05 agosto 2026
Declaração Universal dos Direitos Humanos - uma visão espírita por Delma Crotti
20 julho 2026
Fundamentos da Ética Espírita – Reinaldo Di Lucia
Fundamentos da Ética Espírita – Reinaldo Di Lucia
1. INTRODUÇÃO
Toda consideração sobre a filosofia espírita leva, naturalmente, a indagações sobre o homem. Não só sobre sua origem e fim, mas também sobre suas relações com os demais entes do Universo, e, principalmente, com os outros seres humanos.
O homem é um ser social. Seu percurso terreno é essencialmente realizado em meio a uma sociedade, da qual ele faz parte e à qual terá que prestar contas, sobretudo por seu comportamento.
O ser humano vive em sociedade, convive com os outros seres humanos e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: Como devo agir perante os outros? Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética.
Assim, não é à-toa que toda filosofia ou escola filosófica, em algum instante, necessite tratar sobre questões éticas. Seja sob este nome, seja falando em considerações morais, ou mesmo evitando estes termos – embora tratando de relações humanas. Na filosofia espírita não seria diferente.
Kardec, ao tratar deste tema, falou em Leis Morais. Sob essa denominação colocou as regras que tratam dos Espíritos e das relações entre eles. E colocou-as como parte da Lei Natural, aquela que rege toda a criação, na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, e o fez à moda científica, positivista, por analogia com as leis físicas que comandam a matéria.
Nesta análise Kardec tratou de questões fundamentais que, de algum modo, estão presentes em todas as filosofias: os conceitos de bem e mal, as origens da ação moral, os temas que, em sua opinião, eram os mais importantes. Por exemplos: progresso, sociedade, justiça. E, sem impor aos homens um comportamento padrão, propôs elementos para que ele pudesse pautar seus atos de acordo com os princípios espíritas.
Kardec, fiel à sua formação pedagógica, estruturou a terceira parte de “O Livro dos Espíritos” descrevendo, uma por uma, as dez leis morais. E também escreveu que esta era uma forma meramente didática de exposição, comentando explicitamente que estas leis não pretendiam ser exaustivas. Entretanto, o movimento espírita brasileiro normalmente as tomam como a última palavra sobre moral espírita, esquecendo que, por trás delas, há conceitos fundamentais de ética espírita que lhes deram origem.
O propósito deste trabalho é retomar estes conceitos fundamentais, derivando-os diretamente da teoria espírita e explicitando-os. A importância dessa retomada é restabelecer as bases da ética espírita, de um modo que possam servir como parâmetro à estruturação de um comportamento pautado nos princípios do Espiritismo, aplicável a todas as situações humanas, mas sem a imposição de um comportamento padrão que ignore as individualidades dos espíritos.
Para isso, o texto parte de uma pequena história da Ética e da Moral e discute, filosófica e etimologicamente, os conceitos a elas ligados. Em seguida, discute uma parte básica da ética: a teoria dos valores, propondo um conjunto dos essenciais para a doutrina. Finalmente, apresenta os fundamentos da Ética Espírita.
2. DISCUSSÕES SOBRE MORAL E ÉTICA
Mas o que é Ética? E Moral? É possível diferenciá-las? E como definir termos tão essenciais, mas tão complexos como Bem e Mal?
Iniciemos tratando da Moral. Segundo a definição do dicionário:
“Moral é aquilo que denota bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade ou por determinado grupo social; conjunto das regras, preceitos etc. característicos de determinado grupo social que os estabelece e defende”
A definição acima enfatiza o caráter relativo da moral: são costumes, condutas, regras e preceitos que são característicos de uma dada sociedade ou grupo social. E, como tais, variam enormemente, não só entre sociedades, mas, dentro de uma mesma sociedade, entre os diversos grupos, de diferentes tamanhos, que a compõem.
Há uma hierarquia nesta variação. Por exemplo, uma sociedade pode ser rígida quanto à questão da propriedade, mas liberal em termos sexuais. Também, pode haver famílias mais severas quanto à moral sexual, sem que deixem de fazer parte daquela mesma sociedade.
Esta relatividade moral ocorre não só no espaço, mas também no tempo. A moral de um dado grupo social varia com o decorrer dos anos, e costumes e regras que eram inaceitáveis passam a ser aceitos. Como uma mulher de biquíni tipo fio-dental seria julgada na sociedade brasileira do início do século 20?
Assim, a moral possui uma qualidade social, isto é, manifesta-se na sociedade, cumprindo uma determinada função, que é a regulamentação das relações entre os indivíduos e entre estes e a comunidade, visando a manutenção e a garantia de uma determinada ordem social.
Já a Ética:
“(...) é a parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social; em doutrinas racionalistas e metafísicas, estudo das finalidades últimas, ideais e, em alguns casos, transcendentes, que orientam a ação humana para o máximo de harmonia, universalidade, excelência ou perfectibilidade, o que implica a superação de paixões e desejos irrefletidos.”
Assim, a ética, diferentemente dos problemas práticos-morais, caracteriza-se pela sua generalidade. Ela define, de modo teórico, em que consiste o bem, o fim último visado pelo comportamento moral. Ao deparar-se com uma experiência histórico-social no terreno da moral — uma série de práticas morais em vigor numa dada sociedade —, a ética procura determinar a essência desta, sua origem, as fontes de avaliação, a natureza e função dos juízos morais. Pode-se dizer que:
“A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano.”
A ética e a moral relacionam-se, então, como uma ciência específica e seu objeto. É uma parte da investigação filosófica, não necessariamente especulativa. São importantes as contribuições do pensamento filosófico, desde a Antigüidade grega até os nossos dias. Todavia, um estudo histórico está fora dos limites deste trabalho.
