20 janeiro 2026

POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS! - Jacira Jacinto da Silva


POR QUE SOMOS SIMPLESMENTE HUMANOS! 

 Jacira Jacinto da Silva – advogada empresarial, especialista em segurança de dados, aposentada como juíza de direito; membro da CEPA, da CEPABrasil, do CPDoc e da Fundação Porta Aberta, da qual é também instituidora e diretora. Autora do livro Criminalidade, educar ou punir e coautora do livro Espiritismo, ética e moral, ambos pela editora CPDoc.

 Autora “Por que são mais numerosas, na sociedade, as classes sofredoras do que as felizes?

– Nenhuma é perfeitamente feliz e o que julgais ser a felicidade muitas vezes oculta pungentes aflições. 

O sofrimento está por toda parte. Entretanto, para responder ao teu pensamento, direi que as classes a que chamas sofredoras são mais numerosas, por ser a Terra lugar de expiação. Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre”                                                                          (O Livro dos Espíritos, q. 931).

Uma rápida pesquisa sobre a biografia das maiores celebridades da história, de qualquer área: ciência, arte, esporte, religião, política, ou outra, revelará que o(a) investigado(a) não pode ser considerado unanimidade, não estava “acima do bem e do mal”, tinha, ou tem, seus defeitos, e não raro apresentava, ou apresenta, alguma característica um tanto estranha aos padrões usuais.

As pessoas trabalham, lutam, buscam o aperfeiçoamento pelo estudo, pela reflexão e a conscientização, mas o estágio da humanidade terrena não induz perfeição, donde se inferem aturais as atitudes muitas vezes mal sucedidas, que denominamos erros. Somos humanos, sendo natural que não acertemos sempre e não podemos esperar perfeição dos outros. Mauro Spinola 1 diz que cada um dá o que tem.

Todos os dias e em todos os momentos fazemos escolhas; viver é decidir se já é hora de comprar um carro, ou trocar o que temos; se devemos investir em algum negócio, se deveríamos mudar de emprego, se caberia diminuir a carga de trabalho, fazer ou não uma viagem, e até se deveríamos visitar uma pessoa, ou comer algo diferente. Evidentemente, dessas escolhas decorrem consequências, às vezes boas, às vezes razoáveis e pode ocorrer de serem péssimas; muito desastrosas.

Também é certo que todas as nossas ações têm reflexos, não só influenciando os outros, como os atingindo diretamente. E como temos reagido ao sermos atingidos pelas consequências ruins das escolhas das outras pessoas? Certamente, muito mal. Lógico, inadmissível que alguém seja tão irresponsável a ponto de não se preocupar com as consequências dos seus atos; todos deveriam cursar “MBA2 para aprender a gerenciar riscos” e ninguém, absolutamente, ninguém, portanto nós também, tem o direito de causar mal a outrem.

Nós achamos que estamos sempre corretos, mas deveríamos meditar sobre a seguinte frase atribuída a René Descartes: “Não há nada no mundo que esteja melhor repartido do que a razão3: toda a gente está convencida de que a tem de sobra” e não esquecer um só dia desta outra proposição do mesmo pensador:

Humanamente não existe um ser feliz sem que o outro também seja .

Muito provavelmente esteja nessa última frase a melhor de todas as explicações para o texto epigrafado, extraído de O Livro dos Espíritos. Realmente, nenhuma pessoa, de nenhuma classe social, é perfeitamente feliz, estando o sofrimento por toda parte. A desigualdade social impõe aos que vivem à margem dos bens materiais toda sorte de privação, implicando naturalmente em dores morais como o preconceito e a discriminação. As classes privilegiadas também amargam suas dores; debatem-se no antro da inveja, do ciúme, do egoísmo, da doença física e mental, do crime, dos vícios etc.

Os espíritos encarnados na terra revelam uma variação muito grande de evolução, talvez em infinitos graus, disso resultando o convívio entre pessoas que se doam a causas altruístas, como Irmã Dulce, e que destroem a paz social, como Marcola, no mesmo país, sob as mesmas leis, formados em culturas muito similares. Mas são extremos, por que a maioria dos humanos não está na posição de Irmã Dulce, tampouco na de Marcola, navegando no mesmo barco daqueles que venceram determinados vícios, mas não se desapegam de outros; que lutam contra a própria natureza diariamente, buscando vencer a ignorância, a maldade, a inveja, a gula, a hostilidade, a avareza, a vaidade exagerada, a tentação de enganar, de se prevalecer, a arrogância etc. etc. etc.

