20 março 2025

"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL" - ALCIONE MORENO

 

"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL"

                         Alcione Moreno - médica, vice-presidente da CEPABrasil membro do CPDoc e do GELP





     Quero partilhar esta obra de Malcom Ferdinand com vocês, pois, apesar de o autor "pensar a partir do mundo caribenho", serve para todos nós que fomos colonizados. A metrópole pode ser Portugal, Espanha, França, Inglaterra, tanto faz, pois a devastação aconteceu e acontece em nossos territórios.

     Malcom Ferdinand nasceu na Martinica -departamento ultramarino insular francês no Caribe - em 1985, é engenheiro ambiental, pesquisador e professor. Por esse livro recebeu o Prix du Livre de la Fondation de l'Ecologie Politique em 2019.                    

     De forma lírica, utilizando metáfora de um navio negreiro, citações de livros, obras de arte e poemas, vai descrevendo tanto a escravização como o ambientalismo, oferecendo sugestões de como podemos integrar e superar estas dificuldades, existentes até o dia de hoje.

     Com um prefácio de Angela Y. Davis e um posfácio de Guilherme Moura Fagundes, o livro se divide em um prólogo, 4 partes e um epílogo.

     Prólogo: Uma dupla fratura colonial e ambiental: o Caribe no centro da tempestade moderna

     Parte I - A tempestade moderna: violências ambientais e rupturas coloniais

     Parte II - A arca de Noé: quando o ambientalismo recusa o mundo

     Parte III - O navio negreiro: sair do porão da modernidade em busca de um mundo

     Parte IV - Um navio-mundo: fazer- mundo para além da dupla fratura

     Epílogo - Fazer-mundo diante da tempestade

     Trechos do livro:

      "Ferdinand começa desfazendo um equívoco recorrente em análises contemporâneas provenientes tanto do movimento ambiental como do movimento antirracista e decolonial: a separação entre a questão ecológica e a questão colonial. Essa "dupla fratura", como ele define, impede perceber em que medida a destruição do meio ambiente e o legado colonial estão inextricavelmente ligados, tanto em sua origem como em suas nefastas consequências".

     "Habitar a Terra começa nas relações com os outros. Assim, o habitar colonial designa uma concepção singular da existência de certos humanos sobre a Terra - os colonizadores-, de suas relações com outros humanos - os não colonizadores-, assim como de suas maneiras de se reportar à natureza e aos não humanos".    

     "Embora todo mundo seja exposto a ecossistemas contaminados, permanecem grupos de senhores proprietários, cujos interesses financeiros coincidem com as contaminações perenes da Terra, nessa configuração do habitar colonial em que a condição tóxica, é a um só tempo, a consequência da exploração capitalista desses ecossistemas por seus senhores e a causa que reforça a dominação de tais territórios por esses mesmos senhores”.

      Com tabelas e quadros sinópticos, didaticamente, Malcom vai nos mostrando esta dupla fratura (ambiental e colonial) como um problema central da crise ecológica, que abala as maneiras como esta é pensada e as suas traduções políticas.

      "A fratura ambiental decorre desta 'grande partilha' da modernidade, a oposição dualista que separa natureza e cultura, meio ambiente e sociedade, estabelecendo uma escala vertical de valores que coloca 'o Homem' acima da natureza. Tal fratura abrange também uma homogeneização horizontal e esconde as hierarquizações internas de ambas as partes. Os termos 'planeta', 'natureza' ou 'meio ambiente' escondem adversidades de ecossistemas, dos lugares geográficos e dos não humanos que os constituem. Florestas, montanhas e reservas naturais mascaram as imagens das naturezas urbanas, das favelas e das plantações. A fratura animal como as hierarquizações entre animais selvagens 'nobres', e os animais domésticos são colocados acima dos animais de criação".

      "A crise ecológica, decorrente da constatação de que a poluição, as perdas de biodiversidade e o aquecimento global são os vestígios materiais desse habitar colonial da Terra, compreendendo desigualdades sociais globais, discriminações de gênero e de raça”.

      "As exclusões sociais e políticas dos ex-escravizados, dos pobres, dos racializados e das mulheres manifestam-se também por meio da contaminação de seus corpos biológicos pelos produtos tóxicos das plantações e das fábricas, pelas desigualdades de exposição, de tratamentos e de pesquisas médicas sobre as consequências dessas exposições".

      "Longe de uma oposição entre causa animal, causa Negra e causa feminista, essas diversas alianças interespécies contra o habitar colonial continuam sendo hoje as chaves de um navio-mundo. Um navio-mundo guiado pelos ventos da justiça, onde humanos e não humanos possam viver juntos".

      "Compor um mundo plural, diverso e transgeracional a partir das pluralidades humanas e não humanas na Terra. O mundo é fruto de um agir conjunto. A ecologia do mundo requer uma cosmopolítica da relação".

      Allan Kardec já nos mostrava este caminho através das Leis Morais, no livro 3 de O Livro dos Espíritos, principalmente com a Lei de Justiça, Amor e Caridade: "A lei de amor e de justiça proíbe que se faça a outrem o que não queremos que nos seja feito, e condena, por esse mesmo princípio, todo meio de adquirir que o contrarie". (Comentário de Allan Kardec à questão 884).

 

 

 

 

Nenhum comentário: