05 maio 2026

UM CAMINHO PARA O ESPIRITISMO LAICO - Salomão Jacob Benchaya

 



UM CAMINHO PARA O ESPIRITISMO LAICO

 

 

Salomão Jacob Benchaya –bacharel em Economia ex- Presidente do Centro Cultural de Porto Alegre (CCEPA), da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, Diretor da CEPA Associação Espírita Internacional, um dos criadores do ESDES, colaborador do Jornal CCEPA – Opinião, um dos criadores do MEP- Movimento Espírita Progressista e Presidente eleito da CEPABrasil para o Biênio 2026/27.

 

            O expressivo crescimento da vertente livre-pensadora, progressista e progressiva, humanista, adogmática e plural que, ultimamente, se observa no movimento espírita, tem me levado a refletir sobre a sustentabilidade desse segmento que, claramente, não tem acolhimento nas instituições e centros espíritas tradicionais, majoritariamente pertencentes à corrente religiosa e conservadora  que se consolidou no Brasil.

            Em recentes comentários postados no grupo de whatsApp da CEPABrasil, essa situação foi mencionada, resultando num consenso de que a liberdade de pensamento, a leitura crítica das obras espíritas, a rejeição a posturas dogmáticas, o questionamento da produção mediúnica, o combate à idolatria, ao evangelismo exacerbado etc., só podem vicejar em grupos ou instituições de pequeno porte que sejam orientados por pessoas desvinculadas de posturas dogmáticas e exclusivas.

            Casas espíritas constituídas sob o signo do religiosismo e do evangelismo dificilmente conseguem se redirecionar para um modelo mais coerente com a racionalidade kardeciana.

            Raras instituições espíritas genuinamente laicas existem no planeta. São poucos os espíritas que não sentem falta de ter uma religião, embora isso não signifique qualquer superioridade moral de quem quer que seja.

É oportuno, aqui, repetir que o laicismo não é contra a Religião. O laicismo é neutro, ou seja, não interfere nem se envolve com a questão religiosa, tendo, sim, absoluto respeito a todas as crenças e aos seus profitentes.

Então, por que motivo está crescendo a vertente laica, progressista, livre-pensadora do espiritismo?

 

O crescimento do campo espírita progressista

 

Antes de responder, é bom dizer que a proposta de laicidade no espiritismo não é nenhuma invenção da CEPA. Esta, por sinal, cada vez mais, comporta-se como um movimento de ideias e não mais como instituição federativa.

Kardec não projetou um espiritismo religioso – embora haja contribuído para isso, de certa forma, talvez até como uma brilhante estratégia. No Brasil, já em seus primórdios, grupos de “místicos” (Bezerra de Menezes como líder) e de “científicos” (Afonso Angeli Torteroli à frente) disputavam a liderança do movimento espírita nascente. Durante a ditadura militar, o Movimento Universitário Espírita, acentuadamente político, também se opôs ao religiosismo e, na década de 70 do século passado, Jaci Regis e o seu “Grupo de Santos” e o grupo que, então dirigia a federação gaúcha, deflagraram nova reação à sectarização, à igregificação e ao evangelismo reinantes. Em todos esses momentos, a reação conservadora foi vitoriosa.

Não me parece sensata nenhuma disputa por hegemonia, claramente contraproducente. A sociedade é plural, diversificada, e com o espiritismo não poderia ser de outro modo.

Tornou-se evidente que não existe um só espiritismo. Hoje há muitos. E que todos se ancoram em Kardec, mesmo que usando métodos diferenciados.

É sob essa perspectiva de pluralismo e de diálogo que, notadamente durante e após o recente governo de extrema direita, começaram a surgir novos grupamentos e coletivos espíritas congregando livres pensadores e progressistas, muitos ex-integrantes de instituições espíritas declaradamente apoiadoras do sistema vigente.

A eclosão da pandemia da Covid 19 e as novas tecnologias digitais obrigaram as pessoas a se comunicar virtualmente e através das redes sociais. Espontaneamente, uma teia de relacionamentos e de intercâmbio se estruturou possibilitando a troca de ideias, o surgimento de novos pensadores e líderes distanciados do igrejismo e promovendo um apreciável esforço de resgate do pensamento kardeciano para compatibilizá-lo com o conhecimento contemporâneo.

