15 outubro 2026

CEPA 80 Anos de História - Herivelto Carvalho



                                           

                   

                                                                  Herivelto Carvalho*

                                                                   CEPA 80 ANOS DE HISTÓRIA

Com o enfraquecimento do Espiritismo na Europa e o desaparecimento dos principais periódicos espíritas de língua espanhola, pois antes a Espanha fornecia normalmente revistas, livros e material doutrinário para as instituições e comunidades espíritas da América Latina, um grupo de líderes espíritas argentinos, preocupados com a organização do movimento espírita no Continente Americano, propôs, em 1939, durante o III Congresso Interno da Confederação Espírita Argentina, a criação de uma instituição representativa dos espíritas desse continente, inicialmente denominada de Liga Espiritista Pan-americana.

A deliberação começa a se concretizar, quando em 1940, os argentinos Hugo Nale, Humberto Mariotti e Naum Kreiman passaram a liderar um projeto, com aval da diretoria da Confederação Espírita Argentina. O projeto previa que a fundação da nova entidade representativa seria discutida e executada durante o I Congresso Espírita Pan-americano, que seria realizado em 1943. Essa proposta sugeriu a adoção do nome Federação Espírita das Américas e da sigla FEDA para a nova instituição.

No entanto, devido aos problemas ocasionados pelo decorrer dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, a realização do I Congresso Espírita Pan-americano foi sendo continuamente adiada.  Somente em 1946, após o fim da guerra, foi possível realizar o tão esperado congresso, durante os dias 5 a 13 de outubro, em Buenos Aires, na Argentina, ocasião  que contou com a participação de delegados de diversos países latino-americanos.

Nesse congresso, finalmente, o sonho dos espíritas americanos é concretizado com a fundação da primeira entidade espírita de caráter internacional das Américas, que diferentemente das propostas anteriores, recebeu nome de Confederação Espírita Pan-americana, sendo adotada a sigla CEPA. O Congresso tomou ainda a decisão de adotar a cepa da videira como símbolo da CEPA, a mesma utilizada por Kardec para identificar o espiritismo. Ainda nesse Congresso foi eleito o primeiro presidente da CEPA, o engenheiro argentino José Salvador Fernández.

Adotando em seu estatuto um programa de integração do Espiritismo Latino-americano, dentro de um programa mínimo de objetivos comuns, a CEPA iniciou sua marcha rumo ao progresso das ideias espíritas, através da realização de congressos e conferências periódicas em diversos países do continente. Desde sua fundação, a CEPA promoveu a realização de 22 congressos e 15 conferências regionais. 

Em 2016, setenta anos após sua fundação, durante a realização do XX Congresso Espírita Pan-americano, em Rosário, Argentina, atendendo aos insistentes clamores, principalmente da comunidade espírita da Europa, identificada com o caráter laico e livre-pensador da Doutrina Espírita, a CEPA modificou seus estatutos, transformando-se na CEPA-Associação Espírita Internacional, sendo mantida a sigla original.


APONTAMENTOS HISTÓRICOS DO MOVIMENTO DA CEPA

Herivelto Carvalho

O Período Pan-americano

§  1934

Sediado em Barcelona, o Congresso Internacional Espírita reuniu importantes nomes da América Latina, como os argentinos Manuel Porteiro e Humberto Mariotti, além do cubano Don Salvador Molina. O evento funcionou como um grande catalisador para a integração entre as instituições americanas e deu o pontapé inicial para a realização de encontros regionais.

§  1936

A eclosão da Guerra Civil Espanhola enfraqueceu severamente o movimento espírita no país europeu. Até aquele momento, a Espanha era uma das principais fornecedoras de livros, jornais e conteúdos doutrinários para os grupos espíritas da América Latina.

§  1939

A Confederação Espírita Argentina aprova uma resolução em que defendia patrocinar a criação de uma entidade representativa dos espíritas americanos, preliminarmente denominada de Liga Espiritista Pan-americana.

§  1940

A ocupação nazista em Paris, ocorrida em 14 de junho, culminou no encerramento da Federação Espírita Internacional (FEI), sediada na Maison des Spirites. Como a FEI era o único órgão global que conectava as entidades do continente americano, seu fechamento impulsionou ainda mais o desejo dos espíritas da região de fundarem uma rede de união própria.