Então, por que será que mesmo estando nós nessa condição de relativa igualdade, é tão notória a nossa intolerância com a dificuldade do outro, como se superar limitações fosse tarefa exclusiva dos outros?

A pergunta tem muito a ver com a resposta à questão de Kardec, que termina assim: Quando a houver transformado em morada do bem e de Espíritos bons, o homem deixará de ser infeliz aí e ela lhe será o paraíso terrestre . Talvez no mencionado tempo a sugestão de Descartes faça sentido; por enquanto, essas dificuldades ocorrem por que somos simplesmente humanos!

Professor Livre Docente da Escola Politécnica da USP, atual Presidente do CPDoc.

Master in Business Administrativo. Em português significa Mestre em Administração de Negócios.

3 Há quem afirme que a frase correta seria: “ Não há nada no mundo que esteja melhor repartido do que o bom senso: toda a gente está convencida de que o tem de sobra”.

Publicação original do  CPDoc - Centro de Pesquisa e Documentação Espírita.

05 janeiro 2026

Movimento Espírita em Transformação-Saulo de Meira Albach

 



MOVIMENTO ESPÍRITA EM TRANSFORMAÇÃO

Saulo de Meira Albach

Delegado da CEPA em Curitiba (PR);

Presidente do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação Espírita);

Membro do Cultura Espírita Livre-Pensar (Curitiba – PR).

                  OS COLETIVOS ESPÍRITAS

 

A polarização política que se acentuou no Brasil mais notadamente a partir de 2017 produziu efeitos também no movimento espírita. Inúmeros grupos foram criados com ênfase no aspecto social do espiritismo e com a preocupação de trazer ao debate os temas sociais contemporâneos sem a restrição que normalmente é imposta nos setores hegemônicos. 

 

Estes grupos atuam de forma preponderante na internet por meio de eventos virtuais. Alguns desenvolvem ações sociais e de cidadania. A maioria não se caracteriza como um centro espírita tradicional, embora um ou outro possua atividades nos moldes dos centros espíritas.

 

Cito alguns:



·         Ágora Espírita (Pernambuco)

·         Associação Brasileira Espírita de Direitos Humanos e Ciência da Paz – AbrePaz (Goiás)

·         Associação Espírita de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais - AEPHUS (Goiás)

·         Coletivo de Espíritas Antirracistas (COESAR) 

·         Coletivo de Estudos Espiritismo e Justiça Social - CEJUS (São Paulo)

·         Coletivo Espírita Maria Felipa (Bahia)

·         Coletivo Espírita Pela Transformação Social (São Paulo)

·         Coletivo Girassóis – Espíritas Pelo Bem Comum (Ceará)

·         Crítica Espírita (Espírito Santo)

·         Cultura Espírita Livre-Pensar (Paraná)

·         Espíritas à Esquerda 

·         Espíritas Progressistas 

·         Espiritismo com Kardec – ECK (Santa Catarina)

·         Grupo de Estudos Hermínio C. de Miranda (Ceará) 

·         Puebla Espírita – Espiritismo para o povo (Rio de Janeiro)

 

Por ser um fenômeno recente o surgimento dos coletivos ainda não pode ser avaliado especialmente quanto aos resultados das suas atuações. Trata-se, a meu ver, de uma guinada mais à esquerda por setores do movimento espírita, o que me parece bastante salutar do ponto de vista dialético. Se prestarmos atenção na história do movimento espírita brasileiro veremos que, em linhas gerais, ele caminhou mais próximo do pensamento conservador, pelo menos dos anos 30 do século XX em diante. 

Sobre o tema há artigos bastante interessantes de Luiz Signates (Espiritismo e Política: Os Tortuosos Caminhos do Conservadorismo Religioso e Suas Contradições no Brasil e Sinuê Neckel Miguel (Disposições políticas no espiritismo brasileiro: entre “neutralidade” conservadora e aspirações socialistas).

 

Enfim, a questão social retorna, ainda de forma periférica, entretanto, disseminada pelos quatro cantos do país. Com a vantagem da aproximação de pessoas de qualquer lugar onde haja possibilidade de conexão via internet. Esse (re)nascimento vem marcado por um engajamento político jamais vislumbrado na história do movimento espírita brasileiro.  

Nos eventos produzidos pelos coletivos espíritas os temas sociais predominam. Há grupos que promovem leitura e análise de obras que vão desde o filósofo Herculano Pires até o renomado educador Paulo Freire. Temas como o racismo, a questão LGBTQUIA+, a questão colonial (decolonialismo), o sistema neoliberal e a desigualdade social são estudados com frequência, buscando inserir o conteúdo da teoria espírita nas formulações. 

O “Coletivo Girassóis”, a “AEPHUS” (em parceria com a “AbrePaz”  e o “Espíritas à Esquerda”, por exemplo, realizaram fóruns sociais que me remeteram ao ENSASDE (Encontro Nacional Sobre o Aspecto Social da Doutrina Espírita) movimento que produziu três edições nas cidades de Santos, São Paulo e Salvador na segunda década dos anos 80. O II ENSASDE discutiu propostas da comunidade espírita para a Assembleia Nacional Constituinte. Entretanto, não houve repercussão na práxis espírita em decorrência deste evento.    

 

Recentemente os pesquisadores Luiz Signates e João Damásio publicaram na Revista Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura um artigo intitulado: CONFIGURAÇÕES DIGITAIS DA CONTRAHEGEMONIA ESPÍRITA: UMA CARTOGRAFIA DOS COLETIVOS PROGRESSISTAS E DE ESQUERDA NO ESPIRITISMO BRASILEIRO. 

 

Trata-se de um levantamento dos grupos existentes no Brasil “compreendidos ou atravessados” pelo espiritismo progressista. Um ótimo estudo que nos permite enxergar melhor o recente fenômeno de transformação ou pelo menos, de agitação do movimento espírita brasileiro que representam estes novos grupos.

 

Para onde irão os coletivos ou qual será a sua influência no movimento espírita brasileiro são questões que exigem tempo de maturação para serem respondidas. A experiência é recentíssima, está em fase inaugural. 

 

Não sei, também, se o movimento tradicional se importará com a turma progressista. Ouvi dizer que um guru do movimento religioso conservador teria chamado os progressistas de “satânicos”. Se tal notícia é verdadeira espero que o nível da crítica melhore, pois em pleno século XXI ela soa muito pobre e desprovida de sentido. A experiência nos mostra que o movimento tradicional quando sente alguma ameaça ao seu poder reage (i) com absoluta indiferença, uma espécie de negacionismo, (ii) de forma a cooptar os supostos adversários e (iii) de forma a depreciar as pessoas que atuam nos grupos divergentes. Infelizmente não há debate franco e aberto.

 

Acho, enfim, que se abre um portal novo capaz de atrair principalmente a moçada que procura uma filosofia espiritualista menos conformista e mais ajustada à contemporaneidade. 

 

Não espero sinceramente que haja uma adesão à mirada progressista pelo movimento dito hegemônico. Mas antevejo uma nova encruzilhada logo adiante: a abertura para um caminho mais sintonizado com o pensamento contemporâneo e com a transformação social ou uma guinada ainda mais religiosa e conservadora que nos levará definitivamente ao espiritismo de autoajuda que já marca presença com ares de novo modismo. 

 

Enfim, o caminho se faz ao caminhar como disse o poeta espanhol Antônio Machado. E nesta toada retornamos a Leon Dénis: “O Espiritismo será o que o fizerem os homens.” O surgimento de grupos contra hegemônicos com um potencial viés transformador das estruturas sociais pode ser um caminho para nos levar à renovação social sonhada pelo fundador da teoria espírita. O tempo dirá...

    

Curitiba, julho de 2021.

 

 

20 dezembro 2025

Da Palavra à Telepatia: a Evolução da Comunicação e o Futuro da Consciência Coletiva - Wilson Garcia

Da Palavra à Telepatia: a Evolução da Comunicação e o  Futuro da Consciência Coletiva 

Wilson Garcia – professor universitário, jornalista, escritor, mestre em Comunicação e Mercado, presidente do Centro de Pesquisas e Documentação Espírita (CPDoc 2020/2024), Ouvidor da Fundação Porta Aberta (FPA), membro do Conselho da Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires.


Com a inteligência artificial (IA) generativa, a linguagem parece ter adquirido autonomia algorítmica. Essa transformação inquieta e suscita a questão: onde se situa a inspiração — especialmente em sua dimensão espiritual — quando a escrita já não emerge apenas da pena humana, mas da interação com uma máquina capaz de produzir textos?

