20 março 2025

"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL" - ALCIONE MORENO

 

"UMA ECOLOGIA DECOLONIAL"

                         Alcione Moreno - médica, vice-presidente da CEPABrasil membro do CPDoc e do GELP





     Quero partilhar esta obra de Malcom Ferdinand com vocês, pois, apesar de o autor "pensar a partir do mundo caribenho", serve para todos nós que fomos colonizados. A metrópole pode ser Portugal, Espanha, França, Inglaterra, tanto faz, pois a devastação aconteceu e acontece em nossos territórios.

     Malcom Ferdinand nasceu na Martinica -departamento ultramarino insular francês no Caribe - em 1985, é engenheiro ambiental, pesquisador e professor. Por esse livro recebeu o Prix du Livre de la Fondation de l'Ecologie Politique em 2019.                    

     De forma lírica, utilizando metáfora de um navio negreiro, citações de livros, obras de arte e poemas, vai descrevendo tanto a escravização como o ambientalismo, oferecendo sugestões de como podemos integrar e superar estas dificuldades, existentes até o dia de hoje.

     Com um prefácio de Angela Y. Davis e um posfácio de Guilherme Moura Fagundes, o livro se divide em um prólogo, 4 partes e um epílogo.

     Prólogo: Uma dupla fratura colonial e ambiental: o Caribe no centro da tempestade moderna

     Parte I - A tempestade moderna: violências ambientais e rupturas coloniais

     Parte II - A arca de Noé: quando o ambientalismo recusa o mundo

     Parte III - O navio negreiro: sair do porão da modernidade em busca de um mundo

     Parte IV - Um navio-mundo: fazer- mundo para além da dupla fratura

     Epílogo - Fazer-mundo diante da tempestade

     Trechos do livro:

      "Ferdinand começa desfazendo um equívoco recorrente em análises contemporâneas provenientes tanto do movimento ambiental como do movimento antirracista e decolonial: a separação entre a questão ecológica e a questão colonial. Essa "dupla fratura", como ele define, impede perceber em que medida a destruição do meio ambiente e o legado colonial estão inextricavelmente ligados, tanto em sua origem como em suas nefastas consequências".

     "Habitar a Terra começa nas relações com os outros. Assim, o habitar colonial designa uma concepção singular da existência de certos humanos sobre a Terra - os colonizadores-, de suas relações com outros humanos - os não colonizadores-, assim como de suas maneiras de se reportar à natureza e aos não humanos".    

     "Embora todo mundo seja exposto a ecossistemas contaminados, permanecem grupos de senhores proprietários, cujos interesses financeiros coincidem com as contaminações perenes da Terra, nessa configuração do habitar colonial em que a condição tóxica, é a um só tempo, a consequência da exploração capitalista desses ecossistemas por seus senhores e a causa que reforça a dominação de tais territórios por esses mesmos senhores”.

      Com tabelas e quadros sinópticos, didaticamente, Malcom vai nos mostrando esta dupla fratura (ambiental e colonial) como um problema central da crise ecológica, que abala as maneiras como esta é pensada e as suas traduções políticas.

      "A fratura ambiental decorre desta 'grande partilha' da modernidade, a oposição dualista que separa natureza e cultura, meio ambiente e sociedade, estabelecendo uma escala vertical de valores que coloca 'o Homem' acima da natureza. Tal fratura abrange também uma homogeneização horizontal e esconde as hierarquizações internas de ambas as partes. Os termos 'planeta', 'natureza' ou 'meio ambiente' escondem adversidades de ecossistemas, dos lugares geográficos e dos não humanos que os constituem. Florestas, montanhas e reservas naturais mascaram as imagens das naturezas urbanas, das favelas e das plantações. A fratura animal como as hierarquizações entre animais selvagens 'nobres', e os animais domésticos são colocados acima dos animais de criação".

      "A crise ecológica, decorrente da constatação de que a poluição, as perdas de biodiversidade e o aquecimento global são os vestígios materiais desse habitar colonial da Terra, compreendendo desigualdades sociais globais, discriminações de gênero e de raça”.

      "As exclusões sociais e políticas dos ex-escravizados, dos pobres, dos racializados e das mulheres manifestam-se também por meio da contaminação de seus corpos biológicos pelos produtos tóxicos das plantações e das fábricas, pelas desigualdades de exposição, de tratamentos e de pesquisas médicas sobre as consequências dessas exposições".

      "Longe de uma oposição entre causa animal, causa Negra e causa feminista, essas diversas alianças interespécies contra o habitar colonial continuam sendo hoje as chaves de um navio-mundo. Um navio-mundo guiado pelos ventos da justiça, onde humanos e não humanos possam viver juntos".

      "Compor um mundo plural, diverso e transgeracional a partir das pluralidades humanas e não humanas na Terra. O mundo é fruto de um agir conjunto. A ecologia do mundo requer uma cosmopolítica da relação".

      Allan Kardec já nos mostrava este caminho através das Leis Morais, no livro 3 de O Livro dos Espíritos, principalmente com a Lei de Justiça, Amor e Caridade: "A lei de amor e de justiça proíbe que se faça a outrem o que não queremos que nos seja feito, e condena, por esse mesmo princípio, todo meio de adquirir que o contrarie". (Comentário de Allan Kardec à questão 884).

 

 

 

 

05 março 2025

SOBRE HOMENS E MULHERES - Milton R. Medran Moreira

SOBRE HOMENS E MULHERES   -   Milton R. Medran Moreira

     Punido a jogar sem público, por violências praticadas por sua torcida, um dos clubes do Campeonato Brasileiro fez um pedido à Confederação de Futebol: permitir que assistissem a seus jogos apenas mulheres e crianças.

