05 março 2026

O mundo entrou na era da falência hídrica global - CARLOS ORLANDO VILLARRAGA BENAVIDES

 



  O mundo entrou na era da falência hídrica global

CARLOS ORLANDO VILLARRAGA BENAVIDES 
Natural de Bogotá, Colômbia,  é formado em Engenharia Química pela Universidade Nacional da Colômbia. Estudioso da Doutrina Espírita desde a infância, morou nos Estados Unidos por sete anos, período dedicado à divulgação do Espiritismo por meio de palestras. Atualmente, reside em São José dos Campos (SP), onde desenvolve, como membro do Centro Espírita Divino Mestre e da Sociedade de Promoção Humana Alex Ivan, trabalhos sociais junto às comunidades carentes da cidade. É autor das obras: Planeta Vida – Contribuição da Doutrina Espírita à conservação do meio ambiente físico e espiritual do Planeta Terra; A Justiça social – Visão Espírita para a ação social e, publicada FEB Editora, Espiritismo e Desenvolvimento Sustentável: caminhos para a sustentabilidade. (Fonte: Autobiografia.)

O abastecimento de água no mundo entrou em uma era de falência, após décadas de uso intensivo e excessivo, poluição, degradação do solo, desmatamento e agravamento pelas temperaturas climáticas. Esse é o cenário preocupante apresentado no relatório Falência hídrica global: vivendo além dos nossos recursos hidrológicos na era pós-crise , lançado em 20 de janeiro de 2026, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH, 2026).

O demonstrativo foi divulgado antes de uma reunião de alto nível em Dacar, no Senegal, ocorrida nos dias 26 e 27 de janeiro. O encontro teve como foco a preparação da Conferência da ONU sobre a Água de 2026, que será realizada nos Emirados Árabes Unidos, na primeira semana de dezembro.

A falência hídrica é o resultado da extração excessiva e persistente de águas superficiais e subterrâneas em volume superior aos fluxos renováveis e aos níveis seguros de depleção. Usando analogias financeiras, o relatório afirma que muitas sociedades não apenas gastaram em excesso sua “renda” anual de água renovável, proveniente de rios, lagos, solos e neve derretida, como também esgotaram suas “reservas” de longo prazo, existentes em aquíferos, geleiras, zonas úmidas e outros reservatórios naturais.

Os dados, as evidências científicas e as estatísticas recentes apresentadas no relatório são contundentes ao tratar da “falência hídrica”, causada principalmente pelas ações e decisões de uma parcela da humanidade. Seus efeitos atingem de forma mais grave as populações vulneráveis, assim como inúmeros outros seres não humanos. Seguem alguns exemplos (UNU-INWEH, 2026):

  • 75% da população mundial residem em países classificados com insegurança hídrica ou insegurança hídrica crítica. Cerca de 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável, e 3,5 bilhões não contam com tratamento de esgoto. Aproximadamente 4 bilhões de pessoas sofrem com grave escassez de água por pelo menos um mês ao ano;
  • mais da metade dos grandes lagos do mundo perdeu volume desde o início da década de 1990, afetando cerca de 25% da humanidade, que depende diretamente desses reservatórios;
  • as águas subterrâneas fornecem atualmente cerca de 50% do consumo doméstico global de água e mais de 40% da água utilizada na irrigação. Isso vincula diretamente a segurança da água potável e a produção de alimentos aos aquíferos, que estão se esgotando rapidamente. Aproximadamente 70% dos principais aquíferos do planeta apresentam tendências de declínio a longo prazo;
  • a extração excessiva de água subterrânea já contribuiu para uma significativa subsidência do solo – movimento relativamente lento de afundamento – em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, o que corresponde a quase 5% da área terrestre global. Estão incluídos mais de 200 mil quilômetros quadrados de zonas urbanas densamente povoadas, onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas;
  • o mundo já perdeu, em diversas regiões, mais de 30% de sua massa glaciar desde 1970, comprometendo a segurança hídrica de longo prazo de centenas de milhões de pessoas que dependem de rios alimentados por geleiras e pelo derretimento da neve para abastecimento, irrigação e geração de energia hidrelétrica;
  • aproximadamente 70% da água doce retirada globalmente é utilizada na agricultura. Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão localizadas em áreas onde o armazenamento total de água – incluindo água superficial, umidade do solo, neve, gelo e água subterrânea – já está diminuindo ou se mostra instável;
  • em muitas bacias hidrográficas, a poluição proveniente de águas residuais não tratadas ou tratadas de forma inadequada, do escoamento agrícola, de efluentes industriais e de mineração, além da salinização, faz com que uma parcela crescente da água não seja mais segura ou economicamente viável para o consumo humano, a produção de alimentos ou a manutenção da vitalidade dos ecossistemas;
  • nas últimas cinco décadas, o mundo perdeu aproximadamente 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais – área quase equivalente à da União Europeia –, incluindo cerca de 177 milhões de hectares de pântanos e brejos interiores.

