05 janeiro 2026

Movimento Espírita em Transformação-Saulo de Meira Albach

 



MOVIMENTO ESPÍRITA EM TRANSFORMAÇÃO

Saulo de Meira Albach

Delegado da CEPA em Curitiba (PR);

Presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita);

Membro do Cultura Espírita Livre-Pensar (Curitiba – PR).

                  OS COLETIVOS ESPÍRITAS

 

A polarização política que se acentuou no Brasil mais notadamente a partir de 2017 produziu efeitos também no movimento espírita. Inúmeros grupos foram criados com ênfase no aspecto social do espiritismo e com a preocupação de trazer ao debate os temas sociais contemporâneos sem a restrição que normalmente é imposta nos setores hegemônicos. 

 

Estes grupos atuam de forma preponderante na internet por meio de eventos virtuais. Alguns desenvolvem ações sociais e de cidadania. A maioria não se caracteriza como um centro espírita tradicional, embora um ou outro possua atividades nos moldes dos centros espíritas.

 

Cito alguns:



·         Ágora Espírita (Pernambuco)

·         Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Ciência da Paz – AbrePaz (Goiás)

·         Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais - AEPHUS (Goiás)

·         Coletivo de Espíritas Antirracistas (COESAR) 

·         Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social - CEJUS (São Paulo)

·         Coletivo Espírita Maria Felipa (Bahia)

·         Coletivo Espírita Pela Transformação Social (São Paulo)

·         Coletivo Girassóis – Espíritas Pelo Bem Comum (Ceará)

·         Crítica Espírita (Espírito Santo)

·         Cultura Espírita Livre-Pensar (Paraná)

·         Espíritas à Esquerda 

·         Espíritas Progressistas 

·         Espiritismo com Kardec – ECK (Santa Catarina)

·         Grupo de Estudos Hermínio C. de Miranda (Ceará) 

·         Puebla Espírita – Espiritismo para o povo (Rio de Janeiro)

 

Por ser um fenômeno recente o surgimento dos coletivos ainda não pode ser avaliado especialmente quanto aos resultados das suas atuações. Trata-se, a meu ver, de uma guinada mais à esquerda por setores do movimento espírita, o que me parece bastante salutar do ponto de vista dialético. Se prestarmos atenção na história do movimento espírita brasileiro veremos que, em linhas gerais, ele caminhou mais próximo do pensamento conservador, pelo menos dos anos 30 do século XX em diante. 

Sobre o tema há artigos bastante interessantes de Luiz Signates (Espiritismo e Política: Os Tortuosos Caminhos do Conservadorismo Religioso e Suas Contradições no Brasil e Sinuê Neckel Miguel (Disposições políticas no espiritismo brasileiro: entre “neutralidade” conservadora e aspirações socialistas).

 

Enfim, a questão social retorna, ainda de forma periférica, entretanto, disseminada pelos quatro cantos do país. Com a vantagem da aproximação de pessoas de qualquer lugar onde haja possibilidade de conexão via internet. Esse (re)nascimento vem marcado por um engajamento político jamais vislumbrado na história do movimento espírita brasileiro.  

Nos eventos produzidos pelos coletivos espíritas os temas sociais predominam. Há grupos que promovem leitura e análise de obras que vão desde o filósofo Herculano Pires até o renomado educador Paulo Freire. Temas como o racismo, a questão LGBTQUIA+, a questão colonial (decolonialismo), o sistema neoliberal e a desigualdade social são estudados com frequência, buscando inserir o conteúdo da teoria espírita nas formulações. 

O “Coletivo Girassóis”, a “AEPHUS” (em parceria com a “AbrePaz”  e o “Espíritas à Esquerda”, por exemplo, realizaram fóruns sociais que me remeteram ao ENSASDE (Encontro Nacional Sobre o Aspecto Social da Doutrina Espírita) movimento que produziu três edições nas cidades de Santos, São Paulo e Salvador na segunda década dos anos 80. O II ENSASDE discutiu propostas da comunidade espírita para a Assembleia Nacional Constituinte. Entretanto, não houve repercussão na práxis espírita em decorrência deste evento.    

 

Recentemente os pesquisadores Luiz Signates e João Damásio publicaram na Revista Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura um artigo intitulado: CONFIGURAÇÕES DIGITAIS DA CONTRAHEGEMONIA ESPÍRITA: UMA CARTOGRAFIA DOS COLETIVOS PROGRESSISTAS E DE ESQUERDA NO ESPIRITISMO BRASILEIRO. 

 

Trata-se de um levantamento dos grupos existentes no Brasil “compreendidos ou atravessados” pelo espiritismo progressista. Um ótimo estudo que nos permite enxergar melhor o recente fenômeno de transformação ou pelo menos, de agitação do movimento espírita brasileiro que representam estes novos grupos.

 

Para onde irão os coletivos ou qual será a sua influência no movimento espírita brasileiro são questões que exigem tempo de maturação para serem respondidas. A experiência é recentíssima, está em fase inaugural. 

 

Não sei, também, se o movimento tradicional se importará com a turma progressista. Ouvi dizer que um guru do movimento religioso conservador teria chamado os progressistas de “satânicos”. Se tal notícia é verdadeira espero que o nível da crítica melhore, pois em pleno século XXI ela soa muito pobre e desprovida de sentido. A experiência nos mostra que o movimento tradicional quando sente alguma ameaça ao seu poder reage (i) com absoluta indiferença, uma espécie de negacionismo, (ii) de forma a cooptar os supostos adversários e (iii) de forma a depreciar as pessoas que atuam nos grupos divergentes. Infelizmente não há debate franco e aberto.

 

Acho, enfim, que se abre um portal novo capaz de atrair principalmente a moçada que procura uma filosofia espiritualista menos conformista e mais ajustada à contemporaneidade. 

 

Não espero sinceramente que haja uma adesão à mirada progressista pelo movimento dito hegemônico. Mas antevejo uma nova encruzilhada logo adiante: a abertura para um caminho mais sintonizado com o pensamento contemporâneo e com a transformação social ou uma guinada ainda mais religiosa e conservadora que nos levará definitivamente ao espiritismo de autoajuda que já marca presença com ares de novo modismo. 

 

Enfim, o caminho se faz ao caminhar como disse o poeta espanhol Antônio Machado. E nesta toada retornamos a Leon Dénis: “O Espiritismo será o que o fizerem os homens.” O surgimento de grupos contra hegemônicos com um potencial viés transformador das estruturas sociais pode ser um caminho para nos levar à renovação social sonhada pelo fundador da teoria espírita. O tempo dirá...

    

Curitiba, julho de 2021.

 

 

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