     O pedido foi negado, mas não deixava de ter apreciáveis fundamentos. Afinal, crianças, via de regra, não conhecem a violência que impregna a sociedade, e guardam a ternura na alma. E mulheres são, em geral, menos belicosas e violentas que os homens de cujas truculência e brutalidade têm decorrido as barbáries nos ambientes e entornos futebolísticos.

     É verdade que o noticiário policial do país tem revelado episódios de extrema violência protagonizado por mulheres, desde que os costumes as levaram a participar dos ambientes e das atividades antes exclusivas do então chamado "sexo forte". Compartilhando com eles hábitos e contingências, são levadas a comportamentos e reações igualmente agressivos. Mas isso não abala o entendimento de que a mulher é menos suscetível do que o homem às práticas violentas.

     OS DOIS POLOS

     A ideia de que a alma feminina guarda, mais do que a dos homens, predisposição para a ternura, para a tolerância, o diálogo e a pacificação, tem sido mesmo um dos argumentos dos movimentos feministas. Dar poder à mulher, investi-la de responsabilidades políticas, administrativas, gerenciais, são fatores trazidos como instrumentos capazes de tornar o mundo melhor e mais bonito.  Todos os setores onde se lhes dê mais abertura, estariam beneficiados justamente pela força de fatores ligados a algumas qualidades historicamente tidas como intrínsecas às mulheres.

     Isso não significa que homens não possuam ou desenvolvam essas qualidades atribuídas às mulheres. A distinção que a contemporaneidade faz entre sexo e gênero permite melhor entender que, independentemente de fatores biológicos, todos desenvolvemos, em maior ou menor grau, em nosso interior, energias da polaridade masculina e feminina. E o "anima" e o "animus" de Jung, ou o "yin" e o "yang", da filosofia chinesa, presentes, em maior ou menor grau, em cada um de nós.

     DIREITOS E FUNÇÕES

     Por muito tempo, no âmbito de nossa cultura, um olhar estratificado acerca das distinções psicológicas entre homens e mulheres conduziu a uma severa limitação de atividades externas disponibilizadas a estas. Levava-se ao extremo o pressuposto de que o homem detinha a força, o vigor físico - e até intelectual, diziam alguns -, e a mulher, mais frágil fisicamente, era detentora de sentimentos mais refinados que a predispunham a permanecer em casa, cuidando do "interior", enquanto o homem lutaria pela subsistência de todos, mediante o trabalho externo.

     É nesse contexto que vamos encontrar em O Livro dos Espíritos conceitos que referendam a igualdade de direitos entre o homem e a mulher - um avanço para a época -, mas com a ressalva de que essa igualdade de direitos não significaria a igualdade de funções: "É preciso que cada um tenha um lugar determinado, que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um de acordo com a sua aptidão", justifica a questão 822-a.

     AVANÇOS

     Os tempos andaram e, mais que a conquista de direitos iguais, as mulheres se habilitaram ao exercício de funções antes atribuídas exclusivamente aos homens. Praticamente já não existem atividades profissionais ou administrativas e políticas a que elas não tenham acesso.

     É, pois, tempo de, também aí, contextualizar Kardec e seus interlocutores espirituais, reconhecendo que aquela distinção tinha, predominantemente, um conteúdo cultural, modificável com o tempo.

     Concomitantemente, porém, admita-se que, sim, há uma polaridade masculina/feminina, milenarmente reconhecida em todas as culturas, que, independente do gênero no qual estagiamos, todos desenvolvemos no espírito. E que a conjugação dessas energias – a masculina e a feminina -, quando presente em uma atividade, enriquece-a e lhe dá mais amplitude social.

     A ausência da mulher, em cuja alma predominam sentimentos refinados da polaridade feminina, em qualquer setor social enfraquece-o e tende a brutalizá-lo.

                    Postado no CCEPA Opinião nº 321 (setembro/2023).



 

24 fevereiro 2025

CCEPA SERÁ A SEDE DO VI ENCONTRO NACIONAL DA CEPABRASIL

Nos dias de 01 a 04 de maio próximo, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) sediará o encontro nacional que a Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA (CEPABrasil) realiza bienalmente, desta feita em parceria com aquela importante instituição gaúcha e tendo como coordenador da Comissão Organizadora seu diretor Salomão Benchaya.

A abertura do evento será na quinta-feira à noite, dia 1º de maio, com a presença de dirigentes da CEPA, da CEPABrasil, do CCEPA e de representante da Federação Espírita do Rio Grande do Sul. A conferência de abertura estará a cargo de Milton Medran Moreira. Na sexta-feira e no sábado, dias 2 e 3 de maio, várias atividades ocuparão o dia todo, com apresentações de trabalhos, mesa redonda, “workshop”, momentos de arte, sessão de autógrafos, lançamento de livros e a inauguração do Memorial CCEPA, incluindo exposição de parte dos documentos originais de Allan Kardec, pertencentes ao Museu AKOL.  Já estão confirmados como expositores: Adair Ribeiro Jr., Alexandre Cardia Machado, Ana Cláudia Laurindo, Beto Souza, Jacira Jacinto da Silva, Jerri Roberto Almeida, Klycia Fontenele Oliveira, Leandro Carvalho Dias, Luiz Signates, Mauro de Mesquita Spinola, Mônica Fonseca Mendes, Ricardo Morais Nunes, Rafael van Erven Ludolf, Raul Drubich, Reinaldo Di Lucia, Ricardo Andrade Terini, Sérgio Maurício S. Pinto e Wilson Garcia.

No sábado à noite, no próprio local, haverá uma Pizza de Confraternização entre os cerca de 100 participantes esperados de vários Estados do Brasil, do Uruguai e da Argentina. O encerramento ocorrerá no domingo, dia 4 de maio, pela manhã, com a conferência do Prof. Moacir Araújo Lima.

