POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS!
Jacira Jacinto da Silva – advogada empresarial, especialista em segurança de dados, aposentada como juíza de direito; membro da CEPA, da CEPABrasil, do CPDoc e da Fundação Porta Aberta, da qual é também instituidora e diretora. Autora do livro Criminalidade, educar ou punir e coautora do livro Espiritismo, ética e moral, ambos pela editora CPDoc.
Autora “Por que são mais numerosas, na sociedade, as classes sofredoras
do que as felizes?
– Nenhuma é perfeitamente feliz e o que julgais ser a felicidade muitas vezes oculta pungentes aflições.
O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são mais numerosas, por ser a Terra lugar de expiação. Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre” (O Livro dos Espíritos, q. 931).
Uma rápida pesquisa sobre a
biografia das maiores celebridades da história, de qualquer área: ciência,
arte, esporte, religião, política, ou outra, revelará que o(a) investigado(a)
não pode ser considerado unanimidade, não estava “acima do bem e do mal”,
tinha, ou tem, seus defeitos, e não raro apresentava, ou apresenta, alguma
característica um tanto estranha aos padrões usuais.
As pessoas trabalham, lutam,
buscam o aperfeiçoamento pelo estudo, pela reflexão e a conscientização, mas o
estágio da humanidade terrena não induz perfeição, donde se inferem aturais as
atitudes muitas vezes mal sucedidas, que denominamos erros. Somos humanos,
sendo natural que não acertemos sempre e não podemos esperar perfeição dos
outros. Mauro Spinola 1 diz
que cada um dá o que tem.
Todos os dias e em todos os
momentos fazemos escolhas; viver é decidir se já é hora de comprar um carro, ou
trocar o que temos; se devemos investir em algum negócio, se deveríamos mudar
de emprego, se caberia diminuir a carga de trabalho, fazer ou não uma viagem, e
até se deveríamos visitar uma pessoa, ou comer algo diferente. Evidentemente,
dessas escolhas decorrem consequências, às vezes boas, às vezes razoáveis e
pode ocorrer de serem péssimas; muito desastrosas.
Também é certo que todas as
nossas ações têm reflexos, não só influenciando os outros, como os atingindo
diretamente. E como temos reagido ao sermos atingidos pelas consequências ruins
das escolhas das outras pessoas? Certamente, muito mal. Lógico, inadmissível
que alguém seja tão irresponsável a ponto de não se preocupar com as consequências
dos seus atos; todos deveriam cursar “MBA2 para aprender a gerenciar riscos” e ninguém,
absolutamente, ninguém, portanto nós também, tem o direito de causar mal a
outrem.
Nós achamos que estamos sempre
corretos, mas deveríamos meditar sobre a seguinte frase atribuída a René
Descartes: “Não
há nada no mundo que esteja melhor repartido do que a razão3: toda a
gente está convencida de que a tem de sobra” e não esquecer um só dia desta
outra proposição do mesmo pensador:
Humanamente
não existe um ser feliz sem que o outro também seja .
Muito provavelmente esteja nessa
última frase a melhor de todas as explicações para o texto epigrafado, extraído
de O Livro dos Espíritos. Realmente, nenhuma pessoa, de nenhuma classe social,
é perfeitamente feliz, estando o sofrimento por toda parte. A desigualdade
social impõe aos que vivem à margem dos bens materiais toda sorte de privação,
implicando naturalmente em dores morais como o preconceito e a discriminação.
As classes privilegiadas também amargam suas dores; debatem-se no antro da
inveja, do ciúme, do egoísmo, da doença física e mental, do crime, dos vícios
etc.
Os espíritos encarnados na terra
revelam uma variação muito grande de evolução, talvez em infinitos graus, disso
resultando o convívio entre pessoas que se doam a causas altruístas, como Irmã
Dulce, e que destroem a paz social, como Marcola, no mesmo país, sob as mesmas
leis, formados em culturas muito similares. Mas são extremos, por que a maioria
dos humanos não está na posição de Irmã Dulce, tampouco na de Marcola,
navegando no mesmo barco daqueles que venceram determinados vícios, mas não se
desapegam de outros; que lutam contra a própria natureza diariamente, buscando
vencer a ignorância, a maldade, a inveja, a gula, a hostilidade, a avareza, a
vaidade exagerada, a tentação de enganar, de se prevalecer, a arrogância etc.
etc. etc.
Então, por que será que mesmo
estando nós nessa condição de relativa igualdade, é tão notória a nossa
intolerância com a dificuldade do outro, como se superar limitações fosse tarefa
exclusiva dos outros?
A pergunta tem muito a ver com a
resposta à questão de Kardec, que termina assim: Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons,
o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre . Talvez no mencionado tempo a sugestão de
Descartes faça sentido; por enquanto, essas dificuldades ocorrem por que somos
simplesmente humanos!
1 Professor Livre Docente da
Escola Politécnica da USP, atual Presidente do CPDoc.
2 Master in Business Administrativo.
Em português significa Mestre em Administração de Negócios.
3 Há quem afirme que a frase
correta seria: “ Não há nada no mundo que esteja melhor repartido do que o
bom senso: toda a gente está convencida de que o tem de sobra”.
Publicação original do CPDoc - Centro de Pesquisa e Documentação Espírita.
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