No âmbito do Espiritismo, essa indagação assume contornos profundos e uais. A doutrina afirma que “os Espíritos influem em nossos pensamentos e em nossos atos, mais do que imaginamos” (KARDEC, 1857, q. 459), estabelecendo que toda inteligência encarnada é participante de um campo mental mais amplo, no qual entidades espirituais, afins ou discordantes, podem atuar pela via da inspiração. Surge, assim, uma questão decisiva: a influência dos Espíritos permanece operante quando o escritor utiliza a inteligência artificial como mediadora de sua produção intelectual? Ou estaria o campo da criação humana agora invadido por um artefato sem alma, que substitui a mediação espiritual por uma combinação estatística de dados?

A máquina, por mais sofisticada que seja, não possui consciência reflexiva, nem intenção moral. Ela não gera valores, apenas articula possibilidades. A fonte da criação continua sendo o Espírito — encarnado ou desencarnado. A inteligência artificial configura-se, portanto, como um espelho ampliado da mente humana, oferecendo material de linguagem que poderá ser elevado pelo sopro espiritual ou degradado pela alienação moral, conforme o uso que lhe imprimir a consciência.

Dessa forma, não se trata de perguntar se os Espíritos inspiram a IA — mas sim se continuam inspirando o ser humano no ato de interagir com a IA. Esta investigação exige um olhar filosófico profundo, ancorado nas bases da doutrina espírita e dialogando com a filosofia da mente, a ciência cognitiva e os estudos contemporâneos sobre IA e consciência. A IA inaugura um novo capítulo da inspiração, no qual o intercâmbio espiritual não é suprimido pela tecnologia, mas colocado à prova, exigindo do indivíduo maior discernimento, liberdade interior e responsabilidade ética diante da palavra.

Fundamentos Filosóficos da Inspiração Espiritual

A inspiração espiritual, conforme delineada por Allan Kardec e aprofundada por Léon Denis, não é um fato extraordinário ou reservado aos gênios. Trata-se de uma lei natural de interação entre inteligências, segundo a qual todo pensamento humano é acompanhado, estimulado ou influenciado por entidades espirituais conforme a sintonia vibratória do indivíduo (KARDEC, 1857, q. 459). A inspiração é, portanto, uma manifestação do princípio de interconexão das consciências, um fluxo mental que atravessa os planos da vida.

A inspiração como fenômeno de coautoria universal

Na filosofia espírita, o Espírito encarnado é ao mesmo tempo autor e receptor. Allan Kardec afirma que “as ideias que surgem espontaneamente em nosso pensamento são muitas vezes sugeridas pelos Espíritos” (KARDEC, 1864, cap. XIX). Essa influência não é coercitiva nem mecânica; ela se dá de maneira sutil, como um sopro, uma direção íntima que ilumina a inteligência humana sem anulá-la. Léon Denis define a inspiração como “a comunhão das almas livres com as almas prisioneiras da carne” (DENIS, 1909, p. 74), destacando que essa comunhão se manifesta na forma de intuições, imagens, impulsos morais e sínteses intelectuais repentinas.

A inspiração como uma forma de mediação da liberdade

O fato de os Espíritos inspirarem não diminui a liberdade humana; ao contrário, a exalta. No pensamento espírita, a mente encarnada funciona como um filtro seletor dos pensamentos que recebe. Herculano Pires (1976, p. 53) argumenta que a inspiração é um “ato de cooperação consciente”, onde o Espírito encarnado participa ativamente do conteúdo que assimila. A inspiração, portanto, não se confunde com possessão nem com automatismo: é uma colaboração, não uma substituição.

A inspiração e a noção filosófica de intencionalidade

A fenomenologia da consciência, desde Edmund Husserl até Maurice Merleau-Ponty, afirma que o pensamento não é neutro: toda consciência é consciência de algo. Essa intencionalidade é a marca do sujeito consciente. Na linguagem do Espiritismo, poderíamos dizer que a inspiração espiritual atua justamente sobre a intencionalidade, ou seja, sobre a direção profunda da alma. Assim, os Espíritos não apenas sugerem ideias, mas também elevam o impulso íntimo que define o rumo da criação. A inspiração não se reduz ao conteúdo verbal — ela se instala no centro da vontade.