“A humanidade não está vivendo uma crise hídrica passageira, mas uma falência estrutural provocada por décadas de abuso dos recursos naturais.”

Todos esses dados são extremamente graves e preocupantes, considerando que a água é um elemento fundamental para a vida no planeta Terra. Foi da água que a vida surgiu. Cerca de 70% do corpo de um adulto humano é constituído por esse elemento. A quantidade e a qualidade da água consumida diariamente são fatores decisivos para a saúde humana. Enquanto estivermos encarnados, precisamos consumir água, seja de forma direta ou indireta, por meio dos processos envolvidos na produção de recursos essenciais à vida, como alimentação, moradia, vestuário, locomoção, saúde e saneamento.

Na obra Nosso Lar, o mentor espiritual Lísias, ao comentar a importância que os encarnados atribuem ao tema da água, chama-nos a atenção ao afirmar que “o homem é desatento, há muitos séculos; o mar equilibra-lhe a moradia planetária, o elemento aquoso fornece-lhe o corpo físico, a chuva dá-lhe o pão, o rio organiza-lhe a cidade, a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço; entretanto, ele sempre se julga o absoluto dominador do mundo” (Luiz, 2019, cap. 10). Essa reflexão evidencia a abrangência do uso da água em áreas essenciais da existência humana, às quais, há muito tempo, não temos dedicado a atenção necessária.

Falando a jornalistas em Nova York, Kaveh Madani, diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirmou que, se a humanidade continuar tratando essa falência como uma crise temporária, apostando apenas em soluções de curto prazo, “o dano ecológico tende a se aprofundar, alimentando conflitos sociais”. Ele enfatizou que a falência hídrica é uma questão séria de justiça e segurança globais (ONU, 2026).

“A água, direito humano fundamental, vem sendo apropriada por poucos, enquanto bilhões enfrentam escassez, adoecimento e conflitos.”

A água é um direito humano fundamental. Na questão n. 880 de O livro dos Espíritos, a espiritualidade superior esclarece que “o primeiro de todos os direitos naturais do homem é o de viver. E por isso que ninguém tem o direito de atentar contra a vida do semelhante ou de fazer qualquer coisa que possa comprometer a sua existência corpórea”. Entretanto, a falência hídrica, que compromete a saúde e o bem-estar de bilhões de pessoas, é impulsionada pela ambição de uma pequena elite, que se apropria e abusa dos recursos hídricos em detrimento da coletividade. Esse comportamento tem levado ao aumento de conflitos em diversas regiões do planeta.

“A escassez de água está se tornando um fator de fragilidade, deslocamento e conflito”, afirma o subsecretário-geral da ONU, Tshilidzi Marwala, reitor da Universidade das Nações Unidas (Relatório […], 2026). Os conflitos relacionados à água aumentaram de 20, em 2010, para mais de 400 em 2024. O relatório destaca, por fim, que os governos devem concentrar esforços na “gestão da falência”, prevenindo danos irreversíveis, transformando setores de alto consumo hídrico – como a agricultura e a indústria – e priorizando transições justas para as comunidades vulneráveis. A água é uma questão que transcende fronteiras nacionais.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) – Água Potável e Saneamento – é amplamente reconhecido como um facilitador fundamental para o cumprimento de todos os demais 16 objetivos da Agenda 2030. Ele constitui a base para a saúde, a economia e os ecossistemas funcionais, sendo impossível alcançar o desenvolvimento sustentável sem garantir água e saneamento para todos.

Precisamos reconhecer, com urgência, a importância da água para a vida dos seres humanos e não humanos no planeta Terra. Devemos apoiar ou participar de organizações que atuam nessa área, bem como eleger representantes comprometidos com a gestão responsável da água nos âmbitos municipal, estadual e federal, para a criação de leis que a preservem e a protejam em favor do bem comum. Assim, contribuiremos para a construção das bases do mundo de regeneração.

Cuidar da água é cuidar da vida. Como você está cuidando dela?

Água é sinônimo de vida!

“Cuidar da água deixou de ser uma escolha ambiental e passou a ser uma exigência ética, social e espiritual.”

Referências

KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: FEB, 2019. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/WEB-Livro-dos-Esp%C3%ADritos-Guillon-1.pdf. Acesso em: 30 jun. 2026.LUIZ, André (Espírito). Nosso Lar. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB, 2019. (Coleção A Vida no Mundo Espiritual, 1)

Publicado no Jornal Folha Espírita, edição de fevereiro/2026.

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