20 fevereiro 2026

A Concepção Espírita de Fatalidade - Silvio e Silvia Seno Chibeni

 A Concepção Espírita de Fatalidade -  Silvio e Silvia Seno Chibeni

1. Introdução

No capítulo “Da lei de liberdade” de O Livro dos Espíritos Allan Kardec analisou com lucidez diversas questões relativas à fatalidade, dedicando-lhes uma seção inteira. Neste artigo pretendemos expor brevemente a concepção espírita de fatalidade, estabelecida naquela seção e em obras complementares.

Ao iniciar qualquer estudo, é sempre conveniente ter clareza quanto ao significado preciso dos termos envolvidos. Consultando o dicionário, verificamos que fatalidade é a marca do que é fatal, a força que predispõe irrevogavelmente os acontecimentos, o destino. Fatal é aquilo que é certo, prescrito pelo destino, irrevogável, que necessariamente acontecerá, inevitável, decisivo, inadiável, funesto, nefasto.

As duas últimas acepções do adjetivo fatal indicam algo de caráter negativo. Na concepção vulgar, esse aspecto mistura-se às primeiras acepções, resultando daí a ideia de que a fatalidade é a ocorrência inevitável de alguma coisa ruim. Essa associação da predeterminação com algo trágico, nefasto, porém, não é necessária. Em um sentido geral, a noção de fatalidade é neutra quanto à natureza boa ou má dos acontecimentos. Ao inspecionarmos a seção sobre a fatalidade de O Livro dos Espíritos verificamos facilmente que é esta noção geral, neutra, que está sendo ali estudada; é, portanto, a que nos interessará neste trabalho também.

Como o próprio termo indica, dizer que um fato está predeterminado é afirmar que sua ocorrência é determinada de maneira certa pelo estado de coisas que a antecede. A noção de predeterminação pressupõe a existência de uma como que “amarração” entre os acontecimentos: uns levariam a outros infalivelmente.

Quando consideramos os acontecimentos do mundo de um modo geral, são concebíveis três possibilidades: 1) todos estariam predeterminados (determinismo); 2) nenhum estaria predeterminado (aleatoriedade); e, 3) apenas alguns estariam predeterminados. Conforme veremos, é esta última posição, intermediária entre os dois extremos, que é aceita pela ciência contemporânea e pelo Espiritismo.

Ao formular a pergunta 851 de O Livro dos Espíritos, que abre a seção sobre a fatalidade, Kardec esclarece que entende a fatalidade como a predeterminação completa dos acontecimentos. Ao longo da seção, são expostos os motivos pelos quais não pode existir a fatalidade nesse sentido extremo, de uma predeterminação de tudo quanto ocorre. São também indicadas as circunstâncias especiais em que pode haver um certo tipo de predeterminação dos acontecimentos. A compreensão satisfatória desses pontos requer a análise de vários conceitos filosóficos, como o de determinismo, o de livre-arbítrio, o de causalidade etc. É o que procuraremos fazer a seguir, de forma bastante simplificada.

2. Determinismo e livre-arbítrio

A tese filosófica do determinismo, discutida há milênios pelos filósofos, sustenta que tudo o que acontece está predeterminado, podendo em princípio ser previsto por quem possua conhecimento completo do mundo em um dado instante. O Universo seria comparável a uma imensa máquina em funcionamento automático e infalível.

No exame das questões relativas ao determinismo é de suma importância, quer do ponto de vista filosófico, quer espírita, distinguir os acontecimentos do âmbito exclusivo da matéria daqueles que envolvem seres de natureza espiritual.

Muitos filósofos e cientistas de épocas passadas sustentaram que a matéria comporta-se de forma completamente determinista. Com a criação da ciência moderna, nos séculos XVI e XVII, essa posição ganhou força, visto que as novas teorias mecânicas, que culminaram na monumental síntese newtoniana, incorporam o determinismo em suas equações fundamentais.

Com o ulterior desenvolvimento da ciência a crença no determinismo enraizou-se. No final do século XIX e início do século atual, a formulação do eletromagnetismo, da mecânica estatística e das teorias da relatividade dentro desse mesmo referencial conceitual foi frequentemente interpretada como sua consolidação definitiva.

No entanto, essa visão de mundo suscitou dificuldades filosóficas de grande monta, quanto à sua compatibilização com o livre-arbítrio humano. Com efeito, a experiência psicológica da liberdade de nossos pensamentos e ações é algo indubitável. Mas essa experiência parece conflitar com o determinismo da matéria, qualquer que seja a concepção acerca da natureza humana. É interessante notar que, com seu senso filosófico apurado, Allan Kardec abre a referida seção sobre a fatalidade precisamente com uma questão sobre o conflito entre fatalidade plena e livre-arbítrio.

Na perspectiva materialista, tudo no homem seria matéria. Ele estaria, pois, sujeito ao mesmo determinismo que existe no movimento dos astros, na queda de uma pedra, no movimento de um relógio. Como conciliar isso com o fato de sentirmos, com toda a clareza de que é capaz o nosso entendimento, que levantamos ou abaixamos o braço, andamos para a esquerda ou a direita, dizemos isso ou aquilo, com inteira liberdade?

Dificuldade semelhante surge na visão dualista, segundo a qual o homem é um espírito ligado a um corpo. Se o corpo, que é matéria, tiver seus mínimos movimentos predeterminados, como poderá o espírito atuar livremente sobre ele, fazendo-o executar essa ou aquela ação?

Os esforços dos filósofos para solucionar o problema não alcançaram qualquer êxito. Felizmente, porém, ele tornou-se amplamente irrelevante com o advento da mecânica quântica, na década de 1920. Essa teoria descreve a estrutura íntima da matéria, e representa a mais abrangente, precisa e bem sucedida teoria científica de todos os tempos. Pois bem: ao contrário das demais teorias físicas, a mecânica quântica não prevê um comportamento totalmente determinista para a matéria. Além disso, sofisticados estudos teóricos e experimentais recentes indicaram que qualquer tentativa de reinstalar teorias deterministas na microfísica encontrará necessariamente dificuldades proibitivas.

Tais avanços da ciência parecem haver renovado o referencial conceitual no qual o problema do livre-arbítrio humano deve ser analisado. As perspectivas de se conceber o ser humano como um espírito livre que atua sobre um corpo material desbloquearam-se. Deve-se, todavia, notar que ainda quase nada foi feito nesse sentido nos círculos acadêmicos.{nota 2}

O Espiritismo, porém, há muito tempo estabeleceu essa concepção, por meio de suas investigações científicas dos fenômenos espíritas. Confirmou a visão dualista que situa o pensamento, a vontade e o sentimento do homem num espírito independente da matéria. Mostrou também que esse espírito antecede e sobrevive ao corpo. De acordo com os últimos avanços da ciência, o comando do corpo pelo espírito é perfeitamente compatível com as leis que regulam o comportamento da matéria, já que estas contemplam a existência de processos indeterministas no nível dos constituintes fundamentais dos corpos, como prótons, nêutrons, elétrons etc.

3. Fatalidade e relação de causa e efeito

Estudemos um pouco mais a questão da predeterminação dos acontecimentos do domínio exclusivo da matéria. Segundo a ciência contemporânea, muitos desses acontecimentos de fato são predeterminados. Os movimentos dos orbes celestes, a queda de uma maçã, a propagação de uma onda de rádio constituem exemplos típicos. Especificada a altura da qual a maçã cai, sua forma, a viscosidade do ar, a força gravitacional que sobre ela exerce a Terra etc., as leis da mecânica permitem em princípio o cálculo do tempo de queda e a velocidade que terá ao atingir o solo, entre outras coisas.

Se quisermos, podemos caracterizar esses eventos previstos como efeitos, e a força gravitacional e as condições iniciais da maçã como causas. Dadas as causas, seguem-se os efeitos de modo certo. Isso faz ver que a fatalidade parcial que existe no mundo material está ligada à existência de certas relações causais.

Conforme apontamos na seção anterior, a física contemporânea reconhece que, mesmo no âmbito puramente material, há processos indeterministas, que não seguem esse padrão de previsibilidade estrita. Nesses casos, as noções de causa e efeito continuam aplicáveis, embora em sentido ampliado: as causas não determinam os efeitos individualmente, mas apenas as probabilidades de sua ocorrência.

Ao considerarmos os eventos em que participam seres humanos, fatores novos intervêm, devido à presença do elemento espiritual dotado de livre-arbítrio. Esses eventos em geral também não são passíveis de uma descrição determinista.

Todavia, enquanto encarnados estamos em associação estreita com a matéria, sendo possível que o encadeamento estrito de alguns eventos materiais nos afete de modo direto ou indireto. Por exemplo, vários processos físicos, químicos e biológicos do corpo humano são, em boa aproximação, deterministas. A passagem de uma corrente elétrica intensa através do corpo provoca choques; a ingestão de determinada porção de uma substância venenosa causa a morte; doses apropriadas de radiação gama destroem tumores, enquanto que doses muito elevadas os ocasionam; a transpiração resfria a pele; e assim por diante.

Desse modo, na medida em que participamos do mundo material há certos acontecimentos que se podem dizer predeterminados em nossas vidas. O que os predetermina, porém, são leis físicas, químicas, biológicas, na presença de certas causas.

É indispensável observar que muitas dessas causas decorrem, a seu turno, de ações que livremente praticamos. No caso da ingestão do veneno, por exemplo, pode-se dizer que a pessoa fatalmente morrerá. A predeterminação da morte, todavia, é condicionada à prévia ingestão da substância tóxica, o que em geral depende da livre decisão de alguém. A morte não está predeterminada em termos absolutos: se o veneno não for ingerido, ou se for administrado um antídoto eficaz, ela não advirá.

