15 outubro 2026

CEPA 80 Anos de História - Herivelto Carvalho



                                           

                   

                                                                  Herivelto Carvalho*

                                                                   CEPA 80 ANOS DE HISTÓRIA

Com o enfraquecimento do Espiritismo na Europa e o desaparecimento dos principais periódicos espíritas de língua espanhola, pois antes a Espanha fornecia normalmente revistas, livros e material doutrinário para as instituições e comunidades espíritas da América Latina, um grupo de líderes espíritas argentinos, preocupados com a organização do movimento espírita no Continente Americano, propôs, em 1939, durante o III Congresso Interno da Confederação Espírita Argentina, a criação de uma instituição representativa dos espíritas desse continente, inicialmente denominada de Liga Espiritista Pan-americana.

A deliberação começa a se concretizar, quando em 1940, os argentinos Hugo Nale, Humberto Mariotti e Naum Kreiman passaram a liderar um projeto, com aval da diretoria da Confederação Espírita Argentina. O projeto previa que a fundação da nova entidade representativa seria discutida e executada durante o I Congresso Espírita Pan-americano, que seria realizado em 1943. Essa proposta sugeriu a adoção do nome Federação Espírita das Américas e da sigla FEDA para a nova instituição.

No entanto, devido aos problemas ocasionados pelo decorrer dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, a realização do I Congresso Espírita Pan-americano foi sendo continuamente adiada.  Somente em 1946, após o fim da guerra, foi possível realizar o tão esperado congresso, durante os dias 5 a 13 de outubro, em Buenos Aires, na Argentina, ocasião  que contou com a participação de delegados de diversos países latino-americanos.

Nesse congresso, finalmente, o sonho dos espíritas americanos é concretizado com a fundação da primeira entidade espírita de caráter internacional das Américas, que diferentemente das propostas anteriores, recebeu nome de Confederação Espírita Pan-americana, sendo adotada a sigla CEPA. O Congresso tomou ainda a decisão de adotar a cepa da videira como símbolo da CEPA, a mesma utilizada por Kardec para identificar o espiritismo. Ainda nesse Congresso foi eleito o primeiro presidente da CEPA, o engenheiro argentino José Salvador Fernández.

Adotando em seu estatuto um programa de integração do Espiritismo Latino-americano, dentro de um programa mínimo de objetivos comuns, a CEPA iniciou sua marcha rumo ao progresso das ideias espíritas, através da realização de congressos e conferências periódicas em diversos países do continente. Desde sua fundação, a CEPA promoveu a realização de 22 congressos e 15 conferências regionais. 

Em 2016, setenta anos após sua fundação, durante a realização do XX Congresso Espírita Pan-americano, em Rosário, Argentina, atendendo aos insistentes clamores, principalmente da comunidade espírita da Europa, identificada com o caráter laico e livre-pensador da Doutrina Espírita, a CEPA modificou seus estatutos, transformando-se na CEPA-Associação Espírita Internacional, sendo mantida a sigla original.


APONTAMENTOS HISTÓRICOS DO MOVIMENTO DA CEPA

Herivelto Carvalho

O Período Pan-americano

§  1934

Sediado em Barcelona, o Congresso Internacional Espírita reuniu importantes nomes da América Latina, como os argentinos Manuel Porteiro e Humberto Mariotti, além do cubano Don Salvador Molina. O evento funcionou como um grande catalisador para a integração entre as instituições americanas e deu o pontapé inicial para a realização de encontros regionais.

§  1936

A eclosão da Guerra Civil Espanhola enfraqueceu severamente o movimento espírita no país europeu. Até aquele momento, a Espanha era uma das principais fornecedoras de livros, jornais e conteúdos doutrinários para os grupos espíritas da América Latina.

§  1939

A Confederação Espírita Argentina aprova uma resolução em que defendia patrocinar a criação de uma entidade representativa dos espíritas americanos, preliminarmente denominada de Liga Espiritista Pan-americana.

§  1940

A ocupação nazista em Paris, ocorrida em 14 de junho, culminou no encerramento da Federação Espírita Internacional (FEI), sediada na Maison des Spirites. Como a FEI era o único órgão global que conectava as entidades do continente americano, seu fechamento impulsionou ainda mais o desejo dos espíritas da região de fundarem uma rede de união própria.

A Confederação Espírita Argentina passa a patrocinar um projeto de criação da nova entidade representativa dos espíritas americanos, adotando agora o nome de Federação Espírita da Américas (FEDA).

Nesse contexto, o líder espírita cubano Manuel Garcia Consuegra comunicou ao presidente da FEB, Guillon Ribeiro, que um encontro em Havana havia manifestado o interesse de realizar em Cuba o “Congresso Latino-americano de Espiritistas”, focado na aproximação dos espíritas das Américas.

§  1941

Durante o IV Congresso Espírita Argentino, a Confederação Espírita local estruturou uma comissão responsável por organizar o I Congresso Espírita Pan-americano, projeto que visava dar origem à Federação Espírita das Américas (FEDA).

1946

Em 5 de outubro, durante o primeiro Congresso Espírita Pan-Americano, realizado na cidade de Buenos Aires, Argentina, fui fundada a entidade congregadora dos espíritas pan-americanos com o nome de Confederação Espírita Pan-americana (CEPA). 

§  1948

José Salvador Fernández funda a Sociedad Argentina de Parapsicologia cujos boletins científicos são publicados na revista espírita Constância.

 

§  1949

Em parceria com a Liga Espírita do Brasil, a CEPA promove o II Congresso Espírita Pan-americano. Este evento permitiu uma maior aproximação dos espíritas brasileiros da CEPA e do pensamento espírita livre-pensador.

§  1950

Acolhendo a orientação dada pelo Conselho Federativo Nacional (CFN), a Federação Espírita Brasileira (FEB) formalizou a sua adesão à CEPA.

§  1953

Durante a realização do III Congresso Espírita Pan-americano em Havana, Cuba, a CEPA reafirmou sua postura laica, declarando que o Espiritismo possui natureza estritamente científico-filosófica, desprovida de caráter religioso. Essa definição resultou no afastamento da delegação brasileira em relação à instituição. 

§  1957

José Salvador Fernández funda o Colegio Argentino de Estudios Psiquicos.

§  1958

David Grossvater e outros estudiosos espíritas venezuelanos fundam, em 20 de maio, na cidade de Maracaibo, o Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines, que posteriormente passa a se chamar Movimiento de Cultura Espírita CIMA.

1972

Ao assumir a presidência da Federação Espírita Internacional, Luis di Cristóforo Postiglioni promoveu uma maior aproximação entre o movimento espírita latino-americano e os grupos espíritas da Europa e de tradição anglo-saxã.

§  1980

Josep Casanovas Llardent e um grupo de espanhóis funda o Centro Barcelonês de Cultura Espírita (CBCE). Cinco anos depois, o CBCE recebe a visita do escritor e conferencista Jon Aizpúrua e do então presidente da CEPA, Hermas Culzoni. A partir daí ampliam suas relações com os espíritas livre-pensadores da América. 


§  1986

Entre os dias 20 e 24 de outubro, a cidade de Foz do Iguaçu (PR) recebeu a X Conferência Regional Espírita da CEPA, evento que marcou a retomada das ações da instituição no Brasil. O encontro contou com nomes de destaque, incluindo o então presidente da FEB, Dr. Francisco Thiesen, além de Divaldo Pereira Franco, José Raul Teixeira, Juvanir Borges de Souza e Altivo Ferreira.

§  1988

Um grupo de jovens pesquisadores funda, em Santos, SP, o Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc Espírita).

§  1989

Jaci Régis cria o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), cuja primeira edição aconteceu em Santos, SP.

§  1993

Jon Aizpúrua, como presidente da CEPA, realiza uma visita ao III SPBE, que acontecia em Santos. Neste evento estreita relações com a diretoria do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre CCEPA, que também participava do evento.

§  1995

O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) efetuou sua filiação oficial à CEPA.

§  1996

Uma expressiva comitiva de representantes brasileiros marcou presença no XVII Congresso Espírita Pan-americano, realizado em Buenos Aires, na Argentina, fortalecendo e expandindo a participação do país dentro da organização.

§  2000

Acontece em Porto Alegre, RS, com o apoio logístico do CCEPA o XVIII Congresso Espírita Pan-americano, que marcou o retorno da CEPA ao Brasil e firmou a postura da instituição na vanguarda da atualização do Espiritismo.

§  2003

Delegados brasileiros da CEPA fundam a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da Confederação Espírita Pan-americana, inicialmente denominada de CEPAmigos e que depois passa a se chamar CEPABrasil.

§  2007

Fundada em Sevilha, Espanha, a Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo (AIPE)

A Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa (ASSEPE) idealiza o Fórum do Livre Pensar Espírita, projeto que posteriormente foi adotado pela CEPABrasil e passou a ser realizado em série, em diferentes cidades brasileiras.