Inscreva-se! Ainda há tempo! As poucas vagas que restam ainda permitem que interessados se inscrevam através dos sites da CEPABrasil e do CCEPA, mediante preenchimento e envio de formulário: https://forms.gle/5NSr8USZPwzg5X8z5  

20 fevereiro 2025

O que é Deus - Alexandre Cardia Machado

 

O que é Deus

 Alexandre Cardia Machado  – 

Presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos e editor do Jornal Abertura.

 

     Esta pergunta nos remete à primeira questão do Livro dos Espíritos: – O que é Deus?

        Sempre que passamos por crises, sejam elas familiares ou sociais, nos perguntamos: por que Deus não me ajuda? Tenho rezado tanto. É uma situação simples, mas repetitiva. Nós humanos gostamos de ser especiais, nosso Deus, nossa vocação ou nosso empenho.

         O espiritismo vem nos trazer uma nova visão de mundo ou falando de outra maneira, nos ensina que existe a predominância das Leis Naturais e não de leis sobrenaturais.

         Mesmo entre os espíritas saber não significa muitas vezes agir de acordo com o que sabemos, nos deixamos levar pelo desejo ou mesmo pela emoção e consequentemente ficamos à espera de uma Graça.

         Voltando à questão número 1 do Livro dos Espíritos a resposta dada pelos Espíritos é: “Deus é a causa primeira de todas as coisas”. Esta resposta tem um significado ontológico, não significa que a cada ato, ou que em cada fato Deus esteja envolvido, ou interferindo. Isto sabemos por que o Espírito é dotado de livre arbítrio.

         Do livreto Doutrina Kardecista – Modelo Conceitual de Jaci Régis extraio “A Teologia cristã exige a presença de um salvador, porque a humanidade é, segundo ela, naturalmente condenada. A transferência da fragilidade humana para deuses sobrenaturais é parte das civilizações.” Ou seja, o pensamento de que algo sobrenatural poderá vir me ajudar perdura por milênios, está na cultura. Somente com esforço intelectual é possível superar isto, esta é uma das metas do Espiritismo, trazer-nos ao uso da razão.

         Isto posto, não significa que estamos abandonados e sem esperança, que nada nem ninguém nos ajudará, sim existem possiblidades de ajuda, somos Espíritos, então o primeiro passo é ajudarmos a nós mesmos. Através do acúmulo de conhecimento, do desenvolvimento dos bons pensamentos e de nos reconhecermos como Espíritos. O segundo passo é formarmos uma psicosfera positiva, nos aproximarmos de pessoas boas e da prática do bem.

         Terceiro passo é que podemos sim pedir ajuda aos bons Espíritos em caso de crises, sejam eles amigos encarnados ou desencarnados. Podemos até pedir a Deus, mas precisamos saber que quem nos atenderá, se isso for possível, serão os nossos Espíritos mais próximos.

         Sabendo que a Lei Natural estará sempre presente e que como diz Jaci Régis no mesmo livreto “A Lei Natural exprime a sabedoria divina, com mecanismos extremamente competentes, estabelecendo o ritmo e a sucessão dos fatores com o fim de equacionar, no universo energético, tanto quanto no universo inteligente, o princípio do equilíbrio, atuando através da lei de causa e efeito ou ação e reação, ferramenta de busca do equilíbrio, através da reciprocidade dos fatores.”

         Do livro Novo Pensar – Deus, Espírito e Mundo também de Jaci Régis, da página 31 extraímos “Um novo pensar sobre Deus começará por deixar de lado o deus Jeová, as afirmativas bíblicas e, de modo geral, as teorias que fazem dele uma pessoa. Simplesmente porque ele não corresponde às mínimas necessidades de um deus universal.”

         “As palavras do louco Nietzsche sobre a morte de Deus não devem ser tomadas como blasfêmias, mas como exclamação maior da decepção com o amor de Deus. O Deus que Nietzsche matou é esse criado à semelhança das pessoas e cultuado, imposto pelas teologias de todos os tempos”.

         Na visão espírita livre - pensadora Deus é uma espécie de arquiteto universal, que atua sobre o mundo físico e espiritual, duas partes do mesmo mundo através das leis naturais.

Nas palavras brilhantes de Jon Aizpúrua em seu livro – Os Fundamentos do Espiritismo: “A Doutrina Espírita coloca como premissa maior a existência de Deus, reconhecendo-o como inteligência Suprema e causa primária de todas as coisas. Considerando a intuição, e em sintonia com uma correta dedução filosófica que remonta dos efeitos e as forças que o geram, apresenta Deus como a causa necessária e eficiente que permite entender a grandiosidade do Universo e seu harmônico desenvolvimento, desde as minúsculas partículas subatômicas até a imensidão do espaço sideral.”

Postado no Jornal Abertura nº 385 de maio/2022.

05 fevereiro 2025

Refletindo sobre a Espiritualidade - Por Cláudia Régis

         


Cláudia Régis Machado é psicóloga, Vice-Presidente do ICKS, reside em Santos


     Este tema despertou-me maior interesse após o último Congresso Espírita da CEPA em Rosário, na Argentina, e mais ainda quando ouvi o termo, criado por Luc Ferry – Espiritualidade Laica. 

     A noção de espiritualidade tem significados diferentes e depende do contexto em que é utilizada. Para as religiões, é entendida como a perspectiva do ser humano em relação a um ser que é superior. Do ponto de vista filosófico, tem a ver com a oposição entre matéria e espírito ou exterioridade e interioridade. O termo designa ainda a busca do sentido da vida, da esperança e desenvolvimento pessoal.

