14 maio 2025

VI ENCONTRO: SUCESSO!

 Inicialmente programado para ocorrer nos dias 14 a 17 de novembro de 2024, o VI Encontro Nacional da CEPABrasil, em decorrência da enchente que assolou o Estado do Rio Grande do Sul, em maio/24, provocando o fechamento do aeroporto da Capital, somente pode ser realizado nos dias de 01 a 04 de maio, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA), instituição filiada à CEPA com a qual a CEPABrasil firmou parceria tendo como coordenador da Comissão Organizadora Salomão Jacob Benchaya, integrante das duas instituições.

Uma das sugestões oferecidas às Diretorias da CEPABrasil e do CCEPA foi de que, tanto a Federação Espírita Brasileira (FEB) como a Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS) fossem convidadas a se fazerem representar no evento, sendo que apenas esta última respondeu e se fez presente no Encontro através de seus vice-presidentes Vinícius Lousada e Iraci de Oliveira.

Na sessão de abertura, ocorrida na quinta-feira à noite, dia 01 de maio, estavam presentes, além do representante da FERGS, dirigentes da CEPA, da CEPABrasil e do CCEPA, respectivamente Nelly Urruzola, Ricardo Morais Nunes e Beto Souza. A conferência de abertura esteve a cargo de Milton Medran Moreira. Na sexta-feira e no sábado, dias 2 e 3 de maio, das 9 às 19h, houve apresentação de trabalhos, painel de debates, oficina, momentos de arte, sessão de autógrafos, lançamento de livros e a inauguração do Memorial CCEPA incluindo exposição de documentos originais de Allan Kardec, organizados pelo engenheiro Adair Ribeiro Jr., do Instituto de Educação Espírita (IEE) e do Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo “Eduardo Carvalho Monteiro” (CCDPE-ECM), de São Paulo.

A Oficina teve seu planejamento a cargo de Alcione Moreno que, por motivo de saúde na família, não pode comparecer, sendo coordenada por Sandra  Regis com o auxílio, na mediação dos grupos de discussão, de Luiz Fernando Mokwa, Jacira Jacinto da Silva, Sofia Cruz Nunes, Márcia Rahabani Elias e Luciana Cruz Nunes. O tema discutido foi “Possibilidades da ação espírita transformadora”, abordado sob diferentes aspectos por cada um dos subgrupos formados.

Além da Oficina, dos conferencistas e painelistas, foram apresentados quinze (15) trabalhos por seus autores Adair Ribeiro Jr., Ademar Arthur Chioro dos Reis, Alexandre Cardia Machado, Ana Cláudia Laurindo de Oliveira, Jacira Jacinto da Silva, Mauro de Mesquita Spinola, Jerri Roberto Almeida, Beto Souza, Klycia Fontenele Oliveira, Leandro Carvalho Dias, Luiz Signates Freitas, Mariana Canellas Benchaya, Mônica Fonseca Mendes, Sérgio Maurício S. Pinto, Ricardo Andrade Terini e Ricardo Morais Nunes. A moderação foi exercida por Valéria Mokwa, Cláudia Regis, Dirce Leite, Delphine Gamarra, Adriana Kessler e Delma Crotti. Todos os trabalhos estão publicados em E-book, organizado por Magda Zago, já disponibilizado aos participantes e nas redes sociais, inclusive de autores que estavam inscritos – Rafael Ludolf e Wilson Garcia - mas não puderam comparecer.

Todas as apresentações – não transmitidas online - foram gravadas em vídeos pela empresa de Lucas Overgoor, com excelente qualidade profissional e estão disponíveis no canal YouTube da CEPABrasil, www.youtube.com/cepabrasil e do CCEPA, https://www.youtube.com/@ccepars.

No final da tarde de sexta-feira, realizou-se uma Sessão de Autógrafos da qual participaram os escritores Adair Ribeiro Jr., Alexandre Cardia Machado, Ana Cláudia Laurindo, Jerri Roberto Almeida, Luiz Signates, Moacir Araújo Lima e Ricardo Herbert Jones, este último lançando o livro “Viver e Conviver” em homenagem ao seu pai Maurice Herbert Jones, presidente do CCEPA por várias gestões, ex-presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul e ex-assessor institucional da CEPA.

No sábado à tarde, houve um momento de intercâmbio mediúnico em que foram recebidas quatro mensagens de apoio e estímulo.

O encerramento ocorreu no domingo, dia 4 de maio de 2025, pela manhã, com a conferência do Prof. Moacir Araújo Lima, seguindo-se uma vivência de confraternização e arte, coordenada por Sandra Regis, coroando o pleno sucesso o evento e deixando nos participantes a sensação de plenitude e muita emoção pelos momentos de convívio, aprendizado, troca de experiências e profícuos debates sobre o tema proposto.

05 maio 2025

Mediunidade e Autoconhecimento – Menos ego e mais serviço - Dora Incontri

Mediunidade e Autoconhecimento – Menos ego e mais serviço

Dora Incontri:- Jornalista, escritora, doutora e pós-doutorada em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e da Universidade Livre Pampédia. Sócia da Editora Comenius.

Um dos primeiros posts que lançamos nesse blog da ABPE, escrito por Cláudia Mota, foi sobre nossa experiência no grupo de Mediunidade Pedagógica, em ação há vários anos. A reação favorável e os comentários do público demonstram o quanto estamos carentes de boas, consistentes e aprofundadas discussões sobre a prática mediúnica no movimento espírita. E mais, como rareiam reuniões e médiuns com trabalhos mais criteriosos, controlados e atitudes críticas e racionais em relação a essa prática.

Na atual configuração do movimento no Brasil, temos duas situações recorrentes: um espiritismo quase sem espíritos, com centros, grupos e pessoas inseguros para realizar um bom trabalho de desobsessão ou de psicografia, por exemplo; e um espiritismo que gira em torno de médiuns-gurus, que estão acima de qualquer análise crítica, que são incensados por fãs e que se tornam líderes incontestáveis em seu meio, em setores do movimento ou mesmo no movimento quase inteiro!

Três coisas muito importantes que Kardec propôs e praticou e andam esquecidas: 1) a mediunidade é algo natural, que pode ser praticada em grupos pequenos, com estudo, seriedade e princípios éticos; 2) os médiuns, por melhores que sejam, estão sujeitos a falhas e por isso devem submeter constantemente o que captam do além à crítica alheia e ao cruzamento com percepções de outros médiuns; 3) os médiuns não devem procurar (e nem mesmo aceitar) projeção, liderança e popularidade por serem médiuns (Kardec nem nomeava os médiuns em seus livros). Que busquem projeção (se assim desejarem) ou ganhem liderança, por suas próprias capacidades e não por serem intermediários dos Espíritos.