 

 

 

O conhecimento da obra de Kardec como base

Não posso deixar de admitir que, nas últimas quatro décadas, houve um fator que exerceu e vem exercendo um papel determinante na mudança de perfil do espiritismo. Trata-se do incremento que, desde o final da década de 70 do Século XX, se observa quanto ao melhor conhecimento da obra de Kardec, resultante da campanha lançada pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul visando o estudo metódico, sistematizado ou sistemático do espiritismo. Essa campanha, conhecida pela sigla ESDE, infelizmente um tanto desacreditada e criticada pela forma apostilada como passou a ser apresentada, objetivava exatamente estimular o estudo e o conhecimento das obras do fundador do espiritismo. É bem provável que muitos estudiosos nas casas espíritas que adotaram o ESDE, ao (re)lerem os textos fundadores, tenham percebido a sua discrepância em relação ao modelo evangélico implantado no Brasil. O modelo brasileiro não era coerente com a proposta original.

Então, não é difícil deduzir a influência que o conhecimento aprofundado do pensamento kardeciano exerce sobre o surgimento e sobre a expansão, na comunidade espírita, de um segmento de livres pensadores, progressistas, progressivistas, humanistas, adogmáticos, aí incluídos os laicos.

 

A estratégia dos pequenos grupos

 

Mas, como eu disse antes, esses espíritas não encontram acolhimento em casas conservadoras. As poucas exceções encontram-se em algumas instituições ligadas à CEPA, constituída há quase 80 anos.

É fácil constatar que os diversos grupamentos ou coletivos já em funcionamento são, em sua maioria, grupos pequenos, informais, não possuem sede física, atuam através dos meios digitais, envolvendo colaboradores dos mais distantes lugares, geralmente com formação universitária e que se dedicam ao esforço de contextualizar a obra de Allan Kardec trazendo seu conteúdo para os dias atuais, apto a dialogar com a Ciência e a Filosofia.

É para esse segmento, ainda incipiente, mas promissor, que estou propondo uma estratégia de ação inspirada em um antigo Projeto que apresentei no 3º Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, organizado pelo saudoso Jaci Regis, ocorrido em setembro de 1993, em Santos-SP.

Na verdade, esta proposta nem chega a ser uma novidade pois já existia no movimento espírita mas que aponta para a possibilidade de incremento do estudo do espiritismo despregado do dogmatismo e da ortodoxia que imobilizam e asfixiam o pensamento espírita, em flagrante desacordo com a recomendação de Kardec.

O trabalho apresentado em 1993 desenvolvia a ideia de “Espiritismo em Grupos Informais” (Projeto EGI) e cujos objetivos eram: “a) estimular a criação de Grupos Informais de Estudos Espíritas (GIEEs); b) promover o intercâmbio do pensamento espírita com o conhecimento acadêmico; c) estimular a formação de núcleos espíritas universitários para investigação e pesquisa; d)         assessorar as universidades na promoção de eventos ligados ao estudo da natureza do Homem; e)          oferecer subsídios para o conhecimento do Espiritismo a grupos de estudos espiritualistas, paranormais, de pesquisas psíquicas e/ou alternativos, já existentes.”

Os Grupos Informais (ou Autônomos) de Estudos Espíritas, na verdade, já existem. O Projeto EGI não tem nada de inovador, mas certamente pode ser um poderoso auxiliar na expansão do pensamento espírita progressista, crítico, adogmático, assectário, decolonial, inclusivo, plural, humanista, alteritário e livre-pensador.

 São grupos familiares, de pesquisadores, de profissionais ou, simplesmente, de estudiosos, funcionando em residências, empresas, escolas, universidades, clubes e, mesmo, em instituições espíritas, que dialogam com outras áreas do conhecimento e com outros segmentos sociais, mantendo o espiritismo permanentemente atualizado e presente na sociedade.

Os coletivos, que já se contam às dezenas, estão produzindo verdadeira revolução no movimento espírita. Nunca, tantos livros espíritas foram e continuam sendo lançados por escritoras e escritores espíritas com valiosas contribuições para a atualização teórica e prática do espiritismo.

Entretanto, o público que acompanha e interage com todo esse volume de produção intelectual ainda é reduzido.

Se o ESDE pode se constituir em vigoroso estímulo ao estudo da obra de Kardec, desde que não engessada no dogmatismo e na sacralização, grupos independentes, problematizadores, críticos e que dialogam com o conhecimento científico e filosófico dos nossos dias, podem revitalizar o movimento espírita, garantindo a sua sobrevivência e a admissão da teoria espírita ao debate acadêmico.

 

A articulação necessária

 

Existem instituições bem organizadas, de perfil laico, coletivos, ligas, institutos ou grupamentos progressistas em condições de se constituírem em núcleos promotores e apoiadores de grupos informais ou autônomos de estudos espíritas.

Exemplos desse tipo de iniciativa, são os cursos presenciais ou virtuais, em andamento ou já realizados pela CEPA, pelo IFEHP, pela AEPHUS, pela ABPE, pelo IEEF, pelo CELP, pelo Ágora, entre outros, voltados para a cultura espírita, em franco diálogo com todos os campos do conhecimento.

A ideia é que se multipliquem os pequenos grupos espíritas, como propunha Kardec, presenciais ou virtuais, com total liberdade para estudar, pesquisar, participar de eventos, intercambiar experiências, produzir conhecimento, enfim, o que, certamente, terá um efeito oxigenador sobre o movimento espírita.

Talvez o campo progressista esteja necessitando de um mínimo de articulação, já que não pretende nem convém se institucionalizar, preservando sua autonomia, mas cuidando de disseminar suas propostas, particularmente entre aqueles já cansados da igrejificação sofrida pelo espiritismo, como também entre os que acreditam num espiritismo que não só console pela beleza e racionalidade dos seus postulados, mas que seja um movimento engajado na efetiva superação dos problemas humanos, tanto na esfera individual quanto na social.

A discussão dessas questões está entre os objetivos do VI Encontro Nacional da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA (CEPABrasil), a realizar-se de 14 a 17 de novembro de 2024, na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA).

Vale a pena, portanto, que os espíritas vinculados à CEPA, seus Amigos, bem como os Coletivos, Institutos, Ligas e pensadores independentes se proponham a visitar Porto Alegre apresentando trabalhos, que não serão censurados, relacionados com a temática “O Espiritismo em suas dimensões científica, filosófica, ética e social: desafios e perspectivas”.

 

 

(Artigo publicado no jornal CCEPA Opinião, edições jan/fev, março e abril de 2024)

20 abril 2026

A Atualização Doutrinária não é Modismo - Ademar Arthur Chioro dos Reis

 

A Atualização Doutrinária não é Modismo

Ademar Arthur Chioro dos Reis é médico sanitarista, professor universitário, atual Presidente da Empresa Brsileira de Serviços Hospitalares ( EBSEFRH) foi presidente do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos, membro do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita- CPDOC e Delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA) e CEPABrasil.

                                       Julho de 2000 - Spiritnet

É mesmo muito difícil entender a ferocidade e intransigência que tem pautado a discussão entre os espíritas. A observação atenta, desprovida de preconceitos e desapaixonada, entretanto, permite identificar de onde parte esta postura tão sectária e sua motivação.

Há raizes históricas, disputas antigas, que neste momento voltam a se agudizar em torno de questões secundárias (que não levam a absolutamente lugar nenhum, como por exemplo se o Espiritismo é ou não uma religião) e outras absolutamente necessárias, centrais para a sobrevivência, evolução e o próprio futuro da Doutrina Espírita: a necessidade de empreendermos a atualização do Espiritismo.

A seguir, destaco alguns pressupostos que considero de fundamental importância para a formulação de uma proposta metodológica de atualização do Espiritismo, como forma de contribuir ao debate que vem se desenvolvendo na lista:

O Espiritismo é a ciência que trata das relações do mundo espiritual e material, portadora de uma concepção filosófica humanista, que resulta em conseqüências éticas e morais (comuns às preocupações religiosas sinceras e desprovidas de ritualismos e sectarismos)

A atualização não pode ser um modismo mas deve constituir-se num processo permanente, incorporado definitivamente à práxis espírita;

Deve admitir a heterogeneidade, o direito de ser e pensar diferente, de estabelecer novos referenciais a partir dos fundamentos espíritas básicos;

É necessário reconhecer que a Filosofia Espírita, fundamentada na obra de Kardec, permite o desenvolvimento de distintas leituras, a partir do conjunto de interesses e necessidades humanas (e que isso também é democrático);

Não é necessário decidir por maioria quantitativa, mas pela capacidade/qualidade do conjunto de idéias impor-se pela sua própria força, clareza e atualidade, como novas verdades;

É fundamental buscar de forma prioritária a atualização em torno de pontos convergentes. O que é consensual em primeiro lugar, o que pode vir a ser consensual (mesmo que parcialmente) em segundo plano e por último, aquilo que de fato estabelece as distintas concepções e nos divide (mesmo que partamos ou não dos mesmos referenciais);

Só se atualiza o que não se nega, o que ainda tem valor essencial (caso contrário estaríamos substituindo o Espiritismo por algo diferente. Somente se atualiza sobre bases estabelecidas (mesmo que em parte ultrapassadas ou defasadas). Por outro lado, reconheçamos, há novos conhecimentos a serem formulados;

Que a busca da atualização deve ser estabelecida a partir das mesmas bases sérias e coerentes que pautaram a obra de Kardec, guiada pela racionalidade e pela ciência, sem afetações, partidarismo, sectarismo e misticismo.