§  2016

Setenta anos após sua fundação, durante a realização do XX Congresso Espírita Pan-americano, em Rosário, Argentina, atendendo aos insistentes clamores, principalmente da comunidade espírita da Europa, a CEPA modificou seus estatutos, transformando-se na CEPA-Associação Espírita Internacional, sendo mantida a sigla original.

 


DA ESPANHA ÀS AMÉRICAS: A TRAJETÓRIA DA TRADIÇÃO ESPÍRITA LIVRE-PENSADORA

 Herivelto Carvalho

Por volta de 1870, Don Justo de Espada, um espanhol oriundo de Málaga, veio tentar a sorte na Argentina, trabalhando em empreendimentos comerciais, na capital Buenos Aires. Trouxe consigo uma carta de recomendação que comprovava sua vasta experiência no ramo, porém, sua maior contribuição ao país que o acolhera, não foi no campo profissional, mas sim no das ideias espiritualistas, pois foi o primeiro divulgador de um movimento que, no dizer de Cosme Mariño, preocupava os intelectuais mais avançados do Velho Mundo: o Espiritismo. Outro espanhol, Angel Aguarod, antigo integrante do Centro Barcelonés de Estudios Psicológicos, se tornou no início do séc. XX, um dos principais divulgadores do Espiritismo na América do Sul. Em Cuba, imigrantes catalães deram início aos primeiros agrupamentos espíritas do país.

Estes exemplos ilustram como a vinda de imigrantes espanhóis foi fundamental para o desenvolvimento do Espiritismo em vários países da América Latina. Além de atuarem como propagandistas da nova doutrina, trouxeram consigo algumas características que eram peculiares do movimento espírita espanhol, dentre elas, uma forte tendência de associação doutrinária com os ideais de livre-pensamento, secularismo e atuação social.

Esse movimento desenvolveu grande unidade e atuação na sociedade espanhola, cuja proposta filosófica se apresentava como a superação das religiões positivas. Esta forma moderna de espiritualismo rechaçava os elementos de dogmatismo existente nas religiões do passado e pretendia desenvolver uma nova espiritualidade racional, capaz de se relacionar com a filosofia e a ciência. Pelas particularidades que o mesmo desenvolveu, formou uma escola de pensamento que tem como atributo principal a interpretação do Espiritismo como um sistema de ideias aberto, progressivo, não-dogmático e relacionado com o livre-pensamento, constituindo, portanto, no sentido filosófico, uma tradição.

Podemos afirmar que o surgimento da tradição espírita livre-pensadora ocorreu, no final do séc. XIX, quando as obras de Allan Kardec se popularizaram na Espanha. Seus expoentes iniciais foram Alverico Perón, Fernandez Colavida, Torres-Solanot e Amália Domingo Soler. Esta tradição adquire características próprias não porque fez um rompimento com o pensamento kardecista, mas sim pelo método de desenvolvimento adotado e pelo modo de atuação no seu contexto social, que se distinguiu do modo como os espíritas franceses praticavam e divulgavam o Espiritismo.

Profundamente organizado e ativo, o movimento espírita espanhol se internacionalizou, influenciando a formação de movimentos espíritas nos países americanos. A Espanha, portanto, se tornou para estes, a principal fornecedora de conteúdo doutrinário, através de periódicos e livros que atravessavam o Atlântico, tornando alguns autores espanhóis muito populares no Novo Mundo. Essa situação fez com que, no final do séc. XIX, a figura da espanhola Amália Domingo Soler se tornasse uma das maiores divulgadoras internacionais do Espiritismo, tendo seus escritos reproduzidos em publicações por toda a América Latina.

Outro exemplo de intercâmbio cultural entre os movimentos espíritas dos dois continentes pode ser notado, durante a realização do Primeiro Congresso Internacional Espírita, em Barcelona, no ano de1888, em que as duas maiores delegações, com exceção da própria Espanha, eram as de Cuba e México, bem como, um dos secretários do evento foi o destacado líder espírita cubano Eulogio Prieto.

Apesar de as ideias de laicidade, livre-pensamento e constante atualização serem praticadas por espíritas latino-americanos e espanhóis, desde as últimas décadas do séc. XIX, com o passar dos anos, no âmbito do movimento espírita pan-americano, o conhecimento acerca desse fato, ficou perdido, a ponto de muitos integrantes desse movimento acreditarem que tais ideais se consolidaram após a fundação da Confederação Espírita Pan-americana em 1946.

Após o resgate e disponibilização virtual de obras clássicas de autores que atuaram como protagonistas no desenvolvimento do Espiritismo pan-americano, realizada com muito zelo pela equipe do projeto PENSE, foi possível uma leitura mais atenta deste material, o que permitiu identificar um grande número de citações e referências a autores espanhóis que se consagraram nas primeiras décadas do movimento espírita daquele país, cujo trabalho apresentava uma ascendência sobre o pensamento dos espíritas latino-americanos. Naum Kreiman, por exemplo, ao falar sobre seu conceito de ciência espírita, cita, diversas vezes, o pensamento de Manuel Sanz Benito, espanhol que, em 1890, publicou importante obra sobre a epistemologia espírita.

Uma análise atenta desse fato confirma que o Espiritismo divulgado e vivido pela CEPA é o desenvolvimento das ideias da tradição espírita livre-pensadora, elaborado durante um intercâmbio cultural, onde o conhecimento espírita produzido nos dois continentes possuía mútua influência. Trata-se de uma escola de pensamento espírita perpetuada e ampliada por pensadores latino-americanos como Mariño, Porteiro, Mariotti, Fernández, Kreiman, Grossvater, Postiglioni, Aizpúrua, dentre outros.

Esse intercâmbio foi crescente e progressivo até os anos 1930, quando a Guerra Civil Espanhola e a perseguição imposta pela ditadura do General Franco destruiu o forte movimento espírita espanhol. A partir desse momento, os espíritas americanos perceberam que estava sob sua responsabilidade, a tarefa de manter vivo o projeto de desenvolvimento do Espiritismo, e que para efetivar esta atividade, seria preciso instituir um movimento integrador para o continente. O resultado dessa percepção culminou com a iniciativa de criação da CEPA.

Os ideais de defesa do caráter progressivo, laico e livre-pensador do Espiritismo bem como o desenvolvimento da Filosofia Espírita e sua atuação em diversos setores da sociedade como a política, a educação, a justiça, etc, tão defendidos na atualidade pelos espíritas cepeanos, podem ser facilmente encontrados na aurora da tradição espírita livre-pensadora.  Em 1890, Sanz Benito, alegava que “nunca o Espiritismo poderá constituir escola, doutrina ou sistema, com afirmações definitivas, pois que sempre deixará amplo campo às investigações e sempre irá ampliando seu curso científico”, dando destaque ao seu caráter progressivo. O próprio Congresso de 1888 se pautou pela manutenção deste mesmo caráter ao buscar efetivar o projeto de Kardec sobre os "congressos orgânicos", que seriam responsáveis pela revisão geral e a adesão de novos princípios. O mesmo evento salientou a característica de laicidade, ao afirmar, no texto de sua declaração final, que era preciso um “esforço constante para difundir o laicismo por todas as esferas da vida”. Alguns anos antes, Colavida, em carta a Albert de Rochas, afirmava essa mesma característica ao declarar que “O espiritismo não é nem cristão, nem muçulmano, nem judeu, etc.”.

Ao longo de sua existência, a tradição espírita livre-pensadora, através das obras de autores clássicos e modernos, contribuiu para o desenvolvimento dos fundamentos e da natureza do Espiritismo. A CEPA ampliou sua participação, nos últimos anos, no Brasil, na Espanha e na França, além de continuar atuante em todo o Continente Americano, e, como uma legítima herdeira dessa tradição, tem a tarefa de manter vivos seus ideais, especialmente, o tão importante caráter progressivo do Espiritismo, considerado por Kardec como a condição essencial para a sua perpetuidade e sobrevivência.

* Herivelto Carvalho é servidor público municipal, membro do CPDoc e delegado da CEPA em Ibatiba ES.

05 outubro 2026

DA RELIGIÃO AO LIVRE PENSAMENTO A contribuição da CEPA para o atual estágio do espiritismo no Brasil por Milton Medran Moreira

 

DA RELIGIÃO AO LIVRE PENSAMENTO

A contribuição da CEPA para o atual estágio do espiritismo no Brasil

                                                                       Milton Medran Moreira(*)

               A Pré-História da CEPA no Brasil

               Na oportunidade em que a CEPA – Associação Espírita Internacional (ex- Confederação Espírita Pan-Americana) completa oitenta anos de fundação (Buenos Aires, outubro de 1946), é oportuno salientar alguns aspectos ligados à sua presença no Brasil.

