"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL"
Alcione Moreno - médica, vice-presidente da CEPABrasil membro do CPDoc e do GELP
Quero partilhar esta obra de Malcom Ferdinand com vocês, pois, apesar de o autor "pensar a partir do mundo caribenho", serve para todos nós que fomos colonizados. A metrópole pode ser Portugal, Espanha, França, Inglaterra, tanto faz, pois a devastação aconteceu e acontece em nossos territórios.
Malcom Ferdinand nasceu na Martinica
-departamento ultramarino insular francês no Caribe - em 1985, é engenheiro
ambiental, pesquisador e professor. Por esse livro recebeu o Prix du Livre de la Fondation de l'Ecologie
Politique em 2019.
De forma lírica,
utilizando metáfora de um navio negreiro, citações de livros, obras de arte e
poemas, vai descrevendo tanto a escravização como o ambientalismo, oferecendo
sugestões de como podemos integrar e superar estas dificuldades, existentes até
o dia de hoje.
Com um prefácio de Angela Y. Davis e um
posfácio de Guilherme Moura Fagundes, o livro se divide em um prólogo, 4 partes
e um epílogo.
Prólogo: Uma dupla fratura colonial e
ambiental: o Caribe no centro da tempestade moderna
Parte I - A tempestade moderna: violências
ambientais e rupturas coloniais
Parte II - A arca de Noé: quando o
ambientalismo recusa o mundo
Parte III - O navio negreiro: sair do
porão da modernidade em busca de um mundo
Parte IV - Um navio-mundo: fazer- mundo
para além da dupla fratura
Epílogo - Fazer-mundo diante da tempestade
Trechos do livro:
"Ferdinand começa desfazendo um
equívoco recorrente em análises contemporâneas provenientes tanto do movimento
ambiental como do movimento antirracista e decolonial: a separação entre a questão
ecológica e a questão colonial. Essa "dupla fratura", como ele
define, impede perceber em que medida a destruição do meio ambiente e o legado
colonial estão inextricavelmente ligados, tanto em sua origem como em suas
nefastas consequências".
"Habitar a Terra começa nas relações
com os outros. Assim, o habitar colonial designa uma concepção singular da
existência de certos humanos sobre a Terra - os colonizadores-, de suas
relações com outros humanos - os não colonizadores-, assim como de suas maneiras
de se reportar à natureza e aos não humanos".
"Embora todo mundo seja exposto a
ecossistemas contaminados, permanecem grupos de senhores proprietários, cujos
interesses financeiros coincidem com as contaminações perenes da Terra, nessa
configuração do habitar colonial em que a condição tóxica, é a um só tempo, a
consequência da exploração capitalista desses ecossistemas por seus senhores e
a causa que reforça a dominação de tais territórios por esses mesmos senhores”.
Com tabelas e quadros sinópticos,
didaticamente, Malcom vai nos mostrando esta dupla fratura (ambiental e
colonial) como um problema central da crise ecológica, que abala as maneiras
como esta é pensada e as suas traduções políticas.
"A fratura ambiental decorre desta
'grande partilha' da modernidade, a oposição dualista que separa natureza e
cultura, meio ambiente e sociedade, estabelecendo uma escala vertical de
valores que coloca 'o Homem' acima da natureza. Tal fratura abrange também uma
homogeneização horizontal e esconde as hierarquizações internas de ambas as
partes. Os termos 'planeta', 'natureza' ou 'meio ambiente' escondem adversidades
de ecossistemas, dos lugares geográficos e dos não humanos que os constituem.
Florestas, montanhas e reservas naturais mascaram as imagens das naturezas
urbanas, das favelas e das plantações. A fratura animal como as hierarquizações
entre animais selvagens 'nobres', e os animais domésticos são colocados acima
dos animais de criação".
"A crise ecológica, decorrente da
constatação de que a poluição, as perdas de biodiversidade e o aquecimento
global são os vestígios materiais desse habitar colonial da Terra,
compreendendo desigualdades sociais globais, discriminações de gênero e de
raça”.
"As exclusões sociais e políticas
dos ex-escravizados, dos pobres, dos racializados e das mulheres manifestam-se
também por meio da contaminação de seus corpos biológicos pelos produtos
tóxicos das plantações e das fábricas, pelas desigualdades de exposição, de
tratamentos e de pesquisas médicas sobre as consequências dessas
exposições".
"Longe de uma oposição entre causa animal,
causa Negra e causa feminista, essas diversas alianças interespécies contra o
habitar colonial continuam sendo hoje as chaves de um navio-mundo. Um navio-mundo
guiado pelos ventos da justiça, onde humanos e não humanos possam viver
juntos".
"Compor um mundo plural, diverso e
transgeracional a partir das pluralidades humanas e não humanas na Terra. O mundo
é fruto de um agir conjunto. A ecologia do mundo requer uma cosmopolítica da
relação".
Allan Kardec já nos mostrava este caminho
através das Leis Morais, no livro 3 de O Livro dos Espíritos, principalmente com
a Lei de Justiça, Amor e Caridade: "A lei de amor e de justiça proíbe que
se faça a outrem o que não queremos que nos seja feito, e condena, por esse mesmo
princípio, todo meio de adquirir que o contrarie". (Comentário de Allan
Kardec à questão 884).