3. VALORES ESPÍRITAS
Não há como falar em ética sem levar em consideração as bases sobre as quais seus princípios estão sustentados. Estas bases são chamadas valores.
Tidos como uma qualificação de objetos ou de seres, os valores não são propriedades dos objetos em si, mas propriedade adquirida graças à sua relação com o homem como ser social. Portanto, não há valores em si, mas somente em relação com um sujeito.
Além disso, os valores existem a partir de uma visão de mundo própria de cada sujeito. Nesta visão, incluem-se não somente os pontos de vista estritamente particulares, mas também visões sociais, religiosas, científicas, históricas etc.
Assim sendo, os espíritas estruturam seus valores com base em sua personalidade e crenças particulares, e, igualmente, naqueles que permeiam a filosofia espírita. Numa primeira avaliação, poderíamos dizer que estes valores estão relatados em algumas das Leis Morais:
Liberdade — O Espiritismo não prescinde de uma total liberdade de pensamento e ação, o chamado livre-arbítrio. Os espíritas sabem que o possuem, mas também que isto traz a total responsabilidade sobre seus próprios atos.
Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?
Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.”
Justiça — Apesar da ampla liberdade de pensamento e ação, o Espiritismo possui um acentuado viés de justiça, definido como “respeitar os direitos dos demais” . Em última instância, esta definição leva, de alguma forma, à limitação das possibilidades de liberdade de ação do espírita. Uma outra argumentação, porém, é que a justiça faz parte da responsabilidade inerente à própria liberdade.
A partir destas bases axiológicas (isto é, de valores), e fazendo uma análise dos capítulos constantes na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, podemos começar a entender as bases fundamentais da ética espírita, seus fundamentos.
4. FUNDAMENTOS DA ÉTICA ESPÍRITA
Kardec não mencionou ética em sua obra. Mesmo quando se referia à investigação dos princípios que regem as ações humanas sempre citou moral:
“A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus.”
E, como definição de bem:
“O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.”
Assim, a moral relacionava-se com a Lei de Deus. Ora, Kardec entendia o Universo como uma entidade criada por Deus e composta dualmente de Espírito e Matéria. E, da mesma forma como havia Leis Físicas que regiam a matéria, ele postulou a existência de Leis Morais que regeriam o Espírito. O conjunto de ambas essas Leis formava a Lei Divina, ou Lei Natural:
Deus
Espírito
Matéria
Leis Morais
Leis Físicas
Lei Divina ou Natural
E, para explicar quais seriam essas Leis Morais, Kardec didaticamente dividiu-as em dez, cada uma compondo um capítulo da parte terceira do Livro dos Espíritos: Adoração; Trabalho; Reprodução; Conservação; Destruição; Sociedade; Progresso; Igualdade; Liberdade; Justiça, Amor e Caridade.
Entretanto, esta divisão não é mais que uma exposição simplificada, com a finalidade de exemplificar, mais que explicar, os princípios morais do Espiritismo. Mas isto deve ser aprofundado para um entendimento maior das bases que levaram a eles. E é aqui que começa a tomar forma a Ética Espírita.
Uma análise ética do conjunto teórico das Leis Morais leva à estruturação dos fundamentos da Ética Espírita, a saber: a crítica espírita do juízo, o equilíbrio, a alteridade e a felicidade.
Por crítica do juízo entende-se o modo pelo qual se podem avaliar os atos humanos em função dos conceitos éticos, sendo absolutamente necessário uma vez que a moral só se completa na ação humana frente aos problemas da existência. Principalmente daqueles originados das relações entre os espíritos, encarnados ou não.
O Espiritismo estabelece um duplo critério para esta análise. O primeiro é o da intenção, expresso nas perguntas: Qual o objetivo do ato? A que ele visa? Qual seu fim último? Em suma, que intenção teve o agente com aquela ação?
Mas, como bem afirma a sabedoria popular, não bastam boas intenções para que um ato seja considerado moralmente adequado. Isto porque, apesar de bem intencionada, uma ação pode promover um resultado diverso daquele que pretendia. A doutrina espírita propõe então um segundo critério: o da utilidade. Ou seja: Qual o resultado do ato? A quem ele ajuda ou prejudica?
A combinação desses dois critérios forma a crítica espírita do juízo, e está integralmente presente, ainda que não com este nome, nos dois primeiros capítulos das Leis Morais:
“Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?”
- “Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”
E também:
“Têm, perante Deus, algum mérito os que se consagram à vida contemplativa, uma vez que nenhum mal fazem e só em Deus pensam?”
“- Não, porquanto, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que o homem pense Nele, mas não quer que só Nele pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir na Terra. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à Humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.”
Um segundo fundamento é o equilíbrio, entendido classicamente, como a eqüidistância dos extremos. O excesso, seja pela ausência ou pela abundância, em qualquer aspecto da vida moral, leva necessariamente ao desvio ético:
“A lei natural traça para o homem o limite das suas necessidades. Se ele ultrapassa esse limite, é punido pelo sofrimento. Se atendesse sempre à voz que lhe diz - basta, evitaria a maior parte dos males, cuja culpa lança à Natureza.”
A ideia de que é preciso fugir dos extremos não é nova na filosofia. Aristóteles já a propunha, em seu “Ética a Nicômaco”, quando dizia que a tendência dos seres humanos é gradualmente atingir o equilíbrio após ser levado para distante dele, tal como uma vara de bambu, depois de vergada ao máximo e solta, oscila ao redor do ponto médio até nele permanecer.