               Embora, ainda nos primórdios de sua existência, tenha realizado seu 2º Congresso Espírita Pan-Americano, na então capital brasileira, Rio de Janeiro (outubro de 1949), tendo, inclusive, ali, sido eleito um brasileiro para sua presidência, Pedro Delfino Ferreira, a presença da CEPA, aqui, nas décadas seguintes, encontrou sérias dificuldades de expansão.

               O perfil marcadamente religioso de que se havia impregnado o espiritismo no Brasil, a partir, notadamente, da visão roustainguista oficialmente adotada pela Federação Espírita Brasileira, distanciava o movimento espírita do país da orientação kardecista, que, desde seu nascimento, caracterizara a CEPA.

               Acresça-se à condição acima, a influente atuação do médium Francisco Cândido Xavier e sua caudalosa obra mediúnica, sustentada por autores espirituais de forte impregnação cristã/católica. Plasmou-se, assim, aqui, a “religião espírita”, de natureza eminentemente evangélica e escassamente afeita a aspectos científicos e filosóficos, propostos na obra do fundador do espiritismo, Allan Kardec.

               Por essas razões, o esforço de Deolindo Amorim e de seus companheiros da então Liga Espírita do Brasil, promotores do segundo Congresso da CEPA, sediado no Brasil, naquele 1949, foi lentamente se dissipando, a ponto de tornar praticamente desconhecida, em terras brasileiras, uma instituição que fora fundada com o objetivo de congregar todo o movimento espírita das Américas.

               Mais que isso, e também por forte influência de espíritos que se identificavam como autores espirituais das obras de Chico Xavier, a Federação Espírita Brasileira se auto investira da condição de condutora do movimento espírita mundial, escudada em “manifestações proféticas”, presentes no livro “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho” (FEB 1938), de autoria espiritual atribuída ao escritor brasileiro Humberto de Campos (1886/1934).  O chamado, então, movimento de “unificação”, imposto à rede de instituições brasileiras, não recomendava qualquer vínculo com outro organismo que não a FEB e, tampouco, outra visão doutrinária que fugisse ao chamado “triângulo emanuelino”. Este classificava o espiritismo como “ciência, filosofia e religião”, dando primordial importância ao último aspecto e minimizando os demais.

               O retorno da CEPA ao Brasil

               Nos anos 90 do século passado, ocorre o retorno da CEPA e de sua proposta doutrinária ao Brasil. Trata-se de um cuidadoso e corajoso trabalho feito por iniciativa do então presidente da instituição, o venezuelano Jon Aizpúrua.

               No ano de 1994, Aizpúrua, tendo iniciado seu segundo mandato na presidência da CEPA, e conhecedor profundo que sempre se mostrara da história e do perfil do espiritismo brasileiro, inicia uma série de contatos com pessoas e instituições espíritas que, àquela altura, contestavam a postura da FEB e seu religiosismo, e assumiam uma postura laica e livre-pensadora, fortemente fundada na obra de Allan Kardec.

               Atendendo a convite formulado por Aizpúrua, instituições espíritas sediadas nos Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, passaram a aderir formalmente à CEPA, iniciando a formação de uma rede de pessoas e instituições que, num primeiro momento, direcionaram sua ação no sentido de divulgar o espiritismo no Brasil não mais como uma “religião”, mas como um movimento espiritualista de caráter laico e livre-pensador, tendo por base as obras do fundador do espiritismo, o francês Allan Kardec.

               O esforço de Aizpúrua que, na época, fez várias visitas ao Brasil, pronunciando conferências, contactando com centros e grupos espíritas abertos às propostas da CEPA e concedendo entrevistas a jornais, emissoras de rádio e TV, motivou a formação de uma delegação de cerca de 60 pessoas a Buenos Aires, em outubro de 1996, para participarem do 17º Congresso Pan-Americano de Espiritismo.

               O Congresso seguinte, no ano de 2.000, teria por sede, novamente, o Brasil, em Porto Alegre, onde o autor deste artigo foi eleito presidente da CEPA, cargo que ocupou por dois mandatos, (2000/2004 e 2004/2008). Consolidava-se, ali, a presença institucional da CEPA no Brasil.

               Mais tarde, e também por dois mandatos (2012/2016), a também brasileira, Jacira Jacinto da Silva (São Paulo) presidiria a CEPA, em cuja gestão, em Congresso realizado na Argentina, a instituição tomou a atual designação: CEPA – Associação Espírita Internacional.

               Desenha-se um novo perfil do espiritismo no Brasil

               As breves anotações acima, sem nenhuma pretensão de abranger toda a história da CEPA, no Brasil, servem apenas para situar o leitor numa sequência histórica que plasma o despertar de um novo perfil não exatamente institucional, mas eminentemente social e filosófico, da proposta espírita, no seio da sociedade brasileira.

               Abandonando a ideia que inspirara sua fundação, ainda na primeira metade do Século 20, e que era de congregar todo o movimento espírita pan-americano, a CEPA assumia outro perfil: o de uma entidade capaz de representar uma significativa ala do espiritismo mundial, dissociado de uma visão religiosa, fideísta, para tratá-lo e difundi-lo como um movimento de ideias espiritualistas de caráter livre-pensador, sempre atualizável e de consequências filosóficas e sociais progressistas. Os adjetivos “laica”, “kardecista”, “progressista” e “livre-pensadora”, mais do que nunca, passaram a caracterizar a identidade da CEPA, nos países onde tem representatividade e, de maneira muito particular, no Brasil.

               Visto tradicionalmente como uma “religião cristã” e atestado pelo censo populacional, sucessivamente, como a terceira “religião” no cenário brasileiro, depois do catolicismo e do evangelismo, o espiritismo, hoje, começa a ser notado como um movimento de ideias ao qual aderem estudiosos e cultores da sociologia, da filosofia, da psicologia, das ciências humanas em geral, das artes e da política.

Tendo por princípio a ideia central da imortalidade do espírito e da comunicabilidade entre “vivos” e “mortos”, da qual dimanam consequências éticas e morais, o espiritismo, pouco a pouco, se firma, no Brasil, como uma verdadeira “escola de pensamento”.

Esse movimento, que não se restringe apenas à CEPA, aqui representada por uma associação civil, reunindo pessoas e entidades, a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil -, mostra-se, hoje, pujante. Está fortemente presente nas redes sociais, nas diversas associações, editoras, movimentos universitários, entidades promotoras de fóruns de debate, congressos etc, totalmente distanciados do chamado “movimento unificacionista”, comandado pela Federação Espírita Brasileira. Une-os justamente a ideia central do livre-pensamento, inspirado nos princípios cardeais do espiritismo, quais sejam, a ideia da imortalidade do espírito, o intercâmbio do mundo material e espiritual, a reencarnação e os valores éticos decorrentes desses pressupostos.

Não se restringido, entretanto, à CEPA, esse movimento plural, de feições nem sempre idênticas, não teria, contudo, alcançado a importância que começa a assumir, no Brasil, não fosse, lá atrás, a proposta e a ação enérgicas da CEPA no sentido de abstrair da identidade do espiritismo a condição de “religião”, para difundi-lo como um movimento de ideias laicas, progressistas e libertadoras.

Ser ou não ser o espiritismo uma religião, discussão surgida no próprio seio do movimento espírita, e que encontrou na CEPA uma enérgica posição, no sentido da afirmação de sua laicidade, foi, podemos afirmar, hoje, o marco a partir do qual desenvolveu-se, no Brasil, um ambiente capaz de qualificar a proposta espírita, dar-lhe, realmente, foros de cientificidade e de movimento intelectual e social de relevo.

Sem o impulso da CEPA, nas décadas finais dos anos 80, até hoje, o espiritismo não teria chegado ao estágio de respeitabilidade que logrou alcançar, na área de cultura, contribuindo, com seu pensamento, e a partir de seus fundamentos, com os setores comprometidos com o progresso social, ético e político do país.

O futuro da proposta espírita, no Brasil, a partir da efervescência de suas ideias, hoje observável, passa, dessa forma, necessariamente, pela histórica presença da CEPA, a partir do final do Século 20 e primeiras décadas do Século 21.

O espiritismo, no Brasil, pouco a pouco, deixa de ser visto apenas como mais uma religião, para ser considerado como um movimento de ideias compatível com o ideal de quem vê no ser humano um espírito imortal vocacionado ao contínuo progresso, em busca da plena felicidade. Condição essa, capaz de tornar o mundo e a humanidade melhores.

Foi o registro que gostaríamos de deixar consignado, quando a CEPA – Associação Espírita Internacional completa seus 80 anos de existência.

Valeu e valerá a pena!

 

 

 

(*) Procurador de Justiça aposentado do Rio Grande do Sul, Advogado, Jornalista, integrou os quadros diretivos da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, onde ocupou o cargo de diretor do Departamento de Comunicação Social, tendo dirigido a revista “A Reencarnação” daquela federativa. Desde 1983, é membro do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre do qual foi Presidente. Fundou e dirigiu por 30 anos o Jornal CCEPA OPINIÃO. Ex- Presidente da CEPA Internacional (2000/2008). Autor de vários livros espíritas.            

