espírita Livre-Pensar (Curitiba – PR).


                  OS COLETIVOS ESPÍRITAS 

A polarização política que se acentuou no Brasil mais notadamente a partir de 2017 produziu efeitos também no movimento espírita. Inúmeros grupos foram criados com ênfase no aspecto social do espiritismo e com a preocupação de trazer ao debate os temas sociais contemporâneos sem a restrição que normalmente é imposta nos setores hegemônicos. 

20 dezembro 2025

Da Palavra à Telepatia: a Evolução da Comunicação e o Futuro da Consciência Coletiva - Wilson Garcia

Da Palavra à Telepatia: a Evolução da Comunicação e o  Futuro da Consciência Coletiva 

Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisas e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires.


Com a inteligência artificial (IA) generativa, a linguagem parece ter adquirido autonomia algorítmica. Essa transformação inquieta e suscita a questão: onde se situa a inspiração — especialmente em sua dimensão espiritual — quando a escrita já não emerge apenas da pena humana, mas da interação com uma máquina capaz de produzir textos?

No âmbito do Espiritismo, essa indagação assume contornos profundos e uais. A doutrina afirma que “os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos, mais do que imaginamos” (KARDEC, 1857, q. 459), estabelecendo que toda inteligência encarnada é participante de um campo mental mais amplo, no qual entidades espirituais, afins ou discordantes, podem atuar pela via da inspiração. Surge, assim, uma questão decisiva: a influência dos Espíritos permanece operante quando o escritor utiliza a inteligência artificial como mediadora de sua produção intelectual? Ou estaria o campo da criação humana agora invadido por um artefato sem alma, que substitui a mediação espiritual por uma combinação estatística de dados?

05 dezembro 2025

ESPIRITISMO, LAICIDADE, LIVRE PENSAR E AS RELAÇÕES COM A ATUALIDADE - Milton Rubens Medran Moreira

 

             ESPIRITISMO, LAICIDADE, LIVRE PENSAR E AS RELAÇÕES COM A ATUALIDADE

          


Milton Rubens Medran Moreira, Procurador de Justiça aposentado, Advogado e Jornalista, foi diretor de Comunicação da Federação Espírita do Rio Grande do Sul onde dirigiu a revista “A Reencarnação”, é membro do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre do qual foi Presidente, Diretor de Comunicação Social e Fundador/Diretor, por 30 anos, do Jornal CCEPA OPINIÃO. Autor de vários livros espíritas. Ex-presidente da CEPA (2000/2008).

 

A religião e o laicismo

No dia 23 de setembro de 2012, quando ainda ocupava o trono da Santa Sé o pontífice recentemente desencarnado Bento XVI, publiquei no mais importante jornal de Porto Alegre, Zero Hora, o artigo “O Papa e o Laicismo”.

Comecei o texto reconhecendo: “Andou muito bem o Papa Bento XVI, em sua recente visita ao Oriente Médio, pedindo se respeite, ali, a liberdade religiosa e defendendo o laicismo por ele adjetivado como saudável”.

20 novembro 2025

Paranoia Obsidente - Salomão Jacob Benchaya

 

Paranoia Obsidente

 Salomão Jacob Benchaya - bacharel em Economia, ex- Presidente do Centro Cultural Espirita  de Porto Alegre- (CCEPA ), da Federação Espirita do Rio Grande do Sul, Diretor da CEPA Associação Espírita Internacional, um dos criadores do ESDES, colaborador do Jornal CCEPA- OPinião, um dos criadores do MEP - Movimento Espírita Progressista e Presidente eleito da CEPABrasil para o Biênio 2026/27.

Allan Kardec define obsessão como o “domínio que alguns espíritos logram obter sobre certas pessoas. Nunca é praticada senão pelos espíritos inferiores, que procuram dominar” (LM, Cap. XXIII, 237).

No movimento espírita, há um comportamento que merece ser analisado, com respeito a esse tema. Em não poucos Centros Espíritas, tornou-se comum recepcionar os frequentadores através de entrevistas, ou “diálogo fraterno”, em que são escutadas as queixas ou motivações para a procura do espiritismo. Como um grande número de pessoas busca socorro para suas aflições e que chegam angustiadas na Casa Espírita, estas recebem a prescrição de frequentar as sessões de “tratamento espiritual” ou de desobsessão, destinadas a proporcionar alívio e reequilíbrio psíquico-emocional ao indivíduo. Há um pressuposto de que as pessoas chegam “carregadas” e necessitam de uma “limpeza espiritual”. Isso me faz recordar de procedimento semelhante que ocorria em sessões de Umbanda que frequentei na minha juventude, em que os guias costumavam informar aos consulentes que precisavam “desmanchar um trabalho feito”. Em ambas as situações, é como se se dissesse à pessoa: - Você necessita de nós! Veja em que condições você está chegando! Já de início, uma relação de dependência e de submissão se estabelece. Em alguns centros, essa iniciação consiste em frequentar tantas sessões de desobsessão e tomar tantos passes.