     Para alguns, a espiritualidade é a conexão com a natureza e com o cosmo, para outros pode ser expressa pela música, pelas artes, meditação, etc. Dentre os vários conceitos de espiritualidade encontrado, sintetizamos no seguinte: É uma propensão humana a buscar para a vida conceitos que transcendem o mais tangível e, que tragam um sentido de conexão com algo maior que si próprio.

     Muitos espíritas pensam espiritualidade ligando ao plano maior, ao plano espiritual. A espiritualidade é considerada “as forças espirituais”, os “movimentos espirituais” que envolvem o ser humano. Também é normal ouvirmos assim: “a espiritualidade está me ajudando”; como se uma força superior, uma energia extrafísica estivesse atuando ao seu redor no seu caminho para lhe ajudar. Ou ainda “Nossa! essa espiritualidade parece estar pesada” uma expressão utilizada pra falar de coisas e acontecimentos que são de ordem espiritual e que estão deixando a pessoa ou o ambiente carregado de energias ruins. Todos esses pensamentos tem um fundo de verdade, no entanto vamos abordá-lo dentro da filosofia espírita, sair desses conceitos e refletir mais sobre o tema.

     A Espiritualidade espírita, dentro do novo pensar da Ciência da Alma, é espiritualidade laica, isto é, sem Deus. Deus da maneira como é entendido pelas religiões, mas o Espiritismo, diferentemente de Luc Ferry, é uma filosofia que defende a existência de Deus. O espiritismo vê a existência de Deus como: “inteligência suprema causa primária de todas as coisas”.

     Jaci postula que “Um novo pensar sobre Deus nos conduz à compreensão de que a dinâmica da vida, em qualquer dos setores em que se manifesta, prima pela criação de ambientes de oportunidade, seleção e superação”.

     A Espiritualidade espírita é baseada na imortalidade dinâmica que abre uma nova significação de espiritualidade sem passar pelo campo da fé. A Espiritualidade na perspectiva espírita laica, traz um arcabouço consistente, atualizado por trazer mudança e fortaleza interior para abrir um estilo de vida e uma visão de mundo amplo e modificador.

     Ferry em seu livro A Revolução do Amor discute a espiritualidade laica, não ligada a Deus, mas ao homem por meio do amor. A espiritualidade baseada no amor. É o homem, saindo de si mesmo e indo em busca do outro. Saindo da sua materialidade, do seu ego. Transcendendo de si mesmo

     Não é um amor idealizado, necessita de pés no chão. A revolução do amor que se instalou em nossas vidas “Eu faço porque eu amo”. Ferry não acredita na imortalidade de alma, e diz: “Mesmo que a nossa existência seja limitada no tempo e no espaço, não muda o fato de que podemos a cada dia que Deus nos dá, estabelecer laços com outrem”. O amor produz sentido em nossas vidas, mobiliza novas formas de sabedorias e de espiritualidade laica.

     Objetivo ou finalidade da Ciência da Alma é desenvolver a Espiritualidade no ser humano. Por espiritualidade nesta visão entendemos o desenvolvimento integrado da alma humana, reconhecendo sua essência sensível e o uso equilibrado dos fatores presentes na vida de relação e consigo mesmo. Nos ensina Jaci Regis que “agora, é necessário que o homem assuma sua natureza espiritual, a sua espiritualidade e desenvolva, no plano da vida terrena, novas formas de relacionamento e revolucione seu projeto de vida, a partir das premissas espirituais dinâmicas”.

     Luc Ferry explica que essa nova “espiritualidade laica”, significa uma concepção de filosofia que atribui ao homem uma tarefa essencial de refletir sobre o que seria uma via boa sem passar por um Deus ou pela fé, mas com os meios disponíveis, os de um ser humano que se sabe mortal, entregue a si mesmo e às exigências de sua lucidez, da razão.

     O problema é que a expressão – espiritualidade - está corrompida na cultura porque sempre foi colocada como oposição a vida corpórea, chamada de “material”. Todavia a espiritualidade não se opõe, mas compõe a vida corpórea, porque nela a alma se exprime na totalidade de suas ansiedades, esperanças e evolução.

     “A alma espiritualizada não desdenha viver as emoções saudáveis da vida corpórea, sem apegar-se a elas porque não pertence aos fatores externos mais a si mesma”. A espiritualidade se exercita e desenvolve no espaço interior de cada um. Não se relaciona com a morte e o além-túmulo pois muitos mortos não são propriamente espiritualizados. Espiritualidade não é do plano espiritual é do aqui e agora com base na filosofia espírita, que vê o homem um ser imortal que tem como objetivo desenvolver-se em toda a sua essência intelectual e moralmente. A prática da nossa espiritualidade é desenvolver estes conceitos na estrutura da pessoa humana. E mostrar que é uma realidade natural, é a sua essência.

      Essa visão espiritual correspondendo a espiritualização da vida será produto do amadurecimento e das pesquisas. Na verdade, será ponto decisivo e moldara o pensamento humano de maneira a transformar relações entre as pessoas.

     Luc Ferry faz uma distinção entre valores espirituais e morais, atribuindo que há muita confusão no setor público como na filosofia. Exemplifica para explicar isto: “ Comporto-me moralmente com os meus vizinhos, parentes e próximos quando tenho respeito e os ajudo; quando reconheço seus direitos imprescritíveis de pensar diferente de mim e mesmo nessa hipótese faço o que posso para tornar-lhes a vida mais suave e fácil”. A vontade agir corretamente de ajudar ativamente os outros - benevolência ou generosidade, bondade, respeito pelo outro mais a preocupação com o outro - aí está a moral comum na qual se encontra idealmente hoje a maioria dos nossos concidadãos. O que não significa que estejam no nível ideal. Continuando, Ferry contrapõe que mesmo tendo valores morais ou não, não deixaríamos de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido nem mesmo ser infeliz no amor. De nos apaixonar por quem nos ama e se entediar ao longo da vida cotidiana atolada em banalidades e à doença. Estas são questões que ele chama de existenciais ou espirituais porque se relacionam com a vida do espírito. Daí chamar de espiritualidade laica. Esses sentimentos não têm nada ver com a moral. Os valores espirituais não se reduzem absolutamente a valores morais.