Traduzindo esses três itens em outras palavras: mediunidade é algo para ser desenvolvido tranquilamente, sem muitas complicações, algo a ser democratizado e não sacralizado; os médiuns precisam trabalhar seus impulsos narcísicos e praticarem mediunidade com modéstia.

Isso não significa que não se devam publicar coisas mediúnicas, fazer sessões públicas ou divulgar obras feitas pelos Espíritos. Mas significa que tudo isso deve passar pela análise crítica, tudo deve ser feito com desinteresse de projeção pessoal.

Ora, aí que entra uma questão muito importante: para se exercer uma mediunidade honesta e consciente, sem muita mistura de vaidade pessoal, é preciso que o indivíduo tenha o compromisso do autoconhecimento. Esse mesmo que Sócrates já aconselhava tantos séculos atrás, que se repete como uma recomendação no Livro dos Espíritos e hoje é muito facilitado pela possibilidade de fazermos terapias, nas mais diversas abordagens existentes.

Conhecendo-nos melhor (o que aliás é tarefa que não acaba numa existência), podemos em primeiro lugar saber das nossas motivações internas mais profundas, vencer a imaturidade psíquica de querermos ser adorados e mimados a qualquer preço, entender melhor como funciona nosso psiquismo, precavendo-nos contras as armadilhas do egocentrismo, do desejo de poder e outras tantas coisinhas que nos atrapalham existencialmente. Dentro de uma abordagem psicológica, passamos a enxergar tudo isso não mais como vícios, contra os quais temos de promover uma reforma íntima, com culpa e autoflagelação (o que resulta na maior parte das vezes em mera hipocrisia), mas começamos a compreender tudo isso como imaturidade espiritual. Deixar de lado exibicionismos, personalismos, melindres e vaidades é simplesmente ter atingido um grau de maturidade em que não se acha mais graça nessas pequenezas. A pessoa mais madura acha sim graça em fazer o bem sem ostentação, em buscar contribuições que a façam crescer e não as ilusões do incenso que a façam estacionar…

É claro que tudo isso é o ideal a ser perseguido. Sabemos que estamos todos em aprendizagem, em processo de maturação espiritual. Todos nós vamos misturar imperfeições nossas em qualquer ação, por isso que Kardec dizia que o melhor médium é o que menos erra. Mas não custa tentar um pouco de bom senso e seguir algumas recomendações dele. E seguir também o seu próprio exemplo.

Em todo o século XIX, com grandes gênios de egos inchados – como Compte, Marx, Freud – Kardec é notável por ter se escondido atrás da própria obra. Ele não encenava humildade, falando de si mesmo de forma depreciativa, ele simplesmente não falava de si. Buscava elaborar um conhecimento racional, equilibrado e reto. E foi tão modesto que seus adeptos chegaram a achar até hoje que ele foi mero codificador (título aliás que não aparece em nenhuma obra sua), um simples um secretário de ideias reveladas pelos Espíritos. Mas na verdade, Kardec foi o fundador do Espiritismo, que é justamente um método de abordagem dos fenômenos mediúnicos. Como se dá esse processo entre os dois mundos e como podemos analisar e aproveitar para nossa edificação moral, o que vem de conteúdo nesse diálogo entre encarnados e desencarnados? Aí reside a essência do Espiritismo. E exatamente esse seu método de naturalização da mediunidade, com uma abordagem crítica e racional, que não entendemos e não praticamos no movimento espírita.

É preciso pois, para que possamos restabelecer comunicações seguras, confiáveis e democratizadas com o mundo espiritual, que diminuamos nosso ego, recuperemos o espírito crítico, estudemos Kardec e busquemos a ética de servir desinteressadamente.

20 abril 2025

ESPIRITISMO: opressor ou libertador? Bruno Lins Quintanilha

 

ESPIRITISMO: opressor ou libertador?

                Bruno Lins Quintanilha, 35 anos, professor de Geografia no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.         

                          Atua na Casa Espírita Eurípedes Barsanulfo, autor do livro “O que é o Espiritismo?                                         Uma tentativa de resposta para o século XXI” e de diversos artigos publicados regularmente em periódicos em periódicos espíritas. No link a seguir, é possível encontrar toda a produção do autor de forma gratuita: https://linktr.ee/brunoquintanilha

             O Espiritismo conforme construído por Allan Kardec é um grande instrumento de   esclarecimento, consolo e esperança. Entretanto, cabe apontar que não é uma obra pronta e muito menos perfeita[1]. Assim aliás enxergava o seu próprio construtor:

O Livro dos Espíritos não é um tratado completo do Espiritismo; não faz senão apresentar as bases e os pontos fundamentais, que se devem desenvolver sucessivamente pelo estudo e pela observação.[2]

Em outra obra, e em outro ano, o mesmo princípio é reafirmado:

Pensam muitas pessoas, ademais, que O livro dos espíritos esgotou a série das questões de moral e de filosofia. É um erro.[3]

Prossegue em seu último livro:

O Espiritismo, pois, estabelece como princípio absoluto somente o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo-se com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que o Espiritismo se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.[4]

Se do ponto de vista intelectual, o Espiritismo kardequiano foi abertura, curiosidade, refazer e pesquisa constantes, do ponto de vista moral ele é a busca incessante pelo bem-estar humano, seja a nível individual ou coletivo:

Coloco em primeira linha consolar os que sofrem, levantar a coragem dos abatidos, arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no abismo do crime.[5]

Por sua poderosa revelação, o Espiritismo ve, pois, apressar a reforma social (6)

[1] Allan Kardec, em Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec, Discursos Pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux, III parte.


          Seu fundador insistia teimosamente na importância da caridade, ou seja, do amor em movimento. Amor que pode assumir as mais variadas formas e ações possíveis, mas todas elas sempre alicerçadas no desejo do bem-estar do outro, no respeito, no acolhimento, na solidariedade:

Sem a caridade, não há instituição humana estável; e não pode haver caridade nem fraternidade possíveis, na verdadeira acepção da palavra, sem a crença. Aplicai-vos, pois a desenvolver esses sentimentos que, engrandecendo-se, destruirão o egoísmo que vos mata. Quando a caridade tiver penetrado as massas, quando se tiver transformado na fé, na religião da maioria, então vossas instituições se tornarão melhores pela força mesma das coisas; os abusos, oriundos do personalismo, desaparecerão. Ensinai, pois, a caridade e, sobretudo, pregai pelo exemplo: é a âncora de salvação da sociedade. Só ela pode realizar o reino do bem na Terra, que é o reino de Deus; sem ela, o que quer que façais, só criareis utopias, das quais só vos resultarão decepções.[7]

Resumidamente, o que busco deixar explícito é o cerne intelectual e moral do Espiritismo na proposta Kardequiana.