A Confederação Espírita Argentina passa a patrocinar um projeto de criação da nova entidade representativa dos espíritas americanos, adotando agora o nome de Federação Espírita da Américas (FEDA).

Nesse contexto, o líder espírita cubano Manuel Garcia Consuegra comunicou ao presidente da FEB, Guillon Ribeiro, que um encontro em Havana havia manifestado o interesse de realizar em Cuba o “Congresso Latino-americano de Espiritistas”, focado na aproximação dos espíritas das Américas.

§  1941

Durante o IV Congresso Espírita Argentino, a Confederação Espírita local estruturou uma comissão responsável por organizar o I Congresso Espírita Pan-americano, projeto que visava dar origem à Federação Espírita das Américas (FEDA).

1946

Em 5 de outubro, durante o primeiro Congresso Espírita Pan-Americano, realizado na cidade de Buenos Aires, Argentina, fui fundada a entidade congregadora dos espíritas pan-americanos com o nome de Confederação Espírita Pan-americana (CEPA). 

§  1948

José Salvador Fernández funda a Sociedad Argentina de Parapsicologia cujos boletins científicos são publicados na revista espírita Constância.

 

§  1949

Em parceria com a Liga Espírita do Brasil, a CEPA promove o II Congresso Espírita Pan-americano. Este evento permitiu uma maior aproximação dos espíritas brasileiros da CEPA e do pensamento espírita livre-pensador.

§  1950

Acolhendo a orientação dada pelo Conselho Federativo Nacional (CFN), a Federação Espírita Brasileira (FEB) formalizou a sua adesão à CEPA.

§  1953

Durante a realização do III Congresso Espírita Pan-americano em Havana, Cuba, a CEPA reafirmou sua postura laica, declarando que o Espiritismo possui natureza estritamente científico-filosófica, desprovida de caráter religioso. Essa definição resultou no afastamento da delegação brasileira em relação à instituição. 

§  1957

José Salvador Fernández funda o Colegio Argentino de Estudios Psiquicos.

§  1958

David Grossvater e outros estudiosos espíritas venezuelanos fundam, em 20 de maio, na cidade de Maracaibo, o Centro de Investigaciones Metapsíquicas y Afines, que posteriormente passa a se chamar Movimiento de Cultura Espírita CIMA.

1972

Ao assumir a presidência da Federação Espírita Internacional, Luis di Cristóforo Postiglioni promoveu uma maior aproximação entre o movimento espírita latino-americano e os grupos espíritas da Europa e de tradição anglo-saxã.

§  1980

Josep Casanovas Llardent e um grupo de espanhóis funda o Centro Barcelonês de Cultura Espírita (CBCE). Cinco anos depois, o CBCE recebe a visita do escritor e conferencista Jon Aizpúrua e do então presidente da CEPA, Hermas Culzoni. A partir daí ampliam suas relações com os espíritas livre-pensadores da América. 


§  1986

Entre os dias 20 e 24 de outubro, a cidade de Foz do Iguaçu (PR) recebeu a X Conferência Regional Espírita da CEPA, evento que marcou a retomada das ações da instituição no Brasil. O encontro contou com nomes de destaque, incluindo o então presidente da FEB, Dr. Francisco Thiesen, além de Divaldo Pereira Franco, José Raul Teixeira, Juvanir Borges de Souza e Altivo Ferreira.

§  1988

Um grupo de jovens pesquisadores funda, em Santos, SP, o Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc Espírita).

§  1989

Jaci Régis cria o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), cuja primeira edição aconteceu em Santos, SP.

§  1993

Jon Aizpúrua, como presidente da CEPA, realiza uma visita ao III SPBE, que acontecia em Santos. Neste evento estreita relações com a diretoria do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre CCEPA, que também participava do evento.

§  1995

O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) efetuou sua filiação oficial à CEPA.

§  1996

Uma expressiva comitiva de representantes brasileiros marcou presença no XVII Congresso Espírita Pan-americano, realizado em Buenos Aires, na Argentina, fortalecendo e expandindo a participação do país dentro da organização.

§  2000

Acontece em Porto Alegre, RS, com o apoio logístico do CCEPA o XVIII Congresso Espírita Pan-americano, que marcou o retorno da CEPA ao Brasil e firmou a postura da instituição na vanguarda da atualização do Espiritismo.