     A busca da Espiritualidade não deve ser delineada por um roteiro proposto por alguma religião. Acredita que realmente existe longe da religião e da moral, uma espiritualidade sem deus e que essa esfera do pensamento, que ele identifica à mais alta filosofia.

     Para Ciência da Alma a nossa espiritualidade deve ser conduzida para nossas ações, para o nosso comportamento levando-nos a uma vida boa, a uma vida feliz. Se inicia no intelecto e se estende para a vivência. É bom viver a espiritualidade pela janela do Espiritismo. O Espiritismo é uma filosofia que nos oferece uma matriz para vida boa.

      A filosofia espírita nos auxilia e nos ajuda a viver melhor, na medida em que valoriza a vida terrena como oportunidade imprescindível de aperfeiçoamento do espírito.

     Na prática, uma vida boa é quando vivemos com lucidez- A “lucidez” pretendida pelo espiritismo é de tal ordem que a filosofia espírita pretende abolir de vez o conceito de maravilhoso e sobrenatural nas chamadas questões da alma, as quais foram tradicionalmente tratadas pelas religiões sob uma aura de mistério.

     Ser livre em pensamentos, é impossível ser livre em pensamento se estiver bloqueado pelos medos.

     Sem poder estar livre afundamos num egocentrismo que nos torna imediatamente incapazes de amar e de pensar serenamente. “Praticar amizade. Doar-se é a atitude-chave para qualquer programa de vida que pretenda desenvolver os potenciais do Espírito” (Jaci Regis).                 

     A felicidade trazida pelo servir, pode ser mais ampla e duradoura por representar o momento de mais doação, de sair de si mesmo, sem objeto de reciprocidade.

     Capacidade de dar depende do desenvolvimento do caráter da pessoa. Para uma vida boa é importante que o objetivo da vida, para o espírito, seja a plena felicidade. 

     A vida não pode ser boa sem felicidade, autonomia, auto expressão, moralidade e progresso.                 

 

24 janeiro 2025

CONVITE DE SIGNATES


Quer fazer parte da maior discussão sobre o espiritismo do ano?

Inscreva-se agora no VI Encontro Nacional da CEPABrasil e participe de palestras, workshops e rodas de conversa sobre as dimensões científica, filosófica e social do espiritismo.

Não fique de fora!

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20 janeiro 2025

As Quatro Forças Universais - Por Beto Souza

As Quatro Forças Universais

Por Beto Souza

 [Artigo publicado no jornal CCEPA OPINIÃO n° 321, de setembro/2023]

Roberto Souza é graduado em Teologia e Filosofia e presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, ex diretor do Departamento de Estudos do CCEPA.

 

Recentemente circularam notícias sobre os cientistas estarem perto de descobrir a “quinta força da natureza” e, como geralmente acontece nesses momentos, cresceram também os comentários nos grupos de estudo espíritas sobre teorias científicas que parecem se aproximar das concepções metafísicas presentes no pensamento espiritualista universal e, particularmente, nas respostas dos espíritos para Allan Kardec (1804-1869) sobre as substâncias formadoras do cosmos.

            No pensamento vitalista de fins do século XVIII já existia uma aproximação, ou tentativa de aplicação, das teorias do magnetismo aos corpos orgânicos através de um "Magnetismo Animal", desenvolvido por Franz Anton Mesmer (1734-1815), baseada na ação do que, então, se denominava fluidos. Conceito este também trabalhado por Allan Kardec, principalmente no capítulo XIV do livro "A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo", de 1868.

Na metade do século XIX, a ideia de que a natureza era governada por forças fundamentais ainda não estava desenvolvida. Das forças, a gravidade era uma das mais compreendidas e para os fenômenos físicos buscava-se a explicação por meio de teorias mecânicas clássicas. Em "O Livro dos Espíritos", de 1857, Allan Kardec trata das forças e elementos gerais do Universo, conforme o pensamento de sua época, como no questionamento abaixo:

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Questão 27.  Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o espírito?

“Sim e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer ação sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo com o elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com a matéria e sob a ação do espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá.”

a) Esse fluido será o que designamos pelo nome de eletricidade?

“Dissemos que ele é suscetível de inúmeras combinações. O que chamais fluido elétrico, fluido magnético, são modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente.”

Assim, para Kardec, todas as forças eram especializações deste fluido especial, o fluido cósmico universal e sua ação mais evidente em nossa realidade seria através do princípio vital, conceito já teorizado em outras culturas, com diferentes nomes como Ka, Ki, Chi, Prana, Força Ódica e outros, mas que hoje poderíamos considerar semelhante a uma “energia vital”.

Após Kardec, que desencarnou em 1869, a Ciência avançou em conceitos, teorias e nomenclaturas.

Em 1897, o físico britânico Joseph John Thomson (1856-1940) descobriu o elétron, uma partícula subatômica com carga negativa, permitindo o desenvolvimento da teoria atômica, descrevendo a estrutura do átomo. Em 1905, o físico alemão Albert Einstein (1879-1955) publicou artigos que revolucionaram a física e, em um deles, a teoria da relatividade, considerando que a gravidade não é uma força à parte, mas sim uma consequência da curvatura no “continuum espaço-tempo”, expressão desenvolvida por Hermann Minkowski (1864-1909) para descrever o espaço e o tempo como um conjunto único e contínuo, ao invés de separados, considerando também o tempo como uma dimensão, a quarta, em seu sistema de coordenadas.