É óbvio que enquanto um sistema de ideias e valores construído por um homem branco, de classe média, na Europa do século XIX, o Espiritismo kardequiano tem problemas e limitações. A sociedade daquele tempo-espaço era infinitamente mais limitada do que o é a nossa atualmente. Incontáveis avanços intelectuais, técnicos, culturais e jurídicos ocorreram entre as décadas de 1850/1860 e o século XXI. Nenhuma ideia jamais deve ser descontextualizada de onde e quando surgiu. Tudo precisa ser entendido dentro de um contexto e, posteriormente, analisado e criticado.

Além do mais, dessacralizar e humanizar indivíduos e obras é fundamental, pois encarar toda obra como produto de um ser humano que tem limites e lacunas – mas também talentos e potenciais – nos permite aproveitar o que há de bom e filtrar o que não seja razoável. É preciso separar a casca, que tem muito do contexto sociocultural de um determinado tempo-espaço do fruto, que é ainda válido e extremamente rico de possibilidades e utilidade.

          Em outra ponta, não podemos esquecer que conforme as ideias são propagadas por diferentes lugares e pessoas ao longo do tempo, elas irão, inevitavelmente, sofrer modificações, adaptações, reapropriações. Uma ideia gestada na França de 1850, quando chegar ao Brasil de 1880 irá passar por um filtro sociocultural que a transformará. E de 1880 até os anos 2000, mais camadas irão se sobrepor. E não há nada de estranho nisso do ponto de vista sociológico. Isso é, na realidade, esperado, e ocorre com todas as religiões, doutrinas ou filosofias.

          Do ponto de vista da Antropologia e da Sociologia, podemos afirmar que há cristianismos, islamismos, judaísmos, espiritismos, ou seja, uma mesma religião ou doutrina vai desenvolver inúmeras variações internas conforme se difunde, muita embora vá manter alguns elementos que dão algum tipo de unidade dentro dessa diversidade que naturalmente se forma.

          Apesar dessa natural pluralidade, é importante ressaltar a importância da coerência entre religião/doutrina, suas transformações e apropriação por parte dos indivíduos. Darei um exemplo dentro do cristianismo.

Jesus, no Novo Testamento, é um indivíduo que ensina e vivencia uma profunda mensagem de amor, solidariedade, respeito. Acolhia os excluídos e marginalizados, denunciava os religiosos hipócritas e criticava as tradições que oprimiam. Após a morte de Jesus, seus discípulos iniciaram um movimento de organização, sistematização e difusão de seus ensinos. O cristianismo enquanto corrente religiosa nasce a partir disso. Entretanto, ao longo dos séculos, indivíduos e grupos usaram essa mensagem que é de amor, simplicidade, espontaneidade, para criar instituições que oprimiram, violentaram, disputaram poder político e mesmo assassinaram. De um judeu pobre que fugia da posse de qualquer privilégio, que andou entre pescadores, prostitutas e doentes, criaram posições de mando, templos cheios de luxo e inumeráveis regras.

Pastor Henrique Vieira é claro a respeito dessa questão no movimento cristão:

É impressionante como o cristianismo, uma espiritualidade de origem periférica e popular, pautada na radicalidade do amor, foi se tornando justificativa para sistemas opressores e práticas de ódio. Jesus andou com os pobres e oprimidos, acolheu as pessoas amaldiçoadas e marginais, impediu processos de execução, recusou mecanismos de vingança, exaltou o perdão como forma de mediação de conflitos, reconheceu a dignidade até de seus inimigos. Jesus foi preso, torturado e assassinado. Foi executado pelo Império Romano sob o aplauso e escárnio de muitas pessoas. Enfim, foi um preso político, vítima da violência e do ódio. Como uma mensagem com essa origem pode, em tantos momentos da história, justificar atos de violência e genocídio? A lente fundamentalista se apega à letra enquanto esfria corações diante da vida concreta.

Jesus foi vítima desse modelo que colocava a Tradição (isto é, o conjunto de leis bíblicas da época) como referência absoluta, inquestionável e impenetrável.”[8]

          Por sua vez, Chico Xavier e o Espírito Neio Lúcio, por meio da mediunidade, também dão outra possibilidade de perspectiva para a questão:

- Sara, qual é o serviço fundamental de tua casa?

- É a criação de cabras – redarguiu a interpelada, curiosa.

- Como procedes para conservar o leite inalterado e puro no benefício doméstico?

- Senhor, antes de qualquer providência, é imprescindível lavar, cautelosamente, o vaso em que ele será depositado. Se qualquer detrito dicar na ânfora, em breve todo o leite se toca de franco azedume e já não servirá para os serviços mais delicados.

Jesus sorriu e explanou:

- Assim é a revelação celeste no coração humano. Se não purificamos o vaso da alma, o conhecimento, não obstante superior, confunde-se com as sujidades de nosso íntimo, como que se degenerando, reduzindo a proporção dos bens que poderíamos recolher.[9]

O trecho acima obviamente está permeado por uma dimensão literária e até mesmo teológica, mas a reflexão que propõe é valiosa: o quanto as religiões e doutrinas sofrem de modificação quando nos atravessam? O quanto nossos interesses pessoais, lacunas e limitações influenciam nesse processo?

O fato é que a mensagem cristã foi intensamente mutilada e mesmo completamente distorcida por muitos ao longo do tempo. Uma coisa são interpretações diferentes acerca de passagens, ensinos, recomendações, rituais – o que é natural em vista da diversidade humana. Outra é transformar água em lama, amor em ódio, paz em violência, justiça em exploração.

Pois bem, o Espiritismo, como todas as religiões e doutrinas, não escapou às mutilações e distorções. E reforço que não quero aqui defender uma ideia de pureza original perfeita. Não gosto dessa ideia. O que advogo é sobre a necessidade de manutenção de coerência entre os pontos chave de uma religião ou doutrina ao longo do tempo e de sua difusão por pessoas e espaços.