Allan Kardec identificou desde o primeiro instante a necessidade de atualizar o Espiritismo, o que pode ser claramente percebido em trechos de sua obra, em particular no Capítulo Primeiro de A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, intitulado Caracteres da Revelação Espírita, publicado em 1868 e que já havia sido publicado por Kardec, numa primeira versão, na Revista Espírita em 1867.

“O Espiritismo, avançando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro acerca de um ponto, ele se modificará nesse ponto; se uma verdade nova se revelar, ela a aceitará.” (A Gênese, cap. I - Caracteres da Revelação Espírita).

“O terceiro ponto, enfim, é inerente ao caráter essencialmente progressivo da Doutrina. Pelo fato de ela não se embalar com sonhos irrealizáveis, não se segue que se imobilize no presente. Apoiada tão-só nas leis da Natureza, não pode variar mais do que estas leis; mas, se uma nova lei for descoberta, tem ela que se pôr de acordo com essa lei. Não lhe cabe fechar a porta a nenhum progresso, sob pena de se suicidar. Assimilando todas as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas ou metafísicas, ela jamais será ultrapassada, constituindo isso uma das principais garantias da sua perpetuidade.” (Obras Póstumas - Constituição do Espiritismo - Dos Cismas).

“Não será, pois, invariável o programa da Doutrina, senão como referência aos princípios que hoje tenham passado à condição de verdades comprovadas. Com relação aos outros, nãos os admitirá, como há feito sempre, senão a título de hipóteses, até que sejam confirmados. Se lhe demonstrarem que está em erro acerca de um ponto, ela se modificará nesse ponto.” (obra citada).

“O princípio progressivo, que ela inscreve no seu código, será a salvaguarda da sua perenidade e a sua unidade se manterá, exatamente porque ela não assenta no princípio da imobilidade.” (obra citada).

“Serão estas as atribuições principais da comissão central: 1°...; 2° O estudo dos novos princípios, suscetíveis de entrar no corpo da Doutrina; 3° ... 15O A convocação dos congressos e assembléias gerais.” (Obras Póstumas - Constituição do Espiritismo - Comissão Central).

Que há setores significativos do movimento espírita que consideram desnecessário e lesivo qualquer processo de atualização do Espiritismo, uma vez que concebem sua origem e natureza como “divina”, portanto passível de modificação apenas por ordem e graça da “espiritualidade”.

Que mesmo companheiros espíritas que discutem a necessidade de atualizar o Espiritismo, em função de distorções em suas concepções e formação doutrinária, tendem a assumir uma postura arrogante e conservadora do ponto de vista intelectual. Vejamos, por exemplo, um pequeno trecho de um “mail” que identifica claramente esta concepção:

“Apesar disso ainda temos uma sólida e imbatível Doutrina. É plataforma segura para se alcançar novos vôos com a ciência responsável e metodológica, pois esta é a “sina” do Espiritismo: ir onde a ciência está, já sabendo que a ciência vai onde o Espiritismo já foi...” (o grifo é meu)

Que é indiscutível a atualidade de partes importantes e fundamentais da obra de Kardec, não superadas pela Ciência, encontrando-se estas, portanto, em plena vigência.

Que atualizar o Espiritismo é procurar “torná-lo atual, situá-lo na época em que vivemos, torná-lo presente e atuante em todos os setores do pensamento humano. Isso implica numa releitura, numa ressignificação, portanto, numa revisão dos conteúdos, não só da obra de Allan Kardec, como da dos demais autores Espíritas, encarnados e desencarnados, como também da linguagem e do método empregados na sua elaboração. Não se pode atualizar sem revisar.”

Não se deve permitir a alteração ou supressão, parcial ou completa, dos textos e das obras de qualquer autor que seja – e em especial a de Allan Kardec. “Já as idéias, concepções e teorias expostas nas obras da Codificação e nas que lhe são complementares, como o próprio fundador do Espiritismo afirmava, não sendo mais do que a expressão do conhecimento dos seus autores, subordinadas ao contexto de uma época, são passíveis de revisão e de atualização.”

Proponho, a partir destas colocações preliminares, conclamar a todos os Espíritas sinceros para que dirijamos nossos esforços, mentes e corações, de forma respeitosa e inteligente, para o debate de temas e questões centrais.

 

05 abril 2026

O PRINCÍPIO DAS COISAS: NINGUÉM COMEÇA GRANDE - WILSON GARCIA

 

O PRINCÍPIO DAS COISAS: NINGUÉM COMEÇA GRANDE (crônica filosófica-espírita)Wilson Garcia :- Professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, especialista em Comunicação Jornalística.

O primeiro avião, inventado por Santos Dumont, não era um Boeing. Era um leve artefato de sonhos e coragem, um pássaro de tecido e engenho que desafiava o impossível. Ninguém começa grande — e a natureza ensina essa lição com a simplicidade de uma semente.

Toda árvore que hoje oferece sombra foi antes um ponto quase invisível no solo. A semente contém em si a potência do universo, mas só desabrocha porque aceita a humildade do tempo. Crescer é, antes de tudo, aceitar a lentidão dos processos. O orgulho, ao contrário, apressa, inflama, e faz o homem acreditar que pode colher sem plantar.

O filósofo Aristóteles, ao tratar da virtude, lembrava que a grandeza autêntica nasce do equilíbrio entre o excesso e a falta. A humildade não é submissão, mas sabedoria em reconhecer que o ser humano é parte de algo maior. Também Rousseau, em Emílio, dizia que “a natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens”. É a mesma pedagogia da semente: o aprendizado do tempo, o respeito à formação.

Santos Dumont compreendeu essa verdade intuitivamente. Enquanto outros sonhavam com máquinas de guerra, ele sonhava com o voo como extensão da liberdade humana. Seu 14-Bis não era grande, mas era livre. E a liberdade verdadeira não se mede em tamanho, mas em espírito.

Na filosofia espírita, Allan Kardec ensina que o progresso é lei natural — mas um progresso que não se impõe por soberba, e sim que se realiza pela educação do espírito. A evolução, dizia ele em O Livro dos Espíritos, “é obra da própria criatura”, e cada conquista é precedida pela humildade de aprender.

O orgulho é, portanto, uma forma de cegueira: faz o indivíduo confundir o resultado com o princípio, o avião com a semente, o poder com a verdade. Somente o espírito que reconhece a pequenez do seu início é capaz de compreender a grandeza de sua jornada.

Assim como a semente guarda a árvore e o 14-Bis guardava o Boeing, toda realização humana começa no invisível — na fé, na paciência e no trabalho silencioso. O orgulho, ao querer nascer adulto, perde o direito de crescer.

20 março 2026

O maior dos elementares direitos: O Direito à Vida, por Débora Nogueira

 

O maior dos elementares direitos: 

O Direito à Vida, por Débora Nogueira

março 7, 2026 Administrador site ECK

Debora Nogueira, Atriz formada pela escola de Arte DramáticaDebora Nogueira, Atriz formada pela escola de Arte Dramática da USP, graduada em Publicidade e Propaganda, dramaturga, produtora Produtora, Oficineira, Dubladora, diretora e preparadora de atores, participação na série ensaio sobre a beleza do Grupo Caos, Diversos trabalhos para publicidade, cinema, TV, diretora do grupo de teatro Irmão X, Membro da Conselho de Gestão do ECK (Espiritismo Com Kardec).

Neste “Dia Internacional da Mulher” cabe-nos refletir acerca da realidade que vivemos, num mundo masculino e que ainda reserva o papel secundário para as mulheres. O feminismo não é uma luta contra os homens! Mas, sim, por efetiva igualdade, a igualdade de gênero, a igualdade de direitos e, dentre eles, o maior: o direito à vida!

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Nascemos com a marca da vida: geramos, amamentamos, carregamos (a)(as) vida(s). Física e psiquicamente (espiritualmente), as mulheres carregam muita coisa durante a vida: filhos, sacolas, culpa, casa, silêncio, homens, não ter filhos, pudor, medo.

Aprendemos a nos comportar, a sentar de pernas fechadas, a não chamar a atenção… Aprendemos a sermos recatadas: — Precisa ter jeito de menina e comportamento de menina! — sempre disseram…

E, quando a puberdade chega, com os hormônios a todo vapor, o medo cresce junto: o corpo muda e não sabemos o que fazer com tanta coisa acontecendo. Vem a menstruação: — Ahhhh! Cuidado! Agora você pode engravidar! — era a advertência.

E o medo segue crescendo. Muitas mulheres começam a frequentar as comunidades religiosas porque ali se sentem seguras… Mas, aí, justamente aqueles que deveriam acolher a menina, são os que dela abusam.

Também em casa, aqueles em que se deveria confiar, sentindo-se amada e protegida, também são os que abusam. Ignora-se os pedidos de socorro, a orientação sexual, o carinho e o apoio.