              

 

20 setembro 2026

Um texto sem nome - Ciro Pirondi


 CIRO PIRONDI, Arquiteto e Urbanista, reconhecido pela sua atuação crítica e humanista na Arquitetura, com foco na responsabilidade e sustentabilidade, é cofundador da \escola da cidade, instituição de ensino superior em São Paulo que adita uma abordagem inspirada nos princípios educacionais de Paulo Freire.

Quando compreendemos a complexidade – simples do Espiritismo, e a dimensão real da itinerância das existências, sentimos que o mundo nos basta. E o presente, a eternidade que nos satisfaz.

Não corremos atrás de um Deus, mesmo que ele exista. Não sofremos pela salvação, mesmo porque, ela não é necessária.

Como sopra o espírito dos evangelhos, não nos inquietamos com o dia seguinte, pois o amanhã se inquietará consigo mesmo. Basta a cada dia seu próprio penar.

No cotidiano percebemos a razão de André Sponville ser a generosidade uma força e vitória, porque ficamos mais leves, simples e gentis. Menos tolerantes com as injustiças, principalmente as coletivas e sociais, como a de Paraisópolis.

Libertando-nos dos anseios de eternidade e nos satisfazendo com o presente, nos tornamos mais humanos, mais fortes e doces. Talvez mais eternos.

Não se trata de dar lição a ninguém, mas ajudar a cada um a ser seu próprio mestre e seu único juiz.
Aceitar a distância entre o que sabemos e não sabemos, e termos a sabedoria de nossa ignorância é a condição básica para aprendizagem. Os que sabem já não necessitam aprender e os que dizem nada saber negam suas memórias, suas vidas.

Este breve texto sem nome, fala um pouco dessas minhas inquietudes. Animei-me a escrevê-lo quando li sobre os Cadernos de Cultura que Jaci e eu inventamos. Talvez pense em editar um outro, sem título ou tema, apenas convidando amigos a escreverem sobre suas reflexões.

Afinal aqui estamos neste belo mundo, em um país temporariamente na escuridão, onde nenhuma pessoa com bom senso pode se sentir confortável. Talvez só nos reste resistir, intuir algo novo, acreditarmos na beleza, na leveza e nos poetas, “antenas da raça”.

Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos/ 20 de fevereiro de 2020
Acesse: CEPA Internacional



05 setembro 2026

Consolador, Sim - Prometido, Talvez - Néventon Vargas


Néventon Vargas*

Uma questão que me intriga e que se repete em minha mente constantemente é a decisão de Allan Kardec, nosso insigne mestre de Lion, ter identificado no Espiritismo a promessa feita por Jesus há dois mil anos.

Consultando o Houaiss verifiquei que o sentido da palavra “consolador”, abstendo-se, evidentemente, das conotações figuradas e religiosas, cabe perfeitamente para o Espiritismo.

Não pretendo, entretanto, fazer aqui uma defesa da adjetivação, pois isso já está feito com brilhantismo n’O Evangelho Segundo o Espiritismo e nas outras obras escritas por Kardec. Tal qualificação já está devidamente caracterizado em toda quarta parte d’O Livro dos Espíritos, intitulada “Das esperanças e Consolações”.

Mas, “consolador” é apenas um adjetivo que pode ser precedido de muitos substantivos. O problema começa a aparecer quando a palavra é usada como substantivo, seja para designar o Espiritismo, seja para identificar qualquer outra filosofia, ideia, pessoa, religião, etc. Qualquer uso nesse sentido o tornará absoluto, o que é incompatível com o mínimo de modéstia e humildade. Eu diria ainda mais: que é extremamente pretensioso.

Uma postura dessa natureza não se encaixa na Filosofia Espírita, que é, acima de tudo, libertadora e nunca deveria nos aprisionar a dogmas e a expressões cristalizadas que comprometem o seu caráter eminentemente progressista.

Até agora, só me referi à palavra “consolador”. Agrava-se o problema quando se adjetiva o substantivo com a palavra “prometido”. Esta forma está expressa n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 6 e a sua defesa foi feita nos itens 3 e 4 pelo próprio Kardec. Tal identificação coloca o Espiritismo como o herdeiro direto de Jesus, à revelia das religiões cristãs, criando um antagonismo totalmente desnecessário.

Respeito profundamente Allan Kardec, mas me recuso a designar o Espiritismo como “O Consolador Prometido”. Não estou afirmando que ele está errado. Estou dizendo que posso até aceitar que a Doutrina Filosófica e Moral, chamada Espiritismo, seja realmente aquilo que Jesus pensava quando, segundo a citação no Evangelho (João 14:15 a 17 e 26), disse que o Pai enviaria outro Consolador. O que não aceito é repetir e propagar isso, a exemplo das religiões salvacionistas que pregam serem a única verdade e o único caminho para a salvação.

Não precisamos despender muito tempo em pesquisas para encontrarmos inúmeros exemplos na história e até na atualidade de posturas extremamente perniciosas para a evolução da humanidade, em que nações, grupos ou indivíduos se acham detentores do poder e da verdade, únicos “escolhidos de Deus” para elevar o homem à santidade. A consequência disso tem sido o estímulo ao segregacionismo e ao preconceito que levam, invariavelmente, às guerras coletivas e individuais.

É hora de o homem abrir a sua mente para as diversidades e aprender com elas. É hora de o Espiritismo rever conceitos e posturas que estejam criando obstáculos às relações humanas. Afinal, se ele não é uma seita, se os seus princípios são universais, se a sua busca constante é pela verdade, ele não é exclusividade dos espíritas. Ele é do homem para o homem, dos espíritos para os espíritos, independentemente de qualquer rótulo, tempo e/ou espaço.

[Artigo retirado do site :  https://www.assepe.org.br/site/ publicado em 30/11/2017.]

* Néventon Vargas é graduado em Engenharia Civil pela UFSM e Licenciado em Física pela UECE, militar aposentado, membro fundador da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa, associado à CEPA – Associação Espírita Internacional e à CEPABrasil – Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA.

 



20 agosto 2026

O CANCELAMENTO E O MOVIMENTO ESPÍRITA – por Saulo de Meira Albach

 O CANCELAMENTO E O MOVIMENTO ESPÍRITA – por Saulo de Meira Albach

 


 


Presidente do CPDOC, Integrante do grupo musical “Alma Sonora, de Curitiba-PR. 

Na sociedade contemporânea, marcada pelo uso das redes sociais, uma prática tem sido destacada diante da polarização e da radicalização do debate, especialmente na esfera da política: o cancelamento.

 “Funciona assim: um usuário de mídias sociais, como Twitter e Facebook, presencia um ato que considera errado, registra em vídeo ou foto e posta em sua conta, com o cuidado de marcar a empresa empregadora do denunciado e autoridades públicas ou outros influenciadores digitais que possam amplificar o alcance da mensagem. É comum que, em questão de horas, o post tenha sido replicado milhares de vezes.” (1)

 Como toda prática política o cancelamento, mal utilizado, pode gerar injustiças e excessos. Afinal de contas, uma tendência decorrente da polarização extrema na qual vivemos hoje é por fim ao debate, ao diálogo.

 O psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker pontua que há um uso um tanto quanto exagerado do cancelamento, mas isso não significa que ele deva ser invalidado. “Há que se distinguir o cancelamento, ato político e estrategicamente bem-posto, do cancelamento autocrático, que produz a sensação de moralismo. Toda vez que cancelo simplesmente porque ‘eu não faria assim’, pressupondo que o outro deva agir exatamente como eu ajo, eu estou indo contra a inclusão, a universalização do diálogo. E, ainda mais grave, ao me retirar do debate, o cancelado pode se beneficiar e criar um ambiente ainda mais tóxico, machista, violento e, portanto, aumentar a coerência identitária do seu grupo, o que seria péssimo.” (2)

 Interessante observar que tal procedimento assemelha-se a uma prática que ocorre no movimento espírita brasileiro há muito tempo. Uma espécie de cancelamento.

 Alguns adeptos - por assumirem alguma postura ou linha de pensamento contrária àquela do grupo dominante - tem sua memória apagada pela história oficial das instituições espíritas.

 Um caso antigo é o do Professor Angeli Torteroli, ativista espírita de destaque no Rio de Janeiro que fez oposição à linha denominada mística na disputa de poder que marcou o movimento espírita do final do século XIX e início do XX, reduzida historicamente a “místicos x científicos”.

  

O historiador Mauro Quintella e o escritor Eugênio Lara resgataram a memória do professor Torteroli. (3)

 O “apagamento” neste caso chegou ao ponto de suprimir qualquer referência ao trabalho do “encrenqueiro” e, quando não havia como deixar de citá-lo o faziam de forma cifrada: o professor T.