Voltemos a Kardec. Em O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e evocadores, vemos um autor buscando desmistificar a mediunidade, explicando-a da forma mais simples e direta possível, com o objetivo de auxiliar aqueles que têm a faculdade mediúnica a usá-la de forma proveitosa para o auxílio aos outros ou para a pesquisa espírita. Kardec naturaliza e humaniza a mediunidade, mas atualmente, em muitas instituições espíritas, ela é encarada como algo excessivamente engessado, distante e limitado. O acesso a mediunidade e à prática mediúnica é, em muitas situações, vetado ou muito dificultado. É como um Espiritismo sem Espíritos.

Em O Livro dos Espíritos, encontramos um Kardec que se permite filosofar, questionar e dialogar com os Espíritos a respeito dos mais diversos temas, sem tabus ou medos. Na obra, são debatidas a escravidão, a pena de morte, os direitos da mulher, o enriquecimento com base na exploração, a fome e a má distribuição dos alimentos, desigualdades sociais, liberdade de pensamento e religião, etc. Isso tudo em meados do século XIX, em meio a França sob um governo de caráter autoritário. Mas no Brasil do século XXI, discutir racismo, questões de gênero, desigualdades sociais ou outros assuntos contemporâneos é visto em muitas instituições como erro grave, passível de marginalização ou mesmo expulsão.

Em Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec e em O Livro dos Médiuns, observa-se uma perspectiva de grupo ou instituição espírita como um ambiente de acolhimento, fraternidade, respeito, vínculos, amor. Mas há muitos centros espíritas em que o indivíduo não será acolhido, respeitado ou tratado com solidariedade. Se um negro, gay, com o cabelo pintado de loiro e piercing for o palestrante da noite em um centro espírita, qual seria a reação do auditório? Quantos indivíduos LGBT+ não encontram espaço e nem respeito em instituições espíritas? Se um médium resolve fazer tatuagens que preencham ambos os braços, como será encarado por seu grupo de reunião?

Para além disso, percebo também espíritas com alto grau de sofrimento psíquico vivenciado ao longo da vida pela forma como os ensinaram e apresentaram o Espiritismo. Pessoas com muito medo, culpa, insegurança, desencorajadas a questionar, estimuladas a sempre obedecer. Indivíduos, por vezes, verdadeiramente traumatizados. Não é difícil encontrar relatos de espíritas sobre experiências dolorosas vivenciadas no ambiente espírita.

O fato é que podemos falar de um tipo de fundamentalismo espírita que está presente no Brasil. Uma forma de se apropriar, relacionar e difundir o Espiritismo que pode oprimir, violentar, silenciar. Uma maneira de olhar arrogante, que enxerga o Espiritismo como algo superior, hierarquicamente acima de outras religiões ou doutrinas, como um saber que está além da ciência e da filosofia. Uma perspectiva autoritária, que não admite ser questionada, criticada e que não se abre para um diálogo franco e respeitoso com a diversidade e a sociedade.

A mente fundamentalista não se permite duvidar do que crê e não aceita dialogar com as diferenças.[10]

 

para um fundamentalista não há diálogo. Se um fala em nome de Deus e o outro não, que conversa é possível?[11]

 

Mas o grande ponto do fundamentalismo é que ele produz uma visão que se percebe como verdade absoluta. A mente fundamentalista tende a entrar em pânico diante de dúvidas e questionamentos[12]

 

O fundamentalista não dialoga, porque não se propõe a ouvir; não aprende, porque parte do pressuposto de que só pode ensinar. O mundo fica dividido entre salvos e perdidos, entre bem e mal, e a fronteira delimitada pelo conjunto de crenças da instituição religiosa.[13]

 

o mais relevante é submeter nossa doutrina à reflexão, à comunhão, ao exercício permanente da autocrítica à luz das demandas e necessidades do nosso tempo.[14]

 

Espiritualidade é abertura, fundamentalismo é fechamento. Espiritualidade se move nas perguntas, fundamentalismo, em certezas irretocáveis. Espiritualidade é experiência e contemplação, fundamentalismo é doutrina. Espiritualidade se move no amor e na liberdade, fundamentalismo, na culpa e no medo. Espiritualidade transita nas diferenças e percebe a diversidade como expressão sagrada, fundamentalismo vê a diversidade como maldição. Portanto, a experiência religiosa é saudável quando alimenta a espiritualidade sem sufocá-la.[15]

Há espíritas que, infelizmente, por não encontrar ambiente saudável para acolhimento, escuta e amparo, entram em depressão, adoecem.

Pessoas que perderam algum familiar por meio do suicídio e ainda são violentados por um terrorismo psicológico cruel que, ao invés de acolher e prestar compaixão e solidariedade, gera medo e angústia.

Há espíritas que, frente às enormes desigualdades sociais e a absurda quantidade de pessoas desabrigadas e dormindo nas calçadas, justificam a si mesmas que está tudo conforme a justiça divina, tratando-se de um processo de expiação que cumpre àquele indivíduo passar e não há muito o que pode ser feito.

Há espíritas que associam todo problema psíquico à obsessão e questões espirituais, quando há muitos casos em que o tratamento precisa ser com um profissional da Psiquiatria e com um Psicólogo.

Há jovens que frequentam evangelização, mocidade e, depois de adultos, não retornam nunca mais ao centro espírita pois ao ingressar na universidade, em movimentos sociais ou ter acesso a outros saberes e experiências, identificam que o espaço da instituição espírita não os comporta mais porque não os aceitará como são e pensam, não lhes possibilitando mais espaço de atuação frutífera.

CONCLUSÃO

A questão é que o Espiritismo não foi concebido para ser fechado, dogmático, frio, autoritário. E se alguns o fizeram assim, ele não precisa ser assim. Há formas acolhedoras, dialógicas, críticas, humanistas de se apropriar e relacionar com o Espiritismo. Ele não precisa ser opressão, medo ou culpa, na verdade pode ser libertação, impulso, leveza, suporte para nosso crescimento individual e mesmo social.

O Espiritismo tem, como principal contribuição intelectual, apresentar uma lente para observação e análise da realidade. Um óculo composto pelas ideias de Espírito, mediunidade, Deus, reencarnação e evolução. Olhar para a vida levando em conta esses conceitos altera muitas conclusões, ações e mentalidades.

Do ponto de vista moral, sua principal contribuição é o consolo e a esperança. Ao apontar e demonstrar empiricamente que há um princípio de vida em nós que sobrevive à morte do corpo físico, evidenciando que a vida não cessa, muitos de nós adquirimos força para nos erguer e lutar perante as adversidades. Saber que nossos amores continuam vivos ressuscita pessoas em vida. Conceber que a vida material é extremamente importante e valiosa, mas que é apenas uma etapa da nossa jornada, é como expandir horizontes.

