DA RELIGIÃO AO LIVRE
PENSAMENTO
A contribuição da CEPA
para o atual estágio do espiritismo no Brasil
A Pré-História da CEPA no Brasil
Na
oportunidade em que a CEPA – Associação Espírita Internacional (ex-
Confederação Espírita Pan-Americana) completa oitenta anos de fundação (Buenos
Aires, outubro de 1946), é oportuno salientar alguns aspectos ligados à sua
presença no Brasil.
Embora,
ainda nos primórdios de sua existência, tenha realizado seu 2º Congresso
Espírita Pan-Americano, na então capital brasileira, Rio de Janeiro (outubro de
1949), tendo, inclusive, ali, sido eleito um brasileiro para sua presidência,
Pedro Delfino Ferreira, a presença da CEPA, aqui, nas décadas seguintes,
encontrou sérias dificuldades de expansão.
O
perfil marcadamente religioso de que se havia impregnado o espiritismo no
Brasil, a partir, notadamente, da visão roustainguista oficialmente adotada
pela Federação Espírita Brasileira, distanciava o movimento espírita do país da
orientação kardecista, que, desde seu nascimento, caracterizara a CEPA.
Acresça-se
à condição acima, a influente atuação do médium Francisco Cândido Xavier e sua
caudalosa obra mediúnica, sustentada por autores espirituais de forte
impregnação cristã/católica. Plasmou-se, assim, aqui, a “religião espírita”, de
natureza eminentemente evangélica e escassamente afeita a aspectos científicos
e filosóficos, propostos na obra do fundador do espiritismo, Allan Kardec.
Por
essas razões, o esforço de Deolindo Amorim e de seus companheiros da então Liga
Espírita do Brasil, promotores do segundo Congresso da CEPA, sediado no Brasil,
naquele 1949, foi lentamente se dissipando, a ponto de tornar praticamente
desconhecida, em terras brasileiras, uma instituição que fora fundada com o
objetivo de congregar todo o movimento espírita das Américas.
Mais
que isso, e também por forte influência de espíritos que se identificavam como
autores espirituais das obras de Chico Xavier, a Federação Espírita Brasileira
se auto investira da condição de condutora do movimento espírita mundial,
escudada em “manifestações proféticas”, presentes no livro “Brasil, Coração do
Mundo e Pátria do Evangelho” (FEB 1938), de autoria espiritual atribuída ao
escritor brasileiro Humberto de Campos (1886/1934). O chamado, então, movimento de “unificação”,
imposto à rede de instituições brasileiras, não recomendava qualquer vínculo
com outro organismo que não a FEB e, tampouco, outra visão doutrinária que
fugisse ao chamado “triângulo emanuelino”. Este classificava o espiritismo como
“ciência, filosofia e religião”, dando primordial importância ao último aspecto
e minimizando os demais.
O retorno da CEPA ao Brasil
Nos
anos 90 do século passado, ocorre o retorno da CEPA e de sua proposta
doutrinária ao Brasil. Trata-se de um cuidadoso e corajoso trabalho feito por
iniciativa do então presidente da instituição, o venezuelano Jon Aizpúrua.
No
ano de 1994, Aizpúrua, tendo iniciado seu segundo mandato na presidência da
CEPA, e conhecedor profundo que sempre se mostrara da história e do perfil do
espiritismo brasileiro, inicia uma série de contatos com pessoas e instituições
espíritas que, àquela altura, contestavam a postura da FEB e seu religiosismo,
e assumiam uma postura laica e livre-pensadora, fortemente fundada na obra de
Allan Kardec.
Atendendo
a convite formulado por Aizpúrua, instituições espíritas sediadas nos Estados
de São Paulo e Rio Grande do Sul, passaram a aderir formalmente à CEPA,
iniciando a formação de uma rede de pessoas e instituições que, num primeiro
momento, direcionaram sua ação no sentido de divulgar o espiritismo no Brasil
não mais como uma “religião”, mas como um movimento espiritualista de caráter
laico e livre-pensador, tendo por base as obras do fundador do espiritismo, o
francês Allan Kardec.
O
esforço de Aizpúrua que, na época, fez várias visitas ao Brasil, pronunciando
conferências, contactando com centros e grupos espíritas abertos às propostas
da CEPA e concedendo entrevistas a jornais, emissoras de rádio e TV, motivou a
formação de uma delegação de cerca de 60 pessoas a Buenos Aires, em outubro de
1996, para participarem do 17º Congresso Pan-Americano de Espiritismo.
O
Congresso seguinte, no ano de 2.000, teria por sede, novamente, o Brasil, em
Porto Alegre, onde o autor deste artigo foi eleito presidente da CEPA, cargo
que ocupou por dois mandatos, (2000/2004 e 2004/2008). Consolidava-se, ali, a
presença institucional da CEPA no Brasil.
Mais
tarde, e também por dois mandatos (2012/2016), a também brasileira, Jacira
Jacinto da Silva (São Paulo) presidiria a CEPA, em cuja gestão, em Congresso
realizado na Argentina, a instituição tomou a atual designação: CEPA –
Associação Espírita Internacional.