 Outro “cancelado” é o jornalista, psicólogo e escritor espírita Jaci Régis (1932 – 2010). Catarinense, radicado em Santos (SP), escreveu inúmeras obras espíritas, dirigiu e editou o jornal Espiritismo e Unificação por 23 anos, criou e dirigiu o jornal “Abertura” que circula até hoje, foi diretor da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda por 32 anos e fundador do ICKS – Instituto de Cultura Kardecista de Santos, um dos fundadores da União Municipal Espírita de Santos (UMES), em 1951, dentro outras atividades no meio espírita. 

 Ao assumir a linha do espiritismo laico e disputar eleição para a presidência da USE, Jaci que trabalhou por décadas no movimento dito “de unificação”, foi retirado da história oficial.

 Exemplo recente deste apagamento está na edição de 179 – setembro/outubro do jornal DIRIGENTE ESPÍRITA, órgão de divulgação da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo. Em artigo sobre a imprensa espírita, a articulista cita espíritas que se destacaram na divulgação do Espiritismo através da imprensa: Olímpio Teles, Cairbar Schutel, Bezerra de Menezes, Pedro Camargo (Vinícius), Batuíra, Herculano Pires, Deolindo Amorim, Jorge Rizzini, Anália Franco, Eduardo Carvalho Monteiro, Edgard Armond e tantos outros.

 Estaria meu saudoso amigo Jaci incluído nos “tantos outros”?

 Enfim, há muitos outros episódios envolvendo Jaci Régis e há muitos outros casos espalhados pelo nosso país (Krishnamurti de Carvalho Dias, Waldo Vieira, Gasparetto, etc.). Isso revela a dificuldade do movimento espírita em aceitar o debate, a crítica, o questionamento, especialmente quando se trata da questão religiosa.

 A carência de preservação da história dentro do movimento espírita pode ser vista como uma das causas desses apagamentos. Mas, também se identifica uma estratégia – e aqui o fato é mais lamentável - visando impedir que se conheça o pensamento daqueles que em algum momento ousaram romper com o pensamento hegemônico ou dominante, ainda que tenham feito parte da instituição.

 A professora Maria Letícia Mazucchi Ferreira leciona em artigo publicado na Revista Aurora (Revista de Arte, Mídia e Política), n. 10 (2011):

Johannn Michel em seu texto “Podemos falar de uma política do esquecimento”(2010) estabelece uma tipologia do esquecimento indo daquele abordado como omissão, que decorre de descartes funcionais tanto no indivíduo quanto na sociedade; a negação, que ao contrário do descarte involuntário é uma patologia da memória ligada à traumas que não foram superados mas que não podem ficar na esfera do consciente; a manipulação do esquecimento, fortemente marcada pela ação de atores públicos encarregados de transmitir a memória oficial. Ainda que compreendidos em separado, esses são como tipos ideais e podem atuar concomitantemente, pois estão condicionados aos contextos nos quais são gerados.(4)

A manipulação do esquecimento é prática incompatível com a filosofia espírita posto que falseia a verdade.  Seria melhor citar o agente que fez história e criticá-lo ou declinar os motivos pelos quais se contesta o seu pensamento do que excluí-lo, apagá-lo, cancelá-lo. Mas quase como regra geral, em matéria de atuação interna o movimento espírita tem preferido o caminho autoritário ao alteritário; o excludente ao includente.

Assim se fomenta a divisão e não vejo no horizonte estreito da minha visão, possibilidade de reversão deste quadro a curto ou médio prazo. 

 

Desculpe-nos, Kardec!

 

1-In BBC News: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53537542, acesso em 05.09.2020.

2- In Carta Capital: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/cancelamento-nas-redes-sociais-vai-da-represalia-ao-linchamento/ acesso em 05.09.2020.

3- In Biografia de Afonso Angeli Torteroli, acessada no site www.autoresespiritasclassicos.com e História Ilustrada do Espiritismo no Brasil, acesso em www.cpdocespirita.com.br .

4- Políticas da Memória e Políticas do Esquecimento. In: D:/Meus%20Arquivos/Downloads/4500-11653-1-PB.pdf

terça-feira, 2 de março de 2021

 Nota: Artigo originalmente publicado no Jornal Abertura de Santos.2021





05 agosto 2026

Declaração Universal dos Direitos Humanos - uma visão espírita por Delma Crotti

Há 70 anos, no dia 10 de dezembro de 1948 foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU (Organização das Nações Unidas). Já nasceu com o objetivo primordial de ser respeitada e acatada por todas as nações do mundo.

 
Delma Crotti-  D.N. 30/12/1941 e desencarnou em 7 de maio/2026 foi membro da CEPABrasil do conselho Executivo, palestrante do CEBAP (Centro Espirita Angelo Prado).

Direitos humanos são os direitos e liberdades básicas de todos os seres humanos.

Seu conceito também está ligado com a ideia de liberdade de pensamento, de expressão e de igualdade perante a lei.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas afirma que "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade."
São normas fundamentadas no valor Liberdade e abrangem os direitos econômicos, sociais e culturais.

A ideia de "direitos humanos" tem origem no conceito filosófico de direitos naturais que seriam atribuídos por Deus.

Em 18/abril/1857, por ocasião do lançamento de O Livro dos Espíritos, portanto aproximadamente   91 anos antes da DUDH, no capítulo IX da parte terceira de OLE, Kardec faz o seguinte comentário sobre a Igualdade Natural, questão 803: “Todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos seus olhos, são iguais.”

Então, notamos que, na novel doutrina Espiritismo, já havia a conscientização dos direitos de igualdade do homem, em seus aspectos físicos, morais e sociais, que pudessem garantir a dignidade da existência humana.

Jon Aizpúrua em seu livro Os Fundamentos do Espiritismo diz: “A rigor, através do ponto de vista histórico, o Espiritismo surge com um formidável trabalho teórico e experimental que realizou em meados do século XIX o pedagogo francês HIPPOLYTE LEON DENIZARD RIVAIL, amplamente conhecido como ALLAN KARDEC, que elaborou suas definições, precisou sua constituição doutrinária e determinou suas consequências.”

O acima citado está em plena conformidade com Kardec: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática consiste nas relações que podem estabelecer-se com os espíritos, como doutrina filosófica compreende todas as consequências morais que se depreendem de semelhantes relações.” (O que é o Espiritismo).

Todavia, passados 161 anos da fundação do Espiritismo e 70 da proclamação da DUDH, estamos vivendo etapas sombrias na área política e social, não só no Brasil mas em várias outras nações da Terra.

São tempos de ameaça aos direitos essenciais do cidadão, principalmente em sua liberdade de ser e de se expressar, bem como aos direitos trabalhistas, de segurança e de igualdade.
Muitos chegam a dizer que perderam a fé numa sociedade justa e igualitária, de respeito e ética frente à diversidade étnica, cultural, social e religiosa. Há uma exacerbação à intolerância e ao ódio pelo diferente. Em muitos países o recrudescimento das ameaças terroristas nos fazem tremer nas bases.
Jaci Regis afirma em seu livro Do Homem e do Mundo: “O que temos visto no desdobramento social no planeta Terra é a sucessão de indivíduos, sistemas e instituições de fundamentos religiosos que, em determinadas épocas do processo, passam a representar Deus, a falar em seu nome e a decidir relativamente ao aspecto moral da vida... líderes que acreditaram que possuíam não apenas o conhecimento da lei divina, como um canal exclusivo de comunicação com o Criador. Com esses instrumentos, ditaram normas, códigos de conduta. Com o tempo, a semente lançada se multiplica e nem sempre muito nobremente. Institucionalizadas, as crenças cuidam de mitificar seus reveladores, deslocando-os para o olimpo celeste... Quando se tornam maioria, impõem as regras morais, discriminando o certo e o errado, o bem e o mal.”
E fica então a dúvida: chegaremos algum dia à perfeição (relativa) preconizada pelos espíritos? Pelo visto, vai demorar muito...
Enfim, sabemos que o progresso é lento e que não é simultâneo, cada um avança a seu tempo. Sabemos, também, que o progresso moral nem sempre acompanha o progresso intelectual.
Só nos resta, então, ficar alertas para suplantarmos as dificuldades atuais e não nos deixarmos influenciar pelas ondas de ódio, revolta, receio e desânimo que nos rodeiam, atinando com o que nos diz Eugenio Lara, em seu livro Breve Ensaio sobre o Humanismo Espírita: “O Humanismo Espírita ou Kardecista se concretiza na evolução intelecto-moral dos seres e das coisas, no incessante desenvolvimento do ser humano. É por isso que o pensamento espírita não se coaduna com sistemas que visem a desvalorização do elemento humano, sejam eles religiosos, políticos ou econômicos. O ser humano deve sempre emergir e ser o protagonista de qualquer projeto que objetive a transformação social. As ideias e os ideais não estão acima das pessoas. A ideia, seja ela qual for, existe para o ser humano e não o inverso

Nota: Artigo originalmente publicado por: 
https://icksantos.blogspot.com/2019/01/declaracao-universal-dos-direitos.html

20 julho 2026

Fundamentos da Ética Espírita – Reinaldo Di Lucia

 Fundamentos da Ética Espírita – Reinaldo Di Lucia

   

Reinaldo Di Lucia, engenheiro químico, pós-graduado em Qualidade, professor universitário, foi presidente do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos-SP. Expositor e articulista, é membro do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita - CPDoc.