Tudo isso é do escopo das ciências acadêmicas. O Espiritismo complementa-as de forma substancial, fornecendo o conhecimento de inúmeros e importantes outros vínculos causais entre os acontecimentos. Por sua própria concepção, tais ciências restringem sua análise ao aspecto material do ser humano. Não podem, assim, acompanhar os efeitos das ações humanas além da morte corporal, nem identificar causas e efeitos de natureza espiritual, presentes, por exemplo, em fenômenos mediúnicos, obsessivos e anímicos. Foi a ciência espírita que, pioneiramente, adentrou esse estudo utilizando-se de metodologia racional-experimental.

É nesse sentido que muitos autores espíritas costumam referir-se à chamada lei de causa e efeito, ou de ação e reação, que regula as ocorrências da vida, em um sentido amplo, englobando os eventos referentes ao ser espiritual. A lei de causalidade restrita ao domínio da matéria, que as ciências ordinárias estudam, pode ser entendida como caso especial dessa lei mais ampla.

4. Livre-arbítrio e relação de causa e efeito

Cada evento tem uma causa, em geral bastante complexa, envolvendo múltiplos eventos anteriores, próximos ou remotos no espaço e no tempo. Todos esses fatores têm de estar presentes para que o acontecimento se verifique. Voltando ao exemplo da maçã, para ela cair em tantos segundos e com tal velocidade uma série de condições têm de ser satisfeitas: força de atração, desprendimento da macieira, ar com uma certa viscosidade etc. É o conjunto dessas condições que, mais apropriadamente, se deve entender como a causa da queda, embora nas situações ordinárias se fixe a atenção em apenas algumas delas, por conveniência ou dificuldade de conhecê-las todas. A pergunta “Por que a maçã caiu desse modo?” pede a especificação de uma causa. Dependendo do interesse, a resposta enfocará um determinado componente da causa total: um dirá que foi porque a Terra a atraiu; outro, que foi porque se soltou do galho; outro ainda porque ventou forte, todos podendo estar certos.

Os acontecimentos de que diretamente participamos são passíveis de análise semelhante, ou seja, podemos investigar suas causas gerais ou particulares. Meu dedo se queimou porque o encostei numa uma panela quente; meu ritmo cardíaco aumentou agora porque acabo de correr; fiquei sonolento esta tarde porque me alimentei excessivamente no almoço. Nessas respostas, apenas os fatores mais salientes das causas foram apontados. As causas são, nesses casos, mais ou menos próximas no tempo, e dependem de escolhas que livremente fizemos: pegar a panela sem luvas, correr ao invés de andar, comer demais.

O Espiritismo mostra-nos que se as causas dos acontecimentos mais importantes de nossas vidas, felizes ou dolorosos, não puderem ser localizadas na vida presente, certamente existirão em passado anterior ao nosso renascimento. Os efeitos de nossos atos, conformes ou contrários à lei que vela pela harmonia do Universo, podem ser imediatos ou ocorrer em futuro mais ou menos distante. É isso, incidentalmente, que possibilita entender muitas das disparidades nas condições físicas, sociais etc., dos seres humanos dentro do quadro da justiça divina. Cada pessoa encontra-se num contexto parcialmente determinado pelo conjunto de suas ações desta vida, das vidas anteriores e dos períodos na erraticidade, sempre levadas em conta suas necessidades expiatórias, provacionais e de aprendizado de um modo geral.

A possibilidade de interferirmos no curso dos acontecimentos, agravando ou atenuando os efeitos ruins, promovendo ou embaraçando os efeitos bons, encontra-se claramente expressa na questão 860 de O Livro dos Espíritos, que agora transcrevemos em parte: 

Pode o homem, pela sua vontade e por seus atos, fazer que se não deem acontecimentos que deveriam verificar-se e reciprocamente?

“Pode-o, se essa aparente mudança na ordem dos acontecimentos tiver cabimento na sequência da vida que ele escolheu. […]”

Todas as nossas ações, por insignificantes que sejam, fazem-se acompanhar de certos efeitos, que se vão superpondo uns aos outros. Em cada momento, vivemos em meio a esse conjunto de efeitos. A importância prática de adquirirmos conhecimento acerca das leis que regem a matéria e o espírito reside em que, sabendo melhor quais serão os efeitos daquilo que fizermos, poderemos agir de modo a criar situações que nos aproximem da felicidade. Somos, por assim dizer, os construtores de nossos próprios destinos.

5. Programação da existência corporal

Boa parte das questões que formam a seção sobre a fatalidade de O Livro dos Espíritos referem-se direta ou indiretamente à questão da programação da existência corporal. Essa programação enquadra-se no princípio geral que estamos analisando. Na medida em que o ser amadurece espiritualmente, tornando-se mais consciente, poderá avaliar por si próprio as principais ações praticadas e, no estado de erraticidade, planificar certos aspectos de sua futura encarnação, frequentemente auxiliado por Espíritos amigos. Assim é que, por exemplo, seu corpo, seu meio social, os componentes de seu grupo familiar poderão, em certa medida, ser objeto de escolha, com vistas às suas necessidades evolutivas.