Do ponto de vista social, ele pode estimular nossa sensibilidade e compaixão, transformando-as em reflexão e ação concretas para alterar o status quo, seja em escala micro, média ou macro. Ao nos evidenciar o valor da vida e da encarnação, pode incutir um senso de urgência para as mudanças que precisam ocorrer na coletividade para que o nível de bem-estar coletivo seja cada vez maior, evitando sofrimentos evitáveis. Ao apresentar as consequências espirituais de nossas ações, pode despertar para um nível maior de responsabilidade e consciência perante os outros.

Por fim, do ponto de vista institucional, o movimento espírita não precisa ser algo homogêneo e pasteurizado. Ele pode e não tem como deixar de ser diverso, plural. A casa espírita precisa ser um grande espaço de sociabilidade, de encontros, convivência. Atualmente, vejo nitidamente que a maior contribuição que a casa espírita me proporcionou foi a convivência/sociabilidade. Conhecer pessoas diferentes, com histórias diversas. Construir vínculos. Vivenciar experiências por meio do trabalho voluntário. As conversas após as reuniões até depois da meia noite na rua. Vidas encontrando outras vidas. Atravessar e ser atravessado por outras trajetórias. Não podemos abrir mão dessa dimensão da casa espírita como espaço de encontros - para muito além de doutrina ou estudo somente. O próprio nome já diz: “casa espírita”. Antes de ser "espírita", tem que ser "casa".

Por um Espiritismo que seja liberdade e libertação, tanto na dimensão espiritual, quanto na individual e na social. Por um Espiritismo que seja estimulador da espiritualidade. Por um Espiritismo que alimente a espontaneidade, a autenticidade e a humanidade. Por um Espiritismo que possa ser meio, ferramenta de crescimento para aqueles que o conheçam. Por um Espiritismo leve, risonho e alegre.

 

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. A Gênese [tradução de Guillon Ribeiro da 5a ed. francesa]. 53. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita [tradução de Guillon Ribeiro]. 92. ed. 2. Reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, ou, guia dos médiuns e dos evocadores: Espiritismo experimental [tradução de Guillon Ribeiro a partir da 49a edição francesa de 1861]. 81. ed. 1. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos 1866 [tradução de Evandro Noleto Bezerra]. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Allan Kardec [tradução de Evandro Noleto Bezerra]. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

XAVIER, Francisco Cândido. Jesus no Lar. 37. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2014.

VIEIRA, Henrique. O Amor como Revolução. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.



[1] A abordagem que Kardec fez da questão racial – presente na Revista Espírita de Abril de 1862 –, a questão 822 a) de O Livro dos Espíritos ou vários trechos do livro A Gênese contém ideias e teorias que a ciência e o tempo provaram extremamente equivocados. Ou seja, a obra kardequiana não é algo divino que desceu puro dos céus. É, antes, a obra de um ser encarnado, com a participação de muitos outros encarnados e desencarnados, todos esses em processo de evolução e sob a influência de um tempo, espaço, cultura e sociedade.

[2] Allan Kardec, na Revista Espírita de Julho de 1866, na página 299.

[3] Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, item 343.

[4] Allan Kardec, em A Gênese, item 55.

[5] Allan Kardec, em Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec, Discursos Pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux, item 1.

[6] Allan Kardec, em Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec, Discursos Pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux, III parte.

[7] Allan Kardec, em Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec, Discursos Pronunciados nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux, III parte.

[8] Henrique Vieira, em O Amor como Revolução, p. 62.

[9] Neio Lucio, pela mediunidade de Chico Xavier, no livro Jesus no Lar, capítulo 3.

[10] Henrique Vieira, em O Amor Como Revolução, página 57.

[11] Henrique Vieira, em O Amor Como Revolução, página 59.

[12] Henrique Vieira, em O Amor Como Revolução, página 63.

[13] Henrique Vieira, em O Amor Como Revolução, página 58.

[14] Henrique Vieira, em O Amor Como Revolução, página 59.

[15] Henrique Vieira, em O Amor Como Revolução, página 65.

05 abril 2025

Fato Espírita - Inteligência e Simplicidade - Eugenio Lara

 


Fato Espírita - Inteligência e Simplicidade
 

    Eugenio Lara, (23/7/1962 - 6/6/2024). Arquiteto e designer gráfico, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, editor-fundador do site PENSE – Pensamento Social Espírita.

Há pessoas que são espíritas sem que tenham consciência disso. Pensam, sentem e vivenciam ideias e valores que muitos militantes espíritas “velhos de guerra” nem imaginam como fazê-lo, mergulhados que estão em seu próprio egoísmo. Normalmente, esse fenômeno acontece e mostra-se com mais evidência em pessoas que não tiveram, na atual existência, a oportunidade de se instruir, de aprimorar a inteligência através do estudo.

No processo evolutivo, o homem humilde, mas de bom coração, que não teve acesso ao estudo nessa vida, pode estar bem mais perto da perfeição relativa do que o sujeito extremamente intelectualizado, com um quociente de inteligência (Q.I.) altíssimo, mas que se mostra insensível e fechado em si mesmo, quando se trata de abrir seu coração para o outro.

Realmente, o Espiritismo é bem esclarecedor nesse aspecto. Afirmam os espíritos que “o homem simples, mas sincero, está mais adiantado no caminho de Deus do que aquele que aparenta o que não é.” (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, q. 828-a). A arrogância, o despeito e a vaidade tomam conta de suas atitudes, de seu comportamento que, visto sob o ponto de vista moral, mostra-se ridículo e patético. É o que Deolindo Amorim (1906-1984) chama de falsa cultura: “é exibicionista, mas a verdadeira cultura é temperada pela humildade, sem exagero, sem atitudes impressionantes.” (Evangelho e Cultura, em Ideias e Reminiscências Espíritas).

Todas as pompas e trejeitos sofisticados não fazem do homem culto e intelectualizado um verdadeiro homem de bem. Isso não significa, contudo, que devido a esse fato, tenhamos de valorizar a ignorância em detrimento do desenvolvimento intelectual. Como diz Deolindo Amorim no mesmo artigo citado: “ao invés de provocar o orgulho ou a empáfia, como tantas e tantas vezes se diz, a verdadeira cultura cria condições íntimas para a humildade, mas a humildade raciocinada e não a humildade convencional, que encobre a presunção recalcada”.