1. INTRODUÇÃO

Toda consideração sobre a filosofia espírita leva, naturalmente, a indagações sobre o homem. Não só sobre sua origem e fim, mas também sobre suas relações com os demais entes do Universo, e, principalmente, com os outros seres humanos.

O homem é um ser social. Seu percurso terreno é essencialmente realizado em meio a uma sociedade, da qual ele faz parte e à qual terá que prestar contas, sobretudo por seu comportamento.

O ser humano vive em sociedade, convive com os outros seres humanos e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: Como devo agir perante os outros? Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética.

Assim, não é à-toa que toda filosofia ou escola filosófica, em algum instante, necessite tratar sobre questões éticas. Seja sob este nome, seja falando em considerações morais, ou mesmo evitando estes termos – embora tratando de relações humanas. Na filosofia espírita não seria diferente.

Kardec, ao tratar deste tema, falou em Leis Morais. Sob essa denominação colocou as regras que tratam dos Espíritos e das relações entre eles. E colocou-as como parte da Lei Natural, aquela que rege toda a criação, na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, e o fez à moda científica, positivista, por analogia com as leis físicas que comandam a matéria.

Nesta análise Kardec tratou de questões fundamentais que, de algum modo, estão presentes em todas as filosofias: os conceitos de bem e mal, as origens da ação moral, os temas que, em sua opinião, eram os mais importantes. Por exemplos: progresso, sociedade, justiça. E, sem impor aos homens um comportamento padrão, propôs elementos para que ele pudesse pautar seus atos de acordo com os princípios espíritas.

Kardec, fiel à sua formação pedagógica, estruturou a terceira parte de “O Livro dos Espíritos” descrevendo, uma por uma, as dez leis morais. E também escreveu que esta era uma forma meramente didática de exposição, comentando explicitamente que estas leis não pretendiam ser exaustivas. Entretanto, o movimento espírita brasileiro normalmente as tomam como a última palavra sobre moral espírita, esquecendo que, por trás delas, há conceitos fundamentais de ética espírita que lhes deram origem.

O propósito deste trabalho é retomar estes conceitos fundamentais, derivando-os diretamente da teoria espírita e explicitando-os. A importância dessa retomada é restabelecer as bases da ética espírita, de um modo que possam servir como parâmetro à estruturação de um comportamento pautado nos princípios do Espiritismo, aplicável a todas as situações humanas, mas sem a imposição de um comportamento padrão que ignore as individualidades dos espíritos.

Para isso, o texto parte de uma pequena história da Ética e da Moral e discute, filosófica e etimologicamente, os conceitos a elas ligados. Em seguida, discute uma parte básica da ética: a teoria dos valores, propondo um conjunto dos essenciais para a doutrina. Finalmente, apresenta os fundamentos da Ética Espírita.

 

2. DISCUSSÕES SOBRE MORAL E ÉTICA

Mas o que é Ética? E Moral? É possível diferenciá-las? E como definir termos tão essenciais, mas tão complexos como Bem e Mal?


Iniciemos tratando da Moral. Segundo a definição do dicionário:

“Moral é aquilo que denota bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade ou por determinado grupo social; conjunto das regras, preceitos etc. característicos de determinado grupo social que os estabelece e defende”

A definição acima enfatiza o caráter relativo da moral: são costumes, condutas, regras e preceitos que são característicos de uma dada sociedade ou grupo social. E, como tais, variam enormemente, não só entre sociedades, mas, dentro de uma mesma sociedade, entre os diversos grupos, de diferentes tamanhos, que a compõem.

Há uma hierarquia nesta variação. Por exemplo, uma sociedade pode ser rígida quanto à questão da propriedade, mas liberal em termos sexuais. Também, pode haver famílias mais severas quanto à moral sexual, sem que deixem de fazer parte daquela mesma sociedade.

Esta relatividade moral ocorre não só no espaço, mas também no tempo. A moral de um dado grupo social varia com o decorrer dos anos, e costumes e regras que eram inaceitáveis passam a ser aceitos. Como uma mulher de biquíni tipo fio-dental seria julgada na sociedade brasileira do início do século 20?

Assim, a moral possui uma qualidade social, isto é, manifesta-se na sociedade, cumprindo uma determinada função, que é a regulamentação das relações entre os indivíduos e entre estes e a comunidade, visando a manutenção e a garantia de uma determinada ordem social.


Já a Ética:

“(...) é a parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social; em doutrinas racionalistas e metafísicas, estudo das finalidades últimas, ideais e, em alguns casos, transcendentes, que orientam a ação humana para o máximo de harmonia, universalidade, excelência ou perfectibilidade, o que implica a superação de paixões e desejos irrefletidos.”

Assim, a ética, diferentemente dos problemas práticos-morais, caracteriza-se pela sua generalidade. Ela define, de modo teórico, em que consiste o bem, o fim último visado pelo comportamento moral. Ao deparar-se com uma experiência histórico-social no terreno da moral — uma série de práticas morais em vigor numa dada sociedade —, a ética procura determinar a essência desta, sua origem, as fontes de avaliação, a natureza e função dos juízos morais. Pode-se dizer que:

“A ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma específica de comportamento humano.”

A ética e a moral relacionam-se, então, como uma ciência específica e seu objeto. É uma parte da investigação filosófica, não necessariamente especulativa. São importantes as contribuições do pensamento filosófico, desde a Antigüidade grega até os nossos dias. Todavia, um estudo histórico está fora dos limites deste trabalho.


3. VALORES ESPÍRITAS

Não há como falar em ética sem levar em consideração as bases sobre as quais seus princípios estão sustentados. Estas bases são chamadas valores.

Tidos como uma qualificação de objetos ou de seres, os valores não são propriedades dos objetos em si, mas propriedade adquirida graças à sua relação com o homem como ser social. Portanto, não há valores em si, mas somente em relação com um sujeito.

Além disso, os valores existem a partir de uma visão de mundo própria de cada sujeito. Nesta visão, incluem-se não somente os pontos de vista estritamente particulares, mas também visões sociais, religiosas, científicas, históricas etc.

Assim sendo, os espíritas estruturam seus valores com base em sua personalidade e crenças particulares, e, igualmente, naqueles que permeiam a filosofia espírita. Numa primeira avaliação, poderíamos dizer que estes valores estão relatados em algumas das Leis Morais:

Liberdade — O Espiritismo não prescinde de uma total liberdade de pensamento e ação, o chamado livre-arbítrio. Os espíritas sabem que o possuem, mas também que isto traz a total responsabilidade sobre seus próprios atos.

Tem o homem o livre-arbítrio de seus atos?

Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.”

Justiça — Apesar da ampla liberdade de pensamento e ação, o Espiritismo possui um acentuado viés de justiça, definido como “respeitar os direitos dos demais” . Em última instância, esta definição leva, de alguma forma, à limitação das possibilidades de liberdade de ação do espírita. Uma outra argumentação, porém, é que a justiça faz parte da responsabilidade inerente à própria liberdade.

A partir destas bases axiológicas (isto é, de valores), e fazendo uma análise dos capítulos constantes na parte terceira de “O Livro dos Espíritos”, podemos começar a entender as bases fundamentais da ética espírita, seus fundamentos.


4. FUNDAMENTOS DA ÉTICA ESPÍRITA

Kardec não mencionou ética em sua obra. Mesmo quando se referia à investigação dos princípios que regem as ações humanas sempre citou moral:

“A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus.”

E, como definição de bem:

“O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.”

Assim, a moral relacionava-se com a Lei de Deus. Ora, Kardec entendia o Universo como uma entidade criada por Deus e composta dualmente de Espírito e Matéria. E, da mesma forma como havia Leis Físicas que regiam a matéria, ele postulou a existência de Leis Morais que regeriam o Espírito. O conjunto de ambas essas Leis formava a Lei Divina, ou Lei Natural:

Deus

Espírito

Matéria

Leis Morais

Leis Físicas

Lei Divina ou Natural

E, para explicar quais seriam essas Leis Morais, Kardec didaticamente dividiu-as em dez, cada uma compondo um capítulo da parte terceira do Livro dos Espíritos: Adoração; Trabalho; Reprodução; Conservação; Destruição; Sociedade; Progresso; Igualdade; Liberdade; Justiça, Amor e Caridade.