Levando, porém, em conta que entre a época da programação e a da ocorrência programada os seres envolvidos continuarão agindo, criando novos efeitos que se juntarão aos anteriores, o fato poderá ser parcialmente alterado. Conforme assinala Allan Kardec no item 872, os detalhes dos acontecimentos dependem de circunstâncias que o próprio homem encarnado cria pelos seus atos.

Na resposta à questão 861 encontramos uma importante distinção, quanto à fatalidade, entre os acontecimentos materiais e os de ordem moral (espiritual):

“Demais, sempre confundis duas coisas muito distintas: os sucessos materiais da vida e os atos da vida moral. Se há, às vezes, fatalidade, é nos acontecimentos materiais cuja causa reside fora de vós e que independem da vossa vontade. Quanto aos atos da vida moral, esses emanam sempre do próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a liberdade de escolher. No tocante, pois, a esses atos, nunca há fatalidade.”

Podemos entender melhor esse ponto se considerarmos o fato, anteriormente apontado, de que somente a matéria, por ser inanimada e passiva, pode estar sujeita a um preordenamento preciso. Já os nossos atos, estes subordinam-se em cada instante à nossa vontade livre. Assim, um corpo malformado ou perfeito, uma doença grave ou sua cura, uma queda mortal, poderão ser fatais, no sentido mais estrito do termo. Mas um assassinato, uma difamação, uma reconciliação, uma doação caritativa nunca serão fatais. Note-se que isso vale para todas as partes envolvidas, mesmo as que ocupam a posição de vítimas. Ninguém pode renascer para ser alvo de difamação ou assassinato, porque isso exigiria que alguém renascesse para difamar ou assassinar, o que é claramente absurdo.

É por isso que a resposta da questão 851 adverte que a fatalidade só pode existir com relação às provas físicas (como certas doenças e acidentes que se não conseguem evitar), nunca porém com relação às provas morais (como as traições, os desgostos com o comportamento de entes queridos, as humilhações).

6. Previsão do futuro

O problema controverso da previsão do futuro também se elucida quando se compreendem corretamente as leis que correlacionam os eventos de nossas vidas. O futuro será, em princípio, previsível somente na medida em que se tenha acesso completo e seguro às causas dos eventos, e as leis que os correlacionem forem de tipo determinista. Dissemos em princípio porque, mesmo conhecendo completamente as causas e sendo as leis deterministas, faz-se ainda mister efetuar as deduções dos efeitos, o que em geral está fora de nossa capacidade prática.

Ora, no que toca aos acontecimentos não-triviais das vidas dos homens, ordinariamente nenhuma dessas três condições é satisfeita. Não conhecemos a totalidade das causas; não há encadeamento determinista dos eventos (devido à presença do livre-arbítrio); e, mesmo que houvesse, não seríamos efetivamente capazes de deduzir os efeitos das causas, dada a complexidade extrema das situações típicas.

Disso se conclui que, a não ser em condições muito especiais e limitadas, dentro do domínio exclusivamente material, o futuro é indeterminado e imprevisível. (Para maiores detalhes sobre esse assunto, consulte-se Chagas 1996.)

7. Aspectos morais

Com o esclarecimento racional fornecido pelo Espiritismo, as questões da fatalidade e do destino perdem o caráter místico com que frequentemente são revestidas. Nada do que nos sucede é questão de sorteou azar. Vemos que são quiméricas as ideias de que ocorrências de nossas vidas são influenciadas pelos astros, pelos nomes, pelos números e outros fatores externos semelhantes, que não encontram lugar na lei de causa e efeito e na justiça divina.

O mal que nos acontece, acontece na hora certa, na medida certa, porém como consequência de ações más livremente praticadas, nesta vida ou em vidas anteriores. Igualmente, as situações felizes que vivemos não são obra de puro acaso, mas foram preparadas por nós mesmos quando agimos de acordo com as recomendações evangélicas, ou seja, quando fazemos o bem.

Não há um destino transcendente, que nos arraste em seu turbilhão, independentemente do que sejamos ou façamos.{nota 5} O destino que existe é aquele que nós mesmos construímos, e que podemos ir modificando a cada momento, no quadro das leis naturais que regem o mundo. Esse ponto é expresso de forma muito feliz por Emmanuel no capítulo “Fatalidade e livre-arbítrio” do livro Nascer e Renascer, do qual destacamos os seguintes trechos:

É por isso que fatalidade e livre-arbítrio coexistem nos mínimos ângulos de nossa jornada planetária.

Geramos causas de dor ou alegria, de saúde ou enfermidade em vários momentos de nossa vida.

O mapa de regeneração volta conosco ao mundo, consoante as responsabilidades por nós mesmos assumidas no pretérito remoto e próximo; contudo o modo pelo qual nos desvencilhamos dos efeitos de nossas próprias obras facilita ou dificulta a nossa marcha redentora na estrada que o mundo oferece.