O Espiritismo nos ensina que o progresso intelectual é incessante, permanente e antecede ao progresso moral. É que o desenvolvimento da inteligência, da razão, abre portas para o desenvolvimento moral. Através do livre-arbítrio o ser humano delibera, exercita seu intelecto e cria situações, dilemas, promove conflitos que exigem decisões, definindo assim caminhos e escolhas morais.

Sem inteligência não há razão. E sem raciocínio não há livre-arbítrio. Não dá para pensar em ética, moral e valores sem a existência do livre-arbítrio. Não há o bem, nem o mal. Haveria apenas um ser que age sem consciência moral, ou o que é pior, age imaginando que está agindo com consciência, mas que, na prática, age como um animal, ainda mergulhado no estado natural.

Na verdade, os maiores obstáculos ao pleno desenvolvimento intelecto-moral são o egoísmo e a vaidade. Enquanto o sujeito permanecer bem no alto do pedestal de sua arrogância, não perceberá o quanto ainda tem que aprender. A sensação de superioridade intelectual ofusca a necessidade interna de progresso. É o sabe-tudo, o metido a sabichão, que não percebe o quanto ainda terá de caminhar para ser considerado um homem sábio.

A propósito, o exemplo do grande filósofo grego Sócrates (469 a.C. - 399 acc.) vem bem a calhar. Quando seu amigo Querefonte disse-lhe que para o Oráculo de Delfos, ele era o homem mais sábio de Atenas, mostrou-se surpreso: “Como posso ser o homem mais sábio de Atenas quando sei tão pouco?” Ao invés de se sentir o “special man”, o “number one” e tirar proveito disso, apenas dizia: “só sei que nada sei”. Essa atitude de humildade, oriunda do autoconhecimento, levou o grande filósofo a um permanente questionamento, à incessante busca da verdade, a se colocar sempre à disposição para debater suas ideias.

Deolindo Amorim tem, portanto, toda a razão quando afirma que “quanto mais culta é a criatura humana, mais humilde ela se torna, porque sabe, e não é mais necessário que alguém lhe diga, que o legítimo conhecimento só tem proveito para o espírito quando não se deixa influenciar pela vaidade, pela arrogância, pelo egoísmo”. 

Artigo publicado em setembro/2013 no Jornal Abertura, do ICKS-Instituto Cultural Kardecista de Santos.

 

20 março 2025

"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL" - ALCIONE MORENO

 

"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL"

                         Alcione Moreno - médica, vice-presidente da CEPABrasil membro do CPDoc e do GELP





     Quero partilhar esta obra de Malcom Ferdinand com vocês, pois, apesar de o autor "pensar a partir do mundo caribenho", serve para todos nós que fomos colonizados. A metrópole pode ser Portugal, Espanha, França, Inglaterra, tanto faz, pois a devastação aconteceu e acontece em nossos territórios.

     Malcom Ferdinand nasceu na Martinica -departamento ultramarino insular francês no Caribe - em 1985, é engenheiro ambiental, pesquisador e professor. Por esse livro recebeu o Prix du Livre de la Fondation de l'Ecologie Politique em 2019.                   

05 março 2025

SOBRE HOMENS E MULHERES - Milton R. Medran Moreira

SOBRE HOMENS E MULHERES   -   Milton R. Medran Moreira

     Punido a jogar sem público, por violências praticadas por sua torcida, um dos clubes do Campeonato Brasileiro fez um pedido à Confederação de Futebol: permitir que assistissem a seus jogos apenas mulheres e crianças.

     O pedido foi negado, mas não deixava de ter apreciáveis fundamentos. Afinal, crianças, via de regra, não conhecem a violência que impregna a sociedade, e guardam a ternura na alma. E mulheres são, em geral, menos belicosas e violentas que os homens de cujas truculência e brutalidade têm decorrido as barbáries nos ambientes e entornos futebolísticos.

24 fevereiro 2025

CCEPA SERÁ A SEDE DO VI ENCONTRO NACIONAL DA CEPABRASIL

Nos dias de 01 a 04 de maio próximo, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) sediará o encontro nacional que a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA (CEPABrasil) realiza bienalmente, desta feita em parceria com aquela importante instituição gaúcha e tendo como coordenador da Comissão Organizadora seu diretor Salomão Benchaya.

A abertura do evento será na quinta-feira à noite, dia 1º de maio, com a presença de dirigentes da CEPA, da CEPABrasil, do CCEPA e de representante da Federação Espírita do Rio Grande do Sul. A conferência de abertura estará a cargo de Milton Medran Moreira. Na sexta-feira e no sábado, dias 2 e 3 de maio, várias atividades ocuparão o dia todo, com apresentações de trabalhos, mesa redonda, “workshop”, momentos de arte, sessão de autógrafos, lançamento de livros e a inauguração do Memorial CCEPA, incluindo exposição de parte dos documentos originais de Allan Kardec, pertencentes ao Museu AKOL.  Já estão confirmados como expositores: Adair Ribeiro Jr., Alexandre Cardia Machado, Ana Cláudia Laurindo, Beto Souza, Jacira Jacinto da Silva, Jerri Roberto Almeida, Klycia Fontenele Oliveira, Leandro Carvalho Dias, Luiz Signates, Mauro de Mesquita Spinola, Mônica Fonseca Mendes, Ricardo Morais Nunes, Rafael van Erven Ludolf, Raul Drubich, Reinaldo Di Lucia, Ricardo Andrade Terini, Sérgio Maurício S. Pinto e Wilson Garcia.

No sábado à noite, no próprio local, haverá uma Pizza de Confraternização entre os cerca de 100 participantes esperados de vários Estados do Brasil, do Uruguai e da Argentina. O encerramento ocorrerá no domingo, dia 4 de maio, pela manhã, com a conferência do Prof. Moacir Araújo Lima.

Inscreva-se! Ainda há tempo! As poucas vagas que restam ainda permitem que interessados se inscrevam através dos sites da CEPABrasil e do CCEPA, mediante preenchimento e envio de formulário: https://forms.gle/5NSr8USZPwzg5X8z5  

20 fevereiro 2025

O que é Deus - Alexandre Cardia Machado

 

O que é Deus

 Alexandre Cardia Machado  – 

Presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos e editor do Jornal Abertura.

 

     Esta pergunta nos remete à primeira questão do Livro dos Espíritos: – O que é Deus?