§  2003

Delegados brasileiros da CEPA fundam a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da Confederação Espírita Pan-americana, inicialmente denominada de CEPAmigos e que depois passa a se chamar CEPABrasil.

§  2007

Fundada em Sevilha, Espanha, a Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo (AIPE)

A Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa (ASSEPE) idealiza o Fórum do Livre Pensar Espírita, projeto que posteriormente foi adotado pela CEPABrasil e passou a ser realizado em série, em diferentes cidades brasileiras.

§  2016

Setenta anos após sua fundação, durante a realização do XX Congresso Espírita Pan-americano, em Rosário, Argentina, atendendo aos insistentes clamores, principalmente da comunidade espírita da Europa, a CEPA modificou seus estatutos, transformando-se na CEPA-Associação Espírita Internacional, sendo mantida a sigla original.

 


DA ESPANHA ÀS AMÉRICAS: A TRAJETÓRIA DA TRADIÇÃO ESPÍRITA LIVRE-PENSADORA

 Herivelto Carvalho

Por volta de 1870, Don Justo de Espada, um espanhol oriundo de Málaga, veio tentar a sorte na Argentina, trabalhando em empreendimentos comerciais, na capital Buenos Aires. Trouxe consigo uma carta de recomendação que comprovava sua vasta experiência no ramo, porém, sua maior contribuição ao país que o acolhera, não foi no campo profissional, mas sim no das ideias espiritualistas, pois foi o primeiro divulgador de um movimento que, no dizer de Cosme Mariño, preocupava os intelectuais mais avançados do Velho Mundo: o Espiritismo. Outro espanhol, Angel Aguarod, antigo integrante do Centro Barcelonés de Estudios Psicológicos, se tornou no início do séc. XX, um dos principais divulgadores do Espiritismo na América do Sul. Em Cuba, imigrantes catalães deram início aos primeiros agrupamentos espíritas do país.

Estes exemplos ilustram como a vinda de imigrantes espanhóis foi fundamental para o desenvolvimento do Espiritismo em vários países da América Latina. Além de atuarem como propagandistas da nova doutrina, trouxeram consigo algumas características que eram peculiares do movimento espírita espanhol, dentre elas, uma forte tendência de associação doutrinária com os ideais de livre-pensamento, secularismo e atuação social.

Esse movimento desenvolveu grande unidade e atuação na sociedade espanhola, cuja proposta filosófica se apresentava como a superação das religiões positivas. Esta forma moderna de espiritualismo rechaçava os elementos de dogmatismo existente nas religiões do passado e pretendia desenvolver uma nova espiritualidade racional, capaz de se relacionar com a filosofia e a ciência. Pelas particularidades que o mesmo desenvolveu, formou uma escola de pensamento que tem como atributo principal a interpretação do Espiritismo como um sistema de ideias aberto, progressivo, não-dogmático e relacionado com o livre-pensamento, constituindo, portanto, no sentido filosófico, uma tradição.

Podemos afirmar que o surgimento da tradição espírita livre-pensadora ocorreu, no final do séc. XIX, quando as obras de Allan Kardec se popularizaram na Espanha. Seus expoentes iniciais foram Alverico Perón, Fernandez Colavida, Torres-Solanot e Amália Domingo Soler. Esta tradição adquire características próprias não porque fez um rompimento com o pensamento kardecista, mas sim pelo método de desenvolvimento adotado e pelo modo de atuação no seu contexto social, que se distinguiu do modo como os espíritas franceses praticavam e divulgavam o Espiritismo.

Profundamente organizado e ativo, o movimento espírita espanhol se internacionalizou, influenciando a formação de movimentos espíritas nos países americanos. A Espanha, portanto, se tornou para estes, a principal fornecedora de conteúdo doutrinário, através de periódicos e livros que atravessavam o Atlântico, tornando alguns autores espanhóis muito populares no Novo Mundo. Essa situação fez com que, no final do séc. XIX, a figura da espanhola Amália Domingo Soler se tornasse uma das maiores divulgadoras internacionais do Espiritismo, tendo seus escritos reproduzidos em publicações por toda a América Latina.

Outro exemplo de intercâmbio cultural entre os movimentos espíritas dos dois continentes pode ser notado, durante a realização do Primeiro Congresso Internacional Espírita, em Barcelona, no ano de1888, em que as duas maiores delegações, com exceção da própria Espanha, eram as de Cuba e México, bem como, um dos secretários do evento foi o destacado líder espírita cubano Eulogio Prieto.