Importa notar ainda que as leis naturais, ou divinas, têm por objetivo último o bem da criatura. É fácil perceber, por exemplo, que as dores físicas consequentes a algumas de nossas ações visam à preservação de nosso corpo. Assim, se não sentíssemos dor ao tocar um objeto quente, não o soltaríamos imediatamente, resultando daí lesões graves em nossa mão. De igual modo, as dores morais, e mesmo certas dores físicas sem causa imediata, objetivam à nossa educação espiritual. Ajudam-nos a ver que, com nossas ações, interferimos indebitamente na harmonia do Universo, violando as leis de amor que nos devem guiar o comportamento frente aos homens e demais seres da criação.

Consideremos um exemplo: uma pessoa resolve embriagar-se e, nesse estado, põe-se a dirigir um veículo. Em seu percurso, atropela um pedestre, ferindo-o gravemente. O motorista contrai, nesse instante, um débito para com a lei divina, que lhe será causa de sofrimentos futuros. Cedo ou tarde enfrentará as consequências dolorosas de seu ato, tendo ainda que reparar o mal causado ao seu próximo. Mas como Deus não é apenas a suprema justiça, mas também a suprema bondade, o devedor não precisará pagar sua dívida com a mesma “moeda”; poderá, por vontade própria, resolver saldá-la com amor. Eis porque o apóstolo afirmou: “O amor cobre a multidão de pecados” (I Pedro 4: 8), contrapondo-se ao ditado de que “quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

Para o pedestre, a ocorrência possivelmente representará o efeito de uma dívida anteriormente contraída, de um erro cometido no passado próximo ou distante. Terá sido uma forma bastante dura de aprender e resgatar, determinada pelas necessidades do seu caso particular. Em outros casos, o aprendizado e a expiação de erros semelhantes podem ser alcançados por processos mais brandos, menos dolorosos.

A lei pode ser flexibilizada, porque seu objetivo é sempre educar, nunca punir. Se a criatura já aprendeu a lição, reparou seu erro e está exercendo o amor, não mais precisa continuar sofrendo. Sobre esse ponto, é oportuna a leitura da seção “Código penal da vida futura”, do capítulo 7 da primeira parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec. Vejamos estes trechos:

16o. O arrependimento é o primeiro passo para a melhora; mas só isso não basta, sendo ainda precisas a expiação e a reparação.

Arrependimentoexpiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, ao dar esperança e preparar os caminhos da reabilitação. Contudo, somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça, e não uma anulação.

17o. O arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em qualquer momento; se tardar, o culpado sofrerá por mais tempo.

A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a consequência da falta cometida, verificando-se quer já na vida presente, quer após a morte, na vida espiritual, ou ainda numa nova existência corporal, até que os traços da falta sejam apagados.

A reparação consiste em fazer o bem a quem se haja feito o mal. […]

A possibilidade do abrandamento das consequências dolorosas de nossas ações pelos esforços que façamos nesse sentido é ilustrada em conhecido episódio narrado por Hilário Silva no livro A Vida Escreve(cap. 20, “O merecimento”):

Saturnino Pereira sofre um acidente na fábrica onde trabalha, vindo a perder o polegar direito. Seus colegas e amigos comentam a injustiça da ocorrência, dada a grande dedicação de Saturnino ao bem de todos. Comparecendo à reunião mediúnica em que colabora regularmente, um benfeitor espiritual espontaneamente lhe esclarece que, em existência anterior, foi poderoso sitiante que, num momento de crueldade, puniu barbaramente um pobre escravo, moendo-lhe o braço direito no engenho. Com o despertar de sua consciência, atrozes remorsos torturaram-no no além-túmulo. Deliberou então impor-se rigoroso aprendizado, programando um acidente para a futura encarnação, no qual perderia o braço. No entanto, sua renovação para o bem, testemunhada por suas ações, possibilitou que o acidente apenas lhe ocasionasse a perda de um dedo.

Notas

Algumas ideias deste texto foram motivadas por palestra proferida por José Carlos Angelo Cintra no âmbito da II Semana Espírita da Unicamp, promovida pelo Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp, em outubro de 1995. 

Algumas propostas têm-se difundido nos círculos leigos, misturando referências esparsas à física contemporânea com ideias religiosas, místicas etc. No entanto, uma análise autorizada e isenta revela que são prematuras e pouco rigorosas. O que estamos afirmando no texto não deve ser entendido como uma aprovação, ou mesmo um incentivo a trabalhos dessa natureza. Estamos apenas salientando que a visão da matéria fornecida pela ciência de hoje não representa mais um obstáculo à concepção espírita do homem como um ser dotado de livre-arbítrio. Sobre esse ponto, ver os artigos Xavier Jr. 1995, Chagas 1995 e Chibeni 1984. 

Sobre a ciência espírita e suas relações com a ciência acadêmica, consultem-se Borges de Souza 1986, Chagas 1984, 1987 e 1994, Chibeni 1988, 1991 e 1994, bem como os trabalhos citados na nota 2.

Nesta e demais citações de obras de Allan Kardec, utilizamos os textos originais, aproveitando em grande parte as traduções publicadas pela Federação Espírita Brasileira. 

Diante de certas ocorrências trágicas, é comum ouvir-se dizer que “tinham que acontecer”, que “estavam escritas”. Essa opinião, que o Espiritismo mostra incorreta quando generalizada, é analisada de forma interessante em Simonetti 1996.

