MOVIMENTO ESPÍRITA EM TRANSFORMAÇÃO
Saulo de Meira Albach
Delegado da CEPA em Curitiba (PR);
Presidente do CPDoc (Centro de
Pesquisa e Documentação Espírita);
Membro do Cultura Espírita
Livre-Pensar (Curitiba – PR).
OS COLETIVOS ESPÍRITAS
A
polarização política que se acentuou no Brasil mais notadamente a partir de
2017 produziu efeitos também no movimento espírita. Inúmeros grupos foram
criados com ênfase no aspecto social do espiritismo e com a preocupação de
trazer ao debate os temas sociais contemporâneos sem a restrição que
normalmente é imposta nos setores hegemônicos.
Estes
grupos atuam de forma preponderante na internet por meio de eventos
virtuais. Alguns desenvolvem ações sociais e de cidadania. A maioria não se
caracteriza como um centro espírita tradicional, embora um ou outro possua
atividades nos moldes dos centros espíritas.
Cito
alguns:
·
Ágora
Espírita (Pernambuco)
·
Associação
Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Ciência da Paz – AbrePaz (Goiás)
·
Associação
Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais - AEPHUS (Goiás)
·
Coletivo
de Espíritas Antirracistas (COESAR)
·
Coletivo
de Estudos Espiritismo e Justiça Social - CEJUS (São Paulo)
·
Coletivo
Espírita Maria Felipa (Bahia)
·
Coletivo
Espírita Pela Transformação Social (São Paulo)
·
Coletivo
Girassóis – Espíritas Pelo Bem Comum (Ceará)
·
Crítica
Espírita (Espírito Santo)
·
Cultura
Espírita Livre-Pensar (Paraná)
·
Espíritas
à Esquerda
·
Espíritas
Progressistas
·
Espiritismo
com Kardec – ECK (Santa Catarina)
·
Grupo
de Estudos Hermínio C. de Miranda (Ceará)
·
Puebla
Espírita – Espiritismo para o povo (Rio de Janeiro)
Por
ser um fenômeno recente o surgimento dos coletivos ainda não pode ser avaliado
especialmente quanto aos resultados das suas atuações. Trata-se, a meu ver, de
uma guinada mais à esquerda por setores do movimento espírita, o que me parece
bastante salutar do ponto de vista dialético. Se prestarmos atenção na história
do movimento espírita brasileiro veremos que, em linhas gerais, ele caminhou
mais próximo do pensamento conservador, pelo menos dos anos 30 do século XX em
diante.
Sobre
o tema há artigos bastante interessantes de Luiz Signates (Espiritismo e
Política: Os Tortuosos Caminhos do Conservadorismo Religioso e Suas
Contradições no Brasil e Sinuê Neckel Miguel (Disposições políticas no
espiritismo brasileiro: entre “neutralidade” conservadora e aspirações
socialistas).
Enfim,
a questão social retorna, ainda de forma periférica, entretanto, disseminada
pelos quatro cantos do país. Com a vantagem da aproximação de pessoas de
qualquer lugar onde haja possibilidade de conexão via internet. Esse
(re)nascimento vem marcado por um engajamento político jamais vislumbrado na
história do movimento espírita brasileiro.
Nos
eventos produzidos pelos coletivos espíritas os temas sociais predominam. Há
grupos que promovem leitura e análise de obras que vão desde o filósofo
Herculano Pires até o renomado educador Paulo Freire. Temas como o racismo, a
questão LGBTQUIA+, a questão colonial (decolonialismo), o sistema neoliberal e
a desigualdade social são estudados com frequência, buscando inserir o conteúdo
da teoria espírita nas formulações.
O
“Coletivo Girassóis”, a “AEPHUS” (em parceria com a “AbrePaz” e o
“Espíritas à Esquerda”, por exemplo, realizaram fóruns sociais que me remeteram
ao ENSASDE (Encontro Nacional Sobre o Aspecto Social da Doutrina Espírita)
movimento que produziu três edições nas cidades de Santos, São Paulo e Salvador
na segunda década dos anos 80. O II ENSASDE discutiu propostas da comunidade
espírita para a Assembleia Nacional Constituinte. Entretanto, não houve
repercussão na práxis espírita em decorrência deste evento.
Recentemente
os pesquisadores Luiz Signates e João Damásio publicaram na Revista
Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura um artigo intitulado:
CONFIGURAÇÕES DIGITAIS DA CONTRAHEGEMONIA ESPÍRITA: UMA CARTOGRAFIA DOS
COLETIVOS PROGRESSISTAS E DE ESQUERDA NO ESPIRITISMO BRASILEIRO.
Trata-se
de um levantamento dos grupos existentes no Brasil “compreendidos ou
atravessados” pelo espiritismo progressista. Um ótimo estudo que nos permite
enxergar melhor o recente fenômeno de transformação ou pelo menos, de agitação
do movimento espírita brasileiro que representam estes novos grupos.
Para
onde irão os coletivos ou qual será a sua influência no movimento espírita
brasileiro são questões que exigem tempo de maturação para serem respondidas. A
experiência é recentíssima, está em fase inaugural.
Não
sei, também, se o movimento tradicional se importará com a turma progressista.
Ouvi dizer que um guru do movimento religioso conservador teria chamado os
progressistas de “satânicos”. Se tal notícia é verdadeira espero que o nível da
crítica melhore, pois em pleno século XXI ela soa muito pobre e desprovida de
sentido. A experiência nos mostra que o movimento tradicional quando sente
alguma ameaça ao seu poder reage (i) com absoluta indiferença, uma
espécie de negacionismo, (ii) de forma a cooptar os supostos adversários
e (iii) de forma a depreciar as pessoas que atuam nos grupos
divergentes. Infelizmente não há debate franco e aberto.
Acho,
enfim, que se abre um portal novo capaz de atrair principalmente a moçada que procura
uma filosofia espiritualista menos conformista e mais ajustada à
contemporaneidade.
Não
espero sinceramente que haja uma adesão à mirada progressista pelo movimento
dito hegemônico. Mas antevejo uma nova encruzilhada logo adiante: a abertura
para um caminho mais sintonizado com o pensamento contemporâneo e com a
transformação social ou uma guinada ainda mais religiosa e conservadora que nos
levará definitivamente ao espiritismo de autoajuda que já marca presença com
ares de novo modismo.
Enfim,
o caminho se faz ao caminhar como disse o poeta espanhol Antônio Machado. E
nesta toada retornamos a Leon Dénis: “O Espiritismo será o que o fizerem os
homens.” O surgimento de grupos contra hegemônicos com um potencial viés
transformador das estruturas sociais pode ser um caminho para nos levar à
renovação social sonhada pelo fundador da teoria espírita. O tempo dirá...
Curitiba,
julho de 2021.
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