        Sempre que passamos por crises, sejam elas familiares ou sociais, nos perguntamos: por que Deus não me ajuda? Tenho rezado tanto. É uma situação simples, mas repetitiva. Nós humanos gostamos de ser especiais, nosso Deus, nossa vocação ou nosso empenho.

         O espiritismo vem nos trazer uma nova visão de mundo ou falando de outra maneira, nos ensina que existe a predominância das Leis Naturais e não de leis sobrenaturais.

         Mesmo entre os espíritas saber não significa muitas vezes agir de acordo com o que sabemos, nos deixamos levar pelo desejo ou mesmo pela emoção e consequentemente ficamos à espera de uma Graça.

         Voltando à questão número 1 do Livro dos Espíritos a resposta dada pelos Espíritos é: “Deus é a causa primeira de todas as coisas”. Esta resposta tem um significado ontológico, não significa que a cada ato, ou que em cada fato Deus esteja envolvido, ou interferindo. Isto sabemos por que o Espírito é dotado de livre arbítrio.

         Do livreto Doutrina Kardecista – Modelo Conceitual de Jaci Régis extraio “A Teologia cristã exige a presença de um salvador, porque a humanidade é, segundo ela, naturalmente condenada. A transferência da fragilidade humana para deuses sobrenaturais é parte das civilizações.” Ou seja, o pensamento de que algo sobrenatural poderá vir me ajudar perdura por milênios, está na cultura. Somente com esforço intelectual é possível superar isto, esta é uma das metas do Espiritismo, trazer-nos ao uso da razão.

         Isto posto, não significa que estamos abandonados e sem esperança, que nada nem ninguém nos ajudará, sim existem possiblidades de ajuda, somos Espíritos, então o primeiro passo é ajudarmos a nós mesmos. Através do acúmulo de conhecimento, do desenvolvimento dos bons pensamentos e de nos reconhecermos como Espíritos. O segundo passo é formarmos uma psicosfera positiva, nos aproximarmos de pessoas boas e da prática do bem.

         Terceiro passo é que podemos sim pedir ajuda aos bons Espíritos em caso de crises, sejam eles amigos encarnados ou desencarnados. Podemos até pedir a Deus, mas precisamos saber que quem nos atenderá, se isso for possível, serão os nossos Espíritos mais próximos.

         Sabendo que a Lei Natural estará sempre presente e que como diz Jaci Régis no mesmo livreto “A Lei Natural exprime a sabedoria divina, com mecanismos extremamente competentes, estabelecendo o ritmo e a sucessão dos fatores com o fim de equacionar, no universo energético, tanto quanto no universo inteligente, o princípio do equilíbrio, atuando através da lei de causa e efeito ou ação e reação, ferramenta de busca do equilíbrio, através da reciprocidade dos fatores.”

         Do livro Novo Pensar – Deus, Espírito e Mundo também de Jaci Régis, da página 31 extraímos “Um novo pensar sobre Deus começará por deixar de lado o deus Jeová, as afirmativas bíblicas e, de modo geral, as teorias que fazem dele uma pessoa. Simplesmente porque ele não corresponde às mínimas necessidades de um deus universal.”

         “As palavras do louco Nietzsche sobre a morte de Deus não devem ser tomadas como blasfêmias, mas como exclamação maior da decepção com o amor de Deus. O Deus que Nietzsche matou é esse criado à semelhança das pessoas e cultuado, imposto pelas teologias de todos os tempos”.

         Na visão espírita livre - pensadora Deus é uma espécie de arquiteto universal, que atua sobre o mundo físico e espiritual, duas partes do mesmo mundo através das leis naturais.

Nas palavras brilhantes de Jon Aizpúrua em seu livro – Os Fundamentos do Espiritismo: “A Doutrina Espírita coloca como premissa maior a existência de Deus, reconhecendo-o como inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas. Considerando a intuição, e em sintonia com uma correta dedução filosófica que remonta dos efeitos e as forças que o geram, apresenta Deus como a causa necessária e eficiente que permite entender a grandiosidade do Universo e seu harmônico desenvolvimento, desde as minúsculas partículas subatômicas até a imensidão do espaço sideral.”

Postado no Jornal Abertura nº 385 de maio/2022.

05 fevereiro 2025

Refletindo sobre a Espiritualidade - Por Cláudia Régis

         


Cláudia Régis Machado é psicóloga, Vice-Presidente do ICKS, reside em Santos


     Este tema despertou-me maior interesse após o último Congresso Espírita da CEPA em Rosário, na Argentina, e mais ainda quando ouvi o termo, criado por Luc Ferry – Espiritualidade Laica. 

     A noção de espiritualidade tem significados diferentes e depende do contexto em que é utilizada. Para as religiões, é entendida como a perspectiva do ser humano em relação a um ser que é superior. Do ponto de vista filosófico, tem a ver com a oposição entre matéria e espírito ou exterioridade e interioridade. O termo designa ainda a busca do sentido da vida, da esperança e desenvolvimento pessoal.

     Para alguns, a espiritualidade é a conexão com a natureza e com o cosmo, para outros pode ser expressa pela música, pelas artes, meditação, etc. Dentre os vários conceitos de espiritualidade encontrado, sintetizamos no seguinte: É uma propensão humana a buscar para a vida conceitos que transcendem o mais tangível e, que tragam um sentido de conexão com algo maior que si próprio.

     Muitos espíritas pensam espiritualidade ligando ao plano maior, ao plano espiritual. A espiritualidade é considerada “as forças espirituais”, os “movimentos espirituais” que envolvem o ser humano. Também é normal ouvirmos assim: “a espiritualidade está me ajudando”; como se uma força superior, uma energia extrafísica estivesse atuando ao seu redor no seu caminho para lhe ajudar. Ou ainda “Nossa! essa espiritualidade parece estar pesada” uma expressão utilizada pra falar de coisas e acontecimentos que são de ordem espiritual e que estão deixando a pessoa ou o ambiente carregado de energias ruins. Todos esses pensamentos tem um fundo de verdade, no entanto vamos abordá-lo dentro da filosofia espírita, sair desses conceitos e refletir mais sobre o tema.

     A Espiritualidade espírita, dentro do novo pensar da Ciência da Alma, é espiritualidade laica, isto é, sem Deus. Deus da maneira como é entendido pelas religiões, mas o Espiritismo, diferentemente de Luc Ferry, é uma filosofia que defende a existência de Deus. O espiritismo vê a existência de Deus como: “inteligência suprema causa primária de todas as coisas”.