Referências

  • BORGES DE SOUZA, J. “Pesquisas e métodos”, Reformador, abril de 1986, pp. 99-101.
  • CHAGAS, A. P. “O que é a ciência”, Reformador, março de 1984, pp. 80-83 e 93-95.
  • —–. “As provas científicas”, Reformador, agosto de 1987, pp. 232-33.
  • —–. “A Ciência confirma o Espiritismo?” Reformador, julho de 1995, pp. 208-11.
  • —–. “O Espiritismo na Academia?” Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro de 1994, pp. 20-22 e março de 1994, p. 41-43.
  • —–. Sobre a previsão do futuro. Revista Internacional de Espiritismo, maio de 1996, pp. 124-25.
  • CHIBENI, S.S. “Espiritismo e ciência”, Reformador, maio de 1984, pp. 144-47 e 157-59.
  • —–. “A excelência metodológica do Espiritismo”, Reformador, novembro de 1988, pp. 328-33, e dezembro de 1988, pp. 373-78.
  • —–. “Ciência espírita”, Revista Internacional de Espiritismo, março de 1991, pp. 45-52.
  • —–. “O paradigma espírita”, Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.
  • EMMANUEL. “Fatalidade e livre-arbítrio” (Psicografia de F. C. Xavier.). In: Nascer e Renascer. São Bernardo do Campo, GEEM, 1982.
  • KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 64a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.
  • —–.Le Ciel et l’Enfer. Farciennes, Editions de l’Union Spirite, 1951. O Céu e o Inferno. Trad. Manuel Quintão, 28a ed., Rio de Janeiro, Federação Espíria Brasileira, s.d.
  • SILVA, H. A Vida Escreve. (Psicografia de F. C. Xavier e Waldo Vieira.) 5a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1960.
  • SIMONETTI, R. “Tinha que acontecer?”, Reformador, maio de 1996, pp. 138-39.
  • XAVIER JR., A. L. “Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-Ciência”, Reformador, agosto de 1995, pp. 244-46.

Artigo publicado em Reformador de junho de 1997, pp. 176-180.

05 fevereiro 2026

CONSCIÊNCIA & INCONSCIÊNCIA, por Wilson Garcia

 


Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires

Antonio Damasio: a consciência como produto do

corpo — ciência, limites e diálogo com o Espiritismo

Na entrevista concedida ao El País por ocasião do lançamento de Inteligência Natural e a Lógica da Consciência, o neurocientista português Antonio Damasio reafirma e aprofunda sua tese central: a consciência não nasce de uma mente abstrata separada do corpo, mas de um processo biológico integrado em que cérebro, sistema nervoso e corpo inteiro atuam como um circuito contínuo.

Ao longo de três décadas, desde O Erro de Descartes (1994), Damasio vem atacando o dualismo cartesiano — a separação entre mente e corpo — propondo um monismo biológico: a mente é atividade do organismo vivo; a consciência emerge da autorregulação corporal e das sensações internas (homeostáticas).

Seu novo passo teórico reposiciona a origem da consciência, deslocando o foco do córtex cerebral para estruturas mais primitivas do sistema nervoso, em especial o tronco encefálico, onde se processam os sinais de interocepção — percepções internas do estado do corpo — que dão origem aos sentimentos básicos: dor, prazer, fome, sede, conforto, mal-estar.

Damasio propõe uma inversão do senso comum: “Não sentimos porque somos conscientes; somos conscientes porque sentimos.”

Ou seja, os sentimentos precedem a consciência, constituindo sua matéria-prima fundamental. A consciência seria um sistema de “sentinelas” biológicas que monitoram continuamente o estado da vida corporal, permitindo ao organismo reconhecer-se como uma unidade individual em ação no mundo.

Consciência: não como abstração, mas como biologia vivente

Segundo o neurocientista, não existe consciência sem sistema nervoso. Por isso:

·                Plantas e bactérias não são conscientes, ainda que vivas e complexas;

·                Animais com sistemas nervosos são conscientes, embora em graus distintos de elaboração;

·                A consciência humana decorre não apenas da complexidade neuronal, mas também de nossa vida social, baseada em empatia, detectação da vulnerabilidade alheia e relações simbólicas.

Essa concepção reforça o deslocamento contemporâneo da neurociência: da ideia de uma consciência puramente cortical — centrada na racionalidade abstrata — para uma consciência afetiva, orgânica e encarnada.

Inteligência Artigficial: potência instrumental, não consciência humana

Um ponto forte da entrevista é a reflexão de Damasio sobre a possibilidade de consciência artificial. Ele abandona sua posição anterior — totalmente cética — para assumir uma visão mais cautelosa: poderia surgir algum tipo de consciência artificial, mas não comparável à humana.

O motivo do limite é fundamental: sistemas artificiais não estão vivos, não possuem corpo vulnerável, nem inserção social orgânica. Sentir implica carne, dor, prazer e risco existencial — experiências inexistentes em máquinas.