Outro pensador a exaltar o equilíbrio foi Buda, que tinha o “caminho do meio” como uma de suas verdades nobres. Esta figura explica bastante bem o princípio da eqüidistância dos extremos.
E o melhor meio para cumprir este fundamento é agir sobriamente, com bom senso. E, principalmente, com muita reflexão, pensando e planejando bastante antes da ação. Como dizia Platão na República, “A vida irrefletida não vale a pena ser vivida”.
O terceiro elemento básico da ética espírita é o princípio da alteridade. Podemos conceituá-la, de modo simples, como a compreensão do direito dos demais homens à existência e a um modo de ser próprio. Significa, em última instância, a aceitação plena do outro.
Há uma diferença fundamental entre este conceito e o de tolerância, tantas vezes falado e exaltado nos meios espírita e cristão. Tolerar significa suportar as diferenças, ainda que delas discordando completamente. Entretanto, o posicionamento mental da tolerância não leva ao respeito à divergência e, assim, pode terminar com a explosão da negação e mesmo do ódio.
Quando se consegue substituir verdadeiramente a tolerância pela alteridade, respeitando e entendendo o direito do outro pensar e agir de modo diverso do nosso, as relações facilitam-se enormemente. Este é a verdadeira caridade, aquilo que os antigos gregos chamavam de ágape, o amor pelo outro.
Finalmente, o último fundamento da ética espírita é a felicidade. Ou seja, o entendimento de que o aprendizado só se dá na medida em que ele é acompanhado pela alegria. E que o conjunto de felicidade e de aprendizado é o único que leva à evolução.
Isso contrasta significativamente com a idéia vigente no movimento espírita de que só se evolui com sofrimento. E isto porque, normalmente, confunde-se isto com dor – conceitos que são bem diferentes.
A dor é inerente à existência – é inevitável. Seja ela física, como conseqüência dos problemas do corpo (doenças, envelhecimento etc.), seja moral, resultado dos erros que são cometidos ao longo da existência como espírito.
Já sofrimento é a falta da elaboração proveitosa da dor, que é o uso dos fatos dolorosos como elementos de aprendizado, a fim de entender as causas das falhas e evitar sua repetição. Quando as pessoas não fazem isso, sofrem, e as conseqüências são a culpa, a imobilidade e o desperdício das oportunidades.
Uma ética de felicidade, como a espírita, propõe que os fatos da vida devem ser elaborados internamente, visando introjetar e crescer. Ao aprender a fazer isso, o homem adquire a competência fundamental para a evolução: ser feliz. É por isso que a ética espírita é a ética da felicidade.
5. CONCLUSÃO
A definição dos fundamentos da ética espírita, da forma como foi feita acima, é obtida diretamente dos elementos kardequianos. Para ser feita, entretanto, é necessário encarar o Espiritismo como uma filosofia que, tendo por base a imortalidade do ser pensante e a evolução infinita, privilegia o crescimento individual a partir da convivência entre os espíritos. É preciso também aceitar que a finalidade última da encarnação é o aprendizado, e não o resgate de dívidas de vidas anteriores.
Esse entendimento da doutrina espírita enfatiza a busca da felicidade como método ético para a existência dos espíritos. Mas é preciso frisar que a felicidade, no sentido que está sendo utilizada, é completamente diferente do hedonismo, ou seja, da busca do prazer a qualquer custo.
Isto porque tal felicidade reforça ainda mais um conceito básico da filosofia espírita, o do livre-arbítrio. Somos livres para ajuizar sobre os atos da forma como queremos, para nos afastarmos dos excessos, para encararmos o próximo com alteridade, para elaborarmos produtivamente a dor. Ou não.
E esta possibilidade de escolha aumenta a nossa responsabilidade pessoal como espíritos que têm o controle da própria capacidade evolutiva. A partir do momento em que somos capazes de entender os fundamentos éticos do Espiritismo, só depende de nós mesmos que consigamos aplicá-los em nosso cotidiano. E assim não só trabalharmos para nossa própria evolução, mas também servirmos como exemplo para a evolução dos nossos semelhantes.
BIBLIOGRAFIA
KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”, FEB.
VÁZQUEZ, Allan. Sanchez. “Ética”, Civilização Brasileira.
COMPARATO, Fábio Konder. “Ética – Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno”, Companhia das Letras.
HOUAISS, Antonio. “Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa”.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. “Parâmetros Curriculares Nacionais: Apresentação dos Temas Transversais e Ética”.
*Artigo extraído do site PENSE, mantido pelo jornalista Eugênio Lara, já desxencarnado, e que hoje esta desativado.
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13 julho 2026
CEPABrasil - IX Fórum do Livre-Pensar Espírita - “Espiritismo e Cidadania: desafios e possibilidades ante um mundo conturbado”
CEPABrasil - IX Fórum do Livre-Pensar Espírita
De 10 a 12 de outubro de 2026, Porto Alegre será palco do IX Fórum do Livre-Pensar Espírita, promovido pela CEPABrasil em parceria com o CCEPA, reunindo espíritas livres-pensadores para refletir sobre o tema:
“Espiritismo e Cidadania: desafios e possibilidades ante um mundo conturbado”
Serão três dias de conferências, painéis, minicursos, arte, lançamento de livros e momentos de confraternização, celebrando os 90 anos do CCEPA e os 80 anos da CEPA.
Um encontro para pensar o espiritismo de forma humanista, plural, progressista e comprometida com a cidadania.
📍 Sede do CCEPA, Porto Alegre/RS
📅 10, 11 e 12 de outubro de 2026
🔖Valor da Inscrição: R$ 50,00
Participe e compartilhe essa ideia!