Inspiração x automatismo

A inspiração distingue-se radicalmente do automatismo mecânico. Allan Kardec adverte que a verdadeira inspiração eleva moralmente e exige participação consciente do médium ou escritor: “Quanto mais perfeita for a alma, tanto mais segura será a comunicação do pensamento” (KARDEC, 1868, cap. XIV). A inspiração é essencialmente um fenômeno da alma consciente.

A Inteligência Artificial como Novo Mediador da Expressão

A inteligência artificial generativa representa a mais sofisticada ferramenta já criada para auxiliar o pensamento humano. Alimentada por vastos bancos de dados e modelada por redes neurais, a IA é capaz de produzir textos, imagens e respostas a partir de padrões estatísticos e contextuais. Isso levou alguns a levantar a hipótese de que a máquina começaria a “pensar” ou mesmo “criar”. Contudo, do ponto de vista filosófico-espírita, essa interpretação é equivocada, pois confunde processamento de informação com ato consciente de pensar.

A IA como simulacro de pensamento, não como sujeito pensante

Embora a IA possa gerar textos inspiradores, ela o faz sem consciência, sem intencionalidade e sem livre-arbítrio. John Searle, filósofo da mente, já demonstrava esse princípio em seu célebre argumento do “quarto chinês”, sustentando que manipular símbolos não equivale a compreender (SEARLE, 1980). A IA “fala”, mas não sabe que fala; produz discurso, mas não conhece o sentido do discurso. Sua elaboração é sintática, não semântica.

A IA age como espelho da linguagem humana, não como fonte ontológica da linguagem.

A IA como extensão cognitiva da consciência

Do ponto de vista espírita, os instrumentos materiais são progressivamente aperfeiçoados para refletir os avanços da inteligência espiritual encarnada. Assim como o alfabeto ampliou a mente, e a imprensa democratizou o pensamento, a IA amplia a capacidade combinatória e associativa da mente humana. Ela se configura como extensão da memória, da linguagem e da imaginação do Espírito encarnado. Como sintetiza Gabriel Delanne, “a inteligência não vem da matéria; a matéria é que recebe o impulso da inteligência” (DELANNE, 1897, p. 210).

Portanto, a IA não é criadora, mas codificadora de conteúdos preexistentes. Ela oferece possibilidades. A escolha final — e, sobretudo, o sentido moral do que é produzido — permanece sob responsabilidade do Espírito.

A IA não rompe a ponte espiritual: ela redefine o campo de atuação

Se a inspiração espiritual atua na intimidade da mente do escritor, nada impede que essa inspiração utilize, por via indireta, as respostas da IA como matéria-prima. O Espírito inspirador não interfere na máquina; interfere na consciência do autor que, ao interagir com a IA, sente a intuição, o impulso criador ou a iluminação interior para selecionar, rejeitar, reorganizar e ampliar aquilo que a máquina oferece.

Assim, a IA torna-se um novo plano de expressão da inspiração, e não seu substituto. A consciência humana continua sendo o ponto de contato entre os dois mundos: o espiritual e o tecnológico.

A liberdade criadora do Espírito como critério final

A IA pode fornecer mil caminhos; apenas o Espírito escolhe a direção. A escolha é o sinal da presença espiritual. Allan Kardec afirma que “a liberdade é atributo essencial do Espírito” (KARDEC, 1860, q. 843). A existência da IA não diminui essa liberdade; ao contrário, a amplia, exigindo discernimento. A inspiração espiritual permanece ativa enquanto houver consciência capaz de operar atos de vontade.

O Espírito como Fonte da Criação, Não a Máquina

A distinção entre origem e meio é central para compreender a relação entre inspiração espiritual e inteligência artificial. A IA pode ampliar os meios de expressão do pensamento, mas não pode originá-lo no sentido ontológico. A fonte do pensamento é o Espírito — individual, consciente, dotado de intencionalidade. Essa é uma tese fundamental tanto no Espiritismo quanto em diversas correntes da filosofia da mente.

A inspiração como ato da consciência espiritual

Allan Kardec afirma que “o pensamento é atributo essencial do Espírito, parte integrante do ser espiritual” (KARDEC, 1860, q. 23). Isso significa que o pensamento não emerge da matéria, mas da individualidade inteligente que a utiliza. Léon Denis (1909, p. 52) reforça que “a alma é o foco da vida, criadora e diretora; a matéria é o seu instrumento”. Assim, nenhum instrumento, por mais poderoso que seja, substitui a alma criadora. A IA, sendo mecanismo derivado da matéria, apenas pode refletir e combinar; nunca gerar um ato original de significação.