Assim, embora a IA possa resolver problemas complexos superiores aos humanos (ex.: AlphaFold), isso não implica subjetividade, mas apenas potência computacional. Para Damasio, a inteligência artificial nasce da inteligência natural: os próprios neurônios mielinizados — responsáveis pelo processamento “digital” humano — inspiraram os sistemas computacionais.

A consciência genuína permaneceria atrelada a organismos biológicos vulneráveis, integrados numa teia emocional e social.

Tratamento de estados alterados de consciência

Os avanços de Damasio têm reflexos clínicos: ao reconhecer o papel central do tronco encefálico e da interocepção na consciência, abre-se uma nova via para compreender e tratar casos de:

·       Coma

  • Estados vegetativos

·       Distúrbios graves da percepção corporal

Em vez de focar exclusivamente no córtex — tradicional alvo da neurologia cognitiva —, a pesquisa volta-se para sistemas mais primários, responsáveis pela manutenção da sensação de existência.

A síntese atual da posição de Damasio

Podemos resumir sua tese contemporânea em quatro eixos fundamentais:

1.     Consciência nasce dos sentimentos corporais, não da abstração racional.

  1. O cérebro consciente é um órgão de regulação vital, não um epifenômeno metafísico.
  2. Sem corpo vivo não há consciência, o que afasta uma eventual equivalência homem-máquina.
  3. A vida social e a empatia ampliam a consciência humana, distinguindo-nos qualitativamente dos sistemas artificiais.
Confronto crítico com o Espiritismo

Quando colocadas em diálogo com o 
Espiritismo, as ideias de Damasio revelam tanto convergências parciais quanto tensões profundas.

Convergências

Centralidade do sentimento

O Espiritismo afirma que a consciência moral nasce da sensibilidade espiritual. Kardec escreve: “O sentimento precede a razão.” (O Livro dos Espíritos, q. 117). Isso converge com a ideia de Damasio de que sentir é anterior ao pensar.

Caráter progressivo da consciência

Para o Espiritismo, a consciência evolui em graus; a inteligência e a percepção moral ampliam-se lentamente através das experiências encarnatórias. Em Damasio, vemos eco dessa visão gradualista ao reconhecer:

o   Consciência em graus nos animais;

 

o   Desenvolvimento dependente da complexidade dos sistemas biológicos e sociais.

Integração mente–corpo

Kardec rejeita o dualismo simplista que opõe matéria e espírito como substâncias antagônicas. O Espírito age por meio do corpo, através do perispírito, intermediário da percepção. Damasio, ainda que materialista, também rejeita o dualismo cartesiano, defendendo a unidade funcional entre mente e organismo.

Tensões e divergência fundamentais

Origem última da consciência

  • Damasio: consciência é produto exclusivo do sistema nervoso biológico.
  • Espiritismo: consciência é atributo essencial do Espírito, pré-existente ao corpo e sobrevivente à morte física.

Para Kardec, “A consciência é a voz da alma.” (Obras Póstumas). No espiritismo, o cérebro não produz a consciência, mas a manifesta e a filtra na experiência encarnada.

Vida sem corpo

Damasio afirma que sem sistema nervoso não pode existir consciência. Já o Espiritismo sustenta exatamente o contrário:

  • A consciência subsiste após a morte;
  • Estados de lucidez pós-morte são observáveis em comunicações mediúnicas e fortes relatos de experiências de quase-morte (EQMs), amplamente estudadas na atualidade por pesquisadores como Pim van Lommel, Bruce Greyson e Sam Parnia.

Segundo a doutrina espírita, o Espírito conserva suas faculdades intelectuais e morais após a separação do corpo.

IA e consciência

Aqui ocorre um curioso ponto de aproximação inesperada:

  • Para Damasio: IA não pode ter consciência humana plena.
  • Para o Espiritismo: só o Espírito, princípio inteligente do universo, pode ser sujeito consciente.

A máquina não encarna Espírito; logo, pode simular respostas, mas não viver experiência consciente real.

Síntese crítica

Damasio representa uma das mais sofisticadas tentativas contemporâneas de explicar cientificamente a consciência sem recorrer ao dualismo clássico, deslocando o foco da racionalidade pura para o sentir orgânico. Contudo, sua explicação permanece restrita ao plano neurobiológico, incapaz de responder às perguntas últimas:

  • Por que existe a experiência subjetiva?
  • O que faz do “sentir” uma vivência íntima, não redutível a reações químicas?
  • Por que existem relatos consistentes de consciência além do corpo físico?

Nesse ponto, a ciência de Damasio descreve o “como” do sentir consciente, mas permanece silenciosa quanto ao “quem” da consciência, dimensão na qual o Espiritismo propõe uma ampliação ontológica: o Espírito como sujeito da experiência. Assim, ciência e Espiritismo não se anulam — operam em campos diferentes:

  • A neurociência explica o mecanismo.
  • O Espiritismo interroga o sentido e a continuidade da consciência.