Inscrição pelo Link:
https://forms.gle/G7285jXS29v66hh98
05 julho 2026
A perplexidade diante dos fatos – Jaci Régis
A perplexidade diante dos fatos – Jaci Régis
janeiro 27, 2021 Administrador site ECK
Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi o fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura”.
Tempo de leitura: 3 minutos
Jaci Regis
O materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer. Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.
O panorama social do mundo neste século vinte e um é extremamente confuso, dinâmico, rico e pobre, violento e promissor. Entretanto, é impossível ficar passivo diante da sucessão dos fatos. Fatos que se modificam constantemente, que mudam cenários de um dia para a outro. Isso tem provocado profunda preocupação nos religiosos em geral.
Um espírita escreveu que não fosse a reencarnação, deixaria praticamente de acreditar em Deus, tal a impressão de abandono e impassividade da divindade diante dos fatos.
Para ele, encontrar a culpa nas pessoas, relativamente ao passado, alivia a impassividade divina. O exame é falho porque a reencarnação não é um instrumento de punição moral, nem o Universo se assenta na perspectiva do pecado e do castigo.
Vemos o papa católico, vestido à moda da Idade Média falando a multidões e à mídia, com idéia da Idade Média, sem que suas palavras causem efeito.
Da mesma forma os evangélicos, principalmente os pentecostais, arregimentam multidões, em shows de fé e arrecadação, mobilizando recursos da mídia eletrônica, sem que se veja qualquer atitude positiva na mudança das coisas, na modificação do ambiente.
Na verdade, quem tumultua e muda é o materialismo que é genericamente apontado como o culpado de tudo. É preciso, porém, definir esse materialismo. Não se trata de um esquema filosófico, nem uma opção consistente. Esse materialismo representa a insatisfação generalizada, s subversão comportamental relativamente aos parâmetros que se instituíram na sociedade cristã. Talvez seja mais apropriado chama-lo de comportamento oportunista. Como ocorre com certas doenças que afloram devido à queda das defesas do organismo.
Essa insatisfação reflete a falta de perspectiva real, imortal da sociedade nominalmente espiritualista, mas que se envolve deliberadamente no sexualismo, no consumismo e na falta de perspectiva.
Esse materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer. Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.
É mesma coisa que pais que dão péssimos exemplos e quando os filhos se transviam alegam que a culpa é deles, das más companhias, do consumismo, enfim, nada com eles mesmos.
Como compreender a sucessão dos fatos que derrubam antigas ordenações morais: – Por que o materialismo é tão sedutor? – Por que a porta da perdição é larga?
Na atual crise econômica o que menos se fala é em ética. Mas fundamentalmente ela decorre da ganância, da esperteza, da delinquência de colarinho branco que corrompe as estruturas sociais. Todavia poucas vozes se levantam para apontar essa falha básica, que não apenas do capitalismo, mas de todos os regimes e ideologias.
Tenta-se remendar com trilhões de dólares. A questão ética fica de lado até na crista da crise, quando nos Estados Unidos, foram pagos bônus milionários a executivos, mesmo tendo o dinheiro origem pública.
Seria demais apontar o fracasso das religiões como causa básica do avanço do materialismo? O que pede a sociedade moderna?
A sociedade moderna olha para o que diz a ciência. A ciência se define como materialista, no sentido de restringir seu campo de atuação, no caso do ser humano, ao corpo. Aqui, no corpo, estaria a base de tudo. A neurologia pretende responder a todas as perguntas sobre o comportamento através de complicadas explicações das funções cerebrais descartando qualquer natureza espiritual do ser humano.
Então, as religiões – católica, evangélica ou espírita – fazem de conta que nada mudou, que seus fundamentos continuam intactos, que o comportamento humano derivados das necessidades, desejo, desvios, seja do que for, está errado e que o único caminho é retornar aos roteiros por elas estabelecidos.
Todas essas religiões são cristãs. Isto é, estão baseadas no modelo criado pela Igreja nos primórdios da era cristã e que, estão comprovadamente falhos, incapazes de entender a natureza do ser humano e de dar uma diretriz objetiva para sua vida. Vivem de rituais, de discursos repetitivos.
A verdade é que as religiões em toda a história são movimentos organizados para exercer o poder. Promovem a fé, mas não a espiritualidade. Desprovidas do poder real patinam em doutrinações que não questionam a natureza das emoções, medos e insatisfações do ser humano.
20 junho 2026
A AUTONOMIA FRENTE AS DETERMINAÇÕES - por Ricardo de Morais Nunes
A AUTONOMIA FRENTE AS DETERMINAÇÕES - por Ricardo de Morais Nunes
A AUTONOMIA FRENTE AS DETERMINAÇÕES
https://cepainternacional.org/jornal-abertura-marco-de-2024/
O artigo foi publicado posteriormente no jornal Catalão - FLAMA ESPIRITA 193 em Julho de 2024.
Postado por Instituto Cultural Kardecista de Santos
05 junho 2026
A mulher e o espiritismo - Dora Incontri
29 maio 2026
A moral do Espiritismo, por Amílcar Del Chiaro Filho (in memoriam)
A moral do Espiritismo, por Amilcar Del Chiaro Filho ( in memoriam)
abril 29, 2021 Administrador site ECK
Amilcar Del Chiaro Filho foi um estudioso e divulgador do Espiritismo brasileiro faleceu em 2006 Ele apresentiu programas de rádio sobre Espiritismo por décadas e publicou vários livros sobre o tema. Amilcar também foi um palestrante muito requisitado e ativo em diversas organizações espíriotas.
O Livro Terceiro - Leis Morais -, de " O livro dos Espíritos", apresenta teorias avançadas para a sua época, especialmente no que concerne aos direitos da mulher e ao direito de viver.