Assim, no início do século XX, a teoria da relatividade geral de Einstein e a teoria eletromagnética de James Clerk Maxwell (1831-1879) eram as duas teorias físicas mais importantes. Essas teorias tratavam de duas das quatro forças fundamentais consideradas atualmente:

Força Gravitacional: Responsável pela atração entre objetos com massa, como planetas, estrelas e galáxias.

Força Eletromagnética: Atua na atração e repulsão entre partículas com carga elétrica, como elétrons e prótons.

Força Nuclear Fraca: Responsável por transformar prótons em nêutrons e vice-versa.

Força Nuclear Forte: A força forte é a força mais poderosa das quatro forças fundamentais, responsável pela ligação entre os quarks, as partículas subatômicas que formam os prótons e nêutrons.

Alexandre Cardia Machado em seu livro "Uma Breve História do Espírito", ensina que uma das teorias formuladas para explicar o surgimento das forças é do chamado "Campo de Higgs", onde estaríamos mergulhados e que, embora não atue nas energias eletromagnéticas e seja conceitualmente diferente do conceito de Fluido Cósmico Universal, interfere nas forças que envolvem aceleração como a força gravitacional. Essa teoria de um campo quântico presente em todo Universo e dando massa para as partículas subatômicas foi proposta em 1964 pelo físico britânico Peter Higgs (nascido em 1929) e recebeu seu nome. Os cientistas ainda estão tentando unificar as quatro forças fundamentais em uma única teoria, que seria chamada de “Teoria do Tudo”. No entanto, até o momento, essa teoria ainda não foi formulada e novas descobertas tendem a impulsionar expectativas neste sentido.

As notícias sobre uma quinta força universal envolvem uma partícula subatômica formada por colisões de alta energia, chamada de “múon” e que decai em elétrons e neutrinos. Os cientistas descobriram um comportamento diferente do esperado na aceleração de partículas, indicando que o “múon” estaria sob a ação de alguma força que não sabem qual, diferente das quatro fundamentais já conhecidas.

Para os espiritualistas, uma “Teoria de Tudo” passa pela união de dois princípios, o material e o espiritual, cuja interação ocorre devido a ação de um mediador semimaterial denominado corpo astral, corpo espiritual ou, na nomenclatura espírita, perispírito, que uniria as diferentes teorias explicando como se dá a transmissão da vontade espiritual, inteligente, sobre a matéria, produzindo ordem no que sem ela seria caos e lembrando o “Efeito do Observador”, que envolve um sistema quântico ser forçado numa direção apenas por ser observado, ou seja, a ação de uma vontade inteligente na organização subatômica da matéria.

De acordo com a nomenclatura de seu tempo, Allan Kardec acreditava que a organização cosmológica era explicada pela gravidade, magnetismo, eletricidade e a força vital, mas como especializações de um agente unificador mais antigo, o Fluido Cósmico Universal. Kardec também acreditava que estas forças eram conectadas e que poderiam ser unificadas em uma única teoria. Contudo, a Ciência da época, e ainda hoje, mantém um nível de descrédito sobre seu pensamento, por considerá-lo comprometido e influenciado por crenças religiosas, pois ele acreditava que o Universo foi criado por Deus, que as forças fundamentais são manifestações de uma vontade divina e que os Espíritos existem, sobrevivem e se comunicam.

Penso que as novas descobertas têm se aproximado de muitos dos conceitos de antigas tradições espiritualistas, como as orientais, muito bem trabalhadas por Fritjof Capra em seu livro "O Tao da Física" e que, no geral, os avanços científicos não invalidam as ideias de Allan Kardec, mas demonstram estarmos todos no mesmo “Caminho”.


 

 

Fontes de Consulta

1. Allan Kardec. O Livro dos Espíritos.

2. Allan Kardec. Revista Espírita de 1858.

3. Allan Kardec. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo.

4. Alexandre Cardia Machado. Uma Breve História do Espírito. 1. ed. Santos, SP: ICKS, 2022.

Disponível em:

https://cepainternacional.org/site/pt/cepa-downloads/category/27-icks-colecao-abrindo-a-mente?download=200:uma-breve-historia-do-espirito-alexandre-cardia-machado

5. Google. Inteligência Artificial, IA Bard. Disponível em: https://bard.google.com/?hl=pt-BR

6. CNN Portugal. Cientistas acreditam estar perto de descobrir a quinta força da natureza.

Disponível em:

https://cnnportugal.iol.pt/quinta-forca/forcas-da-natureza/cientistas-acreditam-estar-perto-de-descobrir-a-quinta-forca-da-natureza-pode-ser-qualquer-coisa-novas-particulas-novas-forcas-novas-dimensoes-novas-caracteristicas-do-espaco-tempo/20230811/64d67e42d34e3ae5b8c497a2

7. Meteored. A quinta força da natureza? Físicos encontram partícula se comportando de forma estranha. Disponível em:

https://www.tempo.com/noticias/actualidade/a-quinta-forca-da-natureza-fisicos-encontram-particula-se-comportando-de-forma-estranha-fisica.html

 


 

06 janeiro 2025

O Paradigma Ignorado

 

                                        O  PARADIGMA IGNORADO

[Edição de agosto/2002 do CCEPA/OPINIÂO]

(*) Maurice Herbert Jones foi um pensador espírita pernambucano radicado em Porto Alegre-RS, presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, de 1978 a 1984, um dos criadores do ESDE (Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita), presidente da Sociedade Espírita Luz e Caridade (atual Centro Cultural Espírita de Porto Alegre) por vários mandatos, Assessor da Presidência da CEPA-Associação Espírita Internacional, desencarnado em 20.06.2021, aos 92 anos.