Desenha-se um novo perfil do espiritismo
no Brasil
As
breves anotações acima, sem nenhuma pretensão de abranger toda a história da
CEPA, no Brasil, servem apenas para situar o leitor numa sequência histórica
que plasma o despertar de um novo perfil não exatamente institucional, mas
eminentemente social e filosófico, da proposta espírita, no seio da sociedade
brasileira.
Abandonando
a ideia que inspirara sua fundação, ainda na primeira metade do Século 20, e
que era de congregar todo o movimento espírita pan-americano, a CEPA assumia
outro perfil: o de uma entidade capaz de representar uma significativa ala do
espiritismo mundial, dissociado de uma visão religiosa, fideísta, para tratá-lo
e difundi-lo como um movimento de ideias espiritualistas de caráter livre-pensador,
sempre atualizável e de consequências filosóficas e sociais progressistas. Os
adjetivos “laica”, “kardecista”, “progressista” e “livre-pensadora”, mais do
que nunca, passaram a caracterizar a identidade da CEPA, nos países onde tem
representatividade e, de maneira muito particular, no Brasil.
Visto
tradicionalmente como uma “religião cristã” e atestado pelo censo populacional,
sucessivamente, como a terceira “religião” no cenário brasileiro, depois do
catolicismo e do evangelismo, o espiritismo, hoje, começa a ser notado como um
movimento de ideias ao qual aderem estudiosos e cultores da sociologia, da
filosofia, da psicologia, das ciências humanas em geral, das artes e da
política.
Tendo por
princípio a ideia central da imortalidade do espírito e da comunicabilidade
entre “vivos” e “mortos”, da qual dimanam consequências éticas e morais, o
espiritismo, pouco a pouco, se firma, no Brasil, como uma verdadeira “escola de
pensamento”.
Esse
movimento, que não se restringe apenas à CEPA, aqui representada por uma
associação civil, reunindo pessoas e entidades, a Associação Brasileira de
Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil -, mostra-se, hoje, pujante. Está
fortemente presente nas redes sociais, nas diversas associações, editoras,
movimentos universitários, entidades promotoras de fóruns de debate, congressos
etc, totalmente distanciados do chamado “movimento unificacionista”, comandado
pela Federação Espírita Brasileira. Une-os justamente a ideia central do
livre-pensamento, inspirado nos princípios cardeais do espiritismo, quais
sejam, a ideia da imortalidade do espírito, o intercâmbio do mundo material e
espiritual, a reencarnação e os valores éticos decorrentes desses pressupostos.
Não se
restringido, entretanto, à CEPA, esse movimento plural, de feições nem sempre
idênticas, não teria, contudo, alcançado a importância que começa a assumir, no
Brasil, não fosse, lá atrás, a proposta e a ação enérgicas da CEPA no sentido
de abstrair da identidade do espiritismo a condição de “religião”, para difundi-lo
como um movimento de ideias laicas, progressistas e libertadoras.
Ser ou não ser
o espiritismo uma religião, discussão surgida no próprio seio do movimento
espírita, e que encontrou na CEPA uma enérgica posição, no sentido da afirmação
de sua laicidade, foi, podemos afirmar, hoje, o marco a partir do qual desenvolveu-se,
no Brasil, um ambiente capaz de qualificar a proposta espírita, dar-lhe,
realmente, foros de cientificidade e de movimento intelectual e social de
relevo.
Sem o impulso
da CEPA, nas décadas finais dos anos 80, até hoje, o espiritismo não teria
chegado ao estágio de respeitabilidade que logrou alcançar, na área de cultura,
contribuindo, com seu pensamento, e a partir de seus fundamentos, com os
setores comprometidos com o progresso social, ético e político do país.
O futuro da
proposta espírita, no Brasil, a partir da efervescência de suas ideias, hoje
observável, passa, dessa forma, necessariamente, pela histórica presença da
CEPA, a partir do final do Século 20 e primeiras décadas do Século 21.
O espiritismo,
no Brasil, pouco a pouco, deixa de ser visto apenas como mais uma religião,
para ser considerado como um movimento de ideias compatível com o ideal de quem
vê no ser humano um espírito imortal vocacionado ao contínuo progresso, em
busca da plena felicidade. Condição essa, capaz de tornar o mundo e a
humanidade melhores.
Foi o registro
que gostaríamos de deixar consignado, quando a CEPA – Associação Espírita
Internacional completa seus 80 anos de existência.
Valeu e valerá
a pena!
(*) Procurador de Justiça
aposentado do Rio Grande do Sul, Advogado, Jornalista, integrou os quadros
diretivos da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, onde ocupou o cargo de
diretor do Departamento de Comunicação Social, tendo dirigido a revista “A
Reencarnação” daquela federativa. Desde 1983, é membro do Centro Cultural
Espírita de Porto Alegre do qual foi Presidente. Fundou e dirigiu por 30 anos o
Jornal CCEPA OPINIÃO. Ex- Presidente da CEPA Internacional (2000/2008). Autor
de vários livros espíritas.