Entretanto, esta divisão não é mais que uma exposição simplificada, com a finalidade de exemplificar, mais que explicar, os princípios morais do Espiritismo. Mas isto deve ser aprofundado para um entendimento maior das bases que levaram a eles. E é aqui que começa a tomar forma a Ética Espírita.

Uma análise ética do conjunto teórico das Leis Morais leva à estruturação dos fundamentos da Ética Espírita, a saber: a crítica espírita do juízo, o equilíbrio, a alteridade e a felicidade.

Por crítica do juízo entende-se o modo pelo qual se podem avaliar os atos humanos em função dos conceitos éticos, sendo absolutamente necessário uma vez que a moral só se completa na ação humana frente aos problemas da existência. Principalmente daqueles originados das relações entre os espíritos, encarnados ou não.


O Espiritismo estabelece um duplo critério para esta análise. O primeiro é o da intenção, expresso nas perguntas: Qual o objetivo do ato? A que ele visa? Qual seu fim último? Em suma, que intenção teve o agente com aquela ação?

Mas, como bem afirma a sabedoria popular, não bastam boas intenções para que um ato seja considerado moralmente adequado. Isto porque, apesar de bem intencionada, uma ação pode promover um resultado diverso daquele que pretendia. A doutrina espírita propõe então um segundo critério: o da utilidade. Ou seja: Qual o resultado do ato? A quem ele ajuda ou prejudica?

A combinação desses dois critérios forma a crítica espírita do juízo, e está integralmente presente, ainda que não com este nome, nos dois primeiros capítulos das Leis Morais:

“Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?”

- “Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

E também:

“Têm, perante Deus, algum mérito os que se consagram à vida contemplativa, uma vez que nenhum mal fazem e só em Deus pensam?”

“- Não, porquanto, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que o homem pense Nele, mas não quer que só Nele pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir na Terra. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à Humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.”

Um segundo fundamento é o equilíbrio, entendido classicamente, como a eqüidistância dos extremos. O excesso, seja pela ausência ou pela abundância, em qualquer aspecto da vida moral, leva necessariamente ao desvio ético:

“A lei natural traça para o homem o limite das suas necessidades. Se ele ultrapassa esse limite, é punido pelo sofrimento. Se atendesse sempre à voz que lhe diz - basta, evitaria a maior parte dos males, cuja culpa lança à Natureza.”

A ideia de que é preciso fugir dos extremos não é nova na filosofia. Aristóteles já a propunha, em seu “Ética a Nicômaco”, quando dizia que a tendência dos seres humanos é gradualmente atingir o equilíbrio após ser levado para distante dele, tal como uma vara de bambu, depois de vergada ao máximo e solta, oscila ao redor do ponto médio até nele permanecer.


Outro pensador a exaltar o equilíbrio foi Buda, que tinha o “caminho do meio” como uma de suas verdades nobres. Esta figura explica bastante bem o princípio da eqüidistância dos extremos.

E o melhor meio para cumprir este fundamento é agir sobriamente, com bom senso. E, principalmente, com muita reflexão, pensando e planejando bastante antes da ação. Como dizia Platão na República, “A vida irrefletida não vale a pena ser vivida”.

O terceiro elemento básico da ética espírita é o princípio da alteridade. Podemos conceituá-la, de modo simples, como a compreensão do direito dos demais homens à existência e a um modo de ser próprio. Significa, em última instância, a aceitação plena do outro.

Há uma diferença fundamental entre este conceito e o de tolerância, tantas vezes falado e exaltado nos meios espírita e cristão. Tolerar significa suportar as diferenças, ainda que delas discordando completamente. Entretanto, o posicionamento mental da tolerância não leva ao respeito à divergência e, assim, pode terminar com a explosão da negação e mesmo do ódio.


Quando se consegue substituir verdadeiramente a tolerância pela alteridade, respeitando e entendendo o direito do outro pensar e agir de modo diverso do nosso, as relações facilitam-se enormemente. Este é a verdadeira caridade, aquilo que os antigos gregos chamavam de ágape, o amor pelo outro.

Finalmente, o último fundamento da ética espírita é a felicidade. Ou seja, o entendimento de que o aprendizado só se dá na medida em que ele é acompanhado pela alegria. E que o conjunto de felicidade e de aprendizado é o único que leva à evolução.


Isso contrasta significativamente com a idéia vigente no movimento espírita de que só se evolui com sofrimento. E isto porque, normalmente, confunde-se isto com dor – conceitos que são bem diferentes.

A dor é inerente à existência – é inevitável. Seja ela física, como conseqüência dos problemas do corpo (doenças, envelhecimento etc.), seja moral, resultado dos erros que são cometidos ao longo da existência como espírito.

Já sofrimento é a falta da elaboração proveitosa da dor, que é o uso dos fatos dolorosos como elementos de aprendizado, a fim de entender as causas das falhas e evitar sua repetição. Quando as pessoas não fazem isso, sofrem, e as conseqüências são a culpa, a imobilidade e o desperdício das oportunidades.

Uma ética de felicidade, como a espírita, propõe que os fatos da vida devem ser elaborados internamente, visando introjetar e crescer. Ao aprender a fazer isso, o homem adquire a competência fundamental para a evolução: ser feliz. É por isso que a ética espírita é a ética da felicidade.



5. CONCLUSÃO

A definição dos fundamentos da ética espírita, da forma como foi feita acima, é obtida diretamente dos elementos kardequianos. Para ser feita, entretanto, é necessário encarar o Espiritismo como uma filosofia que, tendo por base a imortalidade do ser pensante e a evolução infinita, privilegia o crescimento individual a partir da convivência entre os espíritos. É preciso também aceitar que a finalidade última da encarnação é o aprendizado, e não o resgate de dívidas de vidas anteriores.

Esse entendimento da doutrina espírita enfatiza a busca da felicidade como método ético para a existência dos espíritos. Mas é preciso frisar que a felicidade, no sentido que está sendo utilizada, é completamente diferente do hedonismo, ou seja, da busca do prazer a qualquer custo.

Isto porque tal felicidade reforça ainda mais um conceito básico da filosofia espírita, o do livre-arbítrio. Somos livres para ajuizar sobre os atos da forma como queremos, para nos afastarmos dos excessos, para encararmos o próximo com alteridade, para elaborarmos produtivamente a dor. Ou não.

E esta possibilidade de escolha aumenta a nossa responsabilidade pessoal como espíritos que têm o controle da própria capacidade evolutiva. A partir do momento em que somos capazes de entender os fundamentos éticos do Espiritismo, só depende de nós mesmos que consigamos aplicá-los em nosso cotidiano. E assim não só trabalharmos para nossa própria evolução, mas também servirmos como exemplo para a evolução dos nossos semelhantes.



BIBLIOGRAFIA

KARDEC, Allan. “O Livro dos Espíritos”, FEB.

VÁZQUEZ, Allan. Sanchez. “Ética”, Civilização Brasileira.

COMPARATO, Fábio Konder. “Ética – Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno”, Companhia das Letras.

HOUAISS, Antonio. “Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa”.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. “Parâmetros Curriculares Nacionais: Apresentação dos Temas Transversais e Ética”.

 *Artigo extraído do site PENSE, mantido pelo jornalista Eugênio Lara, já desxencarnado, e que hoje esta desativado.

..

13 julho 2026

CEPABrasil - IX Fórum do Livre-Pensar Espírita - “Espiritismo e Cidadania: desafios e possibilidades ante um mundo conturbado”

 

                                         CEPABrasil - IX Fórum do Livre-Pensar Espírita


De 10 a 12 de outubro de 2026, Porto Alegre será palco do IX Fórum do Livre-Pensar Espírita, promovido pela CEPABrasil em parceria com o CCEPA, reunindo espíritas livres-pensadores para refletir sobre o tema:


“Espiritismo e Cidadania: desafios e possibilidades ante um mundo conturbado”


Serão três dias de conferências, painéis, minicursos, arte, lançamento de livros e momentos de confraternização, celebrando os 90 anos do CCEPA e os 80 anos da CEPA.


 Um encontro para pensar o espiritismo de forma humanista, plural, progressista e comprometida com a cidadania.


📍 Sede do CCEPA, Porto Alegre/RS

📅 10, 11 e 12 de outubro de 2026

🔖Valor da Inscrição: R$ 50,00


Participe e compartilhe essa ideia!


Inscrição pelo Link:

https://forms.gle/G7285jXS29v66hh98

05 julho 2026

A perplexidade diante dos fatos – Jaci Régis

 A perplexidade diante dos fatos – Jaci Régis 

janeiro 27, 2021 Administrador site ECK

 


Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi o fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura”.

Tempo de leitura: 3 minutos


Jaci Regis

O materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer. Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.

O panorama social do mundo neste século vinte e um é extremamente confuso, dinâmico, rico e pobre, violento e promissor. Entretanto, é impossível ficar passivo diante da sucessão dos fatos. Fatos que se modificam constantemente, que mudam cenários de um dia para a outro. Isso tem provocado profunda preocupação nos religiosos em geral.