A outrora menina recatada, agora usa maquiagem, roupas sensuais e vira a “tentação” masculina. Somos, então, sempre culpadas, pela roupa, pelo corpo, pelo comportamento.

A hoje mulher, então, se une a alguém e a partir disso deve usar de todos os artifícios para permanecer “atraente”, dentro dos padrões enlouquecidos de beleza da sociedade.

Mulher, portanto, tem que ser sensacional: possuir um corpo escultural, uma pele incrível e, ainda, lavar, passar cozinhar, faxinar… Tudo com “nota mil” e permanecer sexy, muito sexy.

Quem resolveu que seria assim?

Mulheres pensam, estudam, se formam, cuidam de filhos (em casos, também, em que o pai sumiu). Ou, outros, que pagam uma pensão mínima e aparecerem duas vezes ao mês para visitar a prole. E, mesmo assim, acham que fazem o suficiente…

Precisamos dizer: a Mulher tem liberdade de escolha (olha o livre arbítrio aí!, tão falado no meio espírita). Mas, veja só que interessante! Sim, é fato (espiritual) que escolhemos as nossas provas (vide “O livro dos Espíritos”, item 258 [1]). Mas, com serenidade e logicidade, vamos refletir: — Será que uma mulher escolheu ser vitimada por seu próprio companheiro? Que Justiça Divina é essa? — pensamos, nós…

Mas é isso o que, muitas vezes, ouvimos no “meio” espírita… E isto nos dá tristeza tão profunda… Como sempre, as mulheres são culpadas, será que uma atitude dessas não implica quem feriu, matou, arrastou, bateu, estuprou, esfaqueou… Pois, a vergonha, a culpa, ficam com a vítima!

Muitas vezes, vemos muitas espíritas (ou que se dizem espíritas) usarem este argumento da escolha da prova. E, em consequência, é necessário se resignar, aguentar, pensar nos filhos, no que os outros vão dizer e muito mais…

Mas você pode pensar: — Ahhh mas isso é antigo, não é mais assim! E eu me pergunto porque ainda tantas mulheres são vitimadas hoje, agora, a cada minuto… Em 2025, de janeiro a dezembro, 1.470 mulheres foram mortas no Brasil, conforme dados oficiais (Ministério da Justiça e Segurança Pública [2]. Em Botucatu, no Estado de São Paulo, o maior da federação brasileira, recentemente uma mulher, entre tantas, infelizmente, foi morta mesmo tendo antes registrado dez boletins de ocorrência e três medidas protetivas [3]. Uma falha grave do governo estadual e da própria justiça.

É preciso fazer cumprir o que se registra no papel! Em São Paulo, os pedidos de medida protetiva saltaram de 10.804 (2015) para 118.258 [4].  Não podemos adotar o discurso de que não adianta procurar os direitos cabíveis, mas lutar para que eles se cumpram.

Esta é, pois, uma luta diária. E de todos! Vale lembrar a advertência contida em “O livro dos Espíritos”, item 919, que, como meio prático mais eficaz de aperfeiçoamento e de resistência ao mal, foi apontado o conhecimento de si mesmo, como o bom e velho Sócrates já havia predito, inspirado na inscrição expressa no Templo de Apolo (Oráculo de Delfos). Entretanto, este “conhecimento de si mesmo” acabou virou apenas e quase sempre uma citação, longe de ser buscado e vivenciado. Triste constatação, em um mundo ainda profundamente masculino.

Aliás essa “fábula” da mulher vir da costela do homem, já restou cansativa, própria de quem conserva, como fora um enlatado enterrado, valores morais velhos e empoeirados. As mais das vezes, como nesses crimes hediondos de feminicídio, se culpa a mulher por ela ser mulher. Transfere-se a responsabilidade do algoz para a vítima, e o primeiro, muitas vezes, sai ileso. Uns após outros repetem o mesmo comportamento violento, apoiados por seus pares. Segue, a mulher sendo propriedade, objeto, meio de reprodução, de prazer e, por isso, declaram eles, que ela deva se colocar no seu lugar. É como aquele rapaz que, ao ser preso, declara ao sair algemado, da viatura policial, que fez o que fez por ter sido traído… Imagine se toda mulher traída resolvesse dar o troco?!

Vivemos um esquema social onde, ainda, a mulher é vista como algo secundário, um personagem coadjuvante. Digo ainda, porque isto já foi até pior. Todavia, é preciso reacender o debate consciente para superar o pensamento concretizado que atravessa os séculos, num misto de falso moralismo agregado às prescrições das religiões. Estas últimas, em seus discursos de púlpitos e tribunas costumam resgatar falas do Antigo Testamento, interpretadas quase sempre ao pé da letra. São as costumeiras desculpas e justificativas para a continuidade da violência contra a mulher.