Absurdamente, os críticos do Espiritismo, ao tempo de Kardec, acusaram a doutrina de imoral, simplesmente porque ele afirmou que a mediunidade se manifestava nas pessoas independetemente da sua moral.
Confundiram o médium, ser humano falível com a Doutrina Espírita, ditada pelos espíritos superiores, com a contribuição dos homens e, em especial do próprio Kardec.
O Espiritismo tem uma moral límpida clara, sem concessões especiais, sem fanatismo ou exigênciais absurdas. Aprendemos com ele que viemos dos reinos inferiores da naftireza, e hoje somos humanos em demanda à angelitude, entedida esta como sabedoria e virtude. Como homens vivemos a dualidade matéria/espírito, pois temos as necessidades ,ateriais mdenalimentação, vestuário, abrigo, escola trabalho, lazer, sexo enaspirações demlevantar voo em mbusca da nossa espiritualização. Nenhum Espírita consciente den sua Dourina xespreza a oportunidade de viver e aprender.
Que (quem) lê " O LIvro dos Espíritos", sem pensamentos preconcebidos, admira-se de sua simpliociodade e profundidade. Não existem teorias esdrúxular, comflitates, mas tudo é claro e natural.O seu Livro Terceiro - Leis Morais - apresenta teorias avançadas para a sua época, especialmente no que concerne aos direitos da mulher e ao direito de viver.
Não queremos deixar este artigo demasiadamente longo e enfadonho, mas dar rápido passeio sobre os temas, destacando uma ou outra coisa, aqui e ali, a começar pela |Lei de Adoração. Aprendemos com a Doutrina Espiritan a não ter medo de Deus, portanto, nossa adoração não é para aplacar sua ira, mas a submissão consciente e pacífica da criatura ao seu criador. Se o adoramos, é porque o amamos. Também não o adoramos anteriormente, com pompas e ouropés, mas sim no coração , no sentimento.
Na Lei de Destruição, aprendemos que, ao morrermnos, apenas o invólucro material,perece. O espírito escapa do casulo e levanta seu voo para a espiritualidade. Quem poderá entender melhor que os espíritas as palavras de Paulo de Tarso:" Semeia-se corpo animal e nasce o corpo espiritual"?.
Na Lei do Trabalho vem a sentença sábia o limite do trabalho é o das forças do homem. Aquele que não pode (se sustentar) sustentar-se deve ser cuidado pela sociedade. A falta de trabalho é flagelo. Sim, é um flagelo talvez superado, somente, pelo egoísmo da humanidade.
Na Lei de Igualdade fica demonstrado que Deus não criou as classes sociais. Todos somos iguais perante Deus e Kardec eleva a mulher à sua verdadeira condição. Homens e mulheres têm os mesmos direitos, mas deveres, ou funções, diferentes. Mesmo que para alguns pareçam modestas as funções, há cento e quarenta anos era essa uma posição avançadíssima.
As Leis Morais aniquilam o aborto, a eutanásia, a escravidão, o domínio do homem sobre a mukhger, e chama a atenção de pais e educadores para a necessidade de educação moral, formadora de bons hábitos e não apenas a instrução.
Mas, nos deleitamos com a Lei de Justiça, Amor e Caridade,( em que) onde os espíritos afirmam que o rimeiro do homem é o de viver. Para nós é um hino de amor, um grito de alerta, antes mesmo da existência de entidades que defendem os direitos dos homens. O direito de viver compreender a dignidade das vidas.
O Livro afirma que ninguém pode atender contra a vida de outrem. É fácil compreender que não se trata de atentado com arma ou com agressão, mas também atender-se contra a vida de outrem com a má distribuição de renda e dos bens da terra, com a justiça morosa e, às vezes, imoral em relação aos fracos e oprimidos.
A Doutrina Espírita é viril, corajosa, revolucionária. A nosso ver, erram aqueles que pregam uma doutrina de submissão, dizendo que os que sofrem, hoje, gozaram e abusaram ontem. É essa sociedade injusta e opressora que fabrica as " candelárias", os massacres de presos, as revoltas da FEBEM, as torturas, as ditaduras e os crimes bárbaros.
Não pregamos a violência, mas a coragem de dizer a quem erra que ele é o responsável pelas consequências advindas de seus atos. A coragem de mostrar a hipocrisia dos que desvirtuam um mandato outorgado pelo povo para exercê-lo em favor do povo, e não de si mesmo ou do seu corporotivismo.
Cremos que já é hora dos espíritas aperfeiçoarem a sua assistência social que é importante, com mudanças sociais. Viver não pode ser uma concessão dos mais fortes, e sim um direito natural. Fazer aos outros o que queremos que nos seja feito e, ainda, uma regra de ouro para a humanidade.
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19 maio 2026
A PARTIDA DE DELMA CROTTI
Partiu para o mundo espiritual em 7 de
maio de 2026, a nossa queridíssima amiga e companheira de ideal Delma Crotti. Delma
veio de lar espírita, notabilizou-se por seu interesse em participar de um
movimento espírita verdadeiramente livre-pensador. Participou de várias instituições do movimento espírita
brasileiro, como a USE-SP, quando residiu na cidade de São Paulo, Centro
Espírita Maria Emília da Motta Ferreira e Grupo Espírita Léon Denis, ambas
instituições da cidade de Guarujá, onde também residiu. Por ocasião de sua
mudança para a cidade de Santos, passou a colaborar no Centro Espírita
Beneficente Ângelo Prado. Participou ativamente de várias diretorias da CEPABrasil-Associação
Brasileira dos Delegados e Amigos da CEPA, ligada à CEPA-Associação Espírita Internacional,
tendo contribuído significativamente para esta instituição. Esteve presente em
vários Encontros, Simpósios e Congressos do Pensamento Espírita, sempre
interessada no estudo, divulgação e
atualização da filosofia espírita para o século XXI. Além de suas qualidades intelectuais, foi entre nós uma pessoa amiga, gentil e fraterna.