O diálogo entre ambos permanece aberto — como o próprio Damasio reconhece ao admitir que não é mais possível falar da consciência com a segurança conceitual de poucas décadas atrás. E talvez seja justamente aí que ciência e espiritualidade se encontrem:
na consciência não como dogma fechado, mas como o maior mistério em permanente aprofundamento humano.

Sua formulação está precisa e muito bem colocada — e pode ser ainda mais clarificada conceitualmente com um pequeno ajuste de linguagem para mostrar que a “dualidade” não é exatamente simétrica, mas ontologicamente diferente em cada campo. Identificando corretamente o ponto central:

  • Para Damasio e a neurociência contemporânea:
    A consciência emerge do corpo. Ela só existe com o corpo e resulta da atividade integrada do sistema nervoso e das sensações corporais (interocepção, homeostase, emoção). Não precede o organismo biológico nem sobrevive fora dele. Trata-se de uma consciência emergente e dependente — produto e função do organismo.
  • Para o Espiritismo:
    A consciência não emerge do corpo, mas se manifesta através dele.
    Ela:
    • precede o corpo (o Espírito existe antes da encarnação),
    • coexiste com o corpo durante a vida física (mediada pelo cérebro e pelo perispírito),
    • sobrevive à morte do corpo (mantendo memória, identidade e lucidez).

Ambas as visões reconhecem uma relação permanente entre consciência e corpo durante a encarnação — este é o ponto de convergência enfatizado corretamente. O que diverge não é a relação funcional, mas a origem e a ontologia da consciência.

Onde está o verdadeiro contraste

A distinção essencial pode ser expressa assim:

Visão neurocientífica (Damasio)

O corpo gera a consciência.
Sem corpo → sem consciência.

Visão espírita

O Espírito usa o corpo para expressar a consciência.
Sem corpo → consciência continua existindo.

Ou seja:

  • Na ciência → o corpo é causa da consciência.
  • No Espiritismo → o corpo é instrumento da consciência.

Esse é o eixo da diferença profunda.

O ponto muitas vezes mal compreendido

É importante ressaltar algo: O Espiritismo não nega a dependência funcional entre consciência e corpo enquanto estamos encarnados. Kardec jamais ensinou que o Espírito se expressa independentemente do cérebro durante a vida física. Pelo contrário:

  • O cérebro é o órgão da manifestação do pensamento;
  • Alterações cerebrais afetam a expressão da consciência;
  • Estados patológicos limitam ou distorcem a percepção do Espírito encarnado.

Em O Livro dos Espíritos encontramos claramente: “É o cérebro que preside às manifestações do pensamento.” (q. 146) Portanto:

  • Ciência e Espiritismo concordam que:
    • Sem o cérebro íntegro não há expressão normal da consciência na vida física.
    • O sofrimento corporal (como observa Damasio) interfere no sentir, no querer e no perceber.

A divergência não está em como a consciência se expressa na carne, mas em o que ela é em sua essência profunda.

Duas interpretações do mesmo fenômeno

Ambas as abordagens observam o mesmo fato: a consciência encarnada nasce, cresce e se desenvolve em correlação íntima com o corpo. A diferença surge quando tentam responder à pergunta metafísica: de onde vem essa consciência?

Uma nuance importante

Existe uma zona de diálogo: Damasio demonstra que a consciência humana concreta — tal como a experienciamos — depende da integração cérebro–corpo. O Espiritismo concordaria: a consciência encarnada depende do cérebro. O Espiritismo, porém, acrescenta: essa não é a consciência total do Espírito, mas apenas sua forma condicionada à encarnação.

Assim, o mesmo fenômeno recebe duas leituras complementares:

  • Para o cientista: “a consciência nasce do corpo.”
  • Para o espírita: “a consciência se individualiza e se manifesta plenamente no corpo.”

Nesse ponto, a divergência deixa de ser apenas científica e passa a ser ontológica:

  • Materialismo emergentista → o espírito não existe; a consciência é efeito da matéria organizada.
  • Espiritismo → a consciência existe por si como princípio inteligente, usando a matéria como meio de expressão.
Formulação sintética da dualidade

Podemos formular de modo ainda mais claro assim: Damasio vê a consciência como um produto do corpo que nunca existiu fora dele. O Espiritismo vê o corpo como o instrumento de uma consciência que sempre existiu além dele.

Conslusão crítica

Não há contradição quanto ao fato observado — ambos reconhecem a profunda integração corpo-consciência na vida encarnada. A divergência está inteira no plano do fundamento último:
  • A ciência moderna descreve com precisão crescente os mecanismos de emergência da consciência corporal.
  • O Espiritismo propõe que esses mecanismos são o meio de expressão de algo que não nasce na matéria.

Por isso, o diálogo real não é entre “ciência versus espiritualidade“, mas entre:

  • uma ciência que descreve “como” a consciência funciona,
  • e uma filosofia espiritual que pergunta “quem” é o sujeito consciente e “de onde” ele vem.

O que se aponta com rara clareza é exatamente isso: a diferença não está no funcionamento; está na origem e no destino da consciência. E aí se encontra o verdadeiro eixo de reflexão contemporânea sobre o tema.