Apesar de as ideias de laicidade, livre-pensamento e constante atualização serem praticadas por espíritas latino-americanos e espanhóis, desde as últimas décadas do séc. XIX, com o passar dos anos, no âmbito do movimento espírita pan-americano, o conhecimento acerca desse fato, ficou perdido, a ponto de muitos integrantes desse movimento acreditarem que tais ideais se consolidaram após a fundação da Confederação Espírita Pan-americana em 1946.

Após o resgate e disponibilização virtual de obras clássicas de autores que atuaram como protagonistas no desenvolvimento do Espiritismo pan-americano, realizada com muito zelo pela equipe do projeto PENSE, foi possível uma leitura mais atenta deste material, o que permitiu identificar um grande número de citações e referências a autores espanhóis que se consagraram nas primeiras décadas do movimento espírita daquele país, cujo trabalho apresentava uma ascendência sobre o pensamento dos espíritas latino-americanos. Naum Kreiman, por exemplo, ao falar sobre seu conceito de ciência espírita, cita, diversas vezes, o pensamento de Manuel Sanz Benito, espanhol que, em 1890, publicou importante obra sobre a epistemologia espírita.

Uma análise atenta desse fato confirma que o Espiritismo divulgado e vivido pela CEPA é o desenvolvimento das ideias da tradição espírita livre-pensadora, elaborado durante um intercâmbio cultural, onde o conhecimento espírita produzido nos dois continentes possuía mútua influência. Trata-se de uma escola de pensamento espírita perpetuada e ampliada por pensadores latino-americanos como Mariño, Porteiro, Mariotti, Fernández, Kreiman, Grossvater, Postiglioni, Aizpúrua, dentre outros.

Esse intercâmbio foi crescente e progressivo até os anos 1930, quando a Guerra Civil Espanhola e a perseguição imposta pela ditadura do General Franco destruiu o forte movimento espírita espanhol. A partir desse momento, os espíritas americanos perceberam que estava sob sua responsabilidade, a tarefa de manter vivo o projeto de desenvolvimento do Espiritismo, e que para efetivar esta atividade, seria preciso instituir um movimento integrador para o continente. O resultado dessa percepção culminou com a iniciativa de criação da CEPA.

Os ideais de defesa do caráter progressivo, laico e livre-pensador do Espiritismo bem como o desenvolvimento da Filosofia Espírita e sua atuação em diversos setores da sociedade como a política, a educação, a justiça, etc, tão defendidos na atualidade pelos espíritas cepeanos, podem ser facilmente encontrados na aurora da tradição espírita livre-pensadora.  Em 1890, Sanz Benito, alegava que “nunca o Espiritismo poderá constituir escola, doutrina ou sistema, com afirmações definitivas, pois que sempre deixará amplo campo às investigações e sempre irá ampliando seu curso científico”, dando destaque ao seu caráter progressivo. O próprio Congresso de 1888 se pautou pela manutenção deste mesmo caráter ao buscar efetivar o projeto de Kardec sobre os "congressos orgânicos", que seriam responsáveis pela revisão geral e a adesão de novos princípios. O mesmo evento salientou a característica de laicidade, ao afirmar, no texto de sua declaração final, que era preciso um “esforço constante para difundir o laicismo por todas as esferas da vida”. Alguns anos antes, Colavida, em carta a Albert de Rochas, afirmava essa mesma característica ao declarar que “O espiritismo não é nem cristão, nem muçulmano, nem judeu, etc.”.

Ao longo de sua existência, a tradição espírita livre-pensadora, através das obras de autores clássicos e modernos, contribuiu para o desenvolvimento dos fundamentos e da natureza do Espiritismo. A CEPA ampliou sua participação, nos últimos anos, no Brasil, na Espanha e na França, além de continuar atuante em todo o Continente Americano, e, como uma legítima herdeira dessa tradição, tem a tarefa de manter vivos seus ideais, especialmente, o tão importante caráter progressivo do Espiritismo, considerado por Kardec como a condição essencial para a sua perpetuidade e sobrevivência.

* Herivelto Carvalho é servidor público municipal, membro do CPDoc e delegado da CEPA em Ibatiba ES.