Um espírita escreveu que não fosse a reencarnação, deixaria praticamente de acreditar em Deus, tal a impressão de abandono e impassividade da divindade diante dos fatos.

Para ele, encontrar a culpa nas pessoas, relativamente ao passado, alivia a impassividade divina. O exame é falho porque a reencarnação não é um instrumento de punição moral, nem o Universo se assenta na perspectiva do pecado e do castigo.

Vemos o papa católico, vestido à moda da Idade Média falando a multidões e à mídia, com idéia da Idade Média, sem que suas palavras causem efeito.

Da mesma forma os evangélicos, principalmente os pentecostais, arregimentam multidões, em shows de fé e arrecadação, mobilizando recursos da mídia eletrônica, sem que se veja qualquer atitude positiva na mudança das coisas, na modificação do ambiente.

Na verdade, quem tumultua e muda é o materialismo que é genericamente apontado como o culpado de tudo. É preciso, porém, definir esse materialismo. Não se trata de um esquema filosófico, nem uma opção consistente. Esse materialismo representa a insatisfação generalizada, s subversão comportamental relativamente aos parâmetros que se instituíram na sociedade cristã. Talvez seja mais apropriado chama-lo de comportamento oportunista. Como ocorre com certas doenças que afloram devido à queda das defesas do organismo.

Essa insatisfação reflete a falta de perspectiva real, imortal da sociedade nominalmente espiritualista, mas que se envolve deliberadamente no sexualismo, no consumismo e na falta de perspectiva.

Esse materialismo solapou a religião, destruiu a estrutura familiar antiga e precipita a sociedade no jogo perigoso do desejo e do prazer. Essa análise é mais ou menos unânime nos textos e discursos religiosos. Neles as religiões se escusam de qualquer culpa, pois se mantém como sempre foram.

É mesma coisa que pais que dão péssimos exemplos e quando os filhos se transviam alegam que a culpa é deles, das más companhias, do consumismo, enfim, nada com eles mesmos.

Como compreender a sucessão dos fatos que derrubam antigas ordenações morais: – Por que o materialismo é tão sedutor? – Por que a porta da perdição é larga?

Na atual crise econômica o que menos se fala é em ética. Mas fundamentalmente ela decorre da ganância, da esperteza, da delinquência de colarinho branco que corrompe as estruturas sociais. Todavia poucas vozes se levantam para apontar essa falha básica, que não apenas do capitalismo, mas de todos os regimes e ideologias.

Tenta-se remendar com trilhões de dólares. A questão ética fica de lado até na crista da crise, quando nos Estados Unidos, foram pagos bônus milionários a executivos, mesmo tendo o dinheiro origem pública.

Seria demais apontar o fracasso das religiões como causa básica do avanço do materialismo? O que pede a sociedade moderna?

A sociedade moderna olha para o que diz a ciência. A ciência se define como materialista, no sentido de restringir seu campo de atuação, no caso do ser humano, ao corpo. Aqui, no corpo, estaria a base de tudo. A neurologia pretende responder a todas as perguntas sobre o comportamento através de complicadas explicações das funções cerebrais descartando qualquer natureza espiritual do ser humano.

Então, as religiões – católica, evangélica ou espírita – fazem de conta que nada mudou, que seus fundamentos continuam intactos, que o comportamento humano derivados das necessidades, desejo, desvios, seja do que for, está errado e que o único caminho é retornar aos roteiros por elas estabelecidos.

Todas essas religiões são cristãs. Isto é, estão baseadas no modelo criado pela Igreja nos primórdios da era cristã e que, estão comprovadamente falhos, incapazes de entender a natureza do ser humano e de dar uma diretriz objetiva para sua vida. Vivem de rituais, de discursos repetitivos.

A verdade é que as religiões em toda a história são movimentos organizados para exercer o poder. Promovem a fé, mas não a espiritualidade. Desprovidas do poder real patinam em doutrinações que não questionam a natureza das emoções, medos e insatisfações do ser humano.


20 junho 2026

A AUTONOMIA FRENTE AS DETERMINAÇÕES - por Ricardo de Morais Nunes

 



                  A AUTONOMIA FRENTE AS DETERMINAÇÕES - por Ricardo de Morais Nunes


Servidor público. Bacharel em Direito e licenciado em Filosofia. Foi dirigente do Centro Espírita Maria Emília da Motta Ferreira, na cidade do Guarujá (SP). É co-fundador do GrupoEspírita Léon Denis, também em Guarujá e delegado da CEPA. Coordenou a Comissão de Estudos e Temário do XXI Congresso Espírita Pan-Americano. Foi Presidente da CEPABrasil, Expositor espírita. Articulista do jornal de cultura espírita Abertura, foi Presidente do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc). Atualmente participa do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos- como diretor de Estudos.



                                    A AUTONOMIA FRENTE AS DETERMINAÇÕES

A questão da autonomia e da heteronomia, muito discutida no movimento espírita da atualidade, deve ser colocada em justos termos, sob pena de incidirmos em análises simplistas do tema. É certo que Kardec afirma que “sem o livre-arbítrio o homem seria máquina”, porém esse homem livre não é tão livre como parece.

O ser humano está submetido a inúmeros condicionamentos de caráter social, biológico, econômico, ideológico, geográfico, cultural, familiar, enfim a inúmeros fatores que pressionam sua subjetividade, constituindo- lhe o eu, sem que na maioria das vezes tenha percepção desse fato, pois tais fatores, em geral, incidem em nível inconsciente. Se levarmos em conta, ainda, que nossa individualidade espiritual reveste inúmeras personalidades históricas, no tempo e no espaço, tal situação se agrava.

Porém, é possível que o ser humano adquira consciência das determinações, as constate e as supere, claro que sempre em certa medida, pois há determinações, em tese, insuperáveis.

Nesse sentido, negar que há uma esfera de liberdade frente as determinações certamente é um exagero que deve ser evitado, pois diferentemente dos animais o ser humano produz cultura e é dotado de perfectibilidade. E na perfectibilidade está a possibilidade do novo, da criação, do inédito.

O espiritismo, portanto, acerta quando afirma a perfectibilidade do espírito humano e o livre-arbítrio. O ser humano não está preso à natureza como os animais irracionais que repetem ao infinito os mesmos padrões de comportamento. Não é o caso de entrar aqui, para as finalidades desse artigo, na tese aceita por muitos estudiosos espíritas, de que um dia o princípio espiritual dos animais também entrará na esfera da liberdade e da consciência.

Segundo o espiritismo, na medida em que desenvolvermos nossa perfectibilidade, enquanto seres humanos, através das reencarnações sucessivas, iremos ampliando nosso grau de liberdade ante os determinismos mesmo que esse aperfeiçoamento demore eternidades.

O ser humano, para o espiritismo, portanto, é perfectível. Pode, através do pensamento crítico e do autoexame de si mesmo ir, em certa medida, além das determinações que o fazem pensar e ser de uma determinada maneira. Nesse procedimento reside a real autonomia, como capacidade de governar-se por si mesmo.

Nas sociedades de todos os tempos a heteronomia, como norma exterior a induzir o comportamento humano, sempre foi muito presente. Desde as sociedades religiosas do passado às sociedades capitalistas de nosso tempo, sempre há aqueles que nos dizem o que pensar, o que fazer, como viver, como agir.

O ser humano autônomo é aquele que consegue dizer um não consciente às influências externas indo ao encontro de si mesmo. É fácil? Claro que não. Primeiro, porque é muito difícil constatarmos os condicionamentos que nos aprisionam muitas vezes de forma inconsciente. Segundo, porque nadar contra a maré das ideias e comportamentos padronizados já produziu o afogamento existencial de muitos. Mas, não há outro jeito, a autonomia é também um fator de libertação e de felicidade pessoal.

Claro que a autonomia pressupõe a responsabilidade pessoal perante o outro, o ser si mesmo autônomo leva em conta essa responsabilidade. Autonomia não é arbitrariedade, não é individualismo, nem egocentrismo, não é fazer o que se quer sem levar em conta os efeitos da ação praticada sobre o outro.

Como disse no início desse artigo o tema autonomia é muito discutido hoje no movimento espírita, o que é muito positivo. Precisamos, porém, ter cuidado para termos uma abordagem madura sobre o tema, sem menosprezarmos a força poderosa das inúmeras determinações que nos fazem agir, frequentemente, conforme o padrão aceito pela maioria.

Na verdade, o comportamento heterônomo da massa é a regra, sendo a autonomia a exceção. A autonomia relativa neste mundo é uma conquista, talvez seja a mais difícil empreitada a ser realizada pelo ser humano.






https://cepainternacional.org/jornal-abertura-marco-de-2024/

O artigo foi publicado posteriormente no jornal Catalão - FLAMA ESPIRITA 193 em Julho de 2024.

Postado por Instituto Cultural Kardecista de Santos