A máquina não possui intencionalidade nem finalidade

Na visão fenomenológica da consciência, sobretudo em Edmund Husserl, todo ato do pensamento é intencional, isto é, dirigido a um objeto, movido por um sentido ou finalidade. Esse impulso finalístico, essa orientação do pensamento em direção a um propósito, é o que revela a presença de um sujeito consciente. A IA, por mais avançada, não possui finalidade própria — ela apenas responde a estímulos externos. Ela não deseja, não busca, não se projeta. Logo, como afirma Hubert Dreyfus (1992), a IA pode simular o raciocínio, mas não viver o pensamento.

A inspiração espiritual continuada

Quando um autor utiliza a IA, ele continua sendo o centro ativo do processo criativo. A mente do escritor permanece como receptáculo da inspiração, selecionando o que a IA oferece, rejeitando o que não ressoa com seu campo moral, reorganizando textos conforme a intuição recebida. Os Espíritos inspiradores atuam nessa zona íntima da escolha e da direção:

“Onde há um pensamento elevado, há sempre uma influência espiritual superior a nos estimular” (KARDEC, 1868, cap. XIV).

Assim, a inspiração espiritual não é deslocada para a máquina; ela permanece na alma humana, que passa a interagir com um instrumento mais complexo.

Síntese com a filosofia da mente contemporânea

Autores como David Chalmers (1995) mostram que a consciência não pode ser reduzida a processos puramente computacionais, pois ela envolve uma dimensão qualitativa subjetiva — o chamado hard problem da consciência. Da mesma maneira, Raymond Kurzweil (2005), embora otimista com a fusão homem-máquina, admite que a consciência é um fenômeno emergente de níveis superiores de organização, não redutível a algoritmos.

O Espiritismo antecipa essa visão ao afirmar que a consciência é atributo do Espírito, não do corpo nem do cérebro. Assim, mesmo diante da IA, a fonte criativa permanece onde sempre esteve: na individualidade espiritual.

Síntese Filosófica: Consciência, Livre-Arbítrio e Inspiração no Século da Inteligência Artificial

A emergência da IA generativa constitui um marco civilizatório que exige reconsiderarmos o lugar da consciência no processo criador. Contudo, longe de ameaçar o princípio espiritual, a IA evidencia ainda mais sua centralidade. A máquina mostra seus limites não por ineficiência, mas por excesso de precisão mecânica: ela executa, mas não decide; processa, mas não contempla; combina, mas não cria sentido. A própria existência da IA coloca em relevo o abismo ontológico que separa o pensamento consciente do cálculo algorítmico.

Consciência como núcleo irredutível da experiência

A filosofia contemporânea da mente reconhece que a consciência é um fenômeno qualitativo, subjetivo e experiencial — aquilo que Thomas Nagel denominou “o que é ser” um determinado ser (NAGEL, 1974). Essa dimensão subjetiva, para o Espiritismo, é a própria expressão da individualidade espiritual em ação. Assim, a inspiração espiritual ocorre no nível mais íntimo da consciência, ativando a vontade e iluminando a inteligência.

A IA, desprovida de subjetividade, não participa desse processo. Ela opera no plano da linguagem, mas não no plano da experiência. Desse modo, a IA é um espelho sofisticado da consciência, não seu substituto.

Livre-arbítrio como critério da presença espiritual

O livre-arbítrio, conforme Kardec (1860, q. 843), é o atributo que distingue o Espírito consciente da máquina. O indivíduo, ao interagir com a IA, é confrontado com múltiplas possibilidades de expressão. Essa multiplicidade exige discernimento moral — justamente onde a inspiração espiritual atua. Os Espíritos superiores não escrevem pela máquina; inspiram o homem para que ele utilize a máquina com elevação e propósito.

Assim, quanto mais complexo o instrumento, maior a responsabilidade moral do Espírito que o utiliza. A IA amplia a arena da decisão humana, o que torna ainda mais intensa a atuação da inspiração espiritual como elemento orientador.