Enfim, Delma Crotti foi uma verdadeira espírita. Deixará muitas saudades em
seus amigos e companheiros. Temos certeza de que um dia nos reencontraremos.
Até mais, querida amiga!
O PODER DO PENSAMENTO - Delma Crotti
O PODER DO PENSAMENTO
Delma Crotti foi delegada da CEPA, conselheira da CEPABrasil, participante do CPDoc e do Centro Espírita Beneficente Ângelo Prado – Santos-SP. desencarnou em maio/2026
Assunto recorrente, tanto na literatura espírita quanto nas de outras
orientações espiritualistas ou religiosas e de auto ajuda, o poder do
pensamento tem sido estudado cientificamente em campos como da neurociência
(ramo da biologia), que é o estudo científico do sistema nervoso, e nos informa
que todas as nossas atividades começam no cérebro. Que ele é plástico e vive em
constante mudança; sempre pronto para adotar novos hábitos ou eliminar os antigos.
Isto é chamado de Neuroplasticidade ou plasticidade cerebral – característica
que o torna flexível e mutável. Essa característica permite que ele se recupere
e se reorganize em casos de traumas, fortes emoções, perdas e conquistas,
mudanças comportamentais, necessidades pessoais etc.
A neuroplasticidade se dá principalmente na infância, fase em
que se adquire novos conhecimentos e comportamentos sociais de forma constante.
É por meio dela que as crianças aprendem, recordam, não só dos fatores biológicos,
como caminhar e falar, mas também dos fatores sociais, como convivência com
outras pessoas, percepção de emoções etc. Mas também ocorre na fase adulta,
permitindo que os indivíduos se adaptem às suas necessidades. É um processo
diário e natural do corpo humano. (blog-online.pucrs.br).
Existe também um estudo para alcançar um nível de interação entre o
cérebro e um computador. Pesquisadores da Universidade de Helsinque -
Finlândia, utilizaram inteligência artificial para criar um sistema que
transforma sinais emitidos pelo cérebro em imagens que são representações do
que o usuário está pensando. Os resultados preliminares da ciração foram
publicados em setembro/2020 no Scientific Reports (olhardigital.com.br
pensamentos em imagens Luiz Nogueira 29/09/2020).
Ernesto Bozzano (1862-1943), filósofo italiano, respeitável
escritor espírita, em sua obra Pensamento e Vontade, diz que o pensamento
e a vontade são forças plásticas e organizadoras elaboradas pelo espírito; o
cérebro executa apenas os comandos da mente. Todos temos energia que obedece à
nossa vontade e ao nosso potencial imaginativo, podendo influenciar outras
criaturas e ambientes distantes. São criações intelectuais e não físicas.
Então existe um link, uma conexão entre a mente (atributo do espírito) e
o cérebro (organismo físico). Quem faz essa ligação é o perispírito - liame
entre o espírito e a matéria.
Vimos mais acima que o cérebro está sempre pronto a adotar novos hábitos
e pensamentos. Mas quem elabora e plasma o pensamento imprimindo-lhe a vontade
é o espírito.
Em seu livro, Bozzano informa que o espírito pensa ideias: sua mente
mobiliza material plástico dando forma ao pensamento, enquanto a
vontade dá a direção em forma de energia
mental. Pensamentos de amor terão coloração e vibração brilhantes/irradiantes;
de ódio terão coloração opaca, sem brilho. Essas características positivas ou
negativas, são o resultado da ação da mente sobre energias sutis que estão à
nossa volta, criando formas correspondentes ao pensamento externado. Os
pensamentos formam um envelope energético em nosso redor, causando sensações
agradáveis ou desagradáveis, conforme seu teor. Mesmo quando direcionados aos
outros, o primeiro a receber a carga energética é o próprio emissor. Se
estivermos pensando/querendo o mal do nosso próximo, essa energia malsã já
estará nos envolvendo: é como se tomássemos veneno e quiséssemos que o outro
morresse...
Quando um pensamento é passageiro, muitas vezes nem chega a criar nada,
ou, se cria, a forma não se mantém, pois não é realimentada. Mas, se for
persistente, revivido continuamente por imagens mentais, a forma criada se
estabelece, ficando cada vez mais forte. Se for uma forma-pensamento positiva,
sadia, elevada, ela se alimentará dos pensamentos e sentimentos positivos do
seu criador, ao mesmo tempo em que o abastecerá de bons fluidos, agregados, por
sintonia, de outras formas-pensamento do mesmo teor, emitidos por
outras mentes equilibradas. E vice-versa.
Muitos processos de obsessão começam assim, com formas-pensamento
criadas e mantidas pela própria pessoa (ideias fixas); espíritos levianos,
brincalhões e até perversos podem se aproveitar dessas criações,
manipulando-as para assustar, atormentar e drenar as energias daquela criatura.
Em todo esse estudo, esse avanço científico e tecnológico que vimos
acima, o que mais fascina é a demonstração da incrível capacidade de mudança
comportamental, de ajuda e favorecimento ao próximo e à nós mesmos,
utilizando-nos da nossa própria vontade, autonomia de pensamento e a
indispensável ação, que, no entanto, se nos afigura tão difícil de praticar.