Lutar, pois, lado a lado, mulheres e homens é o necessário caminho; juntos, buscando entender a fundo as questões, solucionar problemas sem subterfúgios e, sobretudo, sem distorcer os ensinamentos dos grandes Mestres da Humanidade (entre eles, Jesus, tão falado, cheio de seguidores, que não conseguem sequer copiá-lo). A luta pela igualdade é constante, entre tantas outras. Como cantou Rita Lee, “prá variar, estamos em guerra”, e quem morre nesta guerra são as mulheres e as meninas pois podem procriar, apagar o futuro de um povo, quando não mortas são violadas para serem esmagadas pela vergonha ou gerarem os filhos dos inimigos.  Muitos que se dizem cristãos, caridosos, misericordiosos apoiam a guerra. Mais fácil ter inimigo do que fazer um trabalho de mudança de atitude, mudança de pensamento, entendimento, e que essas mudanças abrem caminhos para uma vida melhor em sociedade, melhor para o bem comum.

Neste “Dia Internacional da Mulher” cabe-nos refletir acerca da realidade que vivemos, num mundo masculino e que ainda reserva o papel secundário para as mulheres: os salários são menores; mulher falta mais no trabalho por causa dos filhos; que são propriedade, quando o companheiro acha que pode nos controlar, nos diminuir e abusar física e psicologicamente.

O que vemos nos noticiários é realmente assustador e o que se propaga nas redes sociais é, no mínimo, de fazer embrulhar o estômago. São os propagadores do ódio às mulheres, que se alastra feito uma erva daninha nos canteiros e plantações, fazendo crescer, em tenra idade, nas crianças e nos adolescentes essa ideia, como uma cartilha de ódio.

Onde deixamos o nosso senso de humanidade? Onde ficou a tão falada caridade? Onde está o amor? Onde estão os ensinamentos de Jesus?

O feminismo não é uma luta contra os homens! Mas, sim, por efetiva igualdade, a igualdade de gênero, a igualdade de direitos e, dentre eles, o maior: o direito à vida!

Nota:

[1] Kardec pergunta se o Espírito, quando errante, antes de iniciar uma nova existência corpórea (encarnação), tem a previsão do que lhe irá suceder, na vida física. As Inteligências Invisíveis lhe respondem: “Ele mesmo escolhe o gênero de provas que deseja sofrer; nisto consiste o seu livre-arbítrio”.

[2] A reportagem é da Agência Senado. Vide referência, abaixo.

[3] Júlia Gabriela Bravin Trovão e seu companheiro Diego Felipe Corrêa da Silva foram assassinados pelo ex-companheiro, Diego Sansalone (Piassi e Silva, 2026).

[4] Os dados são do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) conforme matéria jornalística (Lara, 2026).

Fontes:

Agência Senado (2026). Recorde de feminicídios é tema de debate em comissão mista na quarta. “Senado Notícias”. 27. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026.

Kardec, A. (2004). “O livro dos Espíritos”. Trad. J. Herculano Pires. 64. Ed. São Paulo: LAKE.

Lara, W. (2026). Maioria das vítimas de feminicídio desta semana em SP tinha medidas protetivas; pedidos cresceram quase 1.000%. “G1”. São Paulo. 26. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026.

Piassi, P.; Silva, L. R. (2026). Vítima de feminicídio registrou 10 boletins de ocorrência e teve dois pedidos de medida protetiva negados antes de ser assassinada pelo ex. “G1”. Bauru e Marília. 26. Fev. 2026. Disponível em: <LINK>. Acesso em 6. Mar. 2026

05 março 2026

O mundo entrou na era da falência hídrica global - CARLOS ORLANDO VILLARRAGA BENAVIDES

 

CARLOS ORLANDO VILLARRAGA BENAVIDES - Natural de Bogotá, Colômbia,  é formado em Engenharia Química pela Universidade Nacional da Colômbia. Estudioso da Doutrina Espírita desde a infância, morou nos Estados Unidos por sete anos, período dedicado à divulgação do Espiritismo por meio de palestras. Atualmente, reside em São José dos Campos (SP), onde desenvolve, como membro do Centro Espírita Divino Mestre e da Sociedade de Promoção Humana Alex Ivan, trabalhos sociais junto às comunidades carentes da cidade. É autor das obras: Planeta Vida – Contribuição da Doutrina Espírita à conservação do meio ambiente físico e espiritual do Planeta Terra; A Justiça social – Visão Espírita para a ação social e, publicada FEB Editora, Espiritismo e Desenvolvimento Sustentável: caminhos para a sustentabilidade. (Fonte: Autobiografia.)