Os antigos deuses envelheceram ou morreram e outros ainda não nasceram.” (Emile Durkheim)

O processo civilizatório a que estamos submetidos transcorre como se nosso planeta fosse um gigantesco e dinâmico palco com cenários em permanente mutação e atores em rodízio constante.

Este imenso espetáculo é dirigido por “matrizes ideológicas” ou paradigmas que, num dado momento e cultura, tornam-se hegemônicos e, portanto, eleitos para administrar o processo até que, esgotada sua virilidade, senilizados, são substituídos por novos paradigmas.

Convém reconhecer, todavia, que o envelhecimento ou até mesmo a morte dos velhos deuses não é facilmente reconhecida. Sendo muito penosa a orfandade, é preferível um deus mumificado a deus nenhum, prolongando, assim, a crise de referências ao mesmo tempo em que os candidatos à sucessão são submetidos aos testes necessários.

20 dezembro 2024

SER ESPÍRITA LAICO É CHOCANTE?




Ser espírita laico é chocante?

Ana Claudia Laurindo - Mestra em Educação Brasileira na Linha História e Política, Cientista Social, cidadã, amante e defensora do direito de viver.


Obviamente que a pergunta exposta no título, é para você leitor ou leitora, que se interessa por Espiritismo.

Acha absurdo que alguém seja espírita, e ao mesmo tempo, não comungue de uma prática religiosa?

O laicismo espírita não significa ausência de crença, porque isto é circunscrito às individualidades e suas relações intimistas com Deus. Se refere a uma vivência espírita liberta de ritual e cartilha religiosista. Neste caso, o Espiritismo não é uma religião, não tem sacramentos nem qualquer outro aparato resgatado de referências advindas de práticas orientais ou ocidentais de fé.

05 dezembro 2024

Unir teoria e prática, o grande desafio - Dirce Terezinha Habkost de Carvalho Leite

Unir teoria e prática, o grande desafio (publicado no jornal CCEPA OPINIÃO de agosto 2018).

Dirce Terezinha Habkost de Carvalho Leite, Pedagoga, Assessora Administrativa do CCEPA

      “A convivência é a grande lei” (Maurice Herbert Jones). Conceitos novos, por si sós, não mudam práticas. Podemos ampliar conhecimentos, ideias, compreensões que podem ser ricas e consistentes, mas não são suficientes. Não garantem práticas humanas com eles coerentes e, assim, melhores. Mudar a prática, aperfeiçoando-a, envolve a área dos desejos, das emoções, dos sentimentos, das subjetividades de cada ser. Envolve expansão da consciência que, então, desaguará na ação coerente com a teoria já abraçada intelectualmente.

20 novembro 2024

ESPIRITISMO E EDUCAÇÃO SOCIAL (publicado no Jornal Abertura de agosto/2019) Jacira Jacinto da Silva e Mauro de Mesquita Spínola

 

             ESPIRITISMO E EDUCAÇÃO SOCIAL (publicado no Jornal Abertura de agosto/2019)

                                                                Mauro de Mesquita Spínola        Jacira Jacinto da Silva

 “Um sorriso quando precisaria ser sério; uma fraqueza quando seria preciso ser firme; a severidade quando seria preciso a doçura; uma palavra sem pensar, um nada, enfim, basta às vezes para produzir uma impressão indelével e para fazer germinar um vício. Que se passará então quando essas impressões forem ressentidas desde o berço, e frequentemente durante toda a infância? Nesse aspecto, o sistema de punições é uma das partes mais importantes a serem consideradas na educação; pois elas são comumente a fonte da maior parte de defeitos e vícios.” (Hippolyte Léon Denizard Rivail, Textos Pedagógicos. 1ª Ed. São Paulo. Comenius, 1998, p. 19).

A necessidade e a premência da educação são bandeiras unânimes na sociedade moderna, reconhecida como paradigma tanto de progresso individual quanto de efetiva democracia e dignidade social. A partir do século XIX, consolidou-se com mais força a defesa iluminista da educação universal, laica e livre, como um direito de todos e ao mesmo tempo um instrumento imprescindível ao desenvolvimento econômico e social.

Hyppolite Rivail, o educador, e Allan Kardec, o fundador

04 novembro 2024

UMA OPORTUNIDADE PARA REPENSAR O PAPEL DO ESPIRITISMO - ADEMAR ARTHUR CHIORO DOS REIS

 UMA OPORTUNIDADE PARA REPENSAR O PAPEL DO ESPIRITISMO 

                   (publicado no Jornal Abertura de janeiro/fevereiro de 2019)

       Ademar Arthur Chioro dos Reis

Em 2006, o CPDoc promoveu um profícuo debate com o professor titular de Antropologia da Unicamp José Luiz Santos, autor do livro “Espiritismo: uma religião brasileira”, cujas principais ideias registrei aqui na Coluna do CPDoc.  Para ele, o espiritismo conseguiu ocupar um importante espaço na cultura brasileira quando se consolidou enquanto uma religião cristã, assentada na caridade e em uma estrutura religiosa sui generis: uma religião de leigos, estruturada em grupos familiares autônomos e sem a hierarquia tradicional. Atribuiu a inserção cultural do espiritismo na sociedade brasileira, inicialmente, à psicografia e à mediunidade receitista homeopática, efetuada inclusive por médicos espíritas alopatas, como o próprio Bezerra de Menezes.