     Jaci postula que “Um novo pensar sobre Deus nos conduz à compreensão de que a dinâmica da vida, em qualquer dos setores em que se manifesta, prima pela criação de ambientes de oportunidade, seleção e superação”.

     A Espiritualidade espírita é baseada na imortalidade dinâmica que abre uma nova significação de espiritualidade sem passar pelo campo da fé. A Espiritualidade na perspectiva espírita laica, traz um arcabouço consistente, atualizado por trazer mudança e fortaleza interior para abrir um estilo de vida e uma visão de mundo amplo e modificador.

     Ferry em seu livro A Revolução do Amor discute a espiritualidade laica, não ligada a Deus, mas ao homem por meio do amor. A espiritualidade baseada no amor. É o homem, saindo de si mesmo e indo em busca do outro. Saindo da sua materialidade, do seu ego. Transcendendo de si mesmo

     Não é um amor idealizado, necessita de pés no chão. A revolução do amor que se instalou em nossas vidas “Eu faço porque eu amo”. Ferry não acredita na imortalidade de alma, e diz: “Mesmo que a nossa existência seja limitada no tempo e no espaço, não muda o fato de que podemos a cada dia que Deus nos dá, estabelecer laços com outrem”. O amor produz sentido em nossas vidas, mobiliza novas formas de sabedorias e de espiritualidade laica.

     Objetivo ou finalidade da Ciência da Alma é desenvolver a Espiritualidade no ser humano. Por espiritualidade nesta visão entendemos o desenvolvimento integrado da alma humana, reconhecendo sua essência sensível e o uso equilibrado dos fatores presentes na vida de relação e consigo mesmo. Nos ensina Jaci Regis que “agora, é necessário que o homem assuma sua natureza espiritual, a sua espiritualidade e desenvolva, no plano da vida terrena, novas formas de relacionamento e revolucione seu projeto de vida, a partir das premissas espirituais dinâmicas”.

     Luc Ferry explica que essa nova “espiritualidade laica”, significa uma concepção de filosofia que atribui ao homem uma tarefa essencial de refletir sobre o que seria uma via boa sem passar por um Deus ou pela fé, mas com os meios disponíveis, os de um ser humano que se sabe mortal, entregue a si mesmo e às exigências de sua lucidez, da razão.

     O problema é que a expressão – espiritualidade - está corrompida na cultura porque sempre foi colocada como oposição a vida corpórea, chamada de “material”. Todavia a espiritualidade não se opõe, mas compõe a vida corpórea, porque nela a alma se exprime na totalidade de suas ansiedades, esperanças e evolução.

     “A alma espiritualizada não desdenha viver as emoções saudáveis da vida corpórea, sem apegar-se a elas porque não pertence aos fatores externos mais a si mesma”. A espiritualidade se exercita e desenvolve no espaço interior de cada um. Não se relaciona com a morte e o além-túmulo pois muitos mortos não são propriamente espiritualizados. Espiritualidade não é do plano espiritual é do aqui e agora com base na filosofia espírita, que vê o homem um ser imortal que tem como objetivo desenvolver-se em toda a sua essência intelectual e moralmente. A prática da nossa espiritualidade é desenvolver estes conceitos na estrutura da pessoa humana. E mostrar que é uma realidade natural, é a sua essência.

      Essa visão espiritual correspondendo a espiritualização da vida será produto do amadurecimento e das pesquisas. Na verdade, será ponto decisivo e moldara o pensamento humano de maneira a transformar relações entre as pessoas.

     Luc Ferry faz uma distinção entre valores espirituais e morais, atribuindo que há muita confusão no setor público como na filosofia. Exemplifica para explicar isto: “ Comporto-me moralmente com os meus vizinhos, parentes e próximos quando tenho respeito e os ajudo; quando reconheço seus direitos imprescritíveis de pensar diferente de mim e mesmo nessa hipótese faço o que posso para tornar-lhes a vida mais suave e fácil”. A vontade agir corretamente de ajudar ativamente os outros - benevolência ou generosidade, bondade, respeito pelo outro mais a preocupação com o outro - aí está a moral comum na qual se encontra idealmente hoje a maioria dos nossos concidadãos. O que não significa que estejam no nível ideal. Continuando, Ferry contrapõe que mesmo tendo valores morais ou não, não deixaríamos de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido nem mesmo ser infeliz no amor. De nos apaixonar por quem nos ama e se entediar ao longo da vida cotidiana atolada em banalidades e à doença. Estas são questões que ele chama de existenciais ou espirituais porque se relacionam com a vida do espírito. Daí chamar de espiritualidade laica. Esses sentimentos não têm nada ver com a moral. Os valores espirituais não se reduzem absolutamente a valores morais.

     A busca da Espiritualidade não deve ser delineada por um roteiro proposto por alguma religião. Acredita que realmente existe longe da religião e da moral, uma espiritualidade sem deus e que essa esfera do pensamento, que ele identifica à mais alta filosofia.

     Para Ciência da Alma a nossa espiritualidade deve ser conduzida para nossas ações, para o nosso comportamento levando-nos a uma vida boa, a uma vida feliz. Se inicia no intelecto e se estende para a vivência. É bom viver a espiritualidade pela janela do Espiritismo. O Espiritismo é uma filosofia que nos oferece uma matriz para vida boa.

      A filosofia espírita nos auxilia e nos ajuda a viver melhor, na medida em que valoriza a vida terrena como oportunidade imprescindível de aperfeiçoamento do espírito.

     Na prática, uma vida boa é quando vivemos com lucidez- A “lucidez” pretendida pelo espiritismo é de tal ordem que a filosofia espírita pretende abolir de vez o conceito de maravilhoso e sobrenatural nas chamadas questões da alma, as quais foram tradicionalmente tratadas pelas religiões sob uma aura de mistério.

     Ser livre em pensamentos, é impossível ser livre em pensamento se estiver bloqueado pelos medos.

     Sem poder estar livre afundamos num egocentrismo que nos torna imediatamente incapazes de amar e de pensar serenamente. “Praticar amizade. Doar-se é a atitude-chave para qualquer programa de vida que pretenda desenvolver os potenciais do Espírito” (Jaci Regis).                 

     A felicidade trazida pelo servir, pode ser mais ampla e duradoura por representar o momento de mais doação, de sair de si mesmo, sem objeto de reciprocidade.

     Capacidade de dar depende do desenvolvimento do caráter da pessoa. Para uma vida boa é importante que o objetivo da vida, para o espírito, seja a plena felicidade. 

     A vida não pode ser boa sem felicidade, autonomia, auto expressão, moralidade e progresso.