A coautoria invisível: quando a inspiração orienta o uso da IA

No ato criador assistido por IA, o Espírito não “fala através da máquina”, mas através da consciência humana que opera a máquina. A intuição, esse sinal da presença espiritual, manifesta-se no impulso que leva o autor a formular determinada pergunta, a rejeitar uma sugestão inadequada, a combinar conceitos com originalidade, a elevar o texto a uma dimensão moral e filosófica superior.

O que a IA oferece é matéria linguística. O que o Espírito autor cria é sentido.

Um novo cenário para a inspiração: a era da inteligência expandida

A IA inaugura uma nova fase histórica da inspiração espiritual. Não mais limitada ao livro impresso ou à escrita manual, a inspiração agora atravessa um campo digital interativo, onde a palavra pode ser refinada em tempo real, expandida com enorme rapidez e projetada globalmente. Isso não fragmenta a inspiração; ao contrário, confere-lhe novos canais de expressão, exigindo do Espírito encarnado:

  • maior discernimento,
  • maior consciência ética,
  • maior integração entre pensamento, sentimento e intenção.

Assim, a IA é o novo cenário em que o Espírito continua seu processo milenar de manifestação, aprendizado e coautoria com o invisível.

Conclusão – A Continuidade da Inspiração no Século da Inteligência Artificial

A presença da inteligência artificial no campo da criação literária e filosófica não representa uma ruptura com o princípio espiritual da inspiração; ao contrário, manifesta de forma ainda mais evidente a distinção entre o instrumento material e a fonte consciente do pensamento. A IA, por mais avançada que se torne, permanece no domínio do cálculo e da combinação de dados; ela não pensa, não intui, não deseja. Toda criação autêntica nasce de um impulso interior, de uma chama de consciência que busca expressar-se no mundo. Essa chama é o Espírito.

O Espiritismo sustenta que o pensamento é atributo do ser espiritual, e que a inspiração é uma modalidade nobre do intercâmbio entre inteligências encarnadas e desencarnadas, para fins de progresso moral e intelectual da humanidade. Esse princípio não se altera pela introdução de novas tecnologias. A inteligência artificial, assim como a pena, a prensa ou o computador, é apenas um espelho ampliado da mente. Mas a luz que ilumina esse espelho continua vindo da consciência espiritual.

Em termos filosóficos, a IA nos obriga a reconhecer que o ato criador não se reduz à expressão linguística: ele nasce da intencionalidade, da liberdade, da consciência de si. Em termos espirituais, ela reforça a verdade enunciada por Kardec: os Espíritos atuam incessantemente sobre os pensamentos humanos, e a alma, ao interagir com qualquer instrumento, atrai conforme a sua sintonia moral. A IA amplifica o poder expressivo, mas não cria o propósito. O Espírito continua sendo o autor do destino humano, e não a máquina.

Se a IA multiplica a palavra, cabe à consciência espiritual elevar o verbo. Se o algoritmo oferece caminhos, cabe ao Espírito decidir qual leva à sabedoria. Assim, a era da inteligência artificial não marca o fim da inspiração espiritual, mas sua nova aurora. O Espírito, participando da ordem eterna do progresso, encontra na IA mais um degrau de sua ascensão e um vasto campo de cooperação com as inteligências que o assistem do plano invisível, confirmando que a imortalidade não é apenas promessa, mas presença viva no ato de pensar.

Quando a máquina fala, é a matéria que responde. Quando a inspiração ilumina, é o Espírito que vive.

Fonte: Artigos 20/10/25 blog expedienteonline.com.br Wilson Garcia 

Referências

CHALMERS, David. Facing Up to the Problem of Consciousness. Journal of Consciousness Studies, v. 2, n. 3, p. 200–219, 1995.

DELANNE, Gabriel. A Alma é Imortal. Trad. de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1897.

DENIS, Léon. No Invisível. 6. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1909.

DREYFUS, Hubert L. What Computers Still Can’t Do: A Critique of Artificial Reason. Cambridge: MIT Press, 1992.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 83. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1857.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Trad. de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1864.

KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 1868.

KURZWEIL, Raymond. The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology. New York: Viking, 2005.

NAGEL, Thomas. What Is It Like to Be a Bat? The Philosophical Review, v. 83, n. 4, p. 435–450, 1974.

PIRES, José Herculano. Mediunidade: Vida e Comunicação. São Paulo: Paideia, 1976.

SEARLE, John. Minds, Brains and Programs. Behavioral and Brain Sciences, v. 3, n. 3, p. 417–457, 1980.