05 novembro 2025

Perder o rumo - Cláudia Régis Machado

 

             Perder o rumo

                      Cláudia Régis Machado, psicóloga, psicopedagoga,          

 integrante do ICKS - Instituto    Cultural Kardecista de Santos

 

“A sinalização muda, o vento sopra em sentido contrário, o norte de repente vira sul, o leste vira oeste. É fácil sair do prumo, perder o rumo.”

Prumo ou rumo? Aqui não faz diferença. As duas expressões são válidas aqui, pois quando esta situação ocorre, sentimo-nos à deriva, frágeis e vulneráveis, ficamos perdidos. A vida nos surpreender muitas vezes nos empurrando para fora do prumo; fazendo-nos perder o rumo.

 Quem nunca perdeu o rumo? Muitas situações podem nos levar a este estado. Perdas de entes queridos, mudança de rotina, aposentadoria, o “ninho vazio”, doenças etc., são momentos ou melhor eventos que nos tiram o chão estabelecido, balançam a nossa estabilidade costumeira. Na maioria das vezes não sabemos lidar com as surpresas da vida, porém perder o rumo faz parte da dinâmica da vida, porque ninguém está livre destes acontecimentos.

20 outubro 2025

Polarização política - Milton R. Medran Moreira

 

Polarização política Opinião em Tópicos – Jornal CCEPA-Opinião de 15/11/2024
Milton R. Medran Moreira - Editor Chefe

Não sei onde vai parar essa polarização político-ideológica que tomou conta do Brasil.

Sei, sim, que, no campo das ideias políticas e sociais, há duas forças que, para todo sempre, hão de se digladiar.

Elas são tese e antítese que alimentam o fluir do processo político. Estão presentes na política porque, igualmente, movem o processo individual de crescimento do espírito humano.

Uma busca preservar os valores conquistados. A outra estimula mudanças mediante a superação do que ontem era um valor e hoje pode ser descartado porque incompatível com os novos tempos.

05 outubro 2025

MUJICA E O PROBLEMA DA VIOLÊNCIA UMA ANÁLISE ESPÍRITA, NÃO MORALISTA.- Ricardo de Morais Nunes

 


Ricardo de Morais Nunes, Servidor Público, Bel em Direito, Lic. em Filosofia, Presidente da CEPABrasil          

             

Em 13 de maio de 2025 faleceu José Alberto Mujica Cordano, mais conhecido     como Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai. Pensamos que para nós, espíritas, compreendermos um personagem com a história de Pepe Mujica, é necessário amplitude de pensamento, requer sairmos do senso comum, dos jargões simplistas e condenatórios, tão próprios da extrema direita de nosso tempo, a qual normalmente julga pela superfície das coisas, de forma moralista, sem ir à profundidade dos problemas, sem ir ao campo das intenções e, também, das estruturas sociais.

27 setembro 2025

Live de lançamento do Movimento Espírita Progressista (MEP) - dia 03/10/25, às 20h

 

no dia 03/10 às 20 h , venha participar da live de lançamento do Movimento Espírita Progressista (MEP)
Mais humano, mais conectado com as causas sociais e com o espírito do tempo.
Inscreva-se no canal, junte-se a esta construção coletiva!

https://www.youtube.com/@mepbrasilnet



20 setembro 2025

Do Progresso - Flávio C. Bello

 

 Flávio C. Bello - Formado em História na UFRGS, professor aposentado do ensino básico, espírita vinculado ao CCEPA e a casa espírita "A Nossa Casa" em Porto Alegre. Estudante da temática espírita com ênfase nas Leis Morais. 

 

“É precipitado e quase absurdo acreditar que o progresso deva

necessariamente ocorrer.” (Nietzsche)

Contextualizando e identificando pressupostos

 

Kardec estava inserido na mentalidade da “modernidade triunfante” do século XIX que via a rápida industrialização, urbanização e modernização tecnológica, apenas como evidências inequívocas de progresso da humanidade. Nesse contexto, nosso fundador pensava o progresso imerso na mentalidade positivista presente no espirit du temps do século XIX.

 

A certeza do progresso inexorável, automático, é característica do positivismo e da maioria dos pensadores iluministas, que transformaram a ideia de progresso em um dogma.

No anticlerical Iluminismo francês, a concepção de Providência assumiu um sentido mais deísta. Para os iluministas, não se necessita mais da intervenção direta e constante de um Deus transcendente, pois a ideia de progresso como uma lei natural imanente, que através da razão, conduziria a humanidade rumo à perfeição, seria uma “versão secularizada” da crença cristã na divina providência.