É inegável, entretanto, que a respeitabilidade social conquistada se deve sobremaneira ao papel relevante de médiuns como Batuíra e principalmente Chico Xavier, por meio do qual a psicografia ficou mais conhecida a partir da década de 30. Médiuns que, seguindo as orientações de Allan Kardec, fundador do espiritismo, praticaram a mediunidade de forma desinteressada, gratuita e de boa fé. Os benefícios advindos dos direitos autorais das obras mediúnicas ou das doações materiais voluntárias eram sempre utilizados com transparência na manutenção de obras assistenciais mantidas por instituições filantrópicas espíritas e reconhecidas pela sociedade e pelo poder público.

Essa postura foi fundamental, primeiro como estratégia de enfrentamento da repressão contra os espíritas na Primeira República e no Estado Novo e, após, como meio de legitimação social que perdura até os dias atuais, consolidando o espiritismo como um respeitável movimento social de classe média.

Ainda que um pequeno número de pessoas se declare espírita nos Censos, a sua influência na cultura brasileira é imensa. Um exemplo claro disso pode ser observado na difusão de conceitos filosóficos, como a reencarnação, a mediunidade ou a visão que se estabeleceu sobre a vida após a morte, fortemente representada imageticamente pelas colônias espirituais como “Nosso Lar”.

Outra face de contato e produção da imagem societária do espiritismo relevante é a procura por médiuns curadores em praticamente todo o país, que mobilizam enfermos e desenganados brasileiros, suscetíveis às mazelas do nosso sistema de saúde (público e privado), mas também de doentes oriundos de diversos cantos do planeta,

Escândalos sexuais recentes envolvendo médiuns famosos, como João de Deus, que sequer se considera espírita, para além da dimensão ética e criminal que merece nosso repúdio – e o posicionamento da CEPA condenando toda e qualquer forma de violência e o uso abusivo e antiético da mediunidade foi muito corajoso e oportuno – devem ser analisados pela fratura histórica que podem impor na imagem do espiritismo no país e em âmbito internacional.

No momento em que políticos vinculados a setores conservadores, em particular os pentecostais, assumem importantes cargos na República e sem cerimônia e com vasto apoio na mídia controlada por pastores, alardeiam que é chegada a hora de colocar em prática o “projeto da Igreja”, e considerando que sempre tiveram no espiritismo um inimigo declarado, é preciso analisar cuidadosamente o impacto que poderão acarretar ao espiritismo a inaceitável usurpação da mediunidade de cura para fins econômicos (enriquecimento de médiuns e suas famílias) e para a deplorável exploração sexual.

É também o momento de repensar o papel da mediunidade de cura. A falta de compreensão sobre a natureza da mediunidade, uma capacidade natural e não um ‘dom moral’, fez com que legiões de seguidores cegamente passassem a legitimar toda a ordem de absurdos, inclusive acobertando situações insustentáveis de violência sexual, demonstrando que perderam totalmente o senso crítico e o juízo moral.

Há os que se perguntam como podem os espíritos permitir que um médium seja um assediador. Imaginam que a moral do médium está relacionada diretamente à capacidade fenomênica, mas isso é um grande equívoco. Se assim fosse, médiuns equilibrados e moralmente desenvolvidos não poderiam servir para comunicações de espíritos obsessores e perturbados.

Vale questionar, também, como é possível que médiuns curadores desempenhem suas atividades, as vezes por décadas, sem que se faça qualquer tipo de avaliação dos resultados do seu trabalho mediúnico? Ou como, em pleno século 21, pode-se aceitar o uso de objetos perfurocortantes, ou que se recomende irresponsavelmente a substituição do tratamento convencional?

Os idólatras que se acercam deste tipo de médiuns são pessoas que ainda não compreenderam que a morte é uma contingência da vida e faz parte do processo natural, necessário para a evolução do espírito. Entre estes devem ser incluídos médicos espíritas e suas instituições ditas especializadas, que tem dado sustentação e legitimidade “científica” às situações como esta.

Trata-se de um tema difícil, mas que precisa ser enfrentado. Médiuns são seres humanos, imperfeitos, suscetíveis às mazelas da vida. Falar sobre isso, lidar com esta realidade e assumir uma posição de “tolerância zero” é fundamental. Não se trata de execrar ou condenar ninguém a priori. Todos têm o direito de defesa amplo e irrestrito, mas daí compactuar com qualquer forma de violência nas instituições espíritas é inadmissível.

Isto é triste, ainda mais quando se percebe que o espiritismo foi e deveria continuar a ser um brado contra a ignorância, uma forma racional de enfrentar temas que historicamente foram alijados da órbita da ciência exatamente pelas práticas violentas e pela exploração mística e religiosa.

Ainda que seja tarde, parece-me fundamental compreender que a verdadeira potência do espiritismo está em sua filosofia, ao sustentar a existência do espírito e a imortalidade da alma, a reencarnação e a educação para a morte.  


*Ademar Arthur Chioro dos Reis
Médico Sanitarista, Professor Universitário, Presidente da EBSERH, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares.

25 outubro 2024

CONGRESSO ÁGORA

CONGRESSO ÁGORA

Néventon, Alcione, Saulo Albach (do CPDoc) e Geci Camargo Vargas (esposa de Néventon)

A CEPABrasil – Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – Associação Espírita Internacional esteve representada no I CONGRESSO ÁGORA ESPÍRITA pela sua vice-presidente Alcione Moreno e pelo assessor de comunicação Néventon Vargas, nos dias 19 e 20 de outubro de 2024, na sede do Sindicato dos Bancários de Pernambuco, em Recife.

O evento revestiu-se de sucesso pleno, refletindo a própria razão da existência do ÁGORA, que tem