O abastecimento de água no mundo entrou em uma era de falência, após décadas de uso intensivo e excessivo, poluição, degradação do solo, desmatamento e agravamento pelas temperaturas climáticas. Esse é o cenário preocupante apresentado no relatório Falência hídrica global: vivendo além dos nossos recursos hidrológicos na era pós-crise , lançado em 20 de janeiro de 2026, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH, 2026).

20 fevereiro 2026

A Concepção Espírita de Fatalidade - Silvio e Silvia Seno Chibeni

1. Introdução

No capítulo “Da lei de liberdade” de O Livro dos Espíritos Allan Kardec analisou com lucidez diversas questões relativas à fatalidade, dedicando-lhes uma seção inteira. Neste artigo pretendemos expor brevemente a concepção espírita de fatalidade, estabelecida naquela seção e em obras complementares.

Ao iniciar qualquer estudo, é sempre conveniente ter clareza quanto ao significado preciso dos termos envolvidos. Consultando o dicionário, verificamos que fatalidade é a marca do que é fatal, a força que predispõe irrevogavelmente os acontecimentos, o destino. Fatal é aquilo que é certo, prescrito pelo destino, irrevogável, que necessariamente acontecerá, inevitável, decisivo, inadiável, funesto, nefasto.

05 fevereiro 2026

CONSCIÊNCIA & INCONSCIÊNCIA, por Wilson Garcia

 


Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires

Antonio Damasio: a consciência como produto do

corpo — ciência, limites e diálogo com o Espiritismo

Na entrevista concedida ao El País por ocasião do lançamento de Inteligência Natural e a Lógica da Consciência, o neurocientista português Antonio Damasio reafirma e aprofunda sua tese central: a consciência não nasce de uma mente abstrata separada do corpo, mas de um processo biológico integrado em que cérebro, sistema nervoso e corpo inteiro atuam como um circuito contínuo.

Ao longo de três décadas, desde O Erro de Descartes (1994), Damasio vem atacando o dualismo cartesiano — a separação entre mente e corpo — propondo um monismo biológico: a mente é atividade do organismo vivo; a consciência emerge da autorregulação corporal e das sensações internas (homeostáticas).

Seu novo passo teórico reposiciona a origem da consciência, deslocando o foco do córtex cerebral para estruturas mais primitivas do sistema nervoso, em especial o tronco encefálico, onde se processam os sinais de interocepção — percepções internas do estado do corpo — que dão origem aos sentimentos básicos: dor, prazer, fome, sede, conforto, mal-estar.

20 janeiro 2026

POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS! - Jacira Jacinto da Silva


POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS! 

 Jacira Jacinto da Silva – advogada empresarial, especialista em segurança de dados, aposentada como juíza de direito; membro da CEPA, da CEPABrasil, do CPDoc e da Fundação Porta Aberta, da qual é também instituidora e diretora. Autora do livro Criminalidade, educar ou punir e coautora do livro Espiritismo, ética e moral, ambos pela editora CPDoc.Autora “Por que são mais numerosas, na sociedade, as classes sofredoras do que as felizes?

– Nenhuma é perfeitamente feliz e o que julgais ser a felicidade muitas vezes oculta pungentes aflições. 

O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são mais numerosas, por ser a Terra lugar de expiação. Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre”                                                                          (O Livro dos Espíritos, q. 931).

Uma rápida pesquisa sobre a biografia das maiores celebridades da história, de qualquer área: ciência, arte, esporte, religião, política, ou outra, revelará que o(a) investigado(a) não pode ser considerado unanimidade, não estava “acima do bem e do mal”, tinha, ou tem, seus defeitos, e não raro apresentava, ou apresenta, alguma característica um tanto estranha aos padrões usuais.

05 janeiro 2026

Movimento Espírita em Transformação-Saulo de Meira Albach

 



MOVIMENTO ESPÍRITA EM TRANSFORMAÇÃO

Saulo de Meira Albach

Delegado da CEPA em Curitiba (PR);

Presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita);

Membro do Cultura Espírita Livre-Pensar (Curitiba – PR).


                  OS COLETIVOS ESPÍRITAS 

A polarização política que se acentuou no Brasil mais notadamente a partir de 2017 produziu efeitos também no movimento espírita. Inúmeros grupos foram criados com ênfase no aspecto social do espiritismo e com a preocupação de trazer ao debate os temas sociais contemporâneos sem a restrição que normalmente é imposta nos setores hegemônicos.