Penso que, quando estivermos aptos a utilizar todo este nosso potencial
criativo, renovador, então sim alcançaremos uma nova etapa na classificação dos
mundos habitado.
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05 maio 2026
UM CAMINHO PARA O ESPIRITISMO LAICO - Salomão Jacob Benchaya
UM
CAMINHO PARA O ESPIRITISMO LAICO
Salomão Jacob Benchaya –bacharel em Economia
ex- Presidente do Centro Cultural de Porto Alegre (CCEPA), da Federação
Espírita do Rio Grande do Sul, Diretor da CEPA Associação Espírita
Internacional, um dos criadores do ESDES, colaborador do Jornal CCEPA –
Opinião, um dos criadores do MEP- Movimento Espírita Progressista e Presidente
eleito da CEPABrasil para o Biênio 2026/27.
O expressivo crescimento da vertente
livre-pensadora, progressista e progressiva, humanista, adogmática e plural
que, ultimamente, se observa no movimento espírita, tem me levado a refletir
sobre a sustentabilidade desse segmento que, claramente, não tem acolhimento
nas instituições e centros espíritas tradicionais, majoritariamente pertencentes
à corrente religiosa e conservadora que
se consolidou no Brasil.
Em recentes comentários postados no
grupo de whatsApp da CEPABrasil, essa situação foi mencionada, resultando num
consenso de que a liberdade de pensamento, a leitura crítica das obras espíritas,
a rejeição a posturas dogmáticas, o questionamento da produção mediúnica, o
combate à idolatria, ao evangelismo exacerbado etc., só podem vicejar em grupos
ou instituições de pequeno porte que sejam orientados por pessoas desvinculadas
de posturas dogmáticas e exclusivas.
Casas espíritas constituídas sob o
signo do religiosismo e do evangelismo dificilmente conseguem se redirecionar
para um modelo mais coerente com a racionalidade kardeciana.
Raras instituições espíritas
genuinamente laicas existem no planeta. São poucos os espíritas que não sentem
falta de ter uma religião, embora isso não signifique qualquer superioridade
moral de quem quer que seja.
É oportuno, aqui, repetir que o laicismo não é contra a
Religião. O laicismo é neutro, ou seja, não interfere nem se envolve com a
questão religiosa, tendo, sim, absoluto respeito a todas as crenças e aos seus
profitentes.
Então, por que motivo está crescendo a vertente laica,
progressista, livre-pensadora do espiritismo?
O crescimento do campo espírita progressista
Antes de responder, é bom dizer que a proposta de laicidade
no espiritismo não é nenhuma invenção da CEPA. Esta, por sinal, cada vez mais,
comporta-se como um movimento de ideias e não mais como instituição federativa.
Kardec não projetou um espiritismo religioso – embora haja
contribuído para isso, de certa forma, talvez até como uma brilhante
estratégia. No Brasil, já em seus primórdios, grupos de “místicos” (Bezerra de
Menezes como líder) e de “científicos” (Afonso Angeli Torteroli à frente)
disputavam a liderança do movimento espírita nascente. Durante a ditadura
militar, o Movimento Universitário Espírita, acentuadamente político, também se
opôs ao religiosismo e, na década de 70 do século passado, Jaci Regis e o seu
“Grupo de Santos” e o grupo que, então dirigia a federação gaúcha, deflagraram
nova reação à sectarização, à igregificação e ao evangelismo reinantes. Em
todos esses momentos, a reação conservadora foi vitoriosa.
Não me parece sensata nenhuma disputa por hegemonia, claramente
contraproducente. A sociedade é plural, diversificada, e com o espiritismo não
poderia ser de outro modo.
Tornou-se evidente que não existe um só espiritismo. Hoje há
muitos. E que todos se ancoram em Kardec, mesmo que usando métodos
diferenciados.
É sob essa perspectiva de pluralismo e de diálogo que,
notadamente durante e após o recente governo de extrema direita, começaram a
surgir novos grupamentos e coletivos espíritas congregando livres pensadores e
progressistas, muitos ex-integrantes de instituições espíritas declaradamente
apoiadoras do sistema vigente.
A eclosão da pandemia da Covid 19 e as novas tecnologias
digitais obrigaram as pessoas a se comunicar virtualmente e através das redes
sociais. Espontaneamente, uma teia de relacionamentos e de intercâmbio se
estruturou possibilitando a troca de ideias, o surgimento de novos pensadores e
líderes distanciados do igrejismo e promovendo um apreciável esforço de resgate
do pensamento kardeciano para compatibilizá-lo com o conhecimento contemporâneo.
O conhecimento da obra de Kardec como base
Não posso deixar de admitir que, nas últimas quatro décadas,
houve um fator que exerceu e vem exercendo um papel determinante na mudança de
perfil do espiritismo. Trata-se do incremento que, desde o final da década de
70 do Século XX, se observa quanto ao melhor conhecimento da obra de Kardec,
resultante da campanha lançada pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul
visando o estudo metódico, sistematizado ou sistemático do espiritismo. Essa
campanha, conhecida pela sigla ESDE, infelizmente um tanto desacreditada e
criticada pela forma apostilada como passou a ser apresentada, objetivava
exatamente estimular o estudo e o conhecimento das obras do fundador do
espiritismo. É bem provável que muitos estudiosos nas casas espíritas que
adotaram o ESDE, ao (re)lerem os textos fundadores, tenham percebido a sua
discrepância em relação ao modelo evangélico implantado no Brasil. O modelo
brasileiro não era coerente com a proposta original.
Então, não é difícil deduzir a influência que o conhecimento
aprofundado do pensamento kardeciano exerce sobre o surgimento e sobre a
expansão, na comunidade espírita, de um segmento de livres pensadores,
progressistas, progressivistas, humanistas, adogmáticos, aí incluídos os laicos.
A estratégia dos pequenos grupos
Mas, como eu disse antes, esses espíritas não encontram
acolhimento em casas conservadoras. As poucas exceções encontram-se em algumas
instituições ligadas à CEPA, constituída há quase 80 anos.
É fácil constatar que os diversos grupamentos ou coletivos
já em funcionamento são, em sua maioria, grupos pequenos, informais, não
possuem sede física, atuam através dos meios digitais, envolvendo colaboradores
dos mais distantes lugares, geralmente com formação universitária e que se
dedicam ao esforço de contextualizar a obra de Allan Kardec trazendo seu
conteúdo para os dias atuais, apto a dialogar com a Ciência e a Filosofia.
É para esse segmento, ainda incipiente, mas promissor, que
estou propondo uma estratégia de ação inspirada em um antigo Projeto que
apresentei no 3º Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, organizado pelo
saudoso Jaci Regis, ocorrido em setembro de 1993, em Santos-SP.
Na verdade, esta proposta nem chega a ser uma novidade pois
já existia no movimento espírita mas que aponta para a possibilidade de
incremento do estudo do espiritismo despregado do dogmatismo e da ortodoxia que
imobilizam e asfixiam o pensamento espírita, em flagrante desacordo com a
recomendação de Kardec.
O trabalho apresentado em 1993 desenvolvia a ideia de
“Espiritismo em Grupos Informais” (Projeto EGI) e cujos objetivos eram: “a) estimular a criação de Grupos Informais de
Estudos Espíritas (GIEEs); b) promover o intercâmbio do pensamento espírita com
o conhecimento acadêmico; c) estimular a formação de núcleos espíritas
universitários para investigação e pesquisa; d) assessorar
as universidades na promoção de eventos ligados ao estudo da natureza do Homem;
e) oferecer subsídios para o
conhecimento do Espiritismo a grupos de estudos espiritualistas, paranormais,
de pesquisas psíquicas e/ou alternativos, já existentes.”
Os Grupos Informais (ou
Autônomos) de Estudos Espíritas, na verdade, já existem. O Projeto EGI não tem
nada de inovador, mas certamente pode ser um poderoso auxiliar na expansão do
pensamento espírita progressista, crítico, adogmático, assectário, decolonial,
inclusivo, plural, humanista, alteritário e livre-pensador.
São grupos familiares, de pesquisadores, de
profissionais ou, simplesmente, de estudiosos, funcionando em residências,
empresas, escolas, universidades, clubes e, mesmo, em instituições espíritas,
que dialogam com outras áreas do conhecimento e com outros segmentos sociais,
mantendo o espiritismo permanentemente atualizado e presente na sociedade.
Os coletivos, que já se
contam às dezenas, estão produzindo verdadeira revolução no movimento espírita.
Nunca, tantos livros espíritas foram e continuam sendo lançados por escritoras
e escritores espíritas com valiosas contribuições para a atualização teórica e
prática do espiritismo.
Entretanto, o público
que acompanha e interage com todo esse volume de produção intelectual ainda é
reduzido.
Se o ESDE pode se
constituir em vigoroso estímulo ao estudo da obra de Kardec, desde que não
engessada no dogmatismo e na sacralização, grupos independentes,
problematizadores, críticos e que dialogam com o conhecimento científico e
filosófico dos nossos dias, podem revitalizar o movimento espírita, garantindo
a sua sobrevivência e a admissão da teoria espírita ao debate acadêmico.
A articulação necessária
Existem instituições
bem organizadas, de perfil laico, coletivos, ligas, institutos ou grupamentos
progressistas em condições de se constituírem em núcleos promotores e
apoiadores de grupos informais ou autônomos de estudos espíritas.
Exemplos desse tipo de
iniciativa, são os cursos presenciais ou virtuais, em andamento ou já
realizados pela CEPA, pelo IFEHP, pela AEPHUS, pela ABPE, pelo IEEF, pelo CELP,
pelo Ágora, entre outros, voltados para a cultura espírita, em franco diálogo
com todos os campos do conhecimento.
A ideia é que se
multipliquem os pequenos grupos espíritas, como propunha Kardec, presenciais ou
virtuais, com total liberdade para estudar, pesquisar, participar de eventos,
intercambiar experiências, produzir conhecimento, enfim, o que, certamente, terá
um efeito oxigenador sobre o movimento espírita.
Talvez o campo
progressista esteja necessitando de um mínimo de articulação, já que não
pretende nem convém se institucionalizar, preservando sua autonomia, mas
cuidando de disseminar suas propostas, particularmente entre aqueles já
cansados da igrejificação sofrida pelo espiritismo, como também entre os que
acreditam num espiritismo que não só console pela beleza e racionalidade dos
seus postulados, mas que seja um movimento engajado na efetiva superação dos
problemas humanos, tanto na esfera individual quanto na social.
A discussão dessas questões
está entre os objetivos do VI Encontro Nacional da Associação Brasileira de
Delegados e Amigos da CEPA (CEPABrasil), a realizar-se de 14 a 17 de novembro
de 2024, na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA).
Vale a pena, portanto,
que os espíritas vinculados à CEPA, seus Amigos, bem como os Coletivos,
Institutos, Ligas e pensadores independentes se proponham a visitar Porto
Alegre apresentando trabalhos, que não serão censurados, relacionados com a
temática “O Espiritismo em
suas dimensões científica, filosófica, ética e social: desafios e perspectivas”.
(Artigo publicado no jornal CCEPA
Opinião, edições jan